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Resenha: Crime no Copan – Victor Bonini

“Crime no Copan”
Victor Bonini
Arte de Capa: Guilherme Xavier
Companhia das Letras – 2026 – 360 páginas

Quando o Copan completa 60 anos, o síndico, Lorenzo Fabbri, decide dar uma festa para celebrar o aniversário não só do edifício mais famoso de São Paulo, mas também do seu filho, Theo. A noite, que deveria ser inesquecível por outros motivos, logo se transforma em uma enorme tragédia: Theo é morto com um tiro em rua lateral ao prédio e, pouco depois, Lorenzo cai do vigésimo terceiro andar. A terrível coincidência desperta uma série de dúvidas e mistérios, que entram em ebulição quando duas moradoras idosas desaparecem sem deixar nenhum rastro.

À medida que a investigação avança, o passado do edifício e de seus moradores começa a emergir: pactos secretos, amizades que resistem décadas, relações de poder perpetuadas pelo tempo e vidas reinventadas em nome da sobrevivência.

Com tensão crescente e revelações que reconfiguram tudo o que parecia conhecido, Crime no Copan combina o melhor do romance policial com um retrato perspicaz das dinâmicas humanas. Um thriller urbano elegante e ambicioso, capaz de transformar um dos maiores ícones arquitetônicos do país em palco de uma trama à altura de sua grandeza.

Se você acompanha as resenhas no site, não há surpresa nenhuma com a minha escolha de ler “Crime no Copan”, o mais novo livro de Victor Bonini, autor de suspense nacional com considerável sucesso. Já ouvi falar bastante sobre os livros do autor, mas nunca tinha tido a oportunidade de ler nenhum, sendo este o primeiro livro dele que li, e confesso que estou mais encantada com o que amei do que dar enfase ao que acredito que não funcionou na trama, não linear temporalmente e que dá várias pistas aqui e ali durante suas páginas para nos entregar um crime que fez todo sentido, mesmo sendo, bem, um crime. Ou crimes.

Escolher um dos maiores prédios do país (não falo de altura) como um cenário para uma trama de suspense, assassinato e cenário de mais de 40 anos de história em um país foi uma escolha muito inteligente e que desperta o interesse ao leitor, mas acho que o autor foi além e colocou o Copan como um personagem do livro, não só cenário. Um personagem sem fala, mas que está lá, vendo famílias surgirem, crimes acontecerem, pessoas se perderem e se encontrarem, tudo através de suas paredes, corredores, elevadores e escadas, mostrando como pessoas podem ser complexas a ponto de amarem um prédio mais do que qualquer outra coisa. Sim, a trama é ágil; sim, há muitos personagens que estão no centro da trama; sim, você vai ser pego de surpresa, mas, ao mesmo tempo, você vai ficar pensando na descrição da fachada principal do Copan, tentando imaginar o vento e outros pequenos detalhes que fazem toda diferença em uma trama que mostra o Brasil crescendo, mudando e jogando copas – e não me façam falar sobre como o livro foi publicado no dia 25 de maio, dia de “aniversário” do prédio e também de Theo Fabbri, um de nossos protagonistas que perde a vida no começo da trama.

De um lado, há um bando aglomerado na ruazinha interna do Copan. Do outro, mais gente faz um círculo na calçada da rua Araújo. As luzes azuis e vermelhas das sirenes iluminam rostos petrificados de espanto. Um grito corta a madrugada. Ellen corre da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, à medida que os curiosos abrem um túnel para que a mulher em prantos ateste com os próprios olhos o que o emocional se recusa a acreditar.
Que Theo levou um tiro na nuca, no dia de seu aniversário. E que, a trinta passos dele, Lorenzo está amassado contra a calçada, emoldurado pelo próprio sangue.
Pai e filho mortos na mesma noite. Tão terrível quanto inexplicável.

Dia 25 de maio de 2026. Copan completa 60 anos. Na mesma noite, Lorenzo Fabbri dá uma festa em seu duplex no 23º andar do prédio de aniversário ao filho que é basicamente a personificação de todos sonhos do homem com sua esposa, Ellen. Theo é casado com Jessica e tem uma filhinha, Pietra, todos morando juntos no confortável e grande apartamento no prédio que o pai dele é sindico há tantos que já se perdeu as contas, mas Lorenzo não é só um sindico: o Copan é uma extensão dele, um lugar onde criou suas raízes mais profundas, onde sua família aumentou, um pequeno Rei em um prédio com mais moradores do que algumas cidades do Brasil, o que chega a comentar durante a trama mais de uma vez.

Como a sinopse entrega, Theo é morto em uma rua lateral ao prédio – mas como, se ele estava em sua festa de aniversário? Logo em seguida, o próprio Lorenzo despenca do prédio, completando uma tragédia gigantesca para a família Fabbri, mas quem conhece o homem fica espantado com a ideia dele tirar a própria vida porque não combinava com sua personalidade, aquele tipo de homem que se impõe a tudo e todos, afinal, era um Rei e aquele era seu reinado. A policia chega com o delegado Roger e a investigadora Simone, mulher calejada pela vida que já teve sua quota de sofrimento, desilusões e humilhações com o chefe. Simone deseja muito desvendar os crimes para poder dar uma rasteira no chefe, homem insuportável que não aceita que sua subordinada tenha voz. Theo parece ter sido somente vitima de uma tentativa de assalto que deu errado, mas as câmeras não pegaram com clareza o suspeito encapuzado de quem deu o tio. Já os suspeitos de empurrarem Lorenzo? Todos que estavam na festa porque houveram indícios de que nada do que a família Fabbri mostrava realmente era.

De certa forma, foi ótimo, porque Simone deixou de sentir ódio de si mesma e canalizou o esgoto nos colegas. Desse rio de excrementos fez uma montanha encantada, a bordo de um barquinho que navegou primeiro pela orla da automutilação, depois flutuou pelo lago da melancolia, fez um splash no castelo da vingança e dali seguiu para o longo e escuro túnel do rancor. Um túnel sem fim.
Ao menos aprendeu a ser mais esperta.

Os convidados da festa: Agnes, casada com Otávio, pais de duas crianças, conhecida dona de um salão no próprio prédio, conhecida por suas habilidades de maquiagem. Cecilia, uma artista que além de moradora, fez toda uma exposição usando um grande espaço vago no prédio, onde outrora havia sido um cinema, depois uma Igreja Evangélica, mas que apesar do sucesso de sua exposição, tudo terminou drasticamente quando o sindico pediu o espaço de volta. Santiago, o assessor de Lorenzo, estudante universitário, que trabalha no prédio para conseguir viver sua vida. Lana e sua avó, D. Mayumi, que criou a neta desde a morte dos pais quando ela era pequena. Jéssica a esposa de Theo, viciada em crossfit e repleta de posts no Instagram que bombam quando mostram seu corpo. E, claro, Ellen, a mãe de Theo e esposa de Lorenzo, que foi a pessoa que abriu a porta do quarto de onde Lorenzo caiu da sacada. Tudo parece piorar mais ainda quando Ellen e Dona Lavinia, um moradora muito, muito antiga do prédio, somem aparentemente do nada.

Toda trama vai e volta no tempo, mas é a trama do ano de 1978 que realmente me encantou, mostrando a vida prévia de Lavinia, ainda jovem, morando em um quinite no prédio com suas amigas Dora e Geni. São mulheres fortes, jovens, que estão tentando viver suas vidas, acertando e errado, sonhando e sendo pessimistas, exatamente como todas as pessoas, e foram as personagens que mais me apeguei e me importei com, mas também destaco a sagacidade de Bonini de ambientar a trama delas durante a copa daquele ano, no qual o Brasil ficou com o terceiro lugar (não sabia desta informação). É muito divertida a forma como o autor usou para nos mostrar que o passado é sim, um reflexo e um espelho de ações passadas, de que fatos acontecidos há tantos anos ainda voltariam para assombrar as vidas dos moradores de um edifício que tem o tamanho de uma pequena cidade, mais do que um quarto de municípios brasileiros, como bem diz Lorenzo em diversas ocasiões.

O lampejo traz uma dolorosa epifania. O Copan é uma máquina do tempo, uma repetição de acontecimentos do ontem, do hoje e do amanhã que se interligam como uma árvore genealógica. São fantasmas que, ao passear pelos corredores, imploram para não serem esquecidos. Da história de Dora e Lorenzo, ela tem só mais um pressentimento. Que o destino dos dois é se encontrar para além do quebra-sol.

Mas há algumas coisas que não funcionaram na trama, pelo menos não funcionaram para mim. Sem entregar nenhum spoiler, não funcionou a tentativa de justificar traumas passados em determinados personagens que escolhem tomar o caminho da vilania. Não acho que precisamos dar um passado sofrido para quem deseja ser vilão – algumas pessoas simplesmente o são e fim – e não posso elaborar muito porque entregaria demais. Também não funcionou as pistas deixadas ao longo da trama porque quando uma personagem refere-se a algo que aconteceu com outra, fica claro que ela soube porque… bem, vocês podem imaginar. Sem contar que também em certa altura da trama, fica claro que determinada personagem tem habilidades precisas para fazer um certo truque, e, de novo, não falarei demais para não entregar, mas preciso dizer que se você lê suspense com frequência e gosta de thrillers, você sacará o mistério de quem fez o que, apesar de não conseguir juntar todos os pontos que a trama faz e se liga ao passado. E deixo claro aqui o meu protesto sobre Simone, personagem que amei de todo coração (além das divas Lavinia, Geni e Dora) e que merecia mais tempo de página, além de, claro, toda interação das Hárpias, um grupo de mulheres idosas no prédio.

Crime no Copan” é ágil, intenso, forte, necessário em diversos momentos de reflexão sobre o que significa família e sobre aceitação de quem somos, mas também se perde em alguns momentos citados acima. É um suspense de marca, que prende o leitor e que entrega um livro quase que cinematográfico, com diversas cenas se formando na mente de quem lê e entregando um filme. Se você deseja um suspense que te prenda e que mostre o nosso país bem do jeitinho brasileiro que temos, seu livro está aqui. Pode tentar desvendar este crime, você não vai se arrepender.

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