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Resenha: Skipshock (#1) – Caroline O’Donoghue

“Skipshock” (#1)
Caroline O’Donoghue
Tradução: Cristiane Maruyama
Plataforma 21 – 20260 – 392 páginas

Você já sentiu o tempo escorrer pelas mãos?

Margo sente isso literalmente. Depois de perder o pai, ela embarca num trem que não deveria existir ― e conhece Moon, um vendedor que atravessa mundos interligados onde o tempo não é uma abstração filosófica, mas a moeda mais valiosa que existe.

Nos mundos do sul, os dias duram semanas. A juventude dura décadas. Os ricos compram tempo como quem compra sapatos. Nos mundos do norte, o tempo voa ― cruel, veloz, impiedoso. E os vendedores que cruzam essas fronteiras morrem jovens.

Margo não deveria estar ali. Mas agora já não dá mais para ela voltar.

Skipshock é uma daquelas raras histórias que fazem a gente sentir falta de personagens que nunca existiram. Caroline O’Donoghue constrói um universo no qual o amor e o tempo são a mesma coisa, onde cada escolha tem um preço e ninguém é exatamente quem parece ser.

Preciso primeiro falar sobre o título do livro porque acho que pode afastar algumas pessoas: “Skipshock” é uma palavra completamente inventada e, em uma decisão acertadíssima, a tradução decidiu por bem, deixá-la assim, em seu original. Concordo que pode causar confusão em alguns leitores que possa pensar que o livro está em sua língua original, mas acho que nomes próprios nunca deveriam ser traduzidos, e, aqui, skipshock é um dos personagens trama, já como uma doença que afeta quem viaja entre os universos da trama.

A resposta mais comum que ouço quando conto às pessoas o que faço da vida é: “Eu não conseguiria ter um trabalho assim”. O que elas realmente querem dizer é que não fariam um trabalho assim. De tempos em tempos, circula uma nova história macabra sobre vendedores, e sobre o que viajar entre velocidades temporais faz com a saúde física de alguém.
Temos o dobro de chances de nos tornarmos alcoólatras, três vezes mais chances de morrer por suicídio e uma probabilidade infinitamente maior de desaparecer sem que ninguém se importe.
Mas tudo o que eu digo é: “Você está certo. Você não conseguiria fazer um trabalho como este”. Você não conseguiria pechinchar em um idioma que não fala. Não conseguiria pegar no sono em qualquer lugar, treinando seu corpo para tirar um cochilo de quinze minutos sentado no meio de uma praça movimentada. E não conseguiria acordar do jeito que nós acordamos.

E que doença é essa? São os efeitos de pular o tempo, ou seja, literalmente as duas palavras em inglês que a formam: skip (pular) + shock (choque), transformando assim a tradução praticamente impossível em uma única palavra em português. Mas, voltando a trama, a doença afeta nossa protagonista Margo a partir do momento inicial da trama quando, confusa, perdida e ainda em luto pela morte do pai em um acidente de avião, a mãe a envia para um colégio interno na Irlanda. Margo, prestes a completar 17 anos, deveria entrar em um trem e simplesmente ir para o tal colégio tentar juntar seus pedaços, mas o que acontece é que ela encontra um jovem com alguns fios de cabelos brancos sentado em seu lugar no vagão – e o resto é uma analogia simplesmente fantástica sobre como o tempo é realmente o bem mais valioso que nós, meros mortais que trabalhamos e vivemos a vida normalmente, precisamos apreciar.

O rapaz que Margo encontrou se chama Moon – pelo menos ele se apresenta assim e deixa claro que não é realmente seu nome – e trabalha viajando. A questão é por onde ele viaja, que não é de cidade para cidade e sim entre mundos que se ligam através de uma linha de trem. Mas há outro porém aqui porque Moon não sabe de que mundo Margo veio e ela sequer saber do que ele está falando, completamente alheia a esta linha de trem e muito menos outros mundos. Entendendo que Margo pode ser alguém extremamente valiosa, já que o que ele vende são coisas destes mundos e agora há literalmente uma pessoa perdida ali, ele decide que a entregará a empresa que trabalha, já como precisa se aposentar porque tem skipshock, a doença que dá o título do livro. Jovem, com ainda 19 anos, Moon já sente os efeitos da doença em seu corpo: vertigens, ausência de consciência em diversos momentos, envelhecimento do corpo, tudo isso mostrando a ele que, assim como os vendedores que vieram antes dele (e os que ainda são seus amigos), ele não terá muito tempo mais.

Ela estava sozinha num trem quebrado. Uma tristeza cruel a atravessou — não exatamente pela situação em si, mas pelo quanto aquele momento se parecia com todos os outros que tinham levado até ele. Ela tinha sido, por muito tempo, uma coisinha limpa e bem ajustada. Filha única — e não do tipo que tem um monte de primos e vizinhos para compensar. A família deles era estranha e silenciosa. Amor se ganhava por mérito e se mantinha com bom comportamento. Ela tinha boas notas, e até alguns amigos, apesar do que os boletins antigos insinuavam.
Aí o pai morreu. A insônia habitual e os períodos de mau humor viraram companhia permanente. Estava esgotada de sono e em choque. Parou de falar com todo mundo, deixou de ir à escola e, com o tempo, os amigos pararam de ligar. A vida ficou difícil demais para suportar mais um minuto, então ela decidiu fugir. Não chegou longe. O internato era para ser o meio-termo. Um novo começo.
Mas lá estava ela: presa, cercada de ameaças e sozinha. Sem um novo começo, e com um cabelo mal pintado que não mudava nada. Tinha sido boba por achar que mudaria.

O grande destaque de toda narrativa deste livro é a linha temporal e sua metáfora com o mundo no qual vivemos, e aqui me permita viajar um pouco na minha interpretação pessoal. Em fatos, o que temos é que os mundos que ficam ao sul da linha de trem, ou seja, quanto mais ao sul você existir, mais lento passa o tempo, ou seja, o ser existe mais, consequentemente são pessoas com mais tempo de viva, mais saudáveis e, claro, mais ricos porque há tempo para se construir riquezas, famílias e mais – e o inverso é exatamente o que fica claro: quanto mais ao norte o mundo estiver, mais rápido o dia se passa, ou seja, menos tempo para existir aquelas pessoas existem, e, por isso, relacionamentos mais pobres, pessoas literalmente mais pobres e mais doentes. Isso soa como alguma metáfora para você? Porque, em épocas de uma discussão sobre a escala 5×2, vemos uma trama de fantasia que mostra o que você faria em um mundo onde o dia só tivesse 2 horas e o que você faria em um mundo aonde o dia tem 24 horas. Não se precisa de muito esforço para entender a mensagem por trás, mas, deixando claro, essa foi a minha interpretação pessoal e cabe a cada leitor decidir por qual caminho ir.

A medida que a trama vai avançado, entendemos que Margo não deveria ter mesmo entrado naquele trem, o que pode acusar que ela tem realmente algo a mais, mas, talvez, seja algo que ela sequer imagine, e Moon também. O livro alterna entre o ponto de vista dos dois protagonistas e confesso que se teve um tempo fraco no livro, foi o romance entre os dois porque Moon sai de um lugar de “quero entregar esta garota para ganhar dinheiro e parar de ter essa vida horrenda que tenho” para “ela está no centro de todos meus pensamentos, desde o momento que acordo” em um tempo que não me convenceu o suficiente, ainda mais que este o primeiro livro de uma duologia – e eu também não sabia disso quando comecei a leitura, e até que foi se aproximando do final e entendi que de forma alguma toda trama seria encerrada ali.

Eurídice é do Sul”, ele disse. “E é levada para um mundo do Norte por Hades, que é rei desse mundo em particular. Orfeu vai buscá-la.
E de onde vem essa história?
De Semper. Todas essas histórias vêm de lá.
A gente também tem Orfeu. E Hades.
Como assim, vocês têm?
Eles fazem parte dos nossos mitos. E se fazem parte dos de Semper também…
Ele assentiu, finalmente entendendo.
Então, em algum momento no tempo, Semper e o seu mundo estiveram ligados.
Mesmo que tenha sido há centenas de anos. Histórias já viajaram entre mundos antes, e se histórias viajaram, então pessoas também o fizeram.
Há muito tempo eles sustentavam a teoria de que o mundo de Margo era um que fora selado há tanto tempo que ninguém mais se lembrava dele. Mas isso sempre fora apenas uma teoria. Ali estava a prova. Um cartão-postal da própria cultura dela, sentado em uma rua de Alder como se fosse um marcador num livro antigo. Um alívio tomou conta dela. Se Orfeu encontrou um caminho até ali, então devia haver um caminho de volta.

Uma trama que mistura fantasia e ficção científica, senti que “Skipshock” deveria ter mais espaço e ser mais falada por sua trama que é realmente boa e sólida, mesmo que você entenda da forma literal, já como a ideia de viajar entre mundos que são diferentes e toda trama do motivo pelo qual a Terra (a nossa) teve seus portões selados é algo que prende o leitor, trazendo uma reviravolta nas últimas páginas que prepara para o próximo e último livro, como já mencionei. Agora o que precisamos é pensar sobre o que faremos com o nosso tempo enquanto guardamos o segundo livro, ainda sem data ou titulo em inglês, o que mostra que demorar um tempo para chegar aqui. O tempo não pode passar rápido o suficiente para sabemos como Moon irá lutar na próxima trama.

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