18.03


“Água turva”
Morgana Kretzmann
Arte de Capa: Tereza Bettinardi
Companhia das Letras – 2024 – 272 páginas

Da vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2021, este thriller de tirar o fôlego brinca com os limites entre a verdade e a ficção. Com uma narrativa impressionante, Morgana Kretzmann retrata elementos da história recente do Brasil e denuncia a ambição de homens poderosos diante de um dos nossos maiores tesouros: o meio ambiente.

Parque Estadual do Turvo, Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina. A guarda-florestal Chaya é a responsável por combater a caça exploratória de animais silvestres no parque. Preta, sua prima, separada da família ainda na infância, é a líder de um temido grupo de caçadores e contrabandistas que vive no lado argentino da fronteira, os Pies Rubros. Olga, assessora parlamentar de um ganancioso deputado, é forçada a voltar à cidade onde cresceu para ser porta-voz da tragédia ambiental que se anuncia ― até perceber que está nas mãos dela a chance de mudar o curso da história.

De inimigas a aliadas, as três acabam obrigadas a vencer um passado turbulento para enfim construir uma possibilidade de futuro para todos. Mas elas não estão sozinhas: Sarampião, a figura mítica de um guarda-florestal e protetor da mata, parece acompanhá-las e ajudá-las na batalha.

Se há algo que a literatura pode fazer com toda habilidade e excelência é mostrar ao leitor a cultura de outros estados e regiões bastante distantes fisicamente da sua região natal. Como estamos em um país de dimensões continentais, parece natural haver culturas diferentes e foi bastante significativo ler algo situado no extremo Sul do país, com sua cultura e até mesmo a fala própria, mistura do português com o espanhol, língua falada em países que tem divisa com o nosso. Conheci a autora graças a Companhia das Letras, e ela falou maravilhosamente sobre seu segundo livro, que será publicado amanhã, 19 de março.

Água Turva” me mostrou um sul que não conhecia, com uma linguagem, cultura rica, crença forte, ligação com a natureza e como segredos de família podem destruir os vínculos mais fortes – mas bem, isso poderia acontecer em qualquer estado, região ou país do mundo. Um thriller ecológico escrito de uma forma que a narrativa vai sendo montada pouco a pouco, com pedaços de uma horrenda trama política, o leitor se depara com uma imagem espelhada do Brasil atual.

Ela saca a arma. O adolescente não larga a pedra. Os segundos passam, até que Chaya se deixa atingir pelo impacto daquele olhar, daquela cena, a sensação de recusa em normalizar a barbárie da qual ela faz parte, o impacto do preço da palavra não dita, da ação já feita. Guarda a pistola no coldre. Dobra os joelhos, senta-se e põe a cabeça entre as pernas. Ângelo, que ainda tem o adolescente na mira, observa Chaya, analisa o corpo miúdo da colega de pele fina, acobreada, que não tem nem trinta anos, vestindo aquele colete à prova de balas dois números maiores que seu tamanho. Admira aquela profissional. O uniforme sempre impecável, os cabelos pretos, compridos e lisos, amarrados num coque, mostrando que, apesar das condições precárias de trabalho, leva a sério o dia a dia exaustivo de guarda-florestal naquele interior extremo e esquecido do Brasil. Uma mulher forte que não deveria se deixar abater pela fragilidade daquele momento.

Temos 3 protagonistas nesta história: Olga Befreien, assessora do deputado estadual Afrânio Heichma, jornalista com um passado que a faz querer evitar a cidade que nasceu e palco da trama, Dourado, no interior do Rio Grande Sul, sofrendo com os avanços do Deputado enquanto espera tomar posse do seu cargo na TV estatal que o homem trata como sua. A segunda personagem protagonista é Chaya Sarampião, bisneta do homem que se tornou quase um mito na cidade de Dourado, protetor do parque Turvo, atualmente uma guarda florestal que ama e cuida daquelas flora e fauna com um vigor intenso e necessário. Já a terceira protagonista é Preta, a líder dos Pies Rubros, e que tem uma visão de vida quase que completamente oposta a de Chaya, apesar das duas mulheres terem uma ligação muito maior do que o leitor espera quando a trama começa.

Como se torna óbvio já nas primeiras páginas da trama, Olga está lidando com toda frustração de querer sua estabilidade financeira ao assumir seu cargo na TV Estatal, mas o Deputado, que é um personagem asqueroso (para usar um adjetivo suave) está usando isso para tentar conseguir mais da mulher – sim, isso mesmo que você está pensando – ao mesmo tempo que está empenhado em fazer o povo da cidade aceitar a barragem da Hidrelétrica Binacional Gran Roncador. O motivo? Dinheiro.

Olga desliga o telefone sem se despedir. Observa os papéis na mesa, pensa em jogá-los longe, junto com o celular. Tenta se concentrar no futuro, no porquê de continuar no gabinete do Heichma e pensa mais uma vez na sua liberdade, na estabilidade profissional e financeira que terá quando for chamada para tomar posse no cargo de repórter na tve/rs — a televisão do estado do Rio Grande do Sul — por ter passado no concurso público há dois anos. Uma segurança que só a carreira na televisão estatal lhe trará. Algo que ela não conseguiria em nenhum outro lugar, acredita piamente nisso. Mas em função do jogo político, hoje, Heichma é a única pessoa que pode fazer com que ela assuma ou não o cargo, já que o presidente da estatal, além de ser do mesmo partido, deve favores ao deputado e é ele a pessoa com poderes de liberar o nome de Olga para sair no diário oficial. Por mais que ela se pergunte, até onde vou conseguir aguentar?, seu objetivo é muito claro.

A hidrelétrica na cidade irá gerar ótimos frutos ao Deputado e outras figuras da República, enquanto não se importam com o impacto ambiental e muito menos as vidas dos agricultores que terão suas terras inundadas, assim como parte do Parque do Turvo, que também será atingido pela água represada. Parece óbvio que algo assim não deveria seguir adiante, mas estamos falando de uma trama no Brasil e claro que nem tudo funciona como deveria ser em nosso país. Pensando em agilizar o processo, o Deputado Heichma manda Olga a Dourado, esperando que a jornalista usasse o fato de ter nascido na cidade para tentar emplacar uma opinião positiva sobre a represa, mas anos atrás, Olga fez algo que foi considerado uma imensa ofensa a memória de Sarampiao, se tornando uma figura nada bem quista na cidade. O que o Deputado não contava era que estava fomentando na jovem mulher uma coragem imensurável provocada por nojo de ter esse homem com seus avanços sobre ela.

Enquanto vamos vendo a construção e evolução da personalidade de Olga, acompanhamos também Chaya em seu árduo trabalho como guarda florestal. É um choque e uma chamada a realidade ao leitor para pensar e entender um pouco mais desse trabalho que é essencial e, por muitas vezes, perigoso. Cuidar de nossa flora e fauna deveria ser bem mais reconhecido em nosso país e por todos nós brasileiros.

Preta não confia na polícia brasileira nem na argentina. Ali, naquele lugar na fronteira, onde as regras são feitas e quebradas por ela e só por ela, ninguém mexe com sua liberdade nem com a liberdade do seu grupo. Duas facções, armadas e perigosas, têm tentado invadir o território argentino por aquele lado, uma paraguaia e outra brasileira. São os Pies Rubros, sob o comando de Preta, que têm conseguido guardar aquela área para não iniciarem uma guerra, isso há alguns anos. Em troca, as pessoas realmente poderosas do lugar, as que mandam naquele lado fronteiriço, não mexem nem com ela nem com seus negócios. Sair dali pode ser perigoso.

Ao mesmo tempo, mostrando o outro lado do trabalho de Chaya, temos Preta, uma personagem que está aqui para testar nossos limites em uma situação ambígua. Com uma visão diferente e escolhas em sentido oposto da guarda florestal, Preta é também uma personagem forte, intensa, repleta de convicções que lhe foram transmitidas por uma avó que também transita pelo limite moral que impomos durante a leitura.

Claro que os destinos das 3 personagens irá se chocar, levando o leitor a uma trama profunda sobre a proteção de nossas terras. Confesso que não sabia que havia realmente a ideia de uma hidrelétrica no Parque do Turvo, fato totalmente real – aqui a ficção se mistura diversas vezes com a realidade justamente na parte política de toda narrativa, tudo isso enquanto vemos 3 personagens femininas fortes desempenharem papéis cruciais para aquela região. “Água Turva” é um livro poderoso, forte e real, perfeito para quem quer navegar por este país e ler um pouco mais de nossa realidade, por mais indigesto que seja.

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