Resenha: Outros mundos além desses (O Talismã 3) – Stephen King e Peter Straub

“Outros mundos além desses” (O Talismã 3)
Stephen King e Peter Straub
Tradução: Regiane Winarski
Suma – 2026 – 664 páginas
Jack Sawyer leva uma vida relativamente tranquila em Dezi, no litoral dos Territórios, o estranho mundo para o qual viajou aos doze anos para salvar sua mãe. Agora, divide seus dias entre as responsabilidades com seu ka-tet e as missões ocasionais para Youngblood, governante da cidade. Mas essa rotina termina quando ele é enviado em uma missão entre os mundos para recuperar livros e bebidas inexistentes em Dezi e investigar sinais inquietantes vindos das Terras Arrasadas.
O que parecia uma tarefa simples logo se transforma em uma luta por sobrevivência. Enquanto investiga os crimes de uma gangue de adolescentes possuídos que espalha terror pelos Estados Unidos, Jack descobre que algo sombrio desperta além do deserto radioativo. Velhos aliados ressurgem sob novas formas, criaturas antes distantes tornam-se ameaças imediatas e forças desconhecidas avançam à medida que a fronteira entre os mundos começa a se desfazer.
Com o futuro do Mundo Médio e da Torre Negra, eixo de todas as realidades, mais uma vez ameaçado, Jack precisará confrontar seu próprio legado e reunir todas as forças possíveis para enfrentar a batalha mais importante de sua vida.
Começo por aqui hoje agradecendo profundamente à minha Editora favorita da vida, a Suma, pelo envio antecipado de “Outros mundos além desses”. Terceiro livro da trilogia “O Talismã”, que começou como um dos livros mais cultuados de King em uma parceria com Peter Straub, mas que apresentou um segundo volume que nos mostrou que tudo do Kingverso realmente estava conectado de formas que os próprios fãs ainda não tinham conseguido imaginar. Straub nos deixou em 2022, mas, como consta nos agradecimentos deste livro, o pontapé inicial para a ideia do volume final desta trilogia veio dele. Claro que essa resenha será completamente livre de spoilers e você pode ler as resenhas dos volumes 1 e 2, respectivamente “O Talismã” e “A Casa Negra” sem spoilers clicando AQUI e AQUI.
Como comecei falando na minha resenha da semana passada de “A Casa Negra”, sinto que toda a minha vida de leitora me levou até lá – e, agora, aqui. Ler “Outros mundos além desses” foi a maior montanha-russa que percorri na minha vida. Uma fantasia sombria, com pitadas de thriller e aventura, tinha horas em que, enquanto lia, pensava que somente Stephen King conseguiria escrever esse livro dessa forma, e nenhuma outra pessoa no mundo. Espere uma aventura com todos os elementos de fantasia que você pode imaginar, com um protagonista que acompanhamos durante a pré-adolescência, vida adulta e, agora, na velhice, desbravando mundos, correndo risco de morrer, enfrentando o luto, a perda e talvez, salvando o dia. E o mundo. Mundos, no plural.
Está frio e ele está sozinho ao relento, mas ainda é bom estar de volta aos Estados Unidos, o lar dos caixas eletrônicos, dos trailers Winnebago e da torta de maçã. No dia seguinte, ele vai fazer uma visita ao Cassino Howana em Wahoo para fazer um estoque de dinheiro, talvez dar uma passadinha na Toren Livros, em Lincoln, e depois vai visitar Dale Gilbertson. Vai deixar o melhor por último. Tomar umas cervejas e botar a conversa em dia. Esse é o plano, pelo menos.
Como o celeiro não tem telhado, ele vê as estrelas, e ah, Deus (ou Gan, se você preferir), elas são tão brilhantes ali. Há outros mundos além desses, pensa Jack. E vai saber para quantos eu estou olhando agora?
Jack Sawyer quase morreu no final de “A Casa Negra”, e apesar de o segundo volume deixar em aberto no que o leitor queria acreditar, se Jack teria sobrevivido àqueles tiros que recebeu ou não, logo ao lermos a sinopse de “Outros mundos além desses” já sabemos que Jack sobreviveu, sim, e agora mora nos Territórios, como se chama o outro mundo para o qual consegue saltar com facilidade. Nesse “Território”, descobrimos que Jack é único porque a sua contraparte do lugar (aqui chamada de Duplo) morreu ainda criança lá, por isso só existe o Jack daqui, da nossa Terra. Jack sobreviveu aos tiros que tomou depois de toda uma trama incrivelmente bem amarrada e prendeu um assassino chamado “O Pescador”, um canibal de crianças. Por sorte, ele foi levado para os Territórios e assim sobreviveu, mas a pegadinha é que ele agora não aguenta ficar muitos dias na nossa Terra sem que as feridas provocadas pelos tiros se reabram, ou seja, ele não pode ficar aqui na nossa realidade mais do que poucos dias.
Não que ele queira também, afinal, Jack encontrou o amor em Sophie, a Dupla de Judy Marshall, uma mulher que teve o filho sequestrado pelo Pescador. Vivendo agora em Dezi, a vida de Jack é basicamente cuidar das pessoas ao seu redor, viver sua vida tranquila com sua esposa e, eventualmente, vir à nossa Terra para pegar produtos para Edward Youngblood, a figura que governa o lugar. Apesar de ainda ser um governador, Youngblood até se vê como Barão, mas, como todo “bom governante”, ele tem seus vícios – e o dele é a Coca-Cola e livros, ou seja, Jack vem à nossa Terra para pegar o precioso líquido de sangue de dragão (piadoca, é claro) e livros específicos que o homem pede, transformando a figura em algo que poderia ser maior. Em uma dessas missões, tomamos o primeiro grande susto no livro, o qual eu obviamente não contarei, mas que me deixou triste e chocada, pensando em como Jack tem de aguentar a vida de todas as formas mais dolorosas. Enfim, nosso já cansado e exausto herói vem à nossa Terra e aqui descobre que está acontecendo uma verdadeira caça a dois adolescentes que parecem estar completamente fora de controle.
Bem-vindo a Riven, pensa ele.
A estrada de terra vira asfalto erodido quando se aproxima da cidade. Placas tortas, mas ainda legíveis, dizem comida, bebida e hospedagem. Há quatro figuras vestidas de mantos azul-escuros indo na direção dele. Os capuzes estão erguidos. Jack acha que estão andando, mas o movimento parece um pouco mais rápido do que um caminhar. É como se eles estivessem flutuando… e talvez estejam. Jack já viu figuras assim. Havia pelo menos uma dúzia no enterro de Sophie, observando em silêncio enquanto Jack meditava ao lado do corpo dela, que estava envolto em tecido branco no cemitério Longo Vento.
Um recurso que King utilizou aqui que funcionou muito, muito bem é um caderno que Jack está escrevendo, contando suas aventuras, que relembra ao leitor tudo que ele já enfrentou nos dois primeiros volumes. A personalidade de Jack continua do jeito que já cativou todos que o acompanharam a vida inteira: irônico e sagaz, ele apelida Youngblood de Big Kahuna, ou seja, BK, uma clara referência aos sanduíches, já que o homem é obeso. O traço que surgiu durante os anos que acompanhamos Jack é a suavidade que seu amor por Sophie lhe entregou, além de continuar leal aos seus amigos de uma forma feroz, e é assim que a vida de Jack se colide com as dos dois adolescentes que mencionei e que se chamam Roy Kinneston e Tara Lynn Speckhoffer, porque é indo visitar o velho amigo Dale Gilbertson que o caminho dele se envolve nessa trama toda, e, claro, é assim que Jack é jogado no meio dessa trama que é muito, muito maior do que se imagina a princípio.
E ok, a trama de “Outros mundos além desses” espelha um pouco a de “A casa negra” porque logo entendemos que Roy e Tara estão “sofrendo influências” do infame casal real Charles Starkweather e Caril Ann Fugate, e se você for um pouquinho mais velho, como esta que vos escreve, você saberá que foi esse casal que inspirou o filme “Assassinos por natureza”, um clássico de alguns anos atrás. A onda de violência que Roy e Tara estão levando ao estado de Nebraska parece realmente demoníaca de tão intensa, e é aí que Jack entende que não é algo só humano que está acontecendo e como quase tudo, há reflexos nos Territórios, que também começam a ser palco de até mesmo uma explosão que leva conhecidos de Jack. O que começa como uma perseguição começa a se desenrolar como algo mais maligno, e Jack começa a atravessar entre a América e os Territórios para compreender a situação, e é nessas que ele é detido no nosso mundo por policiais, o que coloca a vida dele em perigo real.
— Nós temos um dito nos clãs, Jack: uma amizade que começa com amor tem que terminar com amor — diz Jeryman.
Anda fecha a mão sobre a de Jack e ele sente uma espécie de choque, passageiro, porém profundo, percorrê-lo da cabeça aos pés.
— O amor verdadeiro que nasce de uma amizade verdadeira sempre termina em dor. Foi assim, é assim, vai ser sempre assim. A dor que você sentir vai libertá-lo, mas a escolha de agir é sua: delah can-ko-delah. — Era assim para sempre.
O que parece é que as forças malignas estão fortes demais, e é assim que somos levados à Goela e à forma como ela está influenciando tudo que vem acontecendo em todos os mundos. Não é só um mundo que está em perigo, mas muitos outros, e claro que para chegarmos aí, ao mesmo tempo, vamos vendo outras criaturas de outros livros (Oi, Salem! Quem pegou, pegou), outros pontos dos Territórios, vamos descobrindo sobre a Goela e sim, vamos ouvir menções a nomes bastante conhecidos do Kingverso, como a Torre Negra e outros termos que já vimos, como o “Ka”, porque… o destino continua a girar, e coisas que parecem não se encaixar fazem todo sentido, entregando momentos apoteóticos até o final da trama. Eu prometo isso pra vocês porque dei um gritinho de prazer ao entender como a trama realmente está ligada ao destino e como tudo acontece como deveria ser, ou, pelo menos, gira como tem de ser.
Jack também encontra amigos que vão seguindo com ele porque já compreendemos que uma jornada só não é o que temos em nenhum dos livros, e talvez essa seja a única coisa que posso apontar como falha, que é o eco dessa trama aos outros volumes da trilogia. A sensação que também vamos tendo à medida que a trama vai se desenvolvendo é que a maldade humana pode ser tão grande que se espalha por diversos universos, porque se lembrem de que um Duplo reflete o outro. Um par de violentos assassinos realmente não iria refletir algo bom em qualquer outro lugar, e, por mais que tenha ficado mais do que claro antes, aqui está estampado em letras garrafais que os mundos são conectados. E sim, entendo que vocês querem saber sobre Roland e a Torre Negra, mas acredito que falar mais seria entregar mais do que qualquer fã merece, ou seja, leia para descobrir porque a ideia desta resenha não é entregar a trama para ninguém.
— Jack! — grita ela. — Você não pode fazer isso! Você vai morrer!
Pode ser, mas não naquela porra de Goela, pensa ele, e entra no milho, sem tentar seguir um dos caminhos, mas simplesmente empurrando as plantas para ir mais fundo. Folhas agridem sua pele exposta como espadas. Sarah o chama mais uma vez, mas ela soa muito distante, como se já estivesse em outro mundo.
Ao tentar voltar para o lado dos Estados Unidos na beira da Goela, banhado naquela luz sem calor brutal, ele se concentrou com todas as forças no bonequinho do California Raisins grudado no painel da viatura de Dale. São Cristóvão é o patrono dos viajantes, disse Dale uma vez quando Jack comentou. Já eu tenho o Beebop.
Mas Jack sabe qual é a versão de são Cristóvão no Mundo Médio, e sabe muito bem. É o lendário pistoleiro Roland Deschain, que partiu numa busca infinita pela Torre Negra, o eixo da eternidade, e finalmente a encontrou em um campo de rosas. Jack já viu a estátua do ka-tet de Roland na praça de Mejis e sonhou com ela no hospital de Taylor.
O principal traço aqui que quero destacar é a mudança no tom da narrativa. Enquanto em “A casa negra” temos uma narrativa de terceiro narrador que participa da trama junto com o leitor, pontuando lugares ou momentos essenciais, aqui temos a narração clássica do King, com parágrafos grandes, diálogos que parecem surreais, momentos em que os personagens são absurdamente humanos e também desastres e violência, muita violência. O tom que deixou tão marcado no volume prévio não volta, mostrando a influência de Straub na trilogia, já que ele infelizmente faleceu, deixando um vacuo nos corações de nós, leitores de terror. Fica claro que King ama o amigo e presta diversas homenagens a ele durante a trama.
Quando você termina de ler este calhamaço (sim, é um livro grande de verdade) de páginas, a sensação de despedida de um amigo de longa data fica, mas, ao mesmo tempo, a sensação de ter embarcado em uma trilogia repleta de magia, aventura, momentos hilários, momentos assustadores, momentos constrangedores, tudo isso como só King entrega, se sobressai acima de tudo. Foi uma longa jornada com meu amigo Jack Sawyer, mas algo me diz que algo mais está vindo aí sobre o Kingverso, e não digo livros e sim em outros formatos porque “Carrie”, a nova releitura do livro de King em formato de série no Prime, está prometendo entregar algo que muitos fãs desejam há anos. Seja como for, é uma senhora aventura digna deste mundo e outros além desse – ou desses porque quem pode afirmar que eles não existem?
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