“A mão que te alimenta”
A.J. Rich
Record – 2019 – 266 páginas

Não se deixe enganar pelas aparências.

Depois de uma manhã agitada no curso de psicologia forense, Morgan não vê a hora de voltar para casa, no Brooklyn, e trabalhar em sua dissertação. Tudo o que ela queria era ficar sozinha, mas seu noivo, Bennett, está a sua espera. Ao chegar, ela encontra a porta entreaberta. Morgan teme que algum dos seus três cães tenha fugido. Ela abre a porta com o ombro, esperando ser recebida pelos animais. Porém, nenhum deles aparece de imediato. Há marcas no chão, pegadas de cachorros.

Nuvem, o cão-da-montanha-dos-pirineus, é a primeira a vir ao seu encontro, mas sem o ânimo habitual. Seus pelos estão vermelhos de um lado, como se ela tivesse se sujado em uma parede com tinta fresca. Sangue. Morgan procura sinais de ferimentos, mas não encontra nada. Nem nos dois pit-bulls, George e Chester.

Ela avança pelo corredor, e as manchas de sangue que encontra parecem cada vez maiores. Por fim, vê Bennett caído no chão do quarto, a perna em cima da cama. Logo percebe que ele está olhando para cima. Ou estaria, se ainda tivesse globos oculares. A pele das mãos foi arrancada. E a perna em cima da cama não está ligada ao resto do corpo, ela foi arrancada.

Bennett foi atacado, destroçado e morto pelos cães. Mas como isso pode ter acontecido, se Nuvem, Chester e George são extremamente dóceis? Algo não faz sentido nessa história, e tudo fica ainda mais estranho quando Morgan, ao tentar localizar a família de Bennett, descobre que esse não era seu nome verdadeiro. Mas mal sabia ela que encontrar o noivo morto foi só o início de seu maior pesadelo.

Comecei a ler “A mão que te alimenta” com uma expectativa boa porque a sinopse trazia uma situação completamente inédita para mim em um livro de suspense (deixo “Cujo”, de Stephen King, de lado porque é mais terror do que suspense) com cachorros matando um de seus donos. Isso realmente me intrigou porque bem, quem não ama doguinhos, não é mesmo? Falei sobre o livro em minha coluna de lançamentos literários do mês de Fevereiro (leia clicando AQUI) porque isso realmente me chamou a atenção. Agora, indo direto pra trama, preciso dizer que sim, ela me pegou e não pelas reviravoltas do enredo (que eu adivinhei!), mas sim pela forma como a autora (que na verdade são autoras, falo mais sobre isso adiante) conduziram a trama, sem prolongar demais e escrevendo um livro de suspense na medida para se ler em dois dias.

A partir do que a sinopse do próprio livro já dá, ao chegar em casa e dar de cara com uma cena grotesca (realmente gore), obviamente Morgan surta e precisa de ajuda médica para tentar recomeçar. O peso da culpa foi gigantesco porque ela insistiu em adotar os dois pitbulls que são os supostos responsáveis pela morte de seu amado noivo Bennett, o cara perfeito (sim, a luz acendeu aqui, claro, porque homem perfeito… não existe, nem na ficção hahaha). Depois de ficar um tempo internada e arrasada, Morgan se dá conta que precisa voltar para casa e falar com a família de seu noivo, a qual nem a polícia consegue encontrar… o que significa que eles não existem – pelo menos não com o nome que o noivo lhe dera. Obvio que a partir dai ela vai começar a investigar e tentar entender o que estava acontecendo com sua aparente vida perfeita.

Hoje eu não responderia a nenhuma dessas perguntas como respondia um ano atrás. E isso porque eu criei esse teste. Eu seria a pessoa que redefiniria o conceito do predador identificando o que define uma vítima. O questionário fazia parte da minha dissertação de mestrado em psicologia forense na Faculdade de Justiça Criminal John Jay. Um filósofo disse certa vez: “O limiar é o lugar para se fazer uma pausa.” Eu estava no limiar de tudo o que queria.
Eis a pergunta que faria hoje:
Eu posso perdoar a mim mesma?

A melhor coisa sobre a protagonista é que ela está se especializando em Psicologa Forense com ênfase em Vitimologia, o que a deixa mais apta a entender que existem muitas, muitas coisas erradas na história que seu noivo lhe contou – justamente porque ela estuda as vítimas, papel que se vê agora. Ela não fica sentada esperando um homem surgir para lhe ajudar e muito menos espera a polícia para descobrir as coisas: ela toma as rédeas da investigação em suas mãos e começa a procurar quem realmente Bennett era. Apesar disso, falta um pouco de carisma a Morgan, até porque durante o livro você vê que ela está indo pelo caminho errado e tem vontade de sacudi-la ao mesmo tempo que doí ver o sofrimento da protagonista com dois dos seus três cachorros presos pela vigilância sanitária e prestes a serem executados (George e Chester são os pitbulls, enquanto Nuvem é a cachorra que ela criava há anos). Interessantemente, os cachorros são personagens que você torce bastante para eles serem inocentes naquela trama que vai se tornando maior e maior.

Estou tentando falar do livro sem dar nenhuma informação vital que entregue spoilers, mas acredito que vocês entenderam que tem muito que envolve Bennett e sua vida, que vai se tornando mais e mais confusa para Morgan, que começa a tentar juntar as peças desse quebra cabeças através de lembranças, entendendo que por mais que ela própria estudasse crimes, quando se está apaixonada, a emoção tolda seu julgamento concreto, ficando claro pra ela agora que seu noivo tinha um comportamento que beirava a sociopatia de tão manipulador que era – e esse é o ponto alto do livro pra mim, a forma como o livro começa mostrar as diferenças entre os tipos de distúrbios mentais.

Quantos sociopatas são necessários para trocar uma lâmpada? Um. Ele segura a lâmpada enquanto o mundo gira ao seu redor.

O grande mistério do livro envolve justamente o lado mais sombrio dos humanos e até onde se pode ir justamente para conseguir saciar seus impulsos violentos e dominadores. As pistas do livro são pequenas e sutis, e somente prestando bastante atenção você consegue desvendar tudo antes do final, que preciso assinalar que é o ponto fraco do livro: corrido demais, tudo se revela e encerra em poucas páginas. O livro tem essa qualidade de não se estender mais do que necessário, mas, nesse caso, faltaram algumas páginas para que pudéssemos realmente sentir o impacto de todas as descobertas na protagonista. Quando terminei o livro, fiquei me perguntando como ela iria sobreviver depois de descobrir que foi empurrada para um jogo que jamais quis participar e como isso impactar sua profissão. Talvez tenhamos mais livros com a personagem e eu não me importaria de ler mais para saber qual o rumo ela tomou em sua vida.

Por fim ainda destaco a lista de personagens secundários, começando por Steven, o irmão de Morgan, que faz o papel que lhe é necessário em uma situação dessas. Morgan ainda fica se consultando com uma psiquiatra chamada Calli (claro, depois de todo o trauma que passou de encontrar os cachorros banhados de sangue e o corpo mutilado de Bennett), é mais do que compreensível que ela precise de ajude por todas as páginas da trama. Existe ainda Billie, a gentil voluntária que facilita a vida de Morgana para ela ver seus animais apreendidos, e, por fim, McKenzie, o advogado de causas animais que tenta ajudar Morgana a salvar seus cães. Com poucos personagens, todos relacionamentos são bem colocados e não ficam pontas soltas entre eles.

Os sociopatas representam quatro por cento da população, mais de doze milhões de americanos. Não são necessariamente criminosos ensandecidos. A maioria é sedutora, inteligente e sabe simular preocupação e até amor. Mas eles não têm consciência, não sabem o que é empatia e não sentem culpa nem vergonha pelo comportamento. Também são grandes manipuladores. Durante a infância e a adolescência, nove por cento dos sociopatas torturam ou matam animais.

A edição da Record está ótima: muito bem diagramada, sem erros encontrados e é um livro leve, fácil de manusear e que você pode realmente ler rapidamente. Uma última curiosidade: a autora A.J. Rich na verdade é um pseudônimo para as autoras Amy Hempel e Jill Ciment, que escreveram a história juntas. Mas fica aqui um último conselho: se você sente seu coração apertar com animais e os desdobramentos de donos malucos e o que eles fazem com seus animais, talvez o livro não seja pra você. Porém, se você se questiona frequentemente sobre a natureza humana e o impacto dela até mesmo em seus animais, “A Mão que te alimenta” realmente é um livro que você precisa ler e conhecer.

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