17.02

Um novo trecho de “Chain of Iron” foi divulgado pelo site Tor, onde mostra um pouco sobre o passado de Grace. Nós traduzimos o trecho todo, mas contém spoilers, então leia por sua conta e risco!

GRACE: 1893–1896

Era uma vez, e ela tinha sido outra pessoa, ela se lembra disso. Uma garota diferente, mesmo que tivesse os mesmos pulsos finos e cabelo quase branco. Quando ela ainda era pequena, seus pais a sentaram e explicaram que ela e eles e todos que conheciam não eram pessoas normais, mas descendentes de anjos. Nephilins, jurados a proteger o mundo dos monstros que o ameaçavam. A garota tinha o desenho de um olho nas costas de sua mão, desde antes de conseguir se lembrar. Isso a marcava como uma Caçadora de Sombras e permitia que ela pudesse ver os monstros que eram invisíveis para os outros.

Por direito, ela deveria ser capaz de lembrar dos detalhes dos rostos dos seus pais, a casa em que moravam. Ela tinha sete anos—ela devia conseguir lembrar de como ela se sentiu no quarto de pedra em Alicante, quando um grupo de adultos, que eram estranhos para ela, vieram e falaram que os pais dela estavam mortos.

Em vez disso, aquele momento foi o fim dos sentimentos. A garota que existia antes que ela fosse para o quarto de pedra—aquela garota tinha partido.

A princípio, ela pensou que seria enviada para viver com outros membros de sua família, apesar de seus pais serem distantes deles e eles serem todos estranhos. Ao invés disso, ela foi enviada para viver com um estranho totalmente diferente. De repente ela era uma Blackthorn. Uma carruagem de ébano preto e brilhante, como um piano, veio buscá-la. A levou através dos campos de verão de Idris, até a beira da Floresta Brocelind, e através de elaborados portões de ferro. Para a Mansão Blackthorn, sua nova casa.

Deve ter sido um choque para a garota, ir de uma casa modesta na parte mais baixa de Alicante para a casa ancestral de uma das famílias mais antigas de Caçadores de Sombras. Mas esse choque, e as memórias da casa em Alicante, se foram como todo o resto.

Sua nova mãe era estranha. Primeiramente ela era gentil, quase gentil demais. Ela segurava a garota, de repente, pela cintura, e a segurava firme. “Eu nunca achei que teria uma filha,” ela murmurava, em um tom maravilhado, como se estivesse falando com alguém no recinto que a garota não conseguia enxergar. “E uma que veio com um nome tão belo, também. Grace.

Grace.

Havia outras maneiras, mais assustadoras, nas quais Tatiana Blackthorn era estranha. Ela não fazia nada para manter a casa em Idris ou prevenir que caísse em decadência; sua única criada era uma criada silenciosa e de rosto azedo que Grace raramente via. Às vezes Tatiana era agradável; outras vezes ela duramente expunha suas inacabáveis queixas—contra seus irmãos, contra outras famílias de Caçadores de Sombras, contra Caçadores de Sombras no geral. Eles eram responsáveis pela morte de seu marido, e todos eles, como Grace entendeu, poderiam ir para o inferno.

Grace era grata por ter sido acolhida, e ela estava feliz por ter uma família e um lugar ao qual pertencer. Mas era um lugar estranho, sua mãe nunca era realmente conhecível, sempre se ocupando com feitiços estranhos em cantos mal iluminados da casa. Teria sido uma vida muito solitária, se não fosse por Jesse.

Ele era sete anos mais velho, e estava feliz de ter uma irmã. Ele era quieto, e bondoso, e ele lia para ela e a ajudava a fazer coroas de flores no jardim. Ela notou que seu rosto ficou inexpressivo quando a mãe deles começou a falar sobre seus inimigos e a vingança que ela desejava contra eles.

Se tinha algo no mundo que Tatiana Blackthorn amava, era Jesse. Com Grace ela podia ser crítica e mais liberal quanto a tapas e beliscões, mas ela nunca levantava uma mão para Jesse. Era por ele ser um garoto, Grace se perguntava, ou era por ser filho biológico de Tatiana, enquanto ela era apenas uma protegida que ela tinha acolhido?

A resposta pouco importava. Grace não precisava da adoração de sua mãe enquanto tivesse Jesse. Ele era uma companhia quando ela mais precisava de uma, e tão mais velho que parecia quase um adulto para ela.

Era uma boa coisa que eles tinham um ao outro para companhia, já como eles raramente deixavam o terreno da mansão, salvo quando eles iam em breves viagens com a mãe para a Mansão Chiswick, uma vasta propriedade de pedra na Inglaterra que Tatiana havia arrancado de seus irmãos vinte e cinco anos atrás e agora guardava com ciúme. Mesmo que a Mansão Chiswick fosse próxima de Londres e, portanto, uma propriedade valiosa, Tatiana parecia determinada em assistir ela se deteriorar também.

Grace sempre ficava aliviada ao voltar para Idris. Ficar próxima de Londres não lembrava ela de sua vida passada—aquilo tinha se transformado em sombras e sonhos—mas a lembrava que tinha um passado, um tempo antes dela pertencer a Jesse, a Tatiana e a Mansão Blackthorn. E qual era o ponto disso?

***

Um dia, Grace ouviu um estranho som de batida vindo da sala acima do quarto dela. Ela foi investigar, mais curiosa do que preocupada, e descobriu que a fonte do barulho era, chocantemente, Jesse, que montou uma galeria improvisada de arremesso de facas com alguns fardos de palha e um lençol liso em um dos quartos arejados e altos no último andar da mansão. Eles devem ter sido usados como salas de treino pelos habitantes anteriores da casa, mas sua mãe sempre se referia a eles como “os salões de baile”.

O que você está fazendo?” Grace perguntou, escandalizada. “Você sabe que nós não devemos fingir ser Caçadores de Sombras.

Jesse foi buscar uma faca jogada em um dos fardos de palha. Grace não pôde deixar de notar que ele tinha acertado seu alvo. “Não é fingimento, Grace. Nós somos Caçadores de Sombras.

Por nascimento, mamãe disse”, ela falou com cuidado. “Mas não por escolha. Caçadores de Sombras são brutos e assassinos, ela disse. E nós não temos permissão para treinar.

Seu irmão se preparou para jogar a faca novamente. “E ainda assim nós vivemos em Idris, um país secreto criado e conhecido apenas por Caçadores de Sombras. Você carrega uma Marca. Eu—espero ter uma.

Jesse”, Grace falou devagar. “Você realmente se importa tanto em ser um Caçador de Sombras? Como lutar com demônios usando bastões e todo o resto?

É o que eu nasci para fazer”, ele disse, sua sobrancelha franzida. “Eu tenho ensinado a mim mesmo, desde que eu tinha oito anos—o sótão dessa casa é cheio de armas antigas e manuais de treino. É o que você nasceu para fazer também.” Grace hesitou, e uma rara memória apareceu em sua mente—seus pais, jogando facas em uma placa pendurada na parede de sua pequena casa em Alicante. Eles lutavam contra demônios. Era como eles tinham vivido e como tinham morrido. Certamente isso não era tudo tolice, como Tatiana afirmou. Certamente não era uma vida sem sentido.

Jesse notou sua expressão estranha, mas não a pressionou para falar o que estava pensando. Ao invés disso, ele apresentou seu ponto de vista. “E se um dia formos atacados por demônios? Alguém teria que proteger nossa familia.

Você me treina também?” Grace perguntou, com rapidez, e seu irmão abriu um sorriso que a fez explodir em lágrimas, sobrecarregada pela súbita sensação de ser cuidada. De ser importante. De pertencer a algo maior do que ela.

***

Eles começaram com as facas. Eles não ousavam treinar durante o dia, mas quando a mãe de ambos estava dormindo, ela estaria longe o suficiente para não ouvir as pancadas das lâminas no batente. E Grace, para sua própria surpresa, foi bem no treinamento, aprendendo rápido. Após algumas semanas, Jesse deu a ela um arco de caça e uma aljava vermelha de um belo couro curado—ele se desculpou por eles não serem novos, mas ela sabia que ele os havia furtado do sótão e gastado semanas limpando-os e consertando-os para ela, e isso significava mais do que um presente caro.

Eles começaram as aulas de arco e flecha. Esta era uma perspectiva totalmente mais perigosa, envolvendo esgueirar-se para fora de casa no meio da noite para praticar no antigo campo atrás da casa, quase até as paredes. Grace iria para a cama com todas as suas roupas, esperaria até que a lua ficasse visível através de sua janela e descia as escadas escuras da casa para se juntar ao irmão. Jesse era um professor paciente, gentil e encorajador. Ela nunca tinha pensado em ter um irmão, mas agora era grata todos os dias por ter um—e não apenas agradecida da maneira respeitosa como era grata à mãe.

Antes de vir morar com Tatiana, Grace nunca tinha entendido o quão potente o veneno da solidão poderia ser. Com o passar dos meses, ela percebeu que a solidão havia enlouquecido sua mãe adotiva. Grace queria amar Tatiana, mas sua mãe não permitiria que esse amor crescesse. Sua solidão havia se tornado tão complicada que ela começou a temer o amor e rejeitou o afeto de qualquer pessoa além de Jesse. Lentamente, Grace começou a entender que Tatiana não queria o amor de Grace. Ela queria apenas sua lealdade.

Mas esse amor tinha que ir para algum lugar, ou Grace poderia explodir, como um rio estourando uma barragem. Então ela derramou todo seu amor em Jesse. Jesse, que a ensinou a subir em árvores, a falar e ler francês, que terminava todas as noites ao lado de sua cama, lendo para ela obras tão diversas como A Eneida de Virgílio e Ilha do Tesouro.

Quando a mãe estava distraída com outros assuntos, eles se encontravam no escritório abandonado no final do corredor, onde havia estantes do chão ao teto em todos os lados e várias poltronas grandes e decadentes. Isso também fazia parte do treinamento, Jesse disse a ela, e eles leriam juntos. Grace nunca soube por que Jesse era tão gentil com ela. Ela pensou que talvez ele entendesse desde o início que ele e Grace eram os únicos verdadeiros aliados um do outro, e que sua sobrevivência dependia um do outro. Separados, eles podem cair no mesmo poço que reivindicou sua mãe; juntos eles podem até prosperar.

Quando Grace tinha dez anos, Jesse convenceu sua mãe a permitir que ele, finalmente, tomasse uma runa. Era injusto, ele disse, viver em Idris sem nem mesmo uma runa para a Visão. Era entendido que qualquer um que vivia em Idris tinha visão, e poderia até ser perigoso para ele não tê-la. A mãe deles fez uma careta, mas ela cedeu. Dois Irmãos do Silêncio vieram. Grace mal se lembrava de sua própria cerimônia de aplicação de runas, e a visão das figuras marcadas e vagando nos corredores escuros da Mansão Blackthorn fez sua pele arrepiar. Mas ela reuniu coragem e estava com Jesse quando um Irmão do Silêncio inscreveu a runa da visão nas costas da mão direita de Jesse. Ela estava lá para vê-lo levantar a mão, para olhá-la com admiração, para agradecer profusamente aos Irmãos.

E ela estava lá naquela noite para vê-lo morrer.

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