24.10


“A febre”
Marcelo Ferroni
Arte de Capa: Elisa Von Randow
Companhia das Letras – 2023 – 192 páginas

Em uma noite sinistra, os traumas da ditadura brasileira são revisitados em um apartamento da Zona Sul do Rio de Janeiro, quando dois irmãos precisam cuidar do patriarca, Abel, cujos segredos da época da repressão voltam a assombrar a nova geração.

A epidemia de covid-19 esvaziou as ruas do Rio de Janeiro, e o risco da doença serve de desculpa para que a madrasta de Marco o telefone pedindo um favor: passar uma noite no apartamento requintado de seu pai, Abel, que se encontra acamado e não pode ficar a sós.

Assim começa a narrativa intensa de A febre, retorno de Marcelo Ferroni à literatura de terror. O que poderia ser cenário de um acerto de contas realista entre duas gerações ― a de um pai orgulhoso de sua participação no regime militar com a de um filho que buscou abandonar o passado ― logo ganha contornos sobrenaturais.

Ao aliar precisão literária com um apreço pela potencialidade da ambientação da casa mal-assombrada, o autor faz de A febre uma alegoria pungente de um Brasil com muitos esqueletos no armário ansiando em ver a luz do dia.

Acredito que este foi o ano que mais li livros nacionais e devo ainda afirmar que dei muita, muita sorte. Livros como “O Mar me levou a você” (leia minha resenha sem spoilers clicando AQUI) e ainda “Eu, minha crush e minha irmã” (leia minha resenha sem spoilers clicando AQUI) mostram o quanto estamos bem representados no romance e comédia romântica, e agora chega “A Febre” mostrando que estamos muito bem representados em outros gêneros também. Temos aqui um livro intenso que sim, é terror, com elementos sobrenaturais, mas confesso que o mais aterrorizante é o fator humano, repleto de realidade. Sim, este livro mistura fatos históricos brasileiros com a sua trama principal, o que definitivamente torna tudo mais denso, intenso e aterrorizante.

Já li bastante outros livros do Marcelo Ferroni, como o interessante “As Maiores novidades” (leia minha resenha sem spoilers clicando AQUI) e um dos pontos de vistas do incrível “Corpos Secos” (leia minha resenha sem spoilers clicando AQUI). Já estava ciente de sua escrita, então quanto me surgiu a oportunidade de ler este livro, não hesitei – e devo dizer que esse livro me causou um incômodo, um bolo na garganta, um peso no estômago de um jeito que só as tramas que conseguimos ver reflexo de algo conhecido são capazes de nos causar. Fica difícil falar de uma trama que te faz pensar tanto sobre o passado de nosso país e também sobre o que entendemos como família. É por aí que vamos nesta trama.

A ilustre família, ilustre como as mais respeitadas famílias de bem, acumulou tantos ódios ao longo dos anos que a própria casa se tornou ressentida e venenosa. A porta dos fundos estava morna ao toque e resiste à pressão de Dona Inez, como se estivesse colada. A cozinha está escura, mais escura que a manhã, e parece não só quente, como também úmida. Ela tranca a porta depois de entrar, guarda as chaves e aperta a bolsa contra o peito. Há pratos, talheres e panelas amontoados na pia, e um leve cheiro de podre, talvez da lixeira mal fechada. Apesar de conhecer cada canto e utensilio ali, tem receio de deixar suas coisas na bancada.

Quando começamos a trama, vemos Abel, o patriarca da Família Soares Lobo, em um estado debilitado. Idoso, sua esposa Celina e a secretária Inez, que já está com a família há muitos anos, tentam ajudar o homem. Sons estranhos parecem causar nas duas mulheres um medo maior, e é justamente assim que a primeira parte deste livro, chamada de “O Acontecimento”, termina. Quando a segunda parte, chamada exatamente de “O patriarca” começa, somos apresentados ao ponto de vista de Marcos. Filho do meio de Abel com sua primeira esposa, Odette, o professor e narrador de boa parte da trama (somente não temos seu ponto de vista na primeira e sexta e última parte) parece ser o típico filho do meio: de temperamento mais dócil, se submetia aos desmandos de Cláudio, o irmão mais velho, e tenta se relacionar bem com Joana, a irmã mais nova.

Convocado por Celina, que afirma estar com suspeita de Covid e preocupada de passar o vírus para o marido – sim, a trama se passa durante a pandemia, na fase que já havia vacinas, mas o medo de uma possível uma terceira onda existia. Inez havia arrumado uma moça para passar as noites com Abel, mas a jovem havia abandonado o emprego porque… Sim. Inez tenta explicar a Marcos como as coisas podem ficar estranhas com Abel durante a noite, mas o homem já viu a madrasta basicamente fugir e agora só quer ficar ali fazendo companhia pro pai até amanhecer para voltar para seu próprio apartamento, sua vida de recém-separado (novamente) e para sua autopiedade por seu emprego como professor universitário de faculdade particular estar sofrendo durante a pandemia. E confesso que demorei um pouco para entender quem Marcos era, mas antes da metade da trama já estava ciente de que estava doente de um cara bem… Bom, seria um grande spoiler dizer tudo que penso sobre, então me deixe só dizer que ele seria… Dúbio. Quando a segunda parte termina, o leitor já não sabe exatamente o que experienciou com Marcos, entre acontecimentos no presente dentro daquele apartamento e lembranças do passado mostradas pelo narrador, porque tudo parece, ao mesmo tempo, mundano demais (uma simples velhice do corpo de Abel), mas, ao mesmo tempo, temos a certeza de que há esqueletos demais enterrados entre as pessoas daquela família.

Quando o avô se mudou para a capital federal, já vinha com bastante lastro politico e intelectual. Era grande amigo de Gilberto Amado, o imortal fascista. Marco pensa nisso e dá uma risada de deboche. Os camisas verdes, ele pensa. O Sigma. Ele pensa em Plínio Salgado, o líder franzino e inseguro, nas fotos de época as roupas parecem sempre folgadas nele. Marco sabe, e essa era uma história corrente na família, que até o golpe do Estado Novo o avô foi um firme integralista; sabe que chegou a marchar com a camisa verde e a gravata preta, há fotos dele do período. Mas não tem certeza de que o avô chegou a conspirar com os outros lideres para a Morte de Getúlio Vargas. Abre o livro, esperando encontrar alguma afirmação francamente racista ou hegemônica. As paginas estão manchadas e ele franze o nariz. Passou parte da vida vasculhando documentos antigos, ao mesmo tempo em que sofre de rinite. “Ao Abel”, ele lê, com um traço oblíquo da caneta no frontispício, “Afetuosamente, o autor – seu pai”.

Quando a teceria parte, “Os garotos”, se inicia, vemos Marcos esperando Cláudio chegar. Assustado, o que o irmão do meio fez foi chamar o mais velho. Não tenho como falar do mais velho sem dizer que ele é um dos personagens mais detestáveis que já tive o desprazer de ler: irônico no sentido ruim, estúpido, irascível e cheio de raiva, Cláudio chega com toda sua pose para lembrar ao ‘Marquinhos’ de que ele era o bem sucedido, forte e incrível filho de Abel, apesar de nem chegar chamar o pai assim – Sr. Abel é como se dirige ao homem, ao contrário de Marcos.

Abel oscila entre a consciência e o sono, mas nem assim deixamos de aprender mais sobre o homem: filho de um autor que chegou a fazer parte da Academia Brasileira de Letras e claramente de família abastada, Abel cresceu parecendo ter o mesmo relacionamento que criou com os filhos: nenhum. Casado com Odette e com 3 filhos, um dia conheceu Celina, promissora artista mais jovem, e largou a família para morar com ela em Brasília durante a Ditadura Militar Brasileira. Sim, Abel foi do Ministério Público durante essa fase tão sombria de nossa história. Claro que a ordem e forma como o homem regia seus relacionamentos são dolorosos de ler, provocando o leitor a pensar nos relacionamentos da família. E olha, foi duro de ler, bem duro. Vim de uma casa só de mulheres fortes e me embrulhou o estômago ler como Abel diminuía os filhos e deixou a esposa quase na penúria quando abandonou a família – até a morte dela, quando os filhos tiveram de ir morar com o pai e Celina no Rio de Janeiro. Quanto mais lia sobre a dinâmica familiar, o terror sobrenatural que se apresentava através de Abel no presente se mostrava nada comparado ao que Joana, a filha mais nova, e sua mãe passaram.

Eu… – diz o velho, e abre a boca, tenta dizer algo. Marco se inclina para ouvir.
O que?
O velho tosse e acena. Marco se abaixa mais. É seu pai, ele sabe que o saco de pele e ossos ali no chão é seu pai, mas tem medo de levar uma mordida.
Eles…
Quem?
Eles…
Eles quem?
Estão todos aqui…

Quando a parte 4, “A Casa”, começa, vamos entendo mais a dinâmica entre Odette e os 3 filhos. Estamos vendo tudo pelo ponto de vista de Marcos, que se vê somente como o filho oprimido do meio, ficando entre o gênio horrendo do mais velho, as supostas explosões da mais nova e do humor da mãe. Não foi difícil entender que Odette estava com a saúde mental comprometida, assustada com a nova realidade de cuidar dos filhos sozinha e com um filho mais velho que a desafiava sem o menor pudor. Marcos já tinha dado os indícios de que não era um narrador lá muito confiável porque ele estava sempre mostrando sua versão das coisas: seu emprego que lhe angustiava, sua mais nova separação de Denise, sua preocupação com Vanessa, sua filha que precisava de cuidados com a saúde mental, mas em pequenas frases e pensamentos aqui e ali comecei e entender mais sobre o personagem.

Com um foco maior aqui na mãe e seus filhos, de novo, pra ficar bem claro, foi quase insuportável ler sobre a dinâmica família. Não tenho como explicar como Cláudio aterrorizava Joana, como Marcos fugia de tomar qualquer decisão ou responsabilidade, como Joana estava cada dia menor no meio dos irmãos e o quanto Odette parecia uma bomba relógio. Enquanto lia sobre as personagens pelas lembranças de Marcos, quase podia ouvir o relógio em contagem decrescente marcando seus ótimos segundos, prestes a explodir. E um dia, explode tudo em uma cena de violência que, mais uma vez, me embrulhou o estômago de ler. O terror aqui foi o filho mais velho, mas quando está parte vai começando, abrindo caminho para a quinta parte, “Os visitantes”, nos sabemos que todos que passaram pela vida da família estão chegando.

Ficam mais um momento calados, mas Marco sabe que ainda não terminou.
Ela não vai acreditar no que aconteceu aqui.
É.
Mais silêncio.
O que porra foi essa – diz Cláudio.
É.
As risadas, os lamentos, os gritos, tudo se mistura na cabeça de Marco, ele especula se a tempestade poderia ter gerado isso. A tempestade, as árvores, os vidros desencaixados das esquadrias. Espera o irmão dizer algo, sabe que Cláudio deve estar fazendo o mesmo que ele, retrabalhando os eventos para torná-los aceitáveis. São irmãos, têm essa conexão. Mas é cedo para isso, ainda estão abalados para esquecer.

E sim, há visitantes. Se são reais ou não, fica a cargo do leitor decidir. A esta altura da trama, tudo que queria era saber sobre Joana e então foi presenteada com a sexta parte, que leva seu nome e tem seu ponto de vista. Dando sua versão de diversos momentos que já eram horrendos sob a perspectiva de Marcos, aqui temos mais terror ainda. O relacionamento dela com o pai e os irmãos é tóxico ao nível que sabemos que, infelizmente, algumas famílias podem ter, o que causa aquele nó no estômago que falei. A forma como a tratam, a forma obsessiva como Cláudio a perseguia, a forma diminuta como o pai a trata, sua vida, suas escolhas, tudo se torna sobre Joana e como ela é uma personagem forte e que agora está seguindo para o apartamento do pai encontrar os irmãos com todos sentimentos aflorados. Mas Joana começa a se lembrar e enfrentar seus fantasmas em uma catarse que é libertadora e agridoce, tudo ao mesmo tempo, mas digna da personagem que acompanhamos em toda a trama.

A Febre” é um livro muito, muito rápido – li em uma tarde. Não há barrigas e toda trama se passa de um começo de noite até a manhã do dia seguinte. Acho que ficou claro que a família Soares Lobo é todo cerne da questão, com seus relacionamentos tóxicos, com os homens com personalidades sombrias e que se compraziam em impor através da força o seu lugar, com uma figura materna com problemas de saúde mental e uma filha mais nova que só queria distância daquela família, temos os Fantasmas do passado e da Ditadura se apresentando em forma de cenas de preconceito, racismo e intolerância, tudo do jeito que sabemos que ainda existe. E é este o pior horror de todos: o real. Você fechar um livro depois de um ler sobre uma entidade maligna não é nada perto de pensar sobre como você é privilegiada por ter uma família que te ama e te protegeu porque há pessoas aí fora que não tiveram isso – e isso partiu meu coração. Este livro definitivamente foi muito, muito aterrorizador e não digo que a leitura seja fácil ou que seja indicado para todas as pessoas, mas afirmo, com toda certeza, que se decidir lê-lo, sabendo do seu tom, você vai terminar com um nó na garganta, quase uma espécie de febre. Boa sorte.

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