30.04


“Cupim”
Layla Martínez
Tradução: Joana Angélica d’Avila Melo
Arte de Capa: Elisa Von Randow
Alfaguara – 2024 – 120 páginas

Todas as casas guardam a história daqueles que as habitaram. As paredes dessa construção perdida no meio do nada falam de vozes que surgem sob as camas, de santas que aparecem no teto da cozinha, de desaparecimentos que nunca se esclarecem. À luz do dia, os vizinhos evitam suas duas moradoras, mas todos as procuram pedindo ajuda quando se veem desamparados. A avó passa os dias conversando com as sombras que vivem atrás das paredes e dentro dos armários, enquanto a neta, que não residia mais ali, volta a viver na casa após um incidente com a família mais rica do povoado. Agora, desenredando a história do lugar, as duas começam a perceber que as sombras que vivem ali sempre estiveram ao seu lado.

Considerada uma das vozes mais originais da nova literatura espanhola, Layla Martínez faz deste romance um marco da ficção especulativa e do horror.

Queria dizer que “Cupim” me surpreendeu, mas seria uma mentira porque assim que li a sinopse, pude imaginar o que viria com a trama. E não me decepcionei em absolutamente nada. Um dos livros mais duros, difíceis e satisfatórios que li nos últimos anos (e olha que li “Sociedade da Neve” há menos de 6 meses), o livro tem o tamanho de um conto maior (também chamado de novela) e que o leitor pode ler em algumas horas e apesar de alguns problemas que tive com a narrativa, é o tipo de livro que vou usar como referência por muitos anos.

Não havia tido contato com a escrita da autora Layla Martínez, mas já havia lido sobre e visto diversas menções a seu trabalho. Espanhola, lançou “Cupim” em seu idioma original em 2021 e desde então ganhou holofotes sobre seu trabalho. Enfim sendo publicado no Brasil agora, obviamente corri para ler este livro tão bem pontuado sobre ficção especulativa com toques de terror, menções a santos e sobrenatural. Mas como explicar essa trama, que é tida como um terror feminista? 

Quando transpus o umbral, a casa se precipitou sobre mim. Este monte de tijolos e imundície sempre faz isso, se lança sobre quem quer que atravesse a porta e lhe retorce as tripas até deixá-lo sem fôlego. Minha mãe dizia que esta casa faz os dentes das pessoas caírem e seca as suas entranhas, mas ela partiu daqui há muito tempo e eu não me lembro dela. Sei que dizia isso porque minha avó me contou, embora não fosse preciso porque eu já sei. Aqui caem os seus dentes e o seu cabelo e as suas carnes e se não tomar cuidado você fica se arrastando de um lado para o outro ou se joga na cama e não se levanta mais.

Vou começar dizendo que você precisa prestar bastante atenção na trama a princípio. As duas protagonistas, a Avó e a Neta respectivamente, não tem seus nomes revelados durante a trama, mas as duas têm ponto de vistas: a Neta abre a narrativa, ficando com os capítulos ímpares, enquanto sua Avó fica com os capítulos de números pares. As vozes das personagens são tão distintas que até mesmo a escrita transmite isso: a escrita da Avó é mais cuidadosa, sem erros gramaticais, enquanto a Neta, talvez pelo que esteja vivendo, talvez pela juventude, pensa tudo de uma vez e, por isso, sem vírgulas, os pensamentos turbulentos borbulhando e levando o leitor a quase sufocar com eles.

A trama é sobre a casa da família. Na verdade, não: a casa é o cenário principal, com uma presença tão forte que é uma personagem ativa na trama. A história é sobre uma família e 4 gerações de mulheres desta mesma família: a Avó e a Neta, e a mãe da Avó e a mãe da Neta, todas em linha descendentes diretas. E é pela mãe da Avó que a trama começa, mostrando como a casa entrou na vida daquelas mulheres que viriam a viver, nascer e morrer ali.

Tirei as roupas de dentro da mochila e botei em cima da cama. Quatro camisetas, dois suéteres, cinco calcinhas, cinco pares de meia e a roupa que eu vestia quando tinha que ir ver o juiz: uma calça preta e uma blusa florida. Essa blusa e essa calça eram as mesmas que eu usava para as entrevistas de emprego porque com elas também queria transmitir que era inocente e boa e que portanto estava mais do que disposta a ser explorada de forma selvagem. Com o juiz funcionou isso de parecer inocente, mas com os empresários não. Acho que viam a raiva na minha cara porque eu sorria apertando os dentes. O único trabalho que consegui foi cuidar do filho dos Jarabo, para quem não importavam a blusa e a malquerença porque minha família sempre havia servido a deles e assim iria continuar sempre, não importava como eu me vestisse nem o rancor que nutrisse por eles.

No mundo no qual vivemos, é notório que as pessoas pobres têm menos oportunidades, precisando trabalhar dez vezes mais duro para conseguirem ascender financeiramente. Já o pai da Avó decide que não quer continuar sendo pobre assim o resto da vida. Para conseguir melhorar de vida, ele decide usar seu charme e enganar mulheres da pior forma possível – não vou entrar em detalhes para não estragar a trama, mas provavelmente a realidade do livro é pior do a que você está imaginando. É com o dinheiro ganho de forma tão errada que ele se casa com a mãe da Avó e dá a ela de presente um sobrado com móveis de madeira. E o que parece um presente é, na verdade, uma prisão. Ou uma maldição, dependendo de como você veja.

O casamento está fadado ao insucesso desde seu começo e crédito isso a forma como a esposa aceitou aquele homem abjeto e violento – como a própria Avó pensa certa altura, talvez motivada pela ideia de que mudaria o homem, mas alguém que usa os outros e constrói sua vida em cima do sofrimento alheio não merece receber o benefício da dúvida. Então a casa começa a “falar” com a esposa, suas sombras e vozes participando ativamente em tudo que acontece com o marido, suas paredes descolando rancor e infelicidade, o piso exalando sofrimento. Parece só haver um único desfecho possível para aquela geração.

Em minha neta eu também deveria ter dado um bom pisão mais de uma vez. Ou uma boa bofetada. Deveria ter arrancado o que ela tem dentro antes que aquilo lançasse raízes e se agarrasse às suas tripas. Os santos do céu e as almas do purgatório bem sabem que eu tentei. Subi descalça até a ermida da Virgem e rezei novenas, mas nem ela quis me atender. Agora é tarde, percebi no dia em que minha neta começou a trabalhar para os Jarabo. Os santinhos tinham me dito mas eu não quis ver. Ela arranjou esse emprego sem me dizer nada e então me dei conta. Aquilo tinha crescido nela tal como em minha mãe, tal como em mim. Fiz o que pude, mas as coisas que uma pessoa tem dentro não são arrancadas com facilidade. Nesta casa sabemos disso muito bem.

Então temos a vida da Avó e a forma como ela e sua mãe começaram a se ressentir uma da outra, cada uma com seus motivos. Nem mesmo o casamento com Pedro, homem bom, foi capaz de aproximar emocionalmente a Avó de sua mãe – nem mesmo o nascimento da mãe da Neta. A mãe da neta, tão bonita e altiva, uma terceira geração de uma família composta por mulheres, presa a uma casa e uma vida que não queria, parece também está fadada a tragédia. E talvez isso aconteça. Ou não.

E então chegamos na Neta, a quarta e última geração de nossa história. Jovem que acreditava poder fugir daquela vida, se pega trabalhando pra família Jarabo, a mesma que a mãe de sua Avó se recusava a trabalhar para tantos anos atrás, mas sua Avó tem uma longa disputa com eles, mesmo tendo trabalhado na casa da família. E é lá o cenário do crime que a Neta termina sendo acusada e que abre a trama logo em seu início, sem sabermos o que realmente aconteceu, mas entendendo que não há narradores confiáveis nesta trama.

Muito tempo depois, quando as escavações não existiam mais porque todos tinham se mudado pra capital, pra viver em outros casebres mas embaixo do céu em vez de embaixo da terra, eu soube que ele tinha crescido num deles. Por isso muitas mães odeiam seus filhos em segredo e por isso aqui nesta casa temos nos envenenado tanto umas às outras, porque odiamos o que nos faz lembrar de nós mesmas. Para ele aqueles infelizes recordavam sua mãe, com as mãos cheias de frieiras por lavar no rio a roupa de outras pessoas; seu pai, que se dessangrou com uma hemorragia nas tripas por comer grão-de-bico cru que tinha roubado num campo quando não aguentava mais a fome. Quando saiu daquele buraco graças a um grupo de tosquiadores que o admitiu como aprendiz, meu pai disse a si mesmo que não ia voltar nunca mais. E não voltou, nem pro enterro da mãe, dois anos depois. Ele sempre foi fiel aos seus ódios.

Não tenho como falar mais da trama sem entregar pontos chaves, mas preciso também apontar o quão maravilhosa foi esta leitura porque me forçou pesquisar sobre a história da Espanha, cenário da trama. É sempre bom quando um livro nos instigam a tal, agregando mais sobre uma trama que, apesar de não verídica, em parte acontece aos montes, todos os dias, em todo mundo, com sua violência escancarada.

Cupim” é um livro intenso e com toques de terror, dependendo do que você acredita ser terror. Eu, particularmente, não vi terror como um ponto do livro porque tenho outra visão das Sombras e vozes que a mãe da Avó, Avó, mãe da Neta e a própria Neta escutam e vêem, a materialização de tantos anos de mágoa, rancor, ressentimentos, ódio, decepções materializadas – ou você pode acreditar em Santos e intuições e benzedeiras e pragas. Tudo depende de quem vê e como se vê este mundo. E se você se questiona porque o título que este livro recebeu, é porque o Cupim é um inseto que é capaz de comer madeira e uma diversidade imensa de material orgânico. Roendo. Mastigando. Deteriorando. Até mesmo uma alma.

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