17.12


“As Maiores Novidades: Uma viagem no tempo”
Marcelo Ferroni
‎mapa lab – 2021 – 128 páginas

MEIO FICÇÃO CIENTÍFICA, MEIO PESADELO CORPORATIVO.

Eduard e Patricia trabalham no departamento de controle de qualidade da Challenger, gigante europeia de celulares. Nunca participaram antes de uma reunião com o CEO, mas nesta manhã seu futuro está prestes a se transformar. Junto com seu superior imediato, são levados à sala de Hans Magnuson para explicar um problema inesperado em seu novo produto.

A empresa dará um passo ousado ao lançar, dentro de dois meses, o Challenger Ten, um celular que promete revolucionar o processamento de dados com seu novo chip quântico. É tão rápido que, nas palavras do marketing, “tira fotos um segundo antes que a cena aconteça”.

Esse, no entanto, é justamente o problema. Ao testar dois protótipos enviados pela fábrica coreana, Ed e Patricia constatam que os celulares não só esquentam muito, como parecem levar o mote do marketing ao pé da letra: uma vez acionada a câmera, ela registra fatos anteriores, recuando no tempo.

Patricia acredita que o distúrbio é fascinante, e poderia ajudar as pessoas a corrigir seus antigos erros. Já Ed está nervoso, com medo de ser demitido. Os executivos, por seu lado, colocam a questão de outra forma: o produto criado por acidente na Coreia irá destruir a empresa, ou será a maior invenção da história?

Marcelo Ferroni é um dos 4 autores do maravilhoso “Corpos Secos”, uma das minhas melhores leituras do ano passado e que acaba de ganhar o Prêmio Jabuti de 2021 de Romance de Entretenimento (você pode ler minha resenha sem spoilers clicando AQUI). Esse tinha sido o meu primeiro contato com o autor e por essa resenha a Editora entrou em contato conosco nos oferecendo um exemplar para a leitura para uma resenha honesta do livro e aqui estamos. Eu realmente gosto de “Corpos Secos”, então aceitar essa “missão” foi um prazer – e devo confessar que foi um prazer imenso mesmo porque “As Maiores Novidades: Uma viagem no tempo” tem tudo que eu, nerd de carteirinha, gosto.

Como o próprio nome já diz, o livro trata de uma viagem no tempo. A sinopse entrega mais um pouco da trama do livro: O celular Challenger Ten, da empresa de tecnológica chamada Challenger, será lançado e trará uma revolução tão grande que mostrará o futuro em 1 segundo antes que aconteça realmente. Mas, para surpresa de todos, os protótipos dos celulares apresentam um “defeito”: as câmaras estão captando o passado em suas imagens, ou seja, se você se levantou para tirar uma selfie, o que aparecerá como foto é você se movimentando para ficar em pé. Claro que todos funcionários ficam em choque é bem aqui que a trama começa: com Eduard e Patricia, os dois fios condutores da história, descobrindo o que está acontecendo e tendo as reações mais antagônicas possíveis. E temos mais algo: o começo da nossa trama porque talvez essas imagens tiradas no passado estejam alterando o presente.

Vocês já testaram o vídeo?
Ed e Maxwell se entreolham, mas quem fala é Patricia:
Sim… essa é a questão.
A questão? — diz Magnuson.
Os executivos estão com o olhar fixo nela.
O passado nem sempre é igual ao passado. Vejam.

Eu vou começar afirmando que temos aqui uma história sobre viagens no tempo que é maravilhosamente refrescante, aonde podemos mudar coisas que acontecerão a partir do passado e possibilidade de alternativas. Para alguém como eu, que ama “O Exterminador do Futuro” e a fatalidade de que o futuro é inalterável, não importando o que se faça, comprei a ideia de “As Maiores Novidades: Uma viagem no tempo” e ainda fiquei refletindo sobre pelo simples fato de que é um livro que te faz pensar sobre o poder que poderíamos ter em nossas mãos sendo capazes de nos comunicar com o “eu” do passado e o alertar sobre o futuro – entendeu aqui o que começa a acontecer?

Claro que a empresa vê nisso algumas situações: primeiro o desespero do celular esquentar demais, mas, na sequência, se há uma possibilidade de se tirar fotos do passado, também se há uma possibilidade de se criar um portal para se acessar o nosso pretérito, certo? Então por que uma grande empresa capitalista não iria querer algo assim? Lógico que irá, e aqui temos um grande ambientação da trama: o lado corporativo das grandes empresas, com personagens que são figuras “clássicas” (no pior sentido possível) dessas empresas: o chefe tirano, o empregado assustado com medo de perder seu emprego, a falta de espaço e de voz que entregam para as mulheres – tudo isso está aqui, no meio de uma trama de ficção científica que é maravilhosamente amarradinha.

Aditi pensa na magnitude do que descobriram. Se pudesse voltar no tempo, pensa. Se puder voltar no tempo. Não parece possível que aqueles vinte e poucos funcionários, naquela sala dilapidada, possam fazer o que Magnuson ordenou. Mesmo assim, se conseguirem… Ela passa os dedos nos olhos para enxugar uma lágrima e baixa o rosto, não quer que a peguem com o rímel borrado.

Tudo que se desenrola é muito rápido porque já conhecemos tanto Eduard e Patricia na sala do CEO da Challenger em uma cidade que é claramente imensa e em um tempo que é mais avançado e tecnológico que o nosso, apesar de nunca ser mencionado nada que realmente certifique aonde estamos. A variedade de nomes dos personagens também nos dá a certeza de que estamos em uma metrópole com uma grande variedade cultural. Os personagens entram, fazem sua parte e você entende que algo está acontecendo na velocidade que se precisa, alguns deixando marcas na narrativa (como Kristen, porque toda passagem dela com o filho é nada menos do que real para qualquer mãe) e ainda personagens que parecem ser secundários mas trazem bastante a trama (como Aditi Banerjee). E ainda temos mais uma descoberta na trama porque Patricia entende que há a possibilidade de se falar com o passado através de uma ligação daqueles aparelhos – e chega de spoilers sobre a trama do livro.

O ritmo do livro é bastante rápido mesmo que haja conversas sobre física quântica e momentos que precisa de atenção do leitor para acompanhar a parte científica. Também temos de cara alguns personagens que ficarão por toda trama e serão importantes, como os já citados Eduard e Patricia, e também outros que vão ficando ao longo da narrativa e que deixam um gostinho de querer se saber mais sobre eles, mas, de toda forma, o grande trunfo é o autor conseguir fazer com que nos importássemos com eles e entendêssemos suas motivações mesmo em um curto período de tempo, tanto dentro da trama, quanto o tempo no qual a trama se passa (são basicamente 2 dias). E sim, em termos de páginas, elas são poucas, mas vai direto ao ponto, sem barrigas na trama e sem a sensação de que estamos dando voltas sem sair do lugar (apesar de darmos porque bem, estamos falando de espaço/tempo aqui, como não brincar com isso?), e tudo termina de um jeito que faz o leitor desejar ler mais sobre aquela ideia e o que poderá acontecer a partir dali até o que pode não acontecer ou deixar de acontecer. Sensacional.

Patricia não lhe disse, mas vai dizer, que é preciso fugir. O tempo se transformou e se desfez, apesar de Aditi ainda não saber disso. Patricia, no entanto, sabe; é uma das poucas pessoas que se mantiveram à tona, que sobreviveram. O tempo não é mais linear, cônico, circular, convexo ou côncavo. Está mais para um pé de repolho. Aditi pisa no segundo degrau. Vê que a técnica afastou os braços do impermeável e segura um celular negro em cada mão. Não tem mais frio, iluminou-se. Seus olhos comunicam um mundo, vibram e choram,
não acreditam que Aditi está, de fato, descendo até ela.

Confesso ainda que espero que Marcelo escreva mais neste universo porque sim, há espaço para isso. Ficou muito para se pensar sobre e é isso que eu amo em livros: a capacidade que eles nos dão de fecharmos a última página e continuarmos vivemos ali, entre os personagens, entre aquele mundo aonde podemos completar uma ligação e falar com o seu “eu” do passado – mas espera, eu iria querer fazer isso? Por que só se fosse para mudar montes de escolhas que fiz, mas… então eu não seria a “eu” que sou agora, seria? Ah, esses paradoxos, amo!

Houve tanto e tão pouco que mencionei nessa resenha justamente porque queria dizer para você, amigo leitor: leia esse livro. Por todos motivos do mundo, pela trama bem fechada, por ser rápido, por ter representatividade, por trazer viagem no tempo (sempre vou militar por essa trama, vocês sabem), por ter personagens reais que fazem com que nos identifiquemos com eles e também tenhamos raiva e instintos protetores – só leia e também venha se questionar se a maior novidades que poderia acontecer com você seria você falar com você mesmo no passado e tentar mudar o seu presente e futuro. Você aceita essa viagem?

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