Cassie fala sobre o preconceito dos Caçadores de Sombras!

As Peças Infernais, Livros, The Last Hours, The Shadowhunter's Chronicles

Respondendo a 3 asks com basicamente a mesma pergunta, Cassandra Clare respondeu em seu tumblr sobre os diversos preconceitos que os caçadores de sombras tem, além do impacto dos preconceito da sociedade mundana entre eles. É um texto bastante longo, mas bastante interessante! Confiram já traduzido e adaptado por nossa equipe:

Perguntas & Respostas: Preconceito e Caçadores de Sombras

nevergonnagiveyouuporletyoudown disse: Oi, Dona Clare! Eu estava curiosa para saber por que as crianças da Academia eram más com Alastair. Os Caçadores de Sombras não devem ser menos racistas? Eles viajam e veem pessoas de diferentes origens, e se Idris é o centro dos Caçadores de Sombras, então não deveria haver pessoas de cor lá também? Eles têm que trabalhar juntos, então por que eles não aceitariam um ao outro?

katy-krazy-xoxo disse: Oi, Cassie! Eu quero perguntar sobre Alastair e Jem. Alastair foi maltratado na Academia dos Caçadores de Sombras devido à sua herança persa. Então, como foi que Jem, com sua herança chinesa, não estava sendo discriminado em TID?

galbinuscarnation disse: Eu estava pensando, por que faziam piadas com Alastair por ser descendente de persas? Eu estava com a impressão de que ele era um Caçador das Sombras primeiro, embora tenhamos visto muitos Caçadores de Sombras adotarem seus costumes locais de onde vieram. Pode ser algo por causa da época, ou talvez relacionado a seus pais, mas eu tenho pensado nisso por um bom tempo. Obrigada!

Eu vejo que essa pergunta está nas cabeças das pessoas! Sim, a experiência de Jem foi diferente da de Alastair – porque não há uma experiência única para pessoas de cor em qualquer situação, e estamos falando de todo um espectro de comportamento. Os Caçadores de Sombras são geralmente menos racistas do que os mundanos, porque o preconceito deles contra mundanos e seres do Submundo superam seu preconceito contra outros Caçadores de Sombras. Eles já estão ligados em um subgrupo – Caçadores de Sombras – pelo qual eles se identificam. Isso não significa que nunca haverá nenhum preconceito dentro do subgrupo: infelizmente, comumente não é assim que essas coisas funcionam.

Como vimos, Idris está de fato cheia de pessoas de todo o mundo, mas New York também, e isso não eliminou o racismo existente lá. E apesar de ser um Caçador de Sombras ser a coisa mais importante para eles – a primeira coisa essencial – não é a única coisa. Já que estamos olhando para 1903 – a sociedade dos Caçadores de Sombras teria se envolvido um pouco menos com o racismo sistêmico e estrutural da época, porque o racismo não estava codificado em suas leis como as leis dos EUA e da Inglaterra: o que vemos é mais um padrão de microagressões e suposições e crenças ofensivas.

Para olhar para outra questão: os Caçadores de Sombras em 1903 eram geralmente menos sexistas que os mundanos – as mulheres tinham um voto no Conselho em 1878, quando elas não tinham um voto no governo mundano. Mas isso não significa que eles não sejam sexistas.

”— Não tive a intenção de magoar Charlotte.
— Charlotte é muito sensível em relação à conduta do Instituto. Como mulher, precisa lutar para ser ouvida, e mesmo assim suas decisões são questionadas. Você ouviu Benedict Lightwood na reunião do Enclave. Ela tem a sensação de que não é livre para errar.” – Anjo Mecânico

A sociedade dos Caçadores de Sombras está entrelaçada a nossa, nunca totalmente independente da nossa – embora invisível para nós, eles andam entre nós e são necessariamente influenciados pelo nosso mundo. Os portais são uma nova invenção em TID, e ainda recentes em TLH, e antes disso era mais fácil para os Caçadores de Sombras – como era para todos no passado – pensar no mundo apenas como as pessoas imediatamente ao seu redor, que frequentemente pareciam e agiam como eles, porque viajar e ver lugares e pessoas diferentes era imensamente mais difícil (Em parte, toda a ideia do “ano de viagem” era para melhorar isso, e podemos ver que, em alguns casos, isso ajudou, mas não foi suficiente por si só!).

Além disso, a Academia dos Caçadores de Sombras, como vimos em 1899, foi povoada predominantemente por garotos brancos – que também se presumia serem heteros – vindos diretamente no que era considerado como a Tradição dos Caçadores de Sombras, em letras maiúsculas. A Era Vitoriana foi um tempo de viagens e um mundo expandido, mas também uma época em que o Império Britânico – que se estendia por vastas partes do globo – trouxe os homens brancos como padrão, os naturais para o poder, e a Clave é influenciada por isso, como eles são sempre influenciados pela extravasão da cultura mundana na deles. Os meninos da Academia fazem conexões que os transformam em companheiros de influência política mais tarde na vida, da mesma forma que as conexões de garotos de políticos existem agora. Josiah Wayland, cônsul durante TID, era um cara branco. E Victor Whitelaw, Inquisidor durante TID, era um cara branco – e isso não foi um acidente. O Inquisidor Bridgestock em TLH é um cara branco, e muito poderoso porque os Caçadores de Sombras conservadores estão se afastando de sua consulesa mulher, e isso não é uma coincidência também. Existem pessoas de cor, existem mulheres de cor, que seriam ótimos cônsules e inquisidores na época de 1870, mas eles não tiveram uma chance. As mulheres raramente eram enviadas para a Academia; nós sabemos disso em “Nada além de Sombras”. Charlotte foi a primeira consulesa do sexo feminino, e ela não teve uma época fácil: as mulheres da próxima geração ainda eram menos propensas a serem guerreiras ou políticas. A maioria dos cônsules, embora não todos, é branca. Além disso, Caçadores de Sombras de cor não eram enviados para a Academia com tanta frequência, porque os Caçadores de Sombras são conscientes de como o mundo funciona e os pais dessas crianças não queriam fazer isso com seus filhos. James com sua herança de ser do submundo foi porque queria ir, porque queria encontrar amigos de sua idade (o que ele fez) e ver como isso se daria.

O racismo é variado em diferentes épocas, lugares e situações, e todas as circunstâncias e experiências ou racismo não são do mesmo jeito. Eu acho que é bastante claro que Alastair frequentou a Academia em um momento em que havia um monte de garotos podres em sua classe. Isso é uma merda. Acontece, na vida real e na ficção: na série de livros de Nárnia, um irmão (Edmund) tem uma época horrível de mudança de personagem na escola, e seu irmão mais velho, Peter, está bem. Alastair foi enviado por seu pai Elias, que é branco, e assim sendo branco, foi capaz de dizer a si mesmo que o racismo não existe entre Caçadores de Sombras, que não há microagressões (quero dizer, nenhum deles saberia essa palavra, mas microagressões ainda existem em TLH: vemos a sra. Bridgestock ligar para Alastair “aquele menino persa” e a sra. Bridgestock, que ama sua filha de cor, pensa em si mesma como apenas descrevendo Alastair, mas Alastair e Cordelia sabem o que está acontecendo e reagem de acordo. Elias teve o privilégio de não pensar realmente nisso. Alastair pagou o preço.

Jem não foi para a Academia dos Caçadores de Sombras – nem ele nem Will jamais foram, e nenhum deles sabia como era a Academia: Jem morava em Londres com a aceitação de Charlotte e Henry. E Jem era o filho de dois Caçadores de Sombras respeitados que morreram heroicamente, e assim ele conseguiu alguma folga. Alastair, o filho de uma suspeita de assassinato e um Caçador de Sombras desonrado e desprezado (vamos ver o que há com Elias em TLH!), não. Essas coisas nunca são simples! Mas Jem teve que lidar com o racismo. Benedict Lightwood e Tatiana e – lamento dizer – a atitude de Gideon e Gabriel com Jem é definitivamente baseada em racismo. Will se comportou mal com os Lightwoods (compreensivelmente por motivos da maldição), mas Jem não fez nada para eles, e Gabriel definitivamente prefere Jem a Will, mas Gabriel não é exatamente um pêssego com Jem também. Em “Anjo Mecânico”, Gabriel menciona a “deficiência” de Jem – que Will, compreensivelmente, leva ao extremo! – e iguala Jem a ser torturado por yin fen com um vício em ópio – o fato de Jem ser meio chinês e a mente de Gabriel pular diretamente para “vicio em ópio” não é estranha, e Will entende e se sente insultado em nome de Jem. Embora Gabriel, como a Sra. Bridgestock, não pretenda ser racista, as microagressões geralmente não são intencionais.

(Da Wikipedia: “Havia muito preconceito contra a comunidade chinesa do leste, com grande parte dela iniciada pelos escritores Thomas Burke e Sax Rohmer. Os dois escreveram sobre a comunidade chinesa. Burke e Rohmer exageraram o verdadeiro tamanho da comunidade chinesa e fez muita menção de jogos de azar, bocas de ópio e ‘coisas profanas’ nas sombras.”)

Eu não digo isso para por Gabriel pra baixo. Benedict criou seus filhos horrivelmente, com crenças más e preconceituosas! Eles precisavam de espaço para aprender e se afastar dele – e eles o fizeram! Gideon e Gabriel mudaram para melhor. Eu não quero retratar uma sociedade perfeita, ou personagens perfeitos, mas complicados, com atitudes complicadas que podem mudar. Jem não teve a mesma experiência que Alastair; ele teve sua própria experiência e ambas são válidas. Então tem Magnus, e Lily, e Jia, e Aline, e Raphael, e Diego, e Cristina, e Jaime, todos em suas maneiras diferentes. Caçadores de Sombras são livros de fantasia urbana, não livros de alta fantasia: eles acontecem em parte em nosso mundo real, e apesar do preconceito na cultura dos Caçadores de Sombras ser complicado por preconceitos que não temos (preconceito com o submundo, preconceito contra pessoas com sangue demoníaco!) eles também experimentam os preconceitos que temos.

“Eles têm que trabalhar juntos, então porque não aceitariam um ao outro” é realmente verdade, mas também se aplica ao mundo real. Todos nós temos que trabalhar juntos, então por que não nos aceitamos? Eu gostaria que aceitássemos. O mundo seria melhor e funcionaria melhor se o fizéssemos. Mas nós não aceitamos. Espero que um dia nós o façamos.

Nada além de sombras” é um dos contos da “Academia dos Caçadores de Sombras”, e para saber tudo sobre esses contos, basta clicar AQUI.

Para saber tudo sobre “As Últimas Horas”, basta clicar AQUI.

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