04.10


“A lista de convidados”
Rebecca Serle
Tradução: Alexandre Boide
Paralela – 2022 – 288 páginas

Ao chegar na comemoração de seu aniversário de trinta anos, Sabrina se surpreende ao encontrar não apenas a melhor amiga, Jessica, mas outros quatro convidados: o pai, o antigo professor da universidade, o ex-namorado e grande amor, e Audrey Hepburn, a estrela de cinema. São as cinco pessoas que, anos atrás, ela declarou querer convidar para um jantar. Mas por que essas pessoas? E o que fazer agora que o jantar está mesmo acontecendo?

Antes que a noite termine, Sabrina e seus convidados precisarão descobrir por que estão reunidos ― e o que devem aprender com essa experiência. Em A lista de convidados, a autora de Daqui a cinco anos nos conduz por uma comovente história que mescla memória, arrependimento, luto e amor.

Quando li “Daqui a cinco anos” (que resenhei sem spoilers e você pode ler clicando AQUI), eu soube que a autora seria alguém que acompanharia e leria seus futuros livros, e não foi diferente: assim que vi que a Editora Paralela publicaria “A lista de convidados”, imediatamente quis ler o segundo livro da autora que mistura um pouco de fantasia em suas tramas centradas na realidade, dando um toque de “conto de fadas” em sua narrativa – mas não porque temos um príncipe para salvar a vida da princesa nem nada do tipo, mas pelo tom lúdico que as tramas incorporam em si.

Não sou fã de romances e acredito que quem acompanha o site há um tempo já sabe disso e novamente a autora traz o amor em outra forma que não seja somente o romântico (mas calma que o romance também está presente no livro sim!) com bastante acerto de contas e momentos de fazer os olhos encherem de lágrimas porque relacionamentos são sim, bastante frageis e capazes de partir nosso coração, seja com um afastamento de uma melhor amiga, seja pelo abandono do pai, seja pela lembrança do grande amor de sua vida que não lhe entregou seu felizes para sempre. E é assim que a vida é, não é mesmo?

Dou um passo atrás. Observo as pessoas. Todas elas. Estão sentadas a uma mesa redonda bem no meio do restaurante. Audrey está de frente para a porta, com o professor Conrad à sua direita e Robert à esquerda. Tobias está de frente para Robert, com Jessica à sua esquerda, e entre os dois está minha cadeira vazia.
Nós começamos sem você, Sabrina”, diz Conrad, erguendo a taça. Seu vinho tinto tem uma cor forte; é o mesmo de Jessica. Audrey está tomando um scotch puro; Tobias, uma cerveja; Robert, nada.

Eu sei que você já reconheceu a pergunta que é o pontapé inicial desta trama: Se você pudesse jantar com qualquer pessoa, viva ou morta, quem seriam essas pessoas? Já vi essa pergunta rodando pela internet com um numero de convidados diferentes, mas aqui temos 5 pessoas e quem responde essa pergunta é Sabrina, uma mulher que já passou por alguns momentos decepcionantes em sua vida e que responde essa pergunta feita por sua melhor amiga, Jessica, tendo os convidados mudados ao longo de sua vida e, sendo sinceros, nós também mudamos essas respostas ao longo do que vamos vivendo e das pessoas que vamos perdendo, seja pela morte, seja pelo contato diários, seja por relacionamentos fracassados. É doloroso fazer essa “brincadeira” (tanto que nunca quis responder) pelo simples fato de que temos de assumir os nossos fracassos e a saudade que sentimos de pessoas que talvez não podemos mais ter.

Seguindo a forma do livro antecessor da autora, “A lista de convidados” tem o tom lúdico também, já como a personagem principal, Sabrina, chega em no restaurante marcado para encontrar Jessica, sua melhor amiga, para o jantar do seu aniversário e lá encontra pessoas que não esperava: seu pai, Robert, que lhe abandonou quando ela era uma criança; o professor Conrad, que lhe causou profunda impressão em sua vida com suas aulas na faculdade; Tobias, seu ex-namorado e o amor de sua vida e Audrey Hpeburn – sim, a atriz. Parecendo ser algo altamente improvável de estar realmente acontecendo, Sabrina é jogada contra os fatos que aconteceram com essas pessoas em sua vida e o motivos pelos quais todos estavam ali, juntos, naquela noite. Talvez uma segunda chance de resolverem tudo que ficou entre eles ou somente um momento criado por uma imaginação nostálgica proporcionada pela chegada de uma nova idade?

Hoje eu trabalho como editora de livros”, acrescento, um tanto na defensiva. “Jessica, o que está acontecendo?
Jessica balança a cabeça. “É o seu jantar.” Minha lista. Ela sabe, claro. Estava lá quando eu a fiz. A ideia foi dela. As cinco pessoas, vivas ou mortas, que eu gostaria de convidar para um jantar.
Você não acha que isso é loucura?”, digo.
Ela toma um gole de vinho. “Um pouco. Mas coisas malucas acontecem todos os dias. Não é isso que eu sempre digo para você?

Nem mesmo Sabrina tem a resposta desta pergunta porque só tem perguntas em sua mente até aquela altura. Mas acho que além de falar da própria personagem, preciso explicar um pouco sobre os convidados daquele jantar porque a trama se passa literalmente naquela mesa (além de, claro, ter bastante flashbacks para explicar os relacionamentos entre os personagens). Sabrina é uma mulher forte e que está um tanto quanto afastada de Jessica, já como a melhor amiga tem um bebê pequeno e precisa amamentar e também está casada com Sumir, seu namorado desde sempre, enquanto a vida com um trabalho corrido a leva a não participar tanto da vida de alguém que é tão importante para ela, Sabrina sente que está começando a perder muito dos acontecimentos envolvendo sua amiga, que é um pilar em sua vida e que resistiu a todos momentos ruins que já enfrentou, já como são realmente amigas de muitos, muitos anos. Ler sempre sobre amizades fortes assim sempre me pega e me conquista.

Estudante de uma cadeira de filosofia ministrada justamente pelo professor Conrad, Sabrina vai até uma exposição no píer de Santa Monica, onde conhece Tobias, um estudante que imediatamente chama sua atenção – mas que talvez a reciproca não seja verdadeira. Dois anos depois, morando em New York, o destino age novamente e coloca Tobias no mesmo vagão do metrô de uma encantada Sabrina, que nunca esqueceu o breve encontro deles anos atrás. Mas, além da atração física, quem Tobias é parece casar com quem Sabrina é, mas, a medida que o relacionamento vai ficando mais sério e mais intenso, as diferenças vão se acentuando até o ponto que os dois não parecem mais se entenderem, mesmo tendo passado por diversos percalços. É triste e dói ler que o amor não basta, mas é exatamente assim que a vida funciona e nem todos amores são para sempre. Nada está garantido, nem a convivência, nem a perpetuação de um relacionamento que você acredita ser para sempre.

Sempre achei que a gente deveria se recordar só dos bons momentos. Quando relembro meu relacionamento com Tobias, minha tendência é fazer isso. Pensar em nossos melhores momentos. Nossos maiores acertos. As coisas que atrapalharam nosso caminho, as coisas que nos afastaram, eu também esqueço com facilidade.

Temos ainda o professor Conrad, que teve um papel importante na formação de quem Sabrina é e por isso ela colocou o nome dele em sua lista de convidados. Com bastante experiência de vida para ajudar uma atual Sabrina, sinto que Conrad poderia ter participado mais da narrativa, assim como a própria Audrey Hepburn – eu sei, eu sei, muitos podem estar pensando: “O que ela está fazendo aqui?”, mas, seguindo a regra da pergunta que correu por toda internet, sempre há alguém assim, certo? Sabrina obviamente gosta e tem bastante carinho pela Audrey Hepburn e seus filmes, rendendo até mesmo uma cena bastante engraçadinha.

E, fechando a lista de convidados, temos Robert, o pai de Sabrina, que é o relacionamento mais complicado de todos que estão sentados naquela mesa. Alcoólico, Robert deixou Sabrina e sua mãe, procurou o AA, ficou sóbrio, se casou novamente e teve outras duas filhas: Daisy e Alexandra, as quais Sabrina sequer quis conhecer. É um relacionamento complexo e repleto de magóas, que fica completamente explicado e que eu tenho certeza que é capaz de tocar qualquer pessoa que leia, além de tocar mais ainda quem passou por um relacionamento familiar assim. A dor de se sentir abanadona e a força necessária para conseguir perdoar é algo que só quem enfrentou isso é capaz de mensurar.

Tobias balança a cabeça. “Agora tanto faz. São águas passadas.
Águas passadas. Eu quero dizer mais uma coisa, mas me interrompo. Porque não sei se já quero trazer isso à baila. É uma sensação familiar, essa hesitação da minha parte. Houve momentos em que meu namoro com Tobias parecia uma partida de Jenga. Quanto eu posso dizer? Se eu revelar isso, vai fazer tudo desmoronar? Se eu disser como realmente me sinto, vai ser minha última jogada? Era ao mesmo tempo assustador e empolgante porque, cada vez que eu tirava uma peça da estrutura e a torre continuava de pé, parecia uma vitória. O que não tinha me ocorrido era que, em algum momento nesse jogo, toda a torre cai. Acontece toda vez. É assim que o jogo termina. Por que eu continuei jogando, então, se sabia que eu ficaria em ruínas?

O clima de melancolia que a “A lista de convidados” traz é intenso e real, e quando a narrativa termina, a sensação de ter lido algo tão preciso e delicado fica com quem leu. Ler sobre alguém que está tendo a oportunidade de ter uma chance de resolver relacionamentos que ficaram mal resolvidos e ainda conhecer quem pode lhe ajudar é um enredo que não é novo, mas, se escrito da forma certa, atinge os leitores – e a autora definitivamente conseguiu. E você, quem você colocaria na sua lista de convidados?

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