30.06

“O Cemitério
Stephen King
Suma – 2013 – 424 páginas

O livro que inspirou o filme O cemitério maldito. Louis Creed, um jovem médico de Chicago, acredita que encontrou seu lugar em uma pequena cidade do Maine. A boa casa, o trabalho na universidade e a felicidade da esposa e dos filhos lhe trazem a certeza de que fez a melhor escolha. Num dos primeiros passeios pela região, conhecem um cemitério no bosque próximo à sua casa. Ali, gerações de crianças enterraram seus animais de estimação. Mas, para além dos pequenos túmulos, há um outro cemitério. Uma terra maligna que atrai pessoas com promessas sedutoras. Um universo dominado por forças estranhas capazes de tornar real o que sempre pareceu impossível. A princípio, Louis Creed se diverte com as histórias fantasmagóricas do vizinho Crandall. No entanto, quando o gato de sua filha Eillen morre atropelado e, subitamente, retorna à vida, ele percebe que há coisas que nem mesmo a sua ciência pode explicar. Que mistérios esconde o cemitério dos bichos? Terá o homem o direito de interferir no mundo dos mortos? Em busca das respostas, Louis Creed é levado por uma trama sobrenatural em que o limite entre a vida e a morte é inexistente. E, quando descobre a verdade, percebe que ela é muito pior que seus mais terríveis pesadelos. Pior que a própria morte – e infinitamente mais poderosa.

A convite da Editora Suma, participamos da leitura coletiva de “O Cemitério”, o livro que inspirou o filme que chegou aos cinemas em uma refilmagem. Gostamos tanto da experiência que agora eu posto aqui a minha resenha do livro com algumas modificações, principalmente para cortar spoilers – e já dou um: o livro se tornou o meu favorito do autor! Caso você queira conferir a leitura coletiva da Suma, que aconteceu em duas semanas (a 1º cobriu a 1º parte do livro e a 2º cobriu as partes 2 e 3), basta clicar AQUI e AQUI (posts no facebook) ou ainda AQUI e AQUI (posts no Instagram) e aproveitar para curtir nossos comentários lá!


Confiram a resenha:

Quando um livro atinge o leitor com um tiro certeiro, fica sempre mais difícil resenhá-lo. Esse é o livro que, famosamente, Stephen King falou que não gostaria que tivesse sido publicado por ser “macabro e sombrio demais”, e, em muitos aspectos, eu concordo. É um senhor livro de terror, em todos aspectos, seja no moral ou no terror propriamente dito, mas também lhe faz pensar sobre os seus limites: e é isso que a gente quer de um livro, que te prenda até você não conseguir largar dele. E esse livro faz isso com maestria.

Assisti a 1º versão do filme “Cemitério Maldito” quando eu era bem pequena e a obra nunca saiu de minha mente. Sempre pensei no filme como um grande filme de terror (mesmo na época que já vi, os efeitos já eram meio passados, mas, ainda assim, a estória me pegou) e confesso que credito grande parte do seu sucesso como adaptação e filme de terror o fato do próprio Stephen King ter roteirizado o filme, que caso você não tenha assistido, faça. Faça agora mesmo. A nova versão também é boa, mas ainda fico com a versão antiga do filme e, claro, o livro, que se tornou meu favorito dele.

E com sua voz calma, tão firme e tão fria, naquela voz que, por alguma razão, podia dar calafrios em Louis, concluiu. — Existem coisas secretas. Achamos que só as mulheres são boas para segredos e acho que elas guardam alguns. Mas qualquer mulher, qualquer mulher que entenda um pouco da vida poderia lhe falar que nunca conseguiu ver o que realmente se passa no coração de um homem. O solo do coração de um homem é mais empedernido, Louis…

A trama é muito, muito bem construída e do tipo que vai direto ao ponto. Me lembro que à página 35 do livro, muito na trama já tinha acontecido, tudo para pavimentar o caminho da família Creed, composta pelo pai Louis, a mãe Raquel, e os filhos Ellie e Gage (e o gatinho Church), que se mudam para uma cidade pequena no Maine (sempre o Maine!), aonde o pai conseguiu um novo emprego, cuidando do hospital na Universidade local. Lá eles moram à beira da rodovia em uma casa grande, que faz divisa com um bosque, e do outro lado da rodovia fica a casa do casal idoso Jud e Norma Candrall.

O começo do livro é realmente desenvolvido para firmar os relacionamentos, principalmente a amizade e o carinho crescente que vai se desenvolvendo entre Jud e Louis, que chega a pensar no senhor idoso como uma figura paterna. Também entendemos o passado de Rachel e a seu complexo relacionamento com a morte, tudo devido ao trauma da morte, durante sua infância, de sua irmã Zelda. Confesso que a Rachel é uma personagem bastante difícil de se gostar, já como ela mesma admite que quando está assustada ou nervosa, se torna agressiva, coisa que automaticamente faz parecer que a personagem está somente dando um “ataque de birra”, enquanto na verdade está se protegendo e tentando evitar de pensar e lidar em seus traumas.

Provavelmente é um erro acreditar que exista um limite para o horror que a mente humana pode suportar. Parece, ao contrário, que certos mecanismos exponenciais começam a prevalecer à medida que o infortúnio se torna mais profundo. Por menos que se goste de admitir, a experiência humana tende, sob muitos aspectos, a corroborar a ideia de que quando o pesadelo se torna terrível o bastante, o horror produz mais horror, um mal que acontece por acaso engendra outro, frequentemente menos ocasional, até que finalmente a desgraça parece tomar conta de tudo. E a mais aterradora de todas as questões talvez seja simplesmente querer saber quanto horror a mente humana consegue suportar conservando uma atenta, viva, implacável sanidade.

Desde o seu primeiro dia em seu novo emprego, Louis se depara com situações estranhas: a morte de um aluno que parece bizarra e a caminhada que Jud leva sua família por dentro do bosque até um “Semitério de Animais” (sim, errado assim, não é erro meu!) que morrem atropelados na rodovia que separa a casa de ambos. Parece um presságio para o que vem pela frente – e é, porque Church, o pobre gatinho, simplesmente aparece morto em um feriado no qual Louis está sozinho em casa. As passagens aonde Louis conhece o Cemitério MicMac, o tal “Cemitério” do titulo, pela primeira vez são realmente hipnotizantes e, em grande parte, assustadoras: me perguntei como Louis estava entrando naquela situação tão absurda e sem volta, mas também é bastante compreensível o amor de um pai por sua filha, ainda mais com a resistência em sua casa de se conversar e entender o sentido da morte.

O livro, dividido em 3 partes, traz em sua 1º parte bastante pensamentos sobre a morte e a forma como os personagens encaram a fragilidade da vida humana, enquanto a 2º já começa com os mesmos personagens reagindo a uma morta irreparável em suas vidas. Um acidente que muda tudo: Alguém é atropelado na porta de sua casa ao atravessar a rodovia, fazendo a vida de alguns personagens tomarem um curso cheio de desespero, afinal, perder alguém tão inesperadamente assim faz isso com qualquer pessoa.

A dúvida (se é que há alguma, realmente), começa com Jud explicando por que Louis não deveria trazer nenhum morto de volta. O leitor sabe que isso vai acontecer por que não há como não acontecer: Quem não traria de volta dos mortos alguém que amasse e já se foi? Mas aqui temos um dilema que poderia ser moral: se você tivesse possibilidade de trazer de volta alguém que você ama (e se culpa, mesmo tendo plena consciência de que não foi sua culpa), você faria qualquer coisa por isso, mesmo correndo o risco de não ter a pessoa realmente de volta? Um dos personagens aceita o risco. E a maior parte das pessoas provavelmente também aceitaria.

Simplesmente temos fé de que não vai acontecer. A fé é uma grande coisa, Ellie, e as pessoas realmente religiosas querem que acreditemos que não há diferença entre fé e conhecimento, mas não acho que seja assim. Porque há muitas ideias diferentes sobre o assunto. O que sabemos é o seguinte: quando se morre, uma das duas coisas acontece, ou nossas almas e nossos pensamentos sobrevivem de alguma forma à experiência da morte ou não sobrevivem. Se sobrevivem, podemos pensar muita coisa, há possibilidades infinitas. Se não sobrevivem, então não sobra nada. É o fim.

King mostrou que é capaz de entender diversos tipos de luto: algumas vezes ele aproxima as pessoas e, em outros casos, afasta, cada um vivendo seu sofrimento fechado em seu próprio universo de dor. A forma como os personagens começam a se afastar, até o ponto de um deles pensar por qual motivo teria de ser o único que deveria cuidar e ajudar os outros é de partir o coração porque te mostra o quão humano o personagem é, ao mesmo tempo que você sente nojo por seu egoismo. Toda a trama “humana” do livro é absurdamente envolvente e ainda destaco todo o relacionamento de Louis com o sogro, que chega ao ápice da tensão durante o livro. Acho que esse é o maior mérito do livro, realmente fazer o leitor pensar sobre a fragilidade da vida e de nossa moralidade quando o sofrimento nos atinge fortemente.

Ainda há, claro, o fator moral mencionado acima: vale a pena tudo para ter alguém que você amava e perdeu, de volta em sua vida? Quem se foi e é enterrado no Cemitério MicMac não volta “inteiro” e Jud deixa isso claro para Louis. Mas um plano é construído para se trazer um morto de volta a vida e tudo até poderia ser feito como o personagem queria, mas , em uma especie de “elo psiquico”, outra personagem começa ter uma espécie de premonição do mal que irá se abater sobre os personagens vivos. E então tudo sai dos trilhos. É interessante ver a ingenuidade, por assim falar, do personagem que arde tal plano: ele acredita que pode trazer o morto de volta e então o “analisar” e, caso não fosse o mesmo, o mataria. Sabemos que nada disso aconteceria.

Todo o final do livro é realmente “de terror”, como o próprio King falou em uma entrevista postada pela própria Editora Suma alguns dias atrás: é horrível, grotesco e te faz se sentir nauseado, princialmente a forma “não-humana” que o morto volta a vida: agora era uma espécie de besta vulgar. Tudo que acontece com outra personagem também é intenso e te faz questionar como a personagem ficou depois dos eventos finais do livro (leria um livro com ela facilmente. Espero que King me escute e escreva esse livro hahahaha).

O passado. Fotografias num álbum. Histórias antigas contadas em quartos que talvez parecessem quentes demais para eles. Eles não eram velhos, não havia artrite em suas juntas, o sangue deles não tinha enfraquecido. O passado eram alças de caixões a pegar, erguer e depois largar. Afinal, se o corpo humano era um envelope para guardar a alma — cartas de Deus para o universo, como muitas igrejas ensinavam, o caixão da American Eternal era um envelope para guardar o corpo.

Minha conclusão do livro é: maravilhoso. Se tornou o meu livro favorito de Stephen King por todo esses dilemas, sem contar a forma como o terror realmente está presente no livro. Não tem explicações demais (algumas coisas ficam mais assustadores justamente não explicadas) e os personagens passam de extremamente difíceis de se gostar para personagens que podemos nos relacionar e imaginar que (infelizmente) teríamos as mesmas reações em seus lugares. King mostrando porque é o Rei do terror.

A edição da Suma não é a capa dura e não faz parte das capas padronizadas da Coleção Biblioteca Stephen King (acredito que ainda deve sair uma edição futura do livro), mas, em compensação, existe uma jacket (com um cartaz do novo filme), que vem junto com o livro, então você escolhe qual capa do seu livro. Não encontrei nenhum erro, absolutamente nenhum, de digitação. Mais um livro com a qualidade que a gente já sabe: 5 estrelas para um livro também 5 estrelas.

Para comprar “O Cemitério”, basta clicar no nome da livraria:
Saraiva, por R$ 41,52 com o cupom LIVRARIA20.
Amazon, por R$ 46,71.
Cultura, por R$ 46,72.
Submarino, por R$ 47,99.
Martins Fontes, por R$ 64,90.

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