01.09


“O mar me levou a você”
Pedro Rhuas
Arte de Capa: Lune Carvalho
Seguinte – 2023 – 424 páginas

Amores de verdade não acabam no fim do verão.

Nascido em uma lendária família de surfistas, Matias Mendonza sempre esteve ligado ao mar. As ondas são sua bússola quando ele se sente perdido ― o que acontece com mais frequência do que sua fama de bad boy deixa transparecer. De volta à praia de Canoa Quebrada para mais uma temporada perfeita no Ceará, ele precisa decidir se seguirá os passos da mãe no surfe profissional ou se trabalhará no Hippie, o charmoso hostel dos pais.

Mas, antes que faça sua escolha, o mar tem uma última surpresa: Júlio, o garoto misterioso com quem seu destino se entrelaça quando uma onda enorme os aproxima. Onde Matias é água e fogo, Júlio é terra e ar. Conforme o verão avança, o Universo parece querer unir esses dois opostos a qualquer custo. Só que dar uma chance ao amor é bem difícil quando se tem medo de vivê-lo. Será que esse novo romance pode ser mais que uma história de verão? Se seguirem os sinais, talvez encontrem a resposta…

Como falar sobre Pedro Rhuas sem demonstrar que sou apaixonada pela escrita dele? Não tem como e sequer quero esconder isso porque ele merece todos elogios do mundo. Desde o seu primeiro livro, “Enquanto eu não te encontro”, com seu humor rápido, desencontros, um toque do destino e decalicadeza, ficou claro que Pedro seria uma força a ser reconhecida no cenário da leitura. Fiquei de olho em meu conterrâneo nordestino para seus próximos lançamentos e então veio a novela “O Universo sabe o que faz”, que trouxe um personagem secundário do livro de lançamento agora como principal, e foi maravilhoso de ler (você pode ler as duas resenhas SEM SPOILERS clicando AQUI e AQUI). Ai eu já sabia que era fã do Pedro.

Então chegou o seu segundo livro: “O Mar me levou a você” e eu confesso, de coração, de verdade, do fundo da minha alma, que iria ler assim que surgisse a oportunidade. O que eu não sabia era a forma como esse livro iria me pegar e falar comigo. Eu também não tinha a menor ideia de como iria me apegar a esses personagens nessa jornada a ponto de sentir muito quando a história chegou ao fim e querer muito, muito mais. Mas vamos lá, vamos do começo, vamos começar falando um pouco sobre o destino, que não aparece, mas, assim como o mar, é basicamente um personagem dessa história.

Existe uma coisa chamada proporção áurea. Penso nisso quando estou no mar, sentado na minha prancha, observando as ondas quebrarem mais adiante. É um número perfeito e infinito que toma a forma de uma espiral. Essa espiral está em todos os lugares: nas conchas do mar e na crista de uma onda, no corpo humano e na organização das galáxias.
Dizem que a proporção áurea pode ser a chave dos segredos do Universo. Não tenho certeza disso, mas acredito em sinais.

O cenário é o nordeste, assim como no título de origem de Pedro, e o destino tem planos caprichosos e que dão um toque quase etéreo a trama de Matias, jovem de 21 anos que é filho de uma famosa surfista já aposentada. Espanhol de nascimento, o pai de Matias é brasileiro, sendo um segundo filho, tendo Pablo como irmão mais velho e Melissa como irmã mais nova. A família passa metade do ano na Espanha, e, no nosso verão, eles vem para a cidade de Canoa Quebrada, onde a família tem um hotel perfeitinho chamado Hippie. A beira da praia, claro que Matias aproveita para pegar altas ondas, coisa que ama fazer por hobby – mas não a ponto de competir, como seu irmão mais velho já está fazendo e como acredita que sua família parece querer. E é justamente no mar, surfando, que ele vê de longe um jovem na praia.

Lembra que eu falei que o destino tem um plano caprichoso? As engrenagens começam a se movimentar aí, e, tomando um caldo, Matias para na praia, onde conhece o rapaz, que se chama Júlio – que parece odiar o surfista ao primeiro olhar. Bissexual, Matias não vê necessidade de assumir sua sexualidade para ninguém e se sente imediatamente atraído por Júlio, que rechaça qualquer investida do surfista. Para surpresa de Matias, sua irmã Melissa conhece Júlio – mas não só ela, já como o jovem é um Influencer que fala sobre viagens. Júlio deu a entender que não iriam mais se encontrar, mas, novamente, o destino não parece nada disposto a deixar essas duas pessoas longe uma da outra, e a medida que os caminhos de ambos vão acontecendo, Matias vai tirando algumas informações de Júlio, entre elas, que ele já está indo embora da cidade.

O problema de viver à sombra de alguém é que isso nos mata aos poucos. Estar constantemente em segundo lugar. Nunca se destacar em nada porque já se destacaram antes. Se esforçar o tempo todo para atender as expectativas das pessoas ao seu redor. Ter sonhos que você já não sabe se são seus de verdade, após anos negligenciando a própria individualidade.

E essa última noite de Júlio na cidade vai provar que a química do casal está lá, forte, latente e intensa, levando um ao outro de uma forma que eles não têm como negar, por mais que o próprio Júlio tenta tentado negar no começo da trama – e, aqui, preciso fazer uma pausa para preparar você, que me lê, para as negativas de Júlio no começo da trama. Sendo o bom contador de história que Pedro é, ele preparou todo um bem construído caminho para explicar todas as inseguranças que Júlio tem a relação a Matias, e prometo, prometo de coração pra você que vale a pena. Esse livro inteiro vale cada página, cada parágrafo, cada segundo.

Voltando a narrativa, Júlio passa esse último dia mágico com Matias, mas ainda não está disposto a ceder ao que está acontecendo, deixando Matias desnorteado, e aqui temos o aprofundamento dos relacionamentos familiares de Matias. Ele está em um ano sabático que já se transformou em dois. Tentando encontrar seu caminho, pediu para se tornar o gerente do Hippie, já como sua tia, irmã do seu pai, Dandara, está viajando com Belchior, a Van repleta de história da família.

No fundo, ser honesto com as pessoas é um desafio. É como se eu fosse uma praia cercada que permite nadar só até certo ponto. Desde que os banhistas permaneçam no raso, não há problema. Mas, se começarem a ultrapassar o limite, é preciso impedir o avanço.
Então, sem notar, construí uma muralha ao meu redor. Acho que sei por que, porém. É mais fácil afastar as pessoas do que arriscar que nos vejam por quem somos de verdade.

Mas, com o coração levemente partido, Matias, que nunca permitiu se abrir completamente com ninguém (e também temos motivos para isso) e nem se apaixonou, se perde totalmente, causando o que ele mais teme: decepcionar a mãe no comando da pousada. O relacionamento de Matias com sua mãe, Ana, parece andar por um fio: acreditando que a mãe tem a preferência por seu irmão mais velho (o qual é um cretino, deixo claro) e sempre sentindo que está decepcionando a mãe ao não seguir seus passos no surf, o jovem quer descobrir mais sua própria veia artística e se descobrir enquanto tenta curar as próprias feridas causadas pela distância da mãe e pelo mais velho, sendo o laço forte dele com o pai e a irmã. E, sinceramente, vai faltar espaço para eu reforçar nesta resenha o quanto o relacionamento de Matias, Melissa e Vinícius, o pai de ambos, é maravilhoso.

Na pousada ainda trabalham Otávio, melhor amigo de Matias; Amanda, Paulista e namorada da kitesurfista alemã Hümi; Zayn, o instrutor de kitesurfe marroquino e, completando, Lila, recém-chegada. Junte aos personagens coadjuvantes Céu, atendente da livraria Shakespeare e Canoa, e você terá um elenco de personagens secundários que te fará desejar ler muito, muito mais sobre eles. Cada um com sua vivência e experiência, fiquei encantada em todos, em especial Otávio e Céu.

Por outro lado, também percebi que não era justo me cobrar por esses diálogos. É fácil se projetar nas vivências dos outros e deixar de considerar as nossas próprias. Sim, seria fantástico ter encerramentos dignos de cinema. Mas às vezes é preciso aceitar que cenas emocionantes ou pedidos de desculpas não são garantidos, que pessoas vão nos machucar e nem sempre teremos a chance de falar sobre isso.
E não está tudo bem, não mesmo. Em um mundo ideal, sentaríamos em uma mesa, conversaríamos cara a cara e seguiríamos em frente.
Não vivemos em um mundo ideal. Se passamos a vida inteira esperando que a resolução para os nossos conflitos venha de fora, perdemos nosso poder. O que os outros fazem — e escolhem fazer — está fora do nosso alcance.
Cabe a nós aprender a lidar com isso.

Só não se engane porque o centro de tudo é mesmo Matias, que conduz a história, que se passa inteira por seus olhos, e seu encontro de almas com Júlio. A forma como o destino aproxima e cura essas personagens é aquele fio que une e liga o leitor ao centro da trama. Com suas personalidades completamente distintas, com Matias sendo o extrovertido e que tenta conquistar Júlio, o introvertido leitor, vamos aprendendo mais sobre os traumas de cada um e a forma como eles lidarão com essas dores, aprendendo que algumas histórias precisam de cura e, algumas outras, precisam simplesmente serem deixadas para trás, como um capítulo de uma história, da sua história, mas que não terminará em uma cena de redenção linda e amorosa. Exatamente como é a vida.

E, como já falei em outra resenha que fiz da novela de Pedro, um dos grandes trunfos da trama é nos importamos com os personagens, e, sério, como a gente se importa. E ah, um pequeno spoiler que nem é mais spoiler: temos a presença de Lucas e Pierre de “Enquanto eu não te encontro” em uma participação mais do que especial e foi como rever bons amigos que passaram um tempo viajando e estavam de volta para visitar. E assim como revimos estas personagens, espero muito ainda saber sobre Matias e Júlio e saber como eles estão em um futuro. E, para este livro e para Pedro, só posso agradecer como o mar nos trouxe alguém tão incrível com a capacidade de escrever tão bem. Leia e se apaixone por Matias e Júlio, se encante com a jornada deles, com cada um encontrando o amor e a cura e ainda acredite um pouquinho mais no destino com uma trama tão maravilhosamente escrita.

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