Resenha: The Sixth Faction – Veronica Roth

“The Sixth Faction”(#1)
Veronica Roth
HarperCollins – 2026 – 528 páginas
Beatrice Prior está prestes a tomar uma decisão que todos em seu mundo precisam enfrentar: cinco facções, cinco futuros, cinco vidas.
Ela tem um plano: fará a escolha mais corajosa e deixará a Abnegação para se juntar à Audácia, mesmo que isso signifique abandonar sua família.
Mas, quando uma tragédia acontece durante a cerimônia de escolha, tudo muda — seu mundo, seus planos e até a própria Beatrice.
Sua decisão a lançará no centro de uma rebelião clandestina, onde um garoto com segredos tão perigosos quanto os dela — um garoto que tem apenas um número como nome — pode ser a única pessoa em quem ela pode confiar.
Uma escolha mudará tudo.
O ano era 2011, e eu me apaixonei por “Divergente”. Era uma fase difícil na minha vida: minha mãe tinha sido diagnosticada com câncer, e eu me apeguei àquele mundo com uma ferocidade gigantesca, porque sempre AMEI distopias, e o mundo que Veronica Roth estava escrevendo me atraiu demais: uma garota comum foi jogada em um mundo no qual deveria saber se defender, se superar e amadurecer, além de descobrir que era diferente dos outros, com um interesse amoroso incomum, um cara fechado que não era charmoso, que não estava tentando conquistar a garota de cara e muito menos queria se envolver com ela ou qualquer outra pessoa. Acompanhei a publicação de “Insurgente”, ainda em inglês, e virei a noite quando o livro foi publicado no ano seguinte. Então, em 2013, além de estar sofrendo pela perda da minha mãe, li “Allegiant” (que aqui no Brasil foi publicado como “Convergente”) e ganhei mais um ponto para meu luto, e não pelos motivos que você pode pensar: eu aceitaria tranquilamente a morte da Tris se fosse realmente um momento catártico, não da forma como foi feita, com David ferido na cadeira, sem precisar se levantar, e com Tris decidindo enfrentá-lo mesmo sem sua arma, que deixou para trás. Era óbvio que ela seria alvejada, e assim aconteceu. Para piorar, ela não só morre, como o Four fica com Christina, a melhor amiga dela. Foi… horrível.
Apesar disso tudo, não larguei completamente a mão de Veronica Roth, que enfrentou uma séria (séria mesmo) rejeição dos fãs da trilogia, e ainda li algumas de suas obras seguintes. Muitos não aceitaram a morte de Tris e foram verbalmente bastante claros sobre isso. Roth é da época do Tumblr, quando ela e Cassie conversavam com os fãs e respondiam a quase todas as perguntas feitas a elas (bons tempos), sem tanto bullying ou coisas do tipo. Enfim, o fim foi tão mal recebido que Roth largou seu Tumblr, afastando-se um pouco da internet, e ninguém pode dizer que ela estava errada. Entre todas as falhas de “Allegiant”, havia uma coisa que me incomodou profundamente: a forma como as vozes de Tris e Four eram parecidas em seus distintos capítulos e pontos de vista. Escrito em primeira pessoa, acredito que seja um dos maiores desafios para um autor colocar em palavras os pensamentos das personagens, principalmente para que sejam diferentes. Acredito piamente que Roth falhou nisso na trilogia original, até porque os dois primeiros livros são todos com POV da Tris, sendo o último, por motivos óbvios, com dois pontos de vista.
Então, em abril deste ano, todos foram pegos de surpresa com o anúncio de dois novos livros dentro do universo de “Divergente”. Mas não são sequências. Não são spin-offs. Também não é um prelúdio. Então, o que seriam? Seria uma jogada inédita dentro das publicações de grandes editoras: basicamente, um universo alternativo em que Tris não teria escolhido a Audácia e continuaria na Abnegação, sendo que, alguns meses antes, ela tinha mandado uma newsletter com um conto com essa premissa, algo que parecia muito despretensioso, mas que agora parece ter sido feito para testar a reação dos fãs. Parecia ser uma forma de Veronica tentar apagar a péssima reação dos fãs e se aproximar deles novamente, 12 anos depois. Mas, agora que li o livro e também os agradecimentos, realmente acredito no que ela disse e vem dizendo em entrevistas desde o anúncio: foi a forma que encontrou de se apaixonar novamente por esse universo, que entregou tantos momentos incríveis, como a cena da roda-gigante e muitos outros. Muitos falam sobre como odeiam universos alternativos, mas, sinceramente, estou agradecendo aos deuses da leitura por eles, porque me deram “The Sixth Faction”, que, em português, se torna “A Sexta Facção”, e já tem sua continuação, “The Last Ceremony”, com publicação marcada para 2 de fevereiro de 2027.
E falei tudo isso para chegar a hoje, dia 11 de outubro, o domingo subsequente à publicação em inglês do primeiro livro. Não temos parceria com a editora em inglês e muito menos com a Rocco, editora que publicou os livros originais aqui no Brasil, mas o impacto que “The Sixth Faction” teve em mim foi tão forte que não paro de pensar nele desde que o li. É como voltar para um lugar que conheci e que me decepcionou, mas que agora está de volta, deixando-me encantada por personagens que já conheço em uma nova história que não sei como vai acabar e que é tão boa quanto a original. Essa resenha também não terá quotes, porque li em inglês.
O livro começa exatamente igual ao primeiro, e começar a ler as primeiras linhas me pegou de uma forma inesperada. Mas, logo ali no começo, as coisas se mostram levemente diferentes: Tris ainda é muito ela, ingênua, abnegada e curiosa, com uma grande vontade de ser mais, de estar mais, de viver mais, mas a escrita de Roth mudou, e mudou para melhor. Menos crua e com mais profundidade, agora podemos ver como Tris já se inquietava em seu mundo cinza na Abnegação, além de começar a entregar mais do que a trama vai nos lançar. Mas sabe o que realmente pega o leitor de surpresa? Não é algo inédito. Não é algo totalmente novo. É a trama que sabemos e conhecemos: Tris é divergente e, como tal, não se encaixa nem obedece aos testes nem aos soros, que aqui aparecem muito mais cedo do que na trilogia original. As cinco facções estão presentes, e Tris está se preparando para seus testes e, depois, para a Cerimônia de Escolha entre Audácia, Abnegação, Erudição, Amizade e Franqueza. Sim, há a cena com Tori antes e a descoberta de que ela não se encaixa exatamente em um lugar só, mas Tris já sentia isso em seu coração antes.
Mas a grande mudança acontece durante a Cerimônia, com um ataque feito justamente por essa “sexta” facção, que é exatamente o que qualquer pessoa que já leu os livros originais imagina que seja: os sem-facção. A partir daí, Tris sente que precisa ficar na Abnegação, e assim o faz. Depois que jura ficar no lugar em que já estava, Tris começa a ser tomada pela certeza de que fez a escolha errada, e é aí que sua mãe realmente diz o que ela precisa ouvir, ajudando a garota a fugir e a se juntar justamente aos sem-facção. Tris aceita por alguns outros motivos também, e é aí que descobrimos que Natalie conhece a líder do sexto grupo, Evelyn Eaton. E aqui preciso dar todos os créditos do mundo a Roth, porque tudo o que conhecemos acontece aqui, mas de outra forma. Todas as informações, tramas e informações que nos são dadas nos livros originais também estão aqui, como Evelyn e sua manipulação, mas também temos mais informações claras sobre quando ela era casada com Marcus — que, a propósito, continua o mesmo traste de antes. Mas também temos mais vislumbres de Andrew dentro da facção, do que ele sabia e do que não sabia, tudo dentro de um mesmo contexto que a trilogia original não nos deu, mas que, ao mesmo tempo, é exatamente o que poderíamos imaginar.
Aprendendo a viver entre os sem-facção, Tris adota o apelido que se tornou seu nome real e recebe outra pessoa que se torna sem-facção — e não, não é o Four. Lembrem-se de que, no primeiro livro, Peter e seus amigos perseguem Tris, atacando-a diversas vezes e até mesmo levando outro iniciado a perder um olho. Agora, sem Tris lá, o que iria acontecer com Peter? Iria se tornar uma pessoa melhor e não atacar ninguém? Claro que não. Então, outra pessoa se tornará alvo dele, e aí vem uma surpresa, porque tudo continua acontecendo: a cena da luta, a cena da emboscada, tudo continua acontecendo, mas com outra pessoa. E é essa pessoa que Four ajuda a se tornar sem-facção, porque ele tem contatos entre esse pessoal… e sim, você sabe quem. E é essa pessoa que justamente faz com que Tris e Four se conheçam alguns capítulos antes, acreditando que Tris pode ajudar Four em um caminho inverso ao que aconteceu nos livros originais, já que aqui ela se tornaria “mentora” dele e lhe mostraria alguns caminhos. E a construção deles aqui é perfeita. Perfeita. Perfeita.
Tris e Four não estão na mesma facção e, por isso, os encontros entre eles são pontuais e inventivos, mostrando-nos que há mais movimentação dentro de Chicago do que imaginávamos na trilogia original. Mas, sinceramente, depois que eles começam a conversar, o que você quer é que tudo se exploda e eles continuem conversando mais e mais. Lembram-se de que falei que a escrita de Veronica Roth está mais madura? Isso se reflete tanto nos pontos de vista das personagens — sim, porque aqui temos os pontos de vista de Tris, Four e… Caleb — quanto na construção do romance entre os personagens. Sim, Tris pensa que Four é lindo quando o conhece, mas Four sequer reconhece Tris quando a vê no primeiro encontro em que param para conversar. A forma como dividem o que sentem e seus traumas vai se encaixando de uma forma espetacular, e momentos que aconteceram antes se repetem aqui, como a famosa cena da roda-gigante e a cena do simulador de medos, mas tudo em outro contexto, formando um relacionamento complexo e profundo, algo que se pode questionar na primeira versão dos personagens.
Ainda procurando se encaixar em seu “novo” lar, Tris ainda quer aprender a lutar e atirar, mesmo que os instrutores deste novo mundo não vejam sentido nisso por ela ser fisicamente pequena. Entre os sem-facção, há ainda pequenos grupos que cuidam da sobrevivência do grupo, e é assim que ela se junta aos Fox, um grupo que rouba comida para manter todos. É assim que ela começa a entender que o ataque do começo do livro faz parte de uma trama muito, muito maior, da qual os sem-facção fazem parte e que envolve a líder dos Eruditos — pode entrar, Jeanine Matthews. O que começa a se formar é algo que faz um espelho muito distinto com a vida real: aqueles que não estão no poder e tentam derrubar um governo ditatorial querem realmente um mundo melhor ou só estão tentando encontrar um caminho para chegar ao poder? E, mesmo que estejam supostamente pensando em todos, será que continuarão pensando assim quando tiverem todos os recursos em suas mãos, ou seus sentimentos tomarão conta? Nós já sabemos a resposta disso.
Como falei acima, o livro tem três pontos de vista e, dessa vez, Veronica Roth conseguiu dar uma voz específica a Four, que é simplesmente deliciosa. Sim, eu li os contos dele e não acho que aqui seja a mesma sensação, porque em “The Sixth Faction” vemos um Four que sente raiva, mas é irônico, que sabe amar os amigos (sim!) e até mesmo se diverte. E ainda vemos Four começar a se permitir amar Tris depois de anos enterrando Tobias Eaton dentro dele. Já Caleb tem um ponto de vista em terceira pessoa e, apesar de não podermos ler os pensamentos dele, temos a certeza de que ele continua a mesma pessoa de antes: uma confusão ambulante, que quer ser bom e ajudar a irmã e os pais e, ainda assim, cede ao que pode ser mais fácil e ao que acredita ser o melhor para aqueles ao seu redor e com os quais se importa. Caleb, para mim, sempre foi alguém que me despertava bastante desconfiança e também curiosidade, e agora, aqui, só digo que ele foi o catalisador de uma grande cena no livro, algo inesperado e que nos coloca em caminhos inéditos e desafiadores, mesmo que ressoe momentos antigos.
Se vocês me perguntarem qual é a principal lição que tiro deste livro e do que estamos vendo aqui, é algo bem simples: normalizarmos o fato de os próprios autores escreverem releituras de suas obras caso os anos passem e eles se sintam descontentes com as originais. O que mais me surpreendeu nisso foi a HarperCollins estadunidense aceitar publicar estes dois livros, porque não há como saber a reação dos leitores, mas, sinceramente, estou feliz e queria comprar até a edição em capa dura, porque está lindíssima, mas minha conta bancária falou algo diferente. A surpresa é que realmente é uma nova história que mostra que as pessoas são quem são e estão determinadas a determinadas coisas e momentos, mas uma única decisão de uma única pessoa é capaz de mudar tudo, sim. É algo grandioso, se você pensar racionalmente: entender que, se alguém decide ir por um caminho e não por outro, afetará não só a sua vida, mas a de todos aqueles cujos caminhos se cruzarem com os seus; um labirinto de possibilidades desfeitas e novas possibilidades, tudo que poderá levar a pessoa até um determinado ponto ou não, confiando em seus instintos e nas pessoas ao seu redor. E, hoje, estou escolhendo confiar em Veronica Roth para nos dar um final satisfatório para uma história que merece uma nova chance.
O ano era 2026. E eu me apaixonei por “Divergente” tudo de novo.
Para comprar “The Sixth Faction”, basta clicar no nome da loja:

