24.11


“Um passo de cada vez”
Iris Figueiredo
Arte de capa: Ale Kalko
Seguinte – 2022 – 264 páginas

Da mesma autora de Céu sem estrelas, esta é uma história delicada sobre ter coragem para falar o que guardamos bem lá no fundo e para nos abrirmos a novos caminhos.

Mari mal se lembra da última vez que se sentiu bem dentro da escola. Desde que seus colegas começaram a espalhar boatos horríveis a seu respeito, ela está mais sozinha do que nunca. E, para aguentar os meses que restam até o fim das aulas, ela só pode contar com as músicas do Tempest, que não saem dos seus fones de ouvido.

Quando a banda anuncia um show na sua cidade, Mari decide fazer de tudo para viver esse momento ― e compartilhá-lo com outros fãs. A partir daí, os vídeos que posta despretensiosamente na internet passam a ter mais e mais alcance, ela conhece um garoto que faz seu coração acelerar como uma batida de rock, e novas possibilidades surgem para seu futuro. Mas será que Mari conseguirá dar esses novos passos enquanto guarda tantas feridas de seu passado?

Antes, um aviso: este livro contêm gatilhos de bullying, assédio sexual e transtornos alimentares, então se você se sente perturbade por estes assuntos, pedimos que você procure ajuda. Você não está sozinho, por mais que possa parecer. Existem profissionais aptos a estender a mão para te ajudar a se equilibrar quando a vida está chacoalhando ao seu redor. Além dos links indicados no começo deste livro, também indicamos o Centro de Valorização da Vida – CVV. Você pode ligar 188 em qualquer horário e receber ajuda.

Representatividade importa, sempre, em todos lugares, em todas frentes, para todos que não são padrão, seja fisicamente, seja de alma. É sempre um sentimento forte quando lemos um livro que nos representa, a sensação de ligação com as personagens nas páginas transbordam, levando a sentimentos que o leitor tem em suas lembranças ou até mesmo está passando atualmente em sua vida. Há muito para você, que está naquela famosa fase turbulenta de sua vida, também conhecida como adolescência, se ver e entender um pouco mais sobre seus sentimentos. Há muito para você, que não se sente confortável em sua própria pele, se ver nessas páginas. Há muito aqui, muito mesmo – E posso dizer que me vi representada por Mari de “Um passo de cada vez” em muitas, muitas passagens.

Toquei no ícone de gravar e vi os segundos começarem a correr.
Er… oi! Eu sou a Mari.
Pisquei, respirei fundo e resolvi recomeçar.
Oi, pessoal, meu nome é Mariana e sou nova nesse negócio de gravar vídeos, então tenham paciência.
Levei uns segundos pensando no que diria em seguida. Olhei para o celular e imaginei que estava conversando com a Nina.
Acho que todo mundo já teve um momento da vida meio esquisito. Eu estou vivendo esse momento. Tudo parece meio fora do lugar, sabe? Só que tem uma coisa que está sempre lá: as músicas da minha banda favorita.
Fiz uma pausa. Será que estava bom o suficiente?

Antes de começar a falar da história de Mariana, preciso apontar que “Um passo de cada vez” é a história do livro “Confissões on-line” reescrita. Lançado há uma década atrás, a Editora Seguinte sabiamente propôs o relançamento, o que foi (também sabiamente) aceito por Iris, que reescreveu a história. Em uma entrevista no final do livro, Iris deixa claro que a história mudou bastante e, ainda na apresentação, a autora também deixa claro que essa versão é: “…é a história que eu quis contar desde o início, só não tinha ferramentas suficientes para fazê-lo.”, segundo suas próprias palavras.

Não li “Confissões on-line” (que tem uma continuação chamada “Confissões on-line 2: entre o real e o virtual”) escrito pela Iris de 19 anos, mas afirmo que “Um passo de cada vez” é um livro que chegou muito na Virna que sou hoje em dia, anos passados da fase adolescência, então está mais do que válido. E ah, uma última informação: este livro traz personagens de outro livro da autora, “Céu sem estrelas” (o qual já resenhamos: clique AQUI para ler), ou seja: os livros e contos da autora (como “Pisando nas Nuvens)” e o conto “A Revolta dos Salgados”, parte do livro “De Repente Adolescente”, todos já resenhados e vocês podem ler clicando AQUI) se passam no mesmo universo – e ainda teremos mais duas histórias neste universo, tudo contado pela própria autora na entrevista. Acho que deu pra entender que aqui somos fãs da Iris, certo?

Acho que todo mundo corre pra algum lugar quando quer fugir daquilo que faz mal. Pra mim, esse lugar foi o Abajur, o primeiro álbum do Tempest. Eu conheci eles no final do ano passado, logo depois do lançamento. “Nossos sinais” caiu no aleatório e eu amei. Eu adoro a sensação de tropeçar numa música, encontrar as palavras certas meio sem querer, a melodia perfeita pra expressar aquilo que não consigo colocar em palavras. Foi assim que me apaixonei pelo Tempest, meio por acaso, num tropeço. E depois disso, caí num buraco.

Ainda em linhas gerais antes de começar a falar sobre a trama em si, preciso apontar que Mari é uma garota que não está nos padrões que a sociedade exige: é alta e tem mais peso do que todos acreditam que deveria ter. Ela teve um namorado, Cadu, que quando terminaram, pareceu a coisa mais natural do mundo, como se todos esperassem que o casal não poderia durar muito tempo juntos. Ela se questiona muito, o tempo inteiro, sobre quem é e como ela não está inserida em todos lugares que queriam que ela estivesse e chega a se sentir inútil – e eis aqui para você, que me lê: é assim que nos sentimos em muitas passagens de nossas vidas. E olha o choque: não só na adolescência.

Agora seguindo diretamente para a trama, a vida de Mari, que está no último ano do ensino médio e irá prestar o ENEM, está completamente fora do rumo: vitima de uma situação desesperada causada por um garoto do colégio, Mari teve o relacionamento com seu namorado de 2 anos destruído e, de quebra, ainda “perdeu” a sua melhor amiga, Heloísa, que agora está namorando com seu ex-namorado. Mari também não sabe exatamente que curso deseja fazer na faculdade e ainda se sente só porque o mundo dela está implodindo, já como não contou a sua família o que realmente aconteceu com o amigo do seu agora ex-namorado, com o ex-namorado e com sua ex-melhor amiga. Mari também ama a banda Tempest e decide que quer ter toda experiência de ir ao show da banda: de pegar a fila para comprar o ingresso até mesmo ficar horas na fila para entrar na casa de shows Lore e se espremer na grade para poder ver os 4 integrantes de sua banda favorita e que embala sua vida. Mari também não se sente tão próxima dos pais, Marta e Oscar, e nem da sua irmã mais velha, Melissa, e decide gravar um vídeo que publica on-line falando sobre como é ser fã e o que a Tempest representa em sua vida – e o vídeo começa a se espalhar, mas nada que realmente mude sua vida. Mas Mari é bastante teimosa e, ainda se sentindo extremamente deslocada dentro do colégio aonde antes era como uma segunda casa, ela decide arrastar sua melhor amiga Nina para comprar os ingressos para o show da Tempest – mesmo contra a decisão de sua mãe, que queria que a garota comprasse os ingressos pela internet.

Às vezes, eu me sentia sozinha.
Fiz cara feia para Melissa e ela se tocou.
Desculpa, só falo besteira — ela disse, e eu continuei em silêncio. — Você é linda, não precisa mudar nada.
Eu assenti, mas um silêncio incômodo recaiu sobre nós. Nossa companhia era o reality show ruim e, mesmo sem querer, fiquei pensando se algo seria diferente caso eu fosse magra.

Diante da infelicidade de ter seu ingresso para o show da Tempest e não poder comparecer porque sua mãe proibiu, sem ter amigas na escola mais (Nina agora está estudando em outro colégio em tempo integral), Mari grava mais um vídeo contando sobre como ela está infeliz com o que aconteceu – e, novamente, o vídeo começa a espalhar mais do que o esperado. Entre o drama de ir para o show e não ir, a vida da garota está realmente prestes a dar uma guinada. Mari só não esperava que viesse como veio, e em parte disso tem a ajuda de Arthur, um cara muito bonito que trabalha na Lore e que conheceu no restaurante que almoça todos os dias.

Mas a vida de Mari tem mais do que somente o drama de ir ao show da Tempest ou não porque Nina parece estar passando por problemas que não é capaz de compartilhar com ela, enquanto a própria Mari ainda precisa enfrentar o que aconteceu com seu colega de escola e o horror que tudo aquilo lhe trouxe: a culpa, a raiva, o nojo, o desespero, o silêncio, a injustiça – principalmente por ter sido silenciada por pessoas que confiava e acreditava que podia confiar. E aqui quero deixar claro que a trama vai desenvolvendo em seu enredo mais sensível com calma, sem apressar em nada, nem mesmo em apresentar os eventos para o leitor, deixando para todos imaginar o que aconteceu com pequenas pistas aqui e ali, até que tudo se desenrola em uma confissão que é capaz de partir o coração de qualquer leitor.

Eu não sei o que vou fazer da vida — respondi, empurrando para debaixo do tapete o real motivo que tinha me levado até ali. — O Enem é daqui a três semanas, e não faço a mínima ideia do que quero pro futuro. Acho que não tenho talento pra nada.
Só quando disse aquilo em voz alta me dei conta de que era verdade. Eu não me sentia talentosa. Melissa tinha decidido o que queria muito cedo, já que era apaixonada pelas revistas que lia na adolescência e tinha herdado da minha mãe o gosto pela leitura. Meu pai era bom no que fazia e levava a profissão com seriedade — tanta seriedade que às vezes eu me perguntava se ele gostava mais do trabalho do que da nossa família.
Em que eu era boa?

Quando você ler a sinopse, o leitor pode ser levado a acreditar que o encontro de Mari com a Tempest é o motor central do livro, mas não, não é: é o encontro de Mari com ela própria, com a pessoa que sabe que é e com o caminho que quer continuar trilhando e se tornar no futuro que tem pela frente. A Banda e o show é o catalisador de todo caminho que a adolescente vai trilhar e levar todos nós, modificando quem ela é, o que espera de si e seus relacionamentos, que vão se desenvolvendo, principalmente com seus pais, tudo em uma narrativa muito rítmica e cheia de momentos encaixados. Tudo isso somado a forma como a narrativa se desenvolve, com entrevistas com os integrantes das bandas e comentários nas redes sociais incorporados nas páginas, deixando a trama mais rápida ainda, mostrando diversos momentos no qual a comunidade fã da banda está interagindo, até chegar aos fãs que a própria Marina consegue.

Esse livro é de uma delicadeza e profundidade que toca o leitor, que nos prende, que faz nosso coração sentir muito pela adolescente que está enfrentando algo que não sabe sequer por onde começar a reagir. Mari é gorda mas não vê isto como um problema: só que quem está ao seu redor muitas vezes sente que seja. Ela sente a pressão da família para que ela se enquadre em todos lugares e perdeu uma das melhores amigas de uma forma desastrosa. Mari, como uma adolescente, encontra refugio na música de uma banda que irá se apresentar em sua cidade, Niterói, no Rio de Janeiro. Mari não tem o controle do que está acontecendo, mas está tomando decisões que nem sempre são as mais acertadas – mas tentando, de alguma forma, encontrar novamente o sentido que parece que perdeu em algum ponto de sua jornada. E só quem já esteve perdido, em qualquer fase, por qualquer motivo, consegue entender o que é isso. A vida é assim, um caminho longo, cheio de percalços e desafios, e vamos aprendendo lentamente, assim como a Mari, um passo de cada vez.

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