12.04


“Dolores Claiborne”
Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
Suma – 2024 – 240 páginas

Publicado nos anos 1990 como Eclipse total e há décadas esgotado no país, um dos livros mais aclamados de Stephen King retorna ao mercado brasileiro em edição especial da Biblioteca Stephen King, com nova tradução e conteúdo extra. Dolores Claiborne é um suspense poderoso e inesquecível sobre uma mulher que esconde um segredo perturbador.

Faz décadas que Dolores Claiborne trabalha para Vera Donovan, milionária dona de uma mansão na ilha Little Tall, no Maine. Determinada, com três filhos para criar, Dolores enfrentou desde o início a personalidade tempestuosa da patroa e, diferente de incontáveis antecessoras, conquistou a confiança da mulher e a estabilidade no emprego.

Quando Vera morre em um acidente, porém, todas as suspeitas caem sobre a funcionária. Questionada pelas autoridades, Dolores faz uma confissão e revela, durante seu testemunho, algo inesperado pela polícia: uma história sobre um relacionamento abusivo e a misteriosa morte de seu marido, que ocorreu trinta anos antes, em Little Tall.

Publicado no Brasil com o título Eclipse total e adaptado para o cinema em 1995, com atuação de Kathy Bates, Dolores Claiborne é um suspense psicológico de tirar o fôlego. O relato comovente e inquietante da protagonista faz deste um dos romances mais originais de Stephen King.

Tomei uma porrada tão grande lendo este livro que está difícil organizar os pensamentos para saber por onde começar a falar de “Dolores Claiborne“, o novo livro da Biblioteca Stephen King, agora composta por 8 títulos até aqui, todas versões capa dura emborrachada e de um primor que somente a Editora Suma é capaz de oferecer. Esgotado há anos no Brasil e anteriormente com o título de “Eclipse Total“, sempre ouvia falar desse livro, mas vocês conhecem a vida de bookstan: a pilha de livros a serem lidos sempre cresce. E foi assim, enrolando, que estava deixando passar o livro que potencialmente se tornou o meu favorito de um dos meus autores favoritos na vida.

Por muitos anos, “O Cemitério” foi o meu livro favorito de Stephen King – inclusive já o resenhei e vocês podem ler clicando AQUI – mas este livros, que leva o nome da personagem central, me ganhou de uma forma que somente poderia entender nos dias de hoje, mais velha. Não me entendam errado, não estou falando que jovens mulheres não podem ler este livro, e sim estou falando justamente o contrario: as mulheres precisam ler este livro. É um hino sobre mulheres, sua força e até mesmo como a sororidade se encontra onde menos esperamos, tudo empacotado em um livro diferente, rápido e envolto em um mistério sem nada tão maligno assim, mas com uma pitadinha de sobrenatural porque bem, estamos falando de King. Aliás, falei que não havia nada tão maligno, mas errei porque temos o principal vilão de todos. Sim,o mais cruel e pior vilão de todos. Eles: os humanos.

Maravilha, já nos divertimos; melhor irmos direto ao ponto. Vou contar a vocês três um monte de coisas, e vou começar agora; um monte dessas coisas provavelmente poderia ser usada contra mim em um tribunal se, a esta altura, alguém quisesse. A piada é que o pessoal da ilha já sabe da maior parte, e eu já estou cagando faz tempo, como o velho Neely Robichaud dizia quando enchia a cara. O que acontecia o tempo todo, como qualquer um que o conhecia poderia atestar.

Todo em primeira pessoa e em formato de monólogo (expecto o livro de recortes no final, com noticias do paradeiro da protagonista, com trechos de reportagens locais), temos as falas de Dolores sendo interrogada da acusação de homicídio da sua empregadora: Vera Donovan. Dolores, já com 65 anos, prestes a fazer 66, avisa que terá de contar mais do que somente os eventos que levaram a morte de Vera: terá de contar sobre sua vida e casamento com Joe St. George, o nascimento dos seus 3 filhos deste casamento, Selena, Joe Jr. e Peter, como se tornou funcionária de Vera, a percepção que tinha dela e da vida abastada da mulher e muito mais. Sim, em alguns momentos, Dolores responde as perguntas feitas pelos Detetives Andy Bissette e Frank Proulx e da estenógrafa Nancy Bannister como recurso de repetir a pergunta como uma dúvida e somente continuar com ela as falas, mas acredito quando afirmo que este livro não tem absolutamente nada de cansativo.

Como pode-se imaginar, vemos tudo na visão de Dolores, que é uma personagem forte e decidida, forjada por uma vida que lhe obrigou a abrir os olhos e tomar as mais ferozes decisões, tudo em nome de seus filhos e de si própria. A trama se passa em 1992, ano de publicação, e claro que a narrativa acontece nesta época temporal, já como ela está sendo interrogada, mas, como Dolores conta sua vida, há diversas outras épocas temporais também relatadas. Me peguei pensando sobre as gerações passadas de mulheres e o que elas enfrentavam em suas famílias, em como o papel de ser mãe mudou por causa de mulheres como Dolores e como o mundo foi tendo sua percepção modificada sobre o que esperar as mulheres. Eu sei, estou falando no geral, mas não tenho como não mencionar as impressões tão profundas deste trama.

Deitada no escuro e finalmente calma de novo, a resposta pareceu bem simples: eu tinha que pegar as crianças e me mudar para o continente, e tinha que ser logo. Estava bem calma na hora, mas sabia que não ficaria assim; aquele olho interno não me deixaria. Na próxima vez que eu ficasse com raiva, ele veria melhor ainda, e Joe ficaria ainda mais feio, e talvez não houvesse pensamento nenhum na face da Terra que pudesse me impedir de agir. Era um jeito novo de sentir raiva, pelo menos pra mim, e eu fui sábia de perceber o mal que podia fazer se me permitisse. Precisava sair de Little Tall com os meus filhos antes que a loucura levasse a melhor. E quando tomei a primeira atitude pra isso, descobri o que significava aquela expressão estranha e meio sabichona nos olhos dele. E como descobri!

E sobre Vera Donovan, você se questiona. Quem é esta mulher que Dolores desprezava, odiava e depois se afeiçoou e terminou aprendendo a amar de um jeito estranhamente completo? Vera era uma socialite do continente que ia a ilha de Little Tall passar os verões com o marido, Michael, com quem tinha 2 filhos, Donald e Helga. Com um gênio terrível, Vera parece ter o dom de afastar toda e qualquer pessoa próxima dela, até mesmo os filhos, que passam a não irem fazer companhia a mãe depois da morte do pai em um acidente.

Começando a trabalhar na casa de veraneio de Vera logo depois do nascimento de sua primeira filha, Delena, e ainda grávida de seu segundo filho, Joe Jr., Dolores se torna a funcionária fixa da mulher, cuidando da grande casa. Ao longo dos anos, muito vai acontecendo, e o eclipse total do sol de 1963 no Estado do Maine é um desses acontecimentos. Claro que sim, claro que a ilha de Little Tall fica no Maine, como sabemos que King sempre faz, ambientando várias de suas tramas do Kingverso no Estado (inclusive, há menções a Derry). E é justamente o eclipse que une a vida de Dolores a de Jessie, a personagem principal de “Jogo Perigoso“, ainda criança e sem menção a seu nome, a única ponta sobrenatural do livro, que não é amplamente explorada nesta trama. Não li (ainda) o outro livro e não sei dizer se nele é mais aprofundado a única parte que foge do natural no livro.

Houve um artigo sobre o eclipse na primeira página do American quase todos os dias daquele mês de julho, mas acho que, mesmo lendo tanto jornal, Joe tinha só uma ideia vaga de que algo fora do comum aconteceria no fim do mês. Não ligava nadinha pra essas coisas, sabe? As preocupações de Joe eram os comunistas e os lutadores pela liberdade (só que os chamava de “pretos do Greyhound”) e aquele maldito católico amante de judeus na Casa Branca. Se soubesse o que aconteceria a Kennedy quatro meses depois, acho que quase teria conseguido morrer feliz. Ele era horrível assim.

O vilão desta trama? Sem poder explicitar, só falarei no geral: a trama de Dolores não tem absolutamente nada de sobrenatural, mas contém seres humanos tão horrendos e monstruosos que fazem qualquer palhaço vindo do espaço parecer um cachorrinho caído de um caminhão de mudança porque seres humanos assim são reais. Entendo o apelo de King e suas metáforas para o terror, mas quando o autor se propõe a falar e a mostrar a maldade humana mais pura e doentia que há, ele consegue ser mais assustador do que nunca. E é por isso que também alerto para gatilhos neste livro, porque apesar de não haver nenhuma cena explícita, há menções a todos os tipos de violência, tudo contado por Dolores.

Dolores e Vera entraram na minha galeria de grandes personagens femininas que conseguiram deixar sua digital em minha vida como bookstan. Sempre que termino de ler um livro que me impacta tanto, sinto como se parte minha passasse a carregar um segredo que antes não sabia que precisava guardar, mas agora está lá, escondido entre as boas memórias de descobrir aquela trama uma primeira vez. A força das duas personagens me espantou no melhor sentido e embarquei tanto na trama que sequer previ as reviravoltas que há. Quando fechei este livro, só me importava saber como Dolores ficaria – calma, a narrativa entrega, mas não falarei aqui, claro.

De nada”, disse ela. Eu abri a porta pra sair, e ela continuou: “Dolores?”.
Olhei pra trás e ela assentiu de um jeito engraçado, como se soubesse de coisas que não tinha nada que saber.
Às vezes, a gente precisa ser muito filha da puta pra sobreviver”, disse ela. “Às vezes, ser uma filha da puta é a única coisa que uma mulher tem pra se agarrar.
Aí ela fechou a porta na minha cara… mas delicadamente. Não a bateu.

E, claro, temos um filme inspirado na trama. Provavelmente influenciado por “Louca Obsessão” (que é inspirado no livro “Misery“), temos Kathy Bates estrelando mais uma adaptação de King, aqui no papel de Dolores, enquanto Judy Parfitt interpreta Vera e Jennifer Jason Leigh interpreta Selena. O filme difere bastante do livro só de ler a sinopse, colocando Selena no centro, enquanto no livro temos Dolores em seu monologo na delegacia, como já falei. O filme está disponível no Prime vídeo.

A edição é linda e ainda temos ilustrações completando a trama, que tem uma nova tradução incrível da também incrível Regiane Winarski. E esta resenha está sendo publicada na semana de um eclipse total – olha as coincidências da vida. Entendo porque este livro tinha o título de “Eclipse Total“, justamente pela trama sombria guiada por um eclipse que trouxe a total escuridão, mas fico feliz que a Editora Suma esteja trazendo de volta o título original por que esta é a história de Dolores, aquela mulher idosa, calejada, forte, boca suja e impaciente, que enfim decidiu compartilhá-la conosco, colocando sua voz nas palavras mais dolorosas e cruéis que poderíamos pensar. E só podemos agradecer.

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