28.02


“O céu está em todo lugar”
Jandy Nelson
Tradução: Marsely de Marco Martins Dantas
Novo Conceito – 2016 – 384 páginas

Eu deveria estar de luto, não me apaixonando. Às vezes é preciso perder tudo, para encontrar a si mesmo… Lennie Walker, obcecada por livros e música, tocava clarinete e vivia de forma segura e feliz, à sombra de sua brilhante irmã mais velha, Bailey. Mas quando Bailey morre de forma abrupta, Lennie é lançada ao centro de sua própria vida, e, apesar de não ter nenhum histórico com rapazes, ela se vê, subitamente, lutando para encontrar o equilíbrio entre dois: um deles a tira da tristeza, o outro a consola. O romance é uma celebração do amor, também um retrato da perda. A luta de Lennie, para encontrar sua própria melodia em meio ao ruído que a circunda, é sempre honesta, porém hilária e, sobretudo, inesquecível. Às 16h48 de uma sexta-feira de abril, minha irmã estava ensaiando para o papel de Julieta e, menos de um minuto depois, estava morta. Para minha surpresa, o tempo não parou com o coração dela. As pessoas continuaram indo à escola, ao trabalho, a restaurantes; continuaram quebrando bolachas salgadas em suas sopas, preocupando-se com as provas, cantando nos carros com as janelas abertas. Por vários dias, a chuva martelou o telhado da nossa casa ― uma prova do terrível erro cometido por Deus. Toda as manhãs, quando me levantava, ouvia as incessantes batidas, olhava pela janela para a tristeza lá fora e me sentia aliviada, pois pelo menos o sol tivera a decência de ficar bem longe de nós.

Se você já enfrentou o luto profundo em sua vida, eu sinto muito. Sinto muito por ter perdido alguém que você ama e que não encontrará mais nesta vida. Já passei por isto, e acho que por entender tão bem o lugar no qual a personagem principal, Lennie, está, que esse livro me acertou como um soco na cara. Não quero pintar de cores bonitas esta resenha e dizer que a jornada da personagem é simples ou fácil ou que suas escolhas são as mais certas porque quem está em profundo sofrimento não tem a menor ideia de como fazer aquela dor parar: a pessoa só quer respirar por um breve momento sem dor, sem sentir seu coração apertado dentro do peito. Quem está de luto normalmente erra profundamente e não por maldade, mas simplesmente porque não sabe aonde colocar tanta dor pra fora.

Também não estou falando que as pessoas ao seu redor tem a obrigação de lidar com quem está de luto ferrando tudo e sendo grosseiro, mas quero dizer que só quem esteve lá entende. E para embarcar na jornada de Lennie, você realmente precisa compreender isso e aceitar para você. Mas vamos lá, vamos ao ponto de partida da narrativa: Bailey, a irmã mais velha e basicamente um raio de sol irradiante, um dia estava lá, no outro não mais, e agora Lennie precisa aprender a lidar com o fato de sua irmã, melhor amiga e inspiração simplesmente… sumiu. Já tive conversas demoradas sobre qual o tipo de morte “menos pior”: aquela que você pode ver alguém adoecendo e se despedir ou um acidente que simplesmente tira a pessoa de você. A verdade é que não importa a sua resposta, perder alguém é uma porcaria e é com isto que Lennie tem que lidar agora.

Estou no mesmo lugar em que estava quando o telefone tocou naquela noite, ecoando pela casa, ecoando por um mundo acima de qualquer suspeita. Fazia a lição de química, odiando cada minuto, como sempre. O forte aroma de orégano do fricassé de frango da vovó pairava pelo quarto e tudo o que eu queria era que Bailey viesse logo para casa a fim de comermos, pois estava com fome e odiava isótopos. Como isso podia estar acontecendo? Como podia pensar em fricassé e moléculas de carbono quando, do outro lado da cidade, minha irmã estava dando o último suspiro? Que tipo de mundo é este? O que fazer diante disso? O que fazer quando a pior coisa que pode ocorrer realmente acontece? Quando se recebe o telefonema? Quando se sente tanta falta da voz da irmã que o desejo é rasgar a casa ao meio, com as próprias unhas?

Bailey tinha um namorado, Toby, com quem Lennie começa a ter conversas e a encontrar conforto em seu desespero, tudo isso enquanto conhece Joe, um garoto novo, que chega ao colégio e claro que vai começar a mexer com a cabeça da garota, que já está completamente perdida. Sei que o romance aqui tem uma participação importante no enredo e é em parte dele que encontramos o pesar e o luto de Lennie, mas, novamente, não acho nem justo reduzir a narrativa a simplesmente com uma personagem que está se apaixonando porque, sinceramente, acho que nenhum dos seus sentimentos são saudáveis ou reais naquele momento. Claro que uma grande confusão vai acontecer ai, mas Lennie é tão mais do que todo romance que eu preciso apontar isso novamente.

Lennie é uma dor ambulante, se posso falar isso. Ela escreve e rabisca o tempo inteiro, querendo colocar seus sentimentos para fora, querendo… alguma coisa. Lennie não tem a menor ideia do que está fazendo ou como está magoando as pessoas, até mesmo sua avó ou seu tio, que basicamente a criaram junto com a falecida irmã, já como a mãe de ambas simplesmente foi embora. Sempre deixando Bailey a frente de tudo, o mundo de Lennie parece estar rodando ainda enquanto ela está parada no mesmo lugar de quando sua irmã saiu de casa para ir ensaiar a peça da escola da qual fazia parte e nunca voltou. E é assim que precisamos entender que a jornada da personagem vai acontecendo.

Como vou sobreviver a esta saudade? Como os outros fazem? As pessoas morrem o tempo todo. Todo dia. Toda hora. Há famílias no mundo olhando para camas em que ninguém mais dorme, para sapatos que não são mais usados. Famílias que não precisam mais comprar um tipo específico de cereal, de xampu. Há pessoas em todo lugar na fila do cinema,comprando cortinas, passeando com cachorros, enquanto, por dentro, com o coração despedaçado. Durante anos. A vida toda. Não acredito que o tempo cura. Não quero. Se curar, não significa que aceitei o mundo sem ela.

Eu sempre vejo muitas pessoas apontando o dedo para Lennie e falando sobre como ela é errada e todas suas atitudes são erradas, e não vou tentar falar que a adolescente está certa porque ela não está. Nada está certo. O mundo não está certo nem pra ela, nem para sua avó. Nem pra Toby. Nem para seu tio, por mais que ele tente mostrar que está bem e aceitando o inevitável correr da vida. Pra mim, isso fica cada segundo mais e mais claro nas passagens em flashback, nos quais temos Bailey ainda viva, conversando com Lennie ou simplesmente sendo ela.

A jornada que vai acontecendo entre as personagens é o tipo de leitura que vai te prendendo de um jeito que o leitor não consegue largar o livro simplesmente porque quer que Lennie pare de sofrer – ou quer mais da avó da personagem, de sua sabedoria e seu cultivo de plantas, tudo enquanto vamos nos apegando a Joe e descobrindo mais sobre Bailey porque sim, ela era melhor amiga da irmã mais nova, mas isso não significava que ela não tinha uma vida própria com alguns segredos guardados. Não há espaço para ressentimento aqui porque Bailey não está mais lá, e tudo que Lennie pode fazer é tentar. Continuar tentando. E levando o leitor com ela por toda jornada de dor que ela vai percorrendo.

A cada dia que passa, mais rastros da minha irmã se apagam, não apenas do mundo, mas também da minha própria mente, e não há nada que possa fazer, além de me sentar em um refúgio sem fragrâncias e sem som e chorar.

O livro ganhou um filme que adapta a história com a novata Grace Kaufman será Lennie e a adaptação conta com a participação da própria autora, Jandy Nelson, escrevendo o roteiro, enquanto a produção fica a cargo da Warner Bros – o filme já está disponível na AppleTV e confesso que ainda não o vi, mas pretendo.

No final das contas, aqui temos uma grande história de amor entre duas irmãs que a morte separou. Não sei como terminar essa resenha pelo simples fato de que sei que o luto não tem fim, e sei que Lennie vai continuar sentindo a falta de Bailey por toda sua vida, enquanto viver, e por mais que ela aprenda e entender que sim, a vida vai continuar e que o céu está em todos lugares, ele será um pouco menos azul, um pouco menos brilhante, com um pouco menos de calor. Porque é isso que acontece quando você perde uma parte de si mesma, aquela pequena partezinha que vive em outra pessoa: você continua, por você e por aquela pessoa, mas sempre sentindo a falta dela. E isso, assim como o céu, não tem fim.

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