25.11


“Fumaça branca”
Tiffany D. Jackson
Tradução: Solaine Chioro
Arte da capa: Giulia Fagundes
Seguinte – 2022 – 320 páginas

Nesta trama repleta de suspense, Tiffany D. Jackson reinventa a história clássica da casa mal-assombrada, e conduz os leitores por uma narrativa onde nada é o que parece ― e o menor sinal de fumaça pode significar que já é tarde demais.

Mari não vê a hora de recomeçar. Prestes a se mudar com a família para uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos, tudo o que a garota quer é esquecer dos traumas e acreditar que o futuro lhe reserva algo melhor.

Porém, assim que chega a Cedarville, Mari nota que o lugar é um pouco estranho. Os vizinhos aparentam esconder algum segredo, e a casa onde a família vai morar ― uma construção antiga, enorme e suntuosa ― parece não receber bem os novos habitantes. Quando coisas incomuns começam a acontecer, como luzes que se apagam do nada e objetos que desaparecem, Mari se vê envolvida em uma perigosa teia de mistérios.

Mas talvez seja tudo fruto da sua imaginação. Afinal, se o pior já ficou para trás, nada mais pode dar errado…

Ou pode?

Existem momentos na vida nos quais você é atropelado por um livro de um jeito que perde até o rumo dos seus pensamentos – e é ainda assim que me sinto mesmo depois de ter lido “Fumaça Branca” há 3 dias atrás. Não há como explicar muito sobre esse livro porque, acredite em mim, se eu falar muito da trama em si, vou entregar alguns spoilers que você não quer ter caso decida ler este livro, mas vou falar sobre alguns temas, bem por alto, que estão presentes. Sei que nem todos gostam do gênero de terror e tem medo, mas aqui temos o terror com para algo bem pior e mais duro: a vida real, preconceito racial, os traumas causados e traumas sofridos, a falta de comunicação e confiança e até o amor de uma mãe. E sim, eu indico muito ler este livro.

E ah, se você está reconhecendo o nome da autora Tiffany D. Jackson de algum lugar, é porque ela participou da coletânea de contos “Blackout: o amor também brilha no escuro” (que resenhamos e você pode ler clicando AQUI) que vai ganhar uma continuação chamada “White Out” já confirmada aqui no Brasil pela maravilhosa Seguinte (leia clicando AQUI). E vou aproveitar aqui para falar algo que vocês não estão falando sobre, mas precisamos: como a Editora Companhia está criando capas nacionais com artistas nacionais, para suas versões dos livros. Sério. A capa de “Fumaça Branca” em inglês é muito, muito bonita, mas essa versão nacional é outro nível. Parabéns para a Editora e para a artista Giulia Fagundes. Queremos sempre capas puramente brasileiras, hein!

Mudar é bom. Mudar é necessário. Mudar é preciso
Já repeti esse mantra pelo menos um milhão de vezes enquanto nos afastamos cada vez mais do passado e dirigimos em direção a um futuro incerto. A incerteza não é necessariamente algo ruim, só te faz se sentir apertado dentro de uma prisão que você mesmo construiu. Mas meu guru me disse que, toda vez que começar a me afogar em pensamentos, devo segurar firme no mantra, como se fosse um colete salva-vidas, e esperar que o universo mande resgate. Isso tem funcionado de verdade nos últimos três meses em que estou sem meus remédios para ansiedade.

Marigold “Mari” Anderson começa narrando a chegada de sua família à Cedarville. Sua família consiste em sua mãe, Raquel, seu irmão mais novo Sam, seu padrasto e marido de sua mãe Alec e a filha dele, Piper, que tem 10 anos e é uma das personagens condutoras de tudo que acontecerá, coisa que fica claro desde começo da narração. A família está se mudando porque Raquel conseguiu um patrocínio de 3 anos da Fundação Sterling para se mudar para a cidade e ajudar a basicamente refundar o bairro no qual morarão, mas assim que o carro da família vai entrando na cidade, Mari entende que há algo muito errado por ali: há vários prédios grandes e fechados e parte da cidade está queimada, além de sua família ser a única que está morando em toda sua quadra. Parece que há sinistro no ar com tantas casas abandonas ao redor e com a equipe que reforma a sua casa nunca querendo descer até o portão – mas a coisa começa a ficar realmente complicada quando objetos somem ou mudam de lugar. Parece obvio que a casa está assombrada, certo? Não.

Não porque Mari está se recuperando de uma overdose. Aos 13 anos ela desenvolveu Parasitose delirante, que é a crença de se estar infestado por insetos que não existem depois de sua casa ter sido infestada por insetos – percevejos, mais exatamente. Sua mãe, ainda casada com seu pai, Chay, à época, jogou tudo que pode fora da casa, mas a parasitose é acompanhada pela compulsão por limpeza, depressão, paranoia, insônia e ansiedade nível máximo, o que levou Mari a começar a fumar maconha para tentar controlar sua ansiedade fora de controle. Poucos anos depois, membro da equipe de atletismo, Mari sofre um pequeno machucado que requereu remédios para dor, o que a levou a se viciar de vez em substâncias. Claro que tudo termina saindo de controle e é ai que sua overdose acontece, dentro de sua casa, para pavor do seu irmão Sam, a levando a ser internada e quebrar financeiramente sua família para pagar seu tratamento. As consequências para ela e todos são severas, já como seu padrasto não consegue arrumar emprego – e é aqui que entra a Função Sterling na vida de sua família, tirando a família Anderson-Green de Los Angeles e a levando para a pequena cidade.

Como foi combinado, é permitido que os artistas participando da Residência Cresça Onde Foi Plantado, conhecida como cofp, morem em uma das casas históricas restauradas sem nenhuma cobrança durante o período da residência, com a opção de comprá-la após o término do contrato. A cada trimestre, é esperado que a artista, essa é você, participe dos jantares beneficentes, eventos de interação e bailes de gala da Fundação Sterling em prol da reconstrução da comunidade de Cedarville. Ao fim da residência, a artista deve produzir pelo menos um projeto de grande porte, ou seja, seu novo livro. Quebra de contrato resultará em despejo imediato, e a artista deverá cobrir o preço da hipoteca com juros, além de qualquer dano, de acordo com a duração de sua estadia.
Papai, o que significa “despejo”?
Alec coloca uma mecha do cabelo de Piper atrás da orelha.
Significa que a gente precisaria sair da casa na hora. Mas não se preocupe. Isso não vai acontecer.

Claro que passando por essa recuperação, Mari se questiona se os objetos que acredita que somem e o cheiro pobre que ela sente é real ou só coisa de sua cabeça, mas quando seu irmão Sam também sente o cheiro e sua mãe começa a encontrar coisas fora do lugar da mesma forma que ela, a jovem começa a achar que a casa está realmente sendo assombrada, tudo enquanto seu relacionamento com seu padrasto Alec começam a deteriorar de forma irrecuperável e Piper, a irmã postiça, começa a ver uma mulher idosa que se torna sua amiga. Piper, alias, é uma criança que perdeu a avó, que claramente era a figura feminina na sua vida, e não lida bem com ter uma madrasta e deseja muito a atenção do seu pai. A narradora da trama é a Mari, então muito do que vemos de Piper é através dos olhos de Mari, que tem zero paciência para a garotinha, até que é lembrada, por sua melhor amiga Tamara, em uma video ligação, de que a garotinha é… bem, uma garotinha de 10 anos e Mari deveria ser mais madura e agir melhor com ela, o que lembra o leitor de que o relacionamento ali não tem qualquer tipo de equiparidade. E ah, a amiga idosa de Piper se chama Dona Dulce.

Some tudo isso a abstinência que Mari está enfrentando por estar em uma nova cidade e não conseguir acesso fácil a maconha junto com o nervoso por acreditar estar lidando com o paranormal, somado ainda a desconfiança de sua mãe e temos a receita certa para todo insucesso que acontece com Mari: Ela implora para sua melhor amiga enviar sementes de maconha para plantar em um jardim de uma das casas abandonadas da sua rua. A quantidade de más ideias que Mari tem ao longo deste livro não são poucas, mas você sabe o lugar no qual ela se encontra, tentando manter-se inteira por fora enquanto não está nem perto de estar assim por dentro. Em diversas passagens do livro, as crises de ansiedade da garota vão aumentando ao ponto de se tornar difícil ler para quem, como eu, sofre de Transtorno de Ansiedade. Mas também precisamos dar a Mari o que é dela: além do trauma que a levou a desenvolver a parasitose, ela é uma viciada que tem dificuldade de assumir seu vício, que tenta manter a capa de normalidade em uma situação que não tem absolutamente nada de normal.

A força que faço para não reagir é intensa. Só me afasto da ilha da cozinha. Estou perdendo o controle. E, se eu perder o controle, eles vão ver, eles vão saber… e não podem saber, ou vou voltar para o confinamento. Meu terrário está no parapeito da janela, de frente para o quintal, onde o sol bate com menos força. Eu tinha vários, cobrindo todas as superfícies possíveis da nossa casa. Toda janela, mesa e bancada do banheiro tinha um pedaço do paraíso criado por mim. Agora, este é o único que sobreviveu… bem, a mim, e estou me agarrando a ele como se fosse um bote salva-vidas.

Ainda há mais um ponto importante nessa trama que preciso apontar: Logo quando chegam a sua nova casa em Cedarville, Mari conhece Yusef, um jovem preto que vai estudar na mesma escola que ela. Através de Yusef, sabemos mais do contexto da cidade: há uma lei forte contra drogas na cidade – não, não é só forte: é draconiana. Tão draconiana que mandou grande parte da população masculina para a cadeia naqueles prédios fechados que Mari vê assim que entra na cidade, lembra? É tão bizarro a quantidade de presos que basicamente não há garotos estudando na escola de Mari. As coisas parecem ser tão bizarramente duras que quando a única amiga que Mari fez na escola é presa por tráfico, ela imediatamente culpa Piper por acreditar que a garotinha a espia o tempo inteiro e sabia tudo sobre ela. São acontecimentos estranhos, mas a medida que Mari vai investigando mais e mais a história da cidade e até mesmo o Sr. Sterling, o homem que concede o patrocínio a sua mãe, tudo vai começando a se juntar em um quebra-cabeças que deixa o leitor de queixo caído e não estou brincando.

Porque sério, a quantidade de tramas e motivações que há nesse livro são grandes e com vários assuntos fortes se entrelaçando. O racismo aqui, presente em tantas passagens e no enredo central do livro, me pegou de jeito. A história da cidade, tudo que as pessoas da cidade já viveram (e sobreviveram). Uma família que está tentando ainda se encaixar, multirracial, com uma criança querendo atenção, um pai biológico é presente fisicamente de longe, vicio em drogas e saúde mental – tudo isso está aqui, presente, junto em uma trama que não enrola o leitor e não perde tempo em explicar coisas que não farão diferença para a trama – como, por exemplo, não há explicação para a morte da avó de Piper porque o que importa é que a mulher está morta e é isto, mas tudo na medida certa, sem pular nenhum evento que dá as pistas sobre o que está acontecendo e a forma como tudo está se desenrolando.

Tudo bem. Talvez, então, eu esteja no meio de um filme de terror superclichê. Eu já vi milhares com Sammy e conheço bem o padrão. Temos todos os elementos básicos: família se muda para uma cidade nova e vai morar em uma casa misteriosa com um passado obscuro.
Mas algo não parece certo; é como se a fórmula estivesse… diferente. A esta altura, deveríamos ter visto uma cadeira levitando ou pelo menos ouvido uma criança morta rindo pelas paredes. No geral, nada escandaloso aconteceu.

Quando terminei de ler “Fumaça branca” realmente precisei de um momento para pensar sobre o que tinha lido, não só pelas cenas de terror que li, mas também pelas cenas de forte impacto com saúde mental, pela raiva que passei ao ver o lugar mental no qual Mari estava, pensar no quanto odiava o padrasto dela apesar dele ser somente humano, pensar em como uma decisão ruim pode realmente ferrar todos seus planos, sobre como o racismo estrutural está presente em nossas vidas de uma forma tão incorporada e como a vida pode ser injusta de diversas formas. Eu sei, eu sei, você pode até desconfiar como um livro de trezentas e poucas páginas pode enfrentar tantos assuntos, mas eu te garanto que tudo isso está aqui e por isso este livro me impactou tanto. Parecia ser uma trama que precisava ser escrita como foi e tudo que eu posso fazer é te pedir para ler com a mente aberta – porque sei que muitos de vocês não gostam de terror, mas, acreditem, o pior terror que existe é o real e causado pelas próprias pessoas: O terror mais pavoroso que há é o humano e o pior vilão que existe é a humanidade. Não há fumaça branca nisto.

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