Resenha: O talismã (O talismã 1) – Stephen King e Peter Straub

“O talismã”(O talismã 1)
Stephen King e Peter Straub
Tradução: Mário Molina
Suma – 2026 – 728 páginas
A vida de Jack Sawyer, aos doze anos, não anda exatamente fácil. Depois da inesperada morte de seu pai em um acidente, tudo parece fora do lugar. Junto de sua mãe, Lily, eles viajam para longe, à procura de uma sombra de felicidade. Porém o que deveria ser uma viagem de mãe e filho, começa a parecer cada vez mais uma fuga, e não demora para que Jack note que algo não está certo. Observando a mãe definhar com o que suspeita ser uma terrível doença, os dias lúgubres de Jack são animados apenas pela improvável amizade com Speedy Parker, o enigmático zelador idoso de um parque de diversões abandonado.
Cansado e frustrado por não conseguir ajudar a mãe, Jack não pensa duas vezes ao aceitar uma misteriosa missão oferecida por Speedy: atravessar os mundos em busca de um Talismã, que possui poderes além de sua imaginação e pode ser a chave para a cura de sua mãe.
No centro de uma luta constante entre o bem e o mal, encontrando perigos tanto humanos quanto monstruosos, Jack descobrirá que há muito mais em jogo do que apenas voltar para casa vivo e caberá a ele decidir o destino de um universo inteiro.
Como resenhar um clássico? Não há como se fazer isso. Não me sinto sequer merecedora de resenhar um livro desse quilate, então o que farei aqui é falar sobre os pontos da trama de Jack Sawyer, um garoto de 12 anos, que viaja entre mundos paralelos, que se tornou um livro que é necessário ler pelo menos uma vez na vida. Criado por Stephen King e Peter Straub, dois autores que definitivamente já deixaram seus nomes no hall de grandes autores da atualidade e que serão lidos e idolatrados por muitos, muitos e muitos anos vindouros, “O talismã” entre mais do que uma jornada de um garoto que tenta salvar a mãe da morte e a típica jornada do herói: é uma jornada repleta de aventura, crescimento, dor, miséria humana e amor.
A sensação após terminar essa leitura, que é grande em números de páginas e maior ainda em construção de universo, é que tive uma aula de como se construir um universo inteiro do 0. Mesmo que Jack seja do nosso mundo, para onde ele, Os Territórios, é um universo completamente diferente, com criaturas diferentes, com transições entre mundos que exigiram a criação de uma mitologia única. E apesar de ser escrito por dois autores com linguagem e estilos diferentes, o leitor vê que foi uma construção realmente feita em conjunto porque é muito bem mesclada a violência que tenho certeza que foi escrita por King com descrições de passagens que também tenho certeza que foram feitas por Straub. Sim, há pontos que o livro não entrega tudo que poderia, mas temos aqui sinceramente um livro que precisa ser lido, servindo de uma grande aventura digna de se constar na lista de grandes aventuras fantásticas – e que também serve como um ponto do Kingverso. Sei que não o comentei sobre ele até agora, mas enfim este momento chegou, e, sinceramente, não poderia estar aqui em um momento melhor, mas vai ficar mais pro final deste texto.
Em 15 de setembro de 1981, um menino chamado Jack Sawyer estava onde a terra e o mar se encontram, mãos nos bolsos do jeans, contemplando o inabalável Atlântico. Tinha doze anos e era alto para a idade. A brisa marinha fazia voar o seu cabelo castanho, provavelmente comprido demais, da testa lisa e delicada. Permanecia ali, a cabeça cheia das confusas e dolorosas emoções com que aprendera a conviver nos últimos três meses — desde o momento em que a mãe fechara a casa onde moravam na Rodeo Drive em Los Angeles e, numa confusão de mobília, cheques e corretores imobiliários, alugara um apartamento no Central Park West. Daquele apartamento os dois fugiram para o tranquilo local de veraneio na pequena costa de New Hampshire onde se encontravam no momento. Ordem e rotina tinham desaparecido do mundo de Jack. Sua vida parecia tão tumultuada, tão sem controle quanto a água agitada diante dele. A mãe o levava pelo mundo, mudando-o de um lugar para outro; mas o que fazia a mãe mudar?
33A mãe estava fugindo, fugindo.
Jack Sawyer é um garoto de 12 anos que já perdeu o pai quando era mais novo. Filho de Lily Cavanaugh, uma atriz de conhecidos filmes B de terror, Jack compreende que a mãe viuva está doente. Apesar de não explicar o que está acontecendo, a mãe fez com que deixassem a casa que viviam e fossem basicamente se esconder em um hotel. Sequer frequentando a escola, Jack passa seus dias na praia, até que conhece um homem odioso chamado Lester “Speedy” Parker, que lhe conta sobre um mundo além do nosso: Os territórios. O pai de Jack conseguia ir para lá e o garoto também consegue viajar entre mundos, e Speedy também explica a ele a existência de O talismã, algo com grande poder que pode curar a mãe de Jack e a Rainha do lugar, que é um duplo de sua mãe e que também está doente no lugar. O duplo de alguém é sua versão nos Territórios e normalmente uma vida se espalha no outro lugar em todos sentidos, seja de nascimento, seja de morte, mas, de alguma forma, Jack não tem um duplo, já como o filho da Rainha Laura (duplo de Lily) morreu ainda criança e se chamava Jason.
O que já parece uma jornada fantástica, já como Jack precisa ir para Os Territórios e encontrar esse talismã em um lugar chamado Hotel Negro, também é permeada por uma trama bem mais simples aqui em nosso mundo: doente, Lily tenta escapar de Morgan Sloat, o sócio nos negócios do finado Phillip Sawer, marido morto de Lily e pai de Jack. Morgan é um sujeito asqueroso, guiado pela ganância, que quer tomar para si o controle dos negócios por acreditar que era seu direito, forçando Lily a assinar um contrato ridículo onde ela perderia bastante dinheiro na negociação. Doente e fragilizada, sem nunca ter gostado do homem, Lily prefere ir para o hotel ficar com o filho, mesmo o tirando do colégio no qual ele estudava justamente com Richard, filho de Morgan, e melhor amigo de Jack. Depois de explicar a mãe que teria de embarcar em uma jornada atravessando costa a costa nos Estados Unidos de 1980, Jack parte em sua aventura fantástica, iniciando uma jornada que o mudaria profundamente.
Mas de novo, e incomodamente, Jack experimentava a velha sensação de estar sendo dirigido, de estar sendo manipulado: como se um fio invisível o tivesse puxado junto com a mãe para aquele lugar abandonado na beira do mar.
Eles, quem quer que eles fossem, o queriam ali.
Ou será que isso era apenas loucura? Em sua visão interior, ele via um velho curvado, evidentemente meio maluco, falando sozinho e empurrando um carrinho de compras vazio pela calçada.
No ar, uma gaivota gritou, e Jack prometeu a si mesmo que se obrigaria a falar algumas das coisas que sentia a Speedy Parker. Mesmo que Speedy ficasse achando que ele não estava regulando bem; mesmo que risse na cara dele. Mas, no fundo, Jack sabia que ele não ia rir. Eram amigos do peito, e uma das coisas que Jack compreendia do velho zelador do parque era que podia contar a ele quase tudo o que lhe viesse à cabeça.
Só que ainda não estava preparado para uma conversa dessas. Tudo era loucura demais, e ele não entendia muito bem o que estava acontecendo. Quase com relutância, virou as costas para o parque Funworld e avançou penosamente pela areia em direção ao hotel.
Viajando pedindo caronas, Jack está sujeito a todos os perigoso que uma viagem assim é capaz de oferecer. Indo para Os territórios, Jack também é exposto há grandes perigos, já como logo descobre que há muito em sua memória sobre o passado entre seu pai e Morgan. Entendendo que Morgan também é um ser asqueroso nos Territórios, Jack começa uma fuga sem fim, alternando mundos e apresentando melhor a mitologia dos Duplo: há menos pessoas nos territórios (a geografia se equivale, mas também é diferente, já como lá é menor) que tem suas versões em nosso mundo, e quando vão daqui para Os territórios, possuem o corpo do seu duplo lá. Mas Jack, como o seu Duplo já morreu, vai de corpo inteiro, sendo capaz de levar coisas físicas com ele.
Os Territórios se situa no equivalente a nossa Era Mediavel, sem carros, eletricidade, telefones, carros e afins, com pessoas viajando com carroças, cavalos e afins, e é pegando carona assim que Jack também vai atravessando o lugar, que também tem o ambiente muito mais puro, comidas mais gostosas, magia, seres diferentes e uma ideia de vida mais simples do que o nosso planeta. Mas não só coisas boas existem nos Territórios: com os Duplos Morgan também seu duplo lá, assim como seus capangas odiosos. Ciente do lugar, já como Phil lhe contou em certa altura da vida, já como confiava no amigo, Morgan quer também controlar o lugar de todas as formas possíveis. Quando compreende que Jack também consegue ir para Os Territórios, a caça pelo garoto começa, transformando a jornada de Jack em uma fuga alucinante, tanto em nosso mundo quanto naquela terra com criaturas fantásticas.
Agora, ao lado de seu carro na parada rodoviária Lewisburg, Sloat levantou a chave e fitou-a com atenção. Como a palheta de violão de Jack, a chave se transformava numa coisa diferente nos Territórios. Certa vez, quando voltava para casa, deixou-a cair no vestíbulo do velho prédio de escritórios. E devia ter sobrado na chave alguma força mágica dos Territórios, pois aquele idiota do Jerry Bledsoe foi inteiramente cozinhado menos de uma hora depois. Será que Jerry a pegara? Será que pisara nela? Sloat não sabia, nem se deu ao trabalho de saber. E nem deu a mínima para o acidente com Jerry. Considerando que o eletricista tinha um vultoso seguro de vida para morte acidental (o supervisor do edifício, com quem às vezes conversava um pouco, lhe passara essa informação), Sloat imaginava que Nita Bledsoe devia ter ficado bem servida. O que deixou Morgan extremamente preocupado foi a perda da chave. A sorte é que Phil Sawyer a encontrou, devolvendo-a ao sócio com um comentário distraído: “Ei, Morg. É seu amuleto, não é? Deve estar com um furo no seu bolso. Encontrei-a no vestíbulo depois que levaram o corpo do coitado do Jerry”.
Sim, no vestíbulo. No vestíbulo onde tudo cheirava como numa fornalha que, durante um bom tempo, tivesse funcionado a pleno vapor. No vestíbulo, onde tudo ficara escurecido, retorcido, fundido.
Exceto aquela despretensiosa chavezinha.
Que, no outro mundo, virava uma estranha espécie de para-raios — e que Sloat punha agora em volta do pescoço numa fina corrente de prata.
— Estou indo atrás de você, Jacky — disse Sloat num tom de voz quase terno. — Está na hora de acabar de uma vez por todas com esse negócio ridículo.
Enquanto foge nos Territórios, Jack conhece Lobo, que é um jovem lobisomem que assume o papel de uma especie de guardião de Jack, e quando os dois estão fugindo de Morgan de Orris, como se chama o duplo de Morgana lá, terminaram vindo para o nosso mundo. Tentando pegar carona, para continuar a viagem, com Lobo tendo grandes dificuldades com os cheiros do nosso mundo e com nosso ar poluído, eles são apreendidos por um policial especialmente estranho, que o leva à um juiz, que interna os dois na Casa Evangélica Sunlight Gardener para Garotos Perdidos, e é ai que o verdadeiro pesadelo deste livro começa. Foi a pior parte da trama em minha opinião porque é especialmente cruel, exatamente como sabemos como as pessoas podem ser, principalmente em lugares assim. Comandada por Sunlight Gardener, essa parte do livro (a terceira, para ser mais especifica) com surras, bullying e violência se torna realmente difícil de aceitar, culminando em uma morte trágica, capaz de fazer o coração de qualquer leitor doer.
Depois de conseguir fugir do lugar, o ritmo do livro se acelera de uma forma vertiginosa, levando Jack de volta só Territórios e também de volta a nosso mundo, aonde enfim procura por seu melhor amigo Richard, que demora a compreender tudo que Jack lhe conta, mas termina embarcando também nesta aventura e tendo um papel importante neste final, além de mostrar que o amor de melhores amigos nesta idade é realmente algo poderoso, tema já visto em outros livros de King. A partir dali, vamos caminhando para o final da trama, mas não se engane, “O talismã” é um livro que demora o tempo que quer para fazer a trama funcionar e você se importar profundamente com Jack, o acompanhando em sua busca incessante por este artefato que é capaz de curar sua mãe, e se tem um problema, é justamente a quantidade de páginas que leva no começo para nos apresentar Jack e Lily e nos mostrar o problema com Morgan. Há diversos flashbacks e o passado visto pelos olhos dos personagens que acrescentam mais aos personagens, todos profundamente complexos e com várias motivações, mas, acima de tudo, há o amor que Jack sente por sua mãe, seu melhor amigo, por Lobo e por seu pai, resultando em um final apoteótico, doce e amargo, ao mesmo tempo, a felicidade de uma jornada concluída e a perda da inocência coexistindo em Jack e no leitor para sempre.
Jack quase explodiu numa gargalhada. Hotel Negro — parecia título de um romance de mistério com uma pegada de terror. E no entanto… no entanto… tudo começara num hotel, não é? No Alhambra, em New Hampshire, na costa do Atlântico. Haveria algum outro hotel, outra sinistra monstruosidade vitoriana na costa do Pacífico? Seria lá que aquela longa e estranha aventura terminaria? Em algum lugar parecido com o Alhambra, em algum lugar perto de um parque de diversões arruinado? A ideia era terrivelmente fascinante; de uma maneira insólita, mas precisa, revelava-se de forma mais ampla uma noção de duplicatas, duplicações, Duplos…
Como já mencionei, o livro é grande e grandioso, e alguns leitores podem sentir que é justamente longo demais, mas a ideia inicial era de que fosse um livro único, mas, depois de mais de uma decada, King e Straub se reuniram e escreveram “A Casa Sombria”, o segundo livro do que vem a ser uma trilogia, já como este ano King lançará o terceiro livro, chamado de “Other Worlds Than These” (“Outros mundos além deste”, em tradução livre), que será publicado em 6 de outubro próximo, agora sem Straub, já como o autor infelizmente faleceu em 2022, mas deixou diversas anotações sobre um possível terceiro livro, que King agora usa. Essa Edição de “O talismã” que li é a nova edição depois de alguns anos sumido das livrarias, agora revisada pela minha Editora favorita da vida, a Suma, e “A Casa Sombria” também está ganhando uma segunda edição já em pré-venda (garanta o seu clicando AQUI), então já podem esperar que vamos falar muito do Kingverso ainda neste segundo semestre porque essa trama faz parte mais do que imaginado. Com diversos pontos que o ligam diretamente a famosa série “A Torre Negra”, “O talismã” apresenta o mesmo conceito de multiversos, de mundos coexistindo e capacidade de se passear entre eles, além de poderes psíquicos e maiores do que nossa vã consciência é capaz de compreender. Há também os Duplos, as pessoas que existem em todos esses universos, e se você se questiona se todos os livros de King estão ligados s famosa Torre Negra, a resposta é que grande parte sim, fazem parte do mesmo universo, tudo ainda a ser devidamente explicado e encaixado, coisa que só poderemos fazer depois do terceiro livro da série, já como King prometeu que ele trará respostas e possivelmente poderá encerrar este universo.
Mas se você quer só ler “O talismã” pela fama que o leva a se tornar este livro tão importante no universo literário, você pode e deve. Há um tom de aventura junevil, quase um livro da sessão da tarde, onde um garoto tem a missão de salvar não só um mundo, mas dois, e que erra, é grosseiro com quem não deveria e que até mesmo chega a ser egoísta em diversos pontos, exatamente como um garoto de 12 anos deveria ser. Mal posso esperar para ler a continuação, com a satisfação de reencontrar meu bom amigo Jack, que cresceu diante dos meus olhos em uma jornada repleta de aventura, com todos os seus bônus. Pode se jogar sem medo.
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