03.01

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Pouco depois do lançamento de Cidade das Almas Perdidas, muitas pessoas ficaram assutadas com a cena em que o Sebastian atacou a Clary e tentou estuprá-la. Alguns disseram que ela merecia, ou que ela deveria aprender com isso. Outros não entenderam o real motivo de ter essa cena no livro e condenaram a autora, ou até mesmo se compadeceram do Sebastian.

Por isso, a Cassie foi ao Tumblr, falou sobre o assunto e deu uma revelação sobre ela mesma. Confiram o texto integral que traduzimos:

Abaixo estão spoilers de Cidade das Almas Perdida, mas também uma discussão profunda sobre violência sexual, já que é um tema de diversos livros e em Os Instrumentos Mortais em específico, com uma discussão sobre a cultura do estupro e os mitos sobre isso. Há também um trecho da cena que contem a violência sexual.

alittlemoreanonymous perguntou: Ugh, essa coisa sobre esse blog que não deve ser nomeado está ficando muito frustrante. Eu escrevi para um tumblr defendendo o uso do incesto em livros e agora eu estou recebendo todas essas mensagens de ódio dizendo que eu apoio tópicos “gatilho”, e estupro, etc. As pessoas estão dizendo que a única razão da tentativa de estupro em Cidade das Almas Perdidas acontecer foi para mostrar o quão desejável a Clary é, e na verdade não havia ponto nenhum nisso. Eu não sei se li corretamente, mas eu senti como se isso mostrasse o quão inumano o Seb é. De que maneira escrever sobre incesto é glorificar isso?

Bem, primeiro, Sinto muito em ouvir que as pessoas estão enviando mensagens de ódio. Eu sei o quão terrível isso é. Em segundo, essa é uma das coisas que eu não tinha certeza se deveria discutir. Na verdade eu não recebi mensagens de ódio, mas apenas mensagens como a sua, um monte de mensagens de pessoas realmente chateadas e em pânico, e uma outra pergunta que irei reproduzir abaixo.

Sobre dizerem sobre você ser a favor de “tópicos gatilhos”: provavelmente o ponto mais importante para defender aqui é que descrever algo não é ser a favor daquilo. Esse é um erro que é cometido a todo o tempo por pessoas que você achava que seriam mais sábias. Megan Cox Gurdon, no Wall Street Journal por exemplo, condenou livros para Jovens Adultos por serem muito sombrios, dando exemplos: A super violência da Suzanne Collins, sobre a trilogia Jogos Vorazes, e Shine da Lauren Myracle, que descreve crimes de ódio contra um adolescente gay. Qualquer um que prestar atenção, claramente, pode dizer que enquanto a violência é descrita em Jogos Vorazes, ela é dificilmente defendida. Na verdade é, de fato, um tratado contra a violência e a guerra, assim como Shine é um tratao contra a violência e crimes de ódio. Gurdon cita apenas o conteúdo dos livros e ignora o contexto, o que é um erro infortúnio para um resenhista de livros. Se as únicas pessoas do livro que aprovam aquela coisa são os vilões (ninguém além dos vilões acha que os Jogos Vorazes são algo além de algo ruim), então é uma boa aposta que o livro é sobre como aquela coisa é ruim.

A violência sexual incestuosa em Cidade das Almas Perdidas é cometida pelo vilão, um jovem assassino que está planejando um genocídio e é obcecado por controle e poder. Enquanto a cena é certamente perturbadora e pode ser um “gatilho” para a desencadeação de certos sentimentos, ela está ali para mostrar que o seu caráter está além da simpatia ou da redenção, e pela maior parte do tempo a reação que eu vi foi “Eu tentei gostar do Sebastian, mas então ele tentou estuprar a Clary e eu o odeio com todas as forças agora”.

(Para aqueles confusos, uma definição de algo que é um “gatilho”: Um gatilho é algo que evoca a superação de um trauma ou uma disfunção constante. Por exemplo, uma pessoa que foi estuprada pode desencadear esse sentimento, ou seja, ser lembrada de seu estupro, por uma descrição gráfica de violência sexual, e essa lembrança pode ser, especialmente se o sobrevivente tiver disfunção de stress pós-traumático, acompanhada por ansiedade, causando reações que podem variar de uma agitação moderada até auto-mutilação, até um ataque de pânico sério)

Por causa das razões listadas acima, eu realmente acredito em fazer avisos de conteúdo para, por exemplo, posts na internet. Por isso que eu coloquei essa postagem sob uma tag de “leia mais” e adicionei um aviso antes. Quando você está escrevendo livros, é uma parte de seu trabalho escrever sobre coisas como estupro, como violência sexual, como auto-mutilação, como tortura, como crimes de guerra. Por que é o seu trabalho com um escritor, mesmo se você estiver escrevendo fantasia, que você reflita a realidade. (Ninguém que acredita em avisos sobre conteúdo acredita que você não deveria poder escrever sobre essas coisas na Internet; eles apenas acham que tudo deveria ser taggeado com avisos. Isso é justo: etiqueta é parte de se estar na internet, o que é por outro lado diferente de livros publicados, totalmente não-policiados). Uma vez que a você não é mais permitido escrever sobre essas coisas, você elimina a habilidade da arte de dizer algo significativo sobre elas. E isso é um dano cultural enorme.

Nós lemos para sabermos que não estamos sozinhos. Assim disse CS Lewis. Nós lemos porque experiências compartilhadas são mais suportáveis. Nós lemos para saber que mesmo que nós não conheçamos pessoas como nós mesmos na vida real, elas estão lá fora no mundo. Nós lemos para estarmos nas cabeças dessas pessoas. Nós lemos, se amamos livros, porque não há uma pessoa entre nós que não tenha tido um livro ou um personagem que pegaram as partes fragmentadas de nossos corações quebrados e colocaram elas no lugar por apenas serem como nós

Do meu e-mail:

A coisa principal que eu quero te agradecer é o personagem Alec. Eu também sou gay, e eu amo como você criou uma pessoa. Não um personagem em um livro para adicionar algo de diferente, mas você criou uma pessoa nele. Em Cidade das Almas Perdidas, a parte em que ele fala sobre como é doloroso como milhares de cortes de papel todos os dias me levou a lágrimas. Eu amo o fato que você criou alguém real, e não uma caricatura de algo que as pessoas querem ver.

(Estou colocando essa carta aqui não porque eu estou comparando a homossexualidade com a violência sexual, já que os dois não poderiam ser mais diferentes entre si. Eu estou apenas sublinhando o ponto de que ver nós mesmos e nossas experiências, mesmo nossas experiências dolorosas, refletidas na arte é algo significativo e pode ser até curativo). Dizer que estupro é algo que não deveria ser escrito, que violência sexual não deveria ser escrita, é dizer que as pessoas que são sobreviventes de violência sexual e estupro não deveriam ver representações de pessoas como elas nos livros. Também é dizer que os livros não deveriam representar um mundo onde essas coisas acontecem. Esse é um pensamento extremamente perigoso. Se a realidade que o estupro e o abuso sexual existem forem varridas das páginas dos livros, onde as pessoas que tiveram essas experiências irão para encontrar contexto para aquilo que aconteceu com elas? (Sim, há centrais de atendimento para estupro e abuso, há lugares que você pode ir para procurar por ajuda, mas se todos os traços do que acabou de acontecer com você fossem apagadas da mídia, como você sabe que deve procurar ajuda? Como você sabe que você não é um estranho solitário que teve essa experiência ao invés de ser uma em cada quatro mulheres que serão estupradas durante seu tempo de vida?)

O que na verdade eu estou dizendo aqui é: tudo bem que você ache que a cena da agressão sexual em Cidade das Almas Perdidas desperte esses sentimentos. Mas também não tem problema ela estar ali. Os livros não vêm com avisos de conteúdo porque como uma sociedade, decidimos que colocar rótulos de aviso na arte é culturalmente errado. Assim diz o comunicado da Associação de Liberdade para Ler das Bibliotecas Americanas: “Nós confiamos que os americanos reconheçam propaganda e informações errôneas, e que façam suas próprias decisões quanto a o que eles leem e acreditam. Nós não acreditamos que eles estão preparados para sacrificarem sua herança e liberdade de imprensa para que sejam “protegidos” contra o que outros acham que possa ser ruim para eles. Nós acreditamos que eles ainda favoreçam liberdade de ideias e expressão”.

Isso significa que livros podem te machucar. Porque como uma sociedade decidimos que esse é um preço que devemos pagar para liberdade de expressão. Mas essa não é uma dissertação sobre a censura, embora eu poderia certamente escrever uma, mas então seguirei em frente.

Agora, se a discussão toda fosse sobre isso, se fosse uma discussão sobre como a cena em que Sebastian agride sexualmente a Clary foi nojenta e perturbadora, e enquanto eu acho que é muito importante que as pessoas sejam permitidas a escrever sobre aquilo que é nojento e perturbador, eu acho que esse é um argumento que está presente a todo o tempo, está em volta de muitos livros diferentes, e sempre estará.

O que realmente me incomoda é ver as pessoas caçoando da Clary por ter sido violentada sexualmente, e isso é uma espécie de retórica: “a única razão da tentativa de estupro em Cidade das Almas Perdidas foi para mostrar o quão desejável a Clary é”.

Também recebi um e-mail sobre isso com a descrição do que uma pessoa decidiu que a Clary havia pensando depois que havia sido violentada: “Oh meu Deus, eu sou tão gostosa!”. O leitor que me mandou o e-mail (e a postagem vai embora, dizendo em detalhes, sobre o prazer que a Clary tem de que seu irmão quer fazer sexo com ela) disse que quando leu o texto, vomitou. Outros posts tacharam a Clary como uma vagabunda porque depois de ser violentada sexualmente ela está confortavelmente beijando seu namorando, e até mesmo discutindo com ele sobre a ideia de que algum dia no futuro, eles possam ter sexo seguro e consentido (e como foi discutido em Cidade dos Anjos Caídos, com camisinha) – Eu não consigo nem contar a quantidade de cartas que eu recebi me dizendo que eu mencionei camisinhas em meu livro para ser um “choque de valores”! O mito persistente de que “choque de valores” é algo que beneficia os autores, especialmente autores de livros para crianças, realmente tem que ser extinto, mas isso é outro post).

E por isso que eu decidi fazer esse post: porque é perturbador pensar que até mesmo um dos meus leitores passasse por isso e achasse que o estupro é considerado por alguém como uma prova de desejo. É perturbador porque isso propaga ideias terríveis e realmente prejudiciais sobre o estupro. Uma prova de desejo é a última coisa que o estupro é. Estupro não é nem sobre sexo. (Esse é um dos “mitos sobre estupro” que fazem parte de uma série de mitos particularmente prejudiciais da “cultura do estupro” – uma gama de suposições de que estupro e violência sexual que parece reduzir a empatia pelo sobrevivente, para caracterizá-los como um “crime passional”, e transferir a culpa para o sobrevivente desses crimes.) Eu vou apenas dizer isso novamente: Estupro não é sobre sexo. Estupro é violência. Estupro é controle. Estupro é um ataque violento que usa o sexo como uma arma. Não é sexy e certamente não tem nada a ver com a sexualidade do indivíduo atacado.

Estupro é um crime de violência, não uma expressão de desejo. Deem uma olhada na linguagem utilizada para descrever o ataque sexual do Sebastian:

Ele rosnou e saltou para cima dela. Foi como ser atingida por uma bola de demolição. Clary voou para trás, destruindo a mesa de vidro, e caiu no chão em uma explosão de cacos e agonia. Ela gritou quando Sebastian aterrissou nela, empurrando seu corpo contra o vidro quebrado, os lábios retraídos em um rosnado. Desceu o braço em um movimento inverso e bateu na cara dela.

Não há nada de sexy aqui. Não há nada sobre desejo. Nada sobre amor. Nada sobre ser atraente. Clary está no lugar errado na hora errada, na companhia de uma pessoa insana que quer controlá-la. Que quer literalmente quebrá-la. Que acha que ela pertence e a ele. Se a cena é amedrontadora e repulsiva, é porque ela foi feita para ser assim, porque ataque sexual é um crime amedrontador e repulsivo. Não há nada no texto que indique que a Clary acolhe bem as avançadas do Sebastian. E se o Sebastian está excitado, é porque ele está causando dor e exercendo posse sobre ela.

Os mitos do estupro são tão perigosos porque em uma parte muito grande eles são visam as mulheres e garotas, e quando as garotas acreditam nisso elas passam uma vida acreditando que se elas foram violentadas sexualmente, isso é culpa delas. Que é culpa delas se vestir com pouca roupa, por ficarem bêbadas em uma festa, por serem muito bonitas. Estupro não tem nada a ver com ser “bonita”. As duas ideias não deveriam nem estar na mesma sentença. São esses tipos de mito que levam a pensamentos de que a cena de um estupro violento era para mostrar a heroína como alguém desejável. Isso atribuiria às mulheres e garotas a ideia de serem violentamente atacadas sexualmente e receberem um soco na cara foi na verdade a realização de uma fantasia. A cultura do estupro diz que nós, mulheres, queremos isso. Mas a verdade nos diz que elas não querem.

“… e [a cena] não tinha propósito nenhum”.

Ah, a retórica do “não tinha propósito”.

Eu acho que tem duas coisas acontecendo aqui. Uma é sintomática sobre o quão prejudicial é a cultura do estupro, como ela penetra em nossa medula, ossos e mentes. Eu estou falando sobre a discussão sobre como a Clary é “estúpida” – estúpida por considerar confiar em seu irmão, estúpida por pedir a ajuda dele para salvar o Jace, estúpida por emprestar seu cachecol, estúpida por qualquer número de razões que levam à mesma conclusão: é a estupidez dela que fez como que ela fosse atacada sexualmente.

Essa é a essência da cultura do estupro: a inversão da culpa da ação do ataque sexual para o sujeito dele. As pessoas são estupradas porque elas colocam roupas sexys (estupro, não sexo) ou confiam na pessoa errada, ou andam por becos escuros à noite, e se você não for estúpida, descuidada ou uma vagabunda como essas pessoas, você estará protegida de ser atacada sexualmente. [Mito.]

Se a Clary fosse estúpida, se suas ações levassem a que ela sofresse o ataque sexual, então teria um “propósito”, porque então isso seria uma lição. Vou usar uma frase que recebi “A cena teria sido aceitável se isso fosse uma oportunidade de a Clary crescer e aprender”.

Para a Clary crescer e aprender. Como uma sobrevivente de um ataque sexual, ela deveria aprender com isso. Aprender, presumivelmente, como não ser estúpida e não ser violentada. A afirmação de que ela deveria “crescer e aprender” implica que ela foi atacada sexualmente porque ela não era suficientemente madura, ou não tinha sabedoria suficiente. Eu não estou com raiva da pessoa que postou isso. Eu estou triste por ela, porque sentir dessa forma indica que você assimilou a cultura do estupro em um grau onde você acha que a pessoa que precisa aprender uma lição do ataque sexual não é quem cometeu, mas quem sofreu isso.

Então, eu acho que a teoria continua, se a Clary fosse atacada porque ela precisava “amadurecer” ou “crescer”, então (presumivelmente), haveria um propósito. Mas se a cena é apresentada, como eu espero e tinha intenção que fosse, como um ato violento contra ela, o qual ela não fez nada para “merecer”, então “não há propósito nenhum”. Essa é a reação que surge do medo, e um medo compreensível, mas também é algo que apoia e propaga os mitos do estupro que são muito prejudiciais. Qualquer pessoa pode ser estuprada, a qualquer momento, em qualquer lugar, por qualquer pessoa.

Essa é a verdade, e é uma verdade feia e confusa, que não se encaixa perfeitamente em nenhuma “caixa”, portanto é muito amedrontadora. Mas recontar a nós mesmos mentiras perigosas sobre como o estupro acontece porque a mulher é estúpida, e que quando elas são estupradas elas deveriam tratar isso como uma “experiência de aprendizado”, não são uma solução para esse medo.

Em segundo lugar: eu recebo muitas mensagens de ódio sobre o Alec e o Magnus, em uma regularidade que eu diria que chega a ser semanal. Eu sempre penso que em algum momento isso se tornará entendiante, mas não, a cada vez eu fico tremendo de raiva e começo a andar em círculos para esquecer e me acalmar. Já que há uma grande quantidade dessas mensagens, eu tendo a notar que há sempre o mesmo tipo de linguagem se repetindo. Uma das mais comuns reclamações é que eu fiz o Alec e o Magnus gays para “nenhum propósito”, ou “para choque de valores”, ou então “para fazer dinheiro”.

Eu sempre fiquei imaginando sobre o que diabos é tudo isso. A sexualidade do Alec e do Magnus deveria ter sido inclusa apenas depois da paz mundial ter sido criada? Pessoas gays existindo são tão chocantes assim? Alguém é realmente burro o suficiente para pensar que incluir personagens gays em sua história vai te garantir uma boa grana ao invés do que realmente acontece, que seu livro ser mantido de fora de feiras de livros e banido de bibliotecas?

Eu finalmente cheguei à conclusão de que isso é uma linguagem codificada, assim como é sobre esse assunto, para significar que seria satisfatório que o Alec e o Magnus fossem gays se eles sofressem. O fato de que eles são gays deveria causá-los uma dor intensa e angústia. O fato de que o Magnus é basicamente contente com sua sexualidade e nunca está envergonhado, bem, qual é o propósito disso? Ele é bissexual e é feliz, e isso nunca é o propósito do enredo a não ser que ele está ali, sendo bissexual e nunca preocupado quanto a isso. Ele não está ali para ensinar às pessoas heterossexuais nos livros As Lições Importantes Sobre Sexualidade. Ele está ali para se envolver em batalhas e acabar com demônios, o que não tem nenhuma relação com sexualidade, então é apenas injustificável.

E no mesmo contexto, há o desejo de ver a Clary (não o Sebastain) realmente sofrer porque ela foi violentada. Há o desejo de vê-la em sentimentos de dor e trauma.

headsyoulive-tailsyoudie perguntou: A Clary sofre algum efeito sobre que ela foi quase estuprada? Quer dizer, as pessoas não apenas superam algo como isso. Por favor, me diga que ela tem algum tipo de Transtorno Pós Traumático ou algo do gênero em Cidade do Fogo Celestial.

Me entristece ver esse desejo de ver a Clary realmente sofrer horrivelmente por causa do comportamento terrível de uma outra pessoa. Eu posso entender de onde vem isso – a sensação de que se ela sofrer horrivelmente, ela é uma boa garota, que ela está tendo a reação correta para um ataque sexual, e que qualquer culpa que possa se acometer a ela será apagada. Personagens femininas são frequentemente feitas para sofrer muito mais que os personagens masculinos – a capacidade de uma mulher sofrer, a quantidade de dor a que ela é submetida, são frequentemente ligadas às ideias de sua pureza.

Eu vou copiar abaixo um trecho do site Feminist.com sobre a maneira correta de responder a um ataque sexual:

“Duas mulheres não respondem a isso de uma mesma menira… Não nenhuma maneira correta ou preferível para lidar com o sentimentos e reações que você pode se encontrar tendo”.

Como eu disse antes, uma em quatro mulheres serão violentadas sexualmente durante sua vida.

Eu sou uma delas.

Eu baseei as experiências da Clary e suas reações em minha experiência. Eu acho que é muito perigoso dizer que há uma forma aceitável de resposta por ser sexualmente violentada. Cada reação de uma mulher é válida para ela. Transtorno Pós Traumático é uma reação válida. Uma relutância em ser sexualmente ativa ou ter uma reação amedrontadora à intimidade é uma reação válida. Não foi a minha reação. Minha reação foi ficar com muita, muita raiva, e essa é a reação da Clary. A única coisa que a impede de matar o Sebastian é saber que isso matará o Jace. Ela o odeia a partir desse momento, e no epílogo, quando o Jace diz que ele quer matar o Sebastian, ela o interrompe e diz que ela gostaria de ela mesma matá-lo. Sua reação é a fúria contra seu agressor, e eu realmente acredito que essa é uma reação válida. O site Feminist.com lista as muitas reações possíveis para um ataque sexual: com aflição e culpar a si mesma, crise espiritual; raiva e fúria estão em terceiro na lista.

Isso significa que a Clary nunca sofrerá nenhum outro tipo de reação? Talvez ela sofra: assim como não há uma maneira correta de reagir a um ataque sexual, não há hora certa para que isso acnteça. Clary sofreu múltiplos traumas e seu mundo está oscilando na beira de uma guerra gigantesca: muitas pessoas, como uma estratégia para lidar com isso, anulam seus sentimentos até que aquilo que elas precisam resolver seja resolvido. Mas mesmo que ela nunca se culpe, mesmo que seus sentimentos sexuais por Jace nunca se afetem, isso não a transforma em uma prostituta, ou faz com que sua reação à violência seja inválida ou impossível. Alguns sobreviventes, compreensivelmente e validamente, desenvolvem uma versão ao contato sexual depois do ataque. Outros veem uma cura em atividades de afeição consensual e física como se beijar (ou qualquer atividade física: eu estou usando o beijo como um exemplo porque é o que acontece em Cidade das Almas Perdidas). Ambas as reações são válidas, porque novamente, não há reação errada para uma mulher – ou homem – após terem sido violentados.

Houve aqui muita informação pessoal, e não é algo que eu geralmente compartilho na internet. Como eu disse, eu debati constantemente sobre se eu deveria expor isso. Eu não acho que eu deveria defender meus livros: eles têm uma vida própria e têm que se manter por si próprios. Se você quiser dizer que meus livros são uma porcaria, e que são a pior coisa que já desgraçou o planeta, eu nunca vou argumentar com o seu direito de dizer isso.

Entretanto, essa discussão foi muito além da discussão sobre os meus livros ou o que acontece neles, ou sobre mim como a autora. Quando eu digo “Magnus não deveria ser branco” eu não estou dizendo “eu fiz um trabalho perfeito em retrar o Magnus e em lidar com todos os aspectos de escrever sobre um personagem de uma etnia diferente da minha”, ou quando eu digo “usar isultos homofóbicos contra o Magnus e o Alec não é legal” eu não estou dizendo “eu fiz um trabalho perfeito ao escrever sobre personagens que têm uma orientação sexual diferente da minha”. Eu sei que eu não fiz; eu sei que eu errei em uma quantidade inumerável de vezes. Porém.

Porém, minha caixa de entrada está cheia de mensagens de pessoas jovens confusas e infelizes, que se identificam com a Clary, que sentem que de alguma forma elas estão sendo acusadas. Estão dizendo a elas que elas são “vagabundas” ou “vadias”, que elas são pessoas ruins que apoiam o estupro, embora isso não seja verdade. Algumas são sobreviventes de estupro, que foram esmagadas pelo pensamento que elas falharam ao reagir da maneira certa, e portante o estupro foi sua culpa, ou que elas devem ter gostado disso – uma carta foi de uma garota que estava apavorada que desde que ela foi violentada anteriormente, se ela tentasse fazer sexo com seu namorado agora, isso seria terrível e traumático porque essa é a maneira que ela “deveria” se sentir. Ela não se sentia dessa maneira, mas ler sobre as pessoas dizendo que a Clary beijando seu namorado depois de ter sido violentada e fazendo piadas era inapropriado, e que a Clary deveria obrigatoriamente estar muito traumatizada em fazer o que era assustador para ela. (O que me fez ficar muito trista, porque parte da razão que eu escrevi aquela cena era para retratar uma garota que mesmo depois de um ataque sexual se sentia bem com afeição física consensual; Eu senti que isso destacava o quão diferente essas duas coisas eram. Isso não é, novamente, para invalidar qualquer reação de choque, terror, ou aversão ao contato físico: é apenas para dizer que apresentar esse espectro tem seu valor).

Apenas saiba que gostar de um livro em que um ataque sexual é descrito, não te faz um fã de ataque sexual, assim como ler sobre crimes de guerra não te faz um fã de crimes de guerra, ou ler sobre mistérios de um homicídio não te faz um fã de homicídio. Ler Jogos Vorazes não te faz um fã de violência. Ler Shine não te faz um fã de crimes de ódio. Saiba que se você for atacada sexualmente, seja qual for a sua reação, essa reação é válida. Saiba que se você for atacada sexualmente e você está bem e feliz com sexo consensual e/ou afeição agora, você não é uma vagabunda ou um mau exemplo de mulher. Saiba que assim como não há uma maneira correta de ser uma garota, não há uma maneira correta de ser uma sobrevivente de estupro ou de abuso sexual.

Não é para as pessoas que estão caçoando ou denegrindo a Clary por ter sido violentada que eu estou escrevendo isso: é para essas garotas (e garotos) que escreveram para mim para compartilharem esses pensamentos e medos. Eles compartilharam coisas privadas comigo, e eu pensei que como um gesto de boa fé, o mínimo que eu poderia fazer era compartilhar a mesma coisa em retorno. Eu espero que isso ajude, mesmo que um pouquinho.

* Eu sei que “vagabunda” ou “prostituta” são termos extremamente problemáticos, mas eles, junto com “vadia”, têm sido uma característica dessa discussão e eu sinto que eu não poderia deixá-los de fora; Eu espero que eu tenha implicado no contexto o quão prejudiciais esses termos são.

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7 comentários em “Cassandra Clare fala sobre a tentativa de estupro em Cidade das Almas Perdidas”



  1. Letícia. disse:

    Gente, coitada da Cassie. As pessoas entendem as coisas de maneira deturpada e ela tem que vir a público explicar o contexto do livro;

  2. joice disse:

    Gente isso não esta certo ..ficar jugando o que a cassie escreveu ,pois para mim ela e a pessoa mais inteligente e brilhante que eu ja vi eu posso dizer isso porque sou uma fã de seu trabalho, e sinto o que ela sente quando escreve, cada palavra cada letra.E o que ela escreve vem de dentro dela e ninguém pode julgar ,ainda mais quando ela não fez nada de errado tenha paciência e cuidem de ler direito antes de falar coisa que não sabe …

  3. Mariana Lessa disse:

    Escreveu muito bem!!!
    E peraí, no livro, a Clary não chega a ser estuprada. O Sebastian tenta e muuuito, mas desiste, deixando a menina toda machucada. Alguém viu o estupro em si? Porque eu não li isso…

    1. Keyla C. Carvalho disse:

      Olha, eu acredito que a tentativa de estupro é quase tão ruim quando o estupro em si. O Sebastian chega — se não me engano — a colocar alguns dedos por dentro da cintura da calça da Clary. Ele não consumou o ato em si apenas porque a Clary foi forte o suficiente para impedi-lo. Mesmo que ele não tenha feito o sexo em si, ele chegou muito perto e a Clary tem todo o direito de ter (ou não ter) uma reação a isso, e o Sebastian de ser julgado pelo seu ato.

      1. Mariana Lessa disse:

        Sim, Keyla. Não estou desmerecendo o que aconteceu com a Clary. Óbvio que ela sofreu violência sexual e até me surpreendi pois acho que ela soube lidar bem com o que aconteceu. Só que o ato em si é mais danoso pra mulher. O sexo forçado em si, pois machuca mais o corpo da mulher pela invasão que ela sofre e os danos psicológicos costumam ser mais graves também do que a tentativa de estupro. Fiquei chocada com a resposta da autora e me perguntei se eu poderia ter interpretado o trecho errado.

        1. Keyla C. Carvalho disse:

          Ah, claro, isso é bem verdade 🙂

          1. Gabriela de O.Santops disse:

            Até o próprio Jace tenta fazer sexo com a clary de forma forçada, 1° que eles se agarram quase que o livro todo, até ai achei beleza mais não gostei dele levantando o vestido dela na balada e no quarto tentando desabotoar a calça dela, achei dahora ela ter dito que não estava afim, não que eu não queira ver a 1° vez dois dois, mais não quero que seja daquela forma.





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