15.11

Sinopse: Mochila quase vazia, passagem comprada e um longo itinerário pela frente. Os planos levariam Esdras de sua cidade até um destino marítimo, mas uma notícia inesperada o encaminha para uma missão que pode mudar seu futuro.

Entre culpas tardias e lembranças perdidas, Esdras é desafiado a dedicar-se a entregar as cartas de despedida de Lélio, um remoto amigo de infância, sem se preocupar em entender o que faz. Buscando por destinatários desconhecidos e sem ter para quem ou para onde voltar, ele terá a oportunidade de compreender que estar à margem do mundo é uma consequência e não uma escolha.

De Tom Jobim a Billy Joel, a música se faz elemento importante nas andanças do protagonista, instigando o leitor a buscar pelas canções enquanto o acompanha nessa aventura.

Cartas para o invisível aborda a representatividade e debate questões importantes, mas que ainda são consideradas tabus. Enquanto pessoa LGBTQIAP+, que já passou pelos percalços da depressão, o autor Lincoln Aramaiko nos convida a refletir, com delicadeza e doçura, sobre os transtornos da mente e como eles afetam as relações humanas, partindo de temas sensíveis como depressão e suicídio.

[Livro com gatilhos de violência física, sexual, psicológica e suicídio]

Cartas para o invisível” foi o livro vencedor do prêmio “orgulho na Valentina” de literatura LGBTQIAP+ e ao ler ele eu entendi muito bem o porquê, apesar de não ter sido uma leitura muito fácil para mim (já explico os motivos): ele é um livro sensacional.

Nós começamos a história conhecendo Esdras, um homem que já está cansado de sua vida e como ele mesmo afirma, sofre de S.T.T.S (a Solidão de Tudo, de Todos e de Si): e com isso ele já perdeu contato com todas as pessoas importantes para ele, ninguém nunca se dando ao trabalho de saber onde ele está e como ele está, ele decide que está na hora de acabar com sua própria vida e é aí que ele começa a tomar providencias para isso.

Esdras vende todas suas coisas, deixa todas suas contas pagas, faz doações com o resto do dinheiro e com as coisas que vai vender e então deixa uma carta com um vizinho com um bilhete para ele, ao mesmo passo em que ele mesmo, enquanto está resolvendo tudo, recebe um envelope de sua vizinha que está indo viajar e nem se dá ao trabalho de ver antes de sair de casa para concluir seus planos.


“Para onde se foge quando quem te persegue são seus pensamentos? É até possível desenvolver o avião mais rápido do mundo para fugir de alguém, mas nada é tão rápido quanto um pensamento ruim. Fugir de si mesmo é impossível.”

Porém, enquanto ele está no barco onde ele resolveu que é o lugar perfeito para tirar sua própria vida, ele encontra na mochila que levou o envelope que foi entregue a ele por sua vizinha e dentro dele tem 12 cartas, cada uma endereçada a uma pessoa sem nome, apenas alcunhas e endereços, que ele nem sequer entende o que é, até encontrar dentro do mesmo envelope um bilhete direcionado a ele mesmo.

Ali, naquele bilhete, está um recado de Lélio, um garoto que Esdras conheceu na infância e que incumbiu ele de entregar aquelas cartas para as pessoas as quais foram endereçadas, ao mesmo tempo em que ele se despedia, porque seguiu o mesmo destino que Esdras queria dar em sua vida. E é quando, tomado pelo arrependimento de achar que pode ter alguma culpa no suicídio do amigo de infância (que ele não via fazia anos), Esdras chega à conclusão de que não pode acabar com sua própria vida, não enquanto não cumprir a missão que o outro deu a ele.


“Vou lhe dizer uma coisa: às vezes, parte-se cedo demais da vida, mas nunca se parte tarde o bastante. Então, se você ainda está aqui é porque há alguma missão no seu caminho. Não era sua hora, por isso, aproveite bem a vida.”

Assim Esdras, sem absolutamente nada, nem sequer dinheiro no bolso, parte em busca das pessoas para as quais deveria entregar as cartas, seguindo exatamente o pedido de seu amigo e assim honrar a memória dele e como uma forma de diminuir a culpa que sente, porque ele acha que se não tivesse perdido contato tantos anos atrás com Lélio, talvez as coisas fossem diferentes agora e nenhum dos dois estivesse solitário o bastante para sequer pensar em cometer suicídio.

Quando eu comecei o livro, com todas as entregas de cartas e tudo o mais, eu confesso que a primeira coisa que me lembrei foi de “13 porquês”, só que ao invés de pessoas que tinham feito coisas ruins, Lélio só tinha coisas boas a dizer para as pessoas para quem ele escreveu as cartas – tirando um ou dois ali, que ele deixa bem claro que só fizeram mal a ele, mas esse livro me quebrou todinha porque eu definitivamente não esperava o que estava por vir.


“- Não precisa dizer nada, eu sei o que você pensa. Você já disse. E respeito a sua crença, a sua opinião. Por outro lado, é muito difícil viver num mundo que não quer ouvir o que sentimos, as pessoas não conseguem compreender, entende?
Eu entendo. Eu não sou uma pessoa insensível, Esdras. Mas é um assunto delicado.
E por isso mesmo não pode ser evitado, não é? – diz o andarilho. – Não estou apontando o dedo para você, mas você não imagina o quão difícil é querer dizer o que sente, o que se pensa sobre si, sem ter que sentir vergonha do que o outro vai pensar. Principalmente porque, se a pessoa puder escolher, ela decidirá não ouvir. Ninguém quer falar sobre suicídio. O problema é que não tocar no assunto não evita que ele aconteça.

Eu não posso aprofundar muito nisso porque eu acho que é melhor a surpresa que vem no meio da história conforme você a lê, mas eu posso falar sobre o que eu pensei sobre o livro sim:

Como eu disse, foi meio difícil para mim ler esse livro. E não porque é um livro ruim ou um livro com escrita difícil ou maçante, longe disso. É apenas porque algumas passagens pegavam bem fundo no meu coração e tem coisas que estão escritas ali que é difícil de ver refletida em você mesmo. Então quando ficava um pouco dolorido demais o reconhecimento entre as palavras de Esdras, eu precisava largar o livro um minuto e respirar antes de continuar a leitura.


“- Eu sei que a primeira coisa que passa na cabeça de quem está de fora é: “Ele não tentou o suficiente”. Mas ninguém acorda pela manhã pensando: “Que lindo dia para se jogar da janela”. Aquela pessoa, na verdade, já se atirou da janela tantas vezes na sua imaginação, que, quando chega o dia de fazer isso, de fato, nem encara como o maior desafio da sua vida. Pode até ser o grande dia, mas é só mais uma encenação da mesma peça que ela ensaiou tantas e tantas vezes. Será apenas mais um pulo, o último. E sabe o que é mais difícil disso tudo? Em nenhum daqueles dias anteriores em que a pessoa se atirou emocionalmente pela janela, alguém esteve lá embaixo para segurá-la, ou lá em cima para impedi-la. Só há uma diferença entre o grande dia e os dias de ensaio: a solidão. A solidão é a única companhia garantida no fatídico dia em que a pessoa se atira fisicamente da janela. Ao contrário dos outros dias, justamente naquele dia, a pessoa não terá mais esperanças de que alguém comparecerá ali em cima para salvá-la; ela já se convenceu de que está só, completamente só.

Mas eu sempre voltava para ele porque é uma leitura que é maravilhosa. O plot em si do livro é maravilhoso demais e a forma fluida que Lincoln usa para escrever, além da forma que ele dá ao texto, com tantas conversas profundas que tocam a gente, faz essa ter sido uma das melhores leituras do ano para mim, então valia a pena sentir um pouco de dor para ser agraciada com essa leitura sim.

Todo o livro é visto do ponto de vista de Esdras, se dividindo apenas com um locutor em alguns momentos em que nós não fazemos ideia do que ele é e o que ele pretende até o momento em que ele se apresenta no próprio livro. Assim como as cartas, que obviamente são do ponto de vista de Lélio. E é tudo bem separadinho, mostrando onde cada personagem entra na história, além de deixar tudo de uma forma bem arredondada até o final.


“O suicídio mata mais gente, todo ano, do que a soma dos mortos de guerras, de homicídios e de desastres naturais. Sabia? Como alguém pode ignorar isso?”

E acho que a única coisa que eu não gostei, ou talvez eu não tenha entendido direito, foi o final. Eu adorei cada parte do livro: adorei os debates, adorei a apresentação dos personagens que compõem a história, adorei ir notando durante a passagem do livro o quanto Esdras evolui conforme tudo vai acontecendo ali, mas o final eu não sei explicar. Eu não sei se ficou em aberto demais, ou se eu entendi errado demais, ou se eu não entendi de jeito nenhum.

Ainda assim, isso não invalida a leitura do livro e não invalida o quanto eu gostei de toda a jornada que foi feita até chegar ali, não invalida que esse livro é muito, muito bom sim e foi feito realmente para tocar a gente lá no fundo.


“As pessoas têm muito medo dos próprios medos, não é? Mas entenda que você não precisa encarar todos eles. Ninguém pedirá para você ter a coragem infinita de ir ao encontro de tudo que te aflige. O medo é importante… É o medo que nos impede de correr riscos que são dispensáveis; de cometer atos dos quais nos arrependeríamos. O medo é tão importante para nós quanto a coragem.”

Como eu avisei lá em cima, o livro tem alguns gatilhos também, por isso fica o aviso aqui. Não é nada extremamente pesado ou gráfico, mas não cabe a mim medir o que pode engatilhar os outros ou não, é obvio, e o aviso vem dentro do próprio livro mesmo.

E, como eu sempre faço muita questão de frisar: se você está se sentindo péssimo e não sabe com quem conversar, não sabe onde buscar ajuda, não deixe essa angústia consumir você: entre em contato com o CVV (ligando para 188 ou acessando o site: Centro de valorização da vida). Você não está sozinho. Às vezes a vida pode ser difícil e não vemos uma luz no fim do túnel, mas tudo, absolutamente tudo, sempre passa.

Para comprar “Cartas para o Invisível” basta clicar no nome da livraria:

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