29.06


“Garota, mulher, outras”
Bernardine Evaristo
Arte da capa: Estúdio Daó
Tradução: Camila Holdefer
Companhia das Letras – 2020 – 496 páginas

Um romance surpreendentemente atual e engenhoso sobre identidade, raça e sexualidade, vencedor do Booker Prize em 2019.

Garota, mulher, outras é um verdadeiro marco da ficção britânica. O romance causou furor quando publicado: venceu o Booker Prize em 2019, foi aclamado por nomes como Barack Obama, Roxane Gay, Ali Smith e Tom Stoppard e incluído nas listas de melhores livros do ano por veículos como The Guardian, Time, The Washington Post e The New Yorker. A forma, por si só, não é nada convencional: trata-se de um gênero híbrido, composto de versos livres e sem pontos-finais. O resultado é uma dicção singular e envolvente, que prende o leitor da primeira à última página.

O pano de fundo dessas histórias é uma Londres dividida e hostil, logo após a votação do Brexit: um lugar onde as pessoas lutam para sobreviver, muitas vezes sem esperança, sem que as suas necessidades sejam atendidas e sem que sejam ouvidas. Nesse ambiente opressor, as vozes de Garota, mulher, outras formam um coro e levantam reflexões poderosas sobre o machismo, o racismo e a estrutura da sociedade.

Havia um certo tempo que eu não lia um livro que me impactasse tanto quanto “Garota, mulher, outras” (o último que me lembro foi justamente “O avesso da pele”, ganhador do Prêmio Jabuti no ano passado e que também resenhei – leia clicando AQUI). Não vou negar para você, que me lê, e dizer que é um livro de leitura fluída e fácil: a autora Bernardine Evaristo escolheu escrever uma história sem pontos finais, com pensamentos das personagens que muitas vezes parecem soltos, assim como diversos versos, informações que vão se conectando e uma história em retalhos que se completa e se repete em ciclos dolorosos, que pode sim, ser difícil para embarcar em um primeiro momento, mas prometo que a jornada vale a pena de uma forma que o livro fica em você, em seu coração e em sua mente, ressoando por dias, sem parar.

Para quem não conhece ainda Bernardine Evaristo: autora inglesa com ascendência nigeriana e autora de 8 livros, sendo “Garota, mulher, outras” o 1º publicado aqui no Brasil. Escritora, Bernardine é professora de escrita criativa na Brunel University London e vice-presidente da Royal Society of Literatura, além de ser dramaturga também e agora a primeira mulher negra a receber o Booker Prize, o mais importante prêmio da literatura inglesa, com este livro – e eu consigo entender perfeitamente o motivo. Acho que todos já entenderam que a autora é alguém para se seguir a carreira e eu agora definitivamente irei ler o que mais ela escrever. Agora vamos ao ponto que interessa: como ser mulher se torna o tema de uma obra tã impactante quanto este.

mães normais e se recusa a ser vista ao lado dela quando supostamente deviam estar andando juntas na rua Yazz sabe muito bem que Amma vai continuar a ser tudo menos normal, e estando na casa dos cinquenta ela ainda não é velha, mas tente dizer isso a uma garota de dezenove anos; seja como for, não há nada para se envergonhar nessa coisa de envelhecer sobretudo quando toda a raça humana está junta nisso mas de vez em quando ela parece ser a única entre seus amigos que quer comemorar o fato de ficar mais velha

Vou começar atentando o leitor para o formato da construção do livro: dividido em cinco partes, sendo que a última parte é quando todas as histórias das personagens se encontram em um momento escrito com brilhantismo e ainda um epílogo. É assim que a história destas 11 personagens femininas e 1 pessoa não binária é contada, com uma diversidade de cores, formatos, sexualidade e amores, levando o leitor a pensar em todo cenário que está sendo apresentado.

De cara somos apresentados a uma Londres dividida, já como os eventos do livro se passam em 2016, depois da votação do Brexit, onde Amma, uma mulher forte e lésbica, está nervosa com a estreia da sua mais nova peça no National Theatre, temos também um vislumbre do relacionamento dela com sua filha Yazz, quma jovem mulher de 19 anos, além de conhecer seu passado e força: muito cedo, junto com sua melhor amiga, Amma criou uma companhia de teatro que levou diversidade para o cenário teatral da cidade, com peças que não chegavam as grandes casas teatrais e muitos não teriam acesso se não fosse a luta da dupla. Amma concebeu Yazz através de uma inseminação artificial e acredita que foi o jeito de realizar sua vontade de ser mãe. Já Yazz vai se tornando uma mulher cada vez mais forte, questionando o papel da mulher em uma sociedade machista e também o modo como as minorias são tratadas. Ainda próxima de Amma, temos Dominique, outra mulher forte que se mudou para os Estados Unidos e que está tentando se libertar das lembranças de um relacionamento abusivo que terminou, sendo melhor amiga de Amma que fundou com ela a companhia de teatro – e, confesso, uma das minhas personagens favoritas de toda história.

Bummi estava tão orgulhosa quando Carole entrou na famosa universidade para pessoas ricas que tirou cópia da carta de aceitação da universidade não uma nem duas, mas três emoldurou e colocou na casa—uma na parede do corredor, uma na porta do lado de dentro do banheiro e outra em cima da televisão onde ela mesma podia olhar enquanto assistia tevê ela não previu que aquilo podia levar Carole a rejeitar a verdadeira cultura dela

A segunda parte foi a trama que me impactou desde começo: conhecemos Bummi, mulher forte que cria a filha sozinha e que lê no momento mais dificil do relacionamento das duas, que é justamente o afastamento da filha das origens que a mãe carrega com tanto orgulho. Carole, a filha de Bummi, é mulher forte que sofreu uma violência sexual e que, obviamente, tem sua personalidade e vida alteradas a partir dai. Para completar essa parte, temos La Tisha, uma mãe solo que luta arduamente para conseguir prover os filhos e sua família, e se afastou de sua ex-melhor amiga de infância, Carole. Já a terceira parte do livro começa com uma antiga professora das personagens Carole e La Tisha: Shirley era uma professora rigorosa e é assim lembrada pelas alunas, enquanto foi envelhecendo e perdendo grande parte de sua própria força e que tem um relacionamento próximo com sua mãe, Winsome, que mantêm um segredo longe dos olhos de todos, até mesmo de sua filha. Completando essa leva de personagens, temos Penelope, que trabalha com Shirley e que é bastante complexa e evita lidar com seus sentimentos a todo custo.

Quando a quarta parte se inicia, você já está acostumada com o ritmo do livro, entregue e envolvida nas histórias daquelas personagens que se encontram ao sabor do acaso, e é ai que somos apresentadas a um núcleo familiar que definitivamente se tornou caro para mim: Temos Grace, Hattie e Megan/Morgan. Hattie, uma mulher idosa de 93 que abre sua mente e seu coração para aceitar, apoiar e amar seu bisnete Megan/Morgan, pessoa não-binária, de gênero neutro e que nunca se sentiu livre enquanto crescia – e aqui um parabéns para a edição e tradução, que incorporou o gênero neutro ao tratar da personagem. Ainda temos toda a história de Grace, que traz o peso da maternidade e de tudo que algumas mulheres podem sentir ao colocarem outro ser humano sobre esta terra, tudo de acordo com suas experiências e vivências.

Megan já sabia que estava na hora de crescer, o objetivo de sair de casa era descobrir onde ela começava e os pais acabavam me fala mais do que você sabe de feminismo e gênero, e eu sei que eu já deveria saber, mas eu não sei, tá?
tendi, aqui vai: mulheres são programadas para ter bebês, não para brincar de boneca, e por que as mulheres não devem se sentar com as pernas bem abertas (se estiverem usando calças, obv) e o que masculinizado e masculino significam, afinal? dar passos largos ao andar? ser agressivo? assumir o comando? usar roupas “masculinas”? não usar maquiagem? não depilar as pernas? raspar a cabeça (hahaha), beber cerveja em vez de vinho? preferir futebol a tutoriais de maquiagem na internet (bocejo), e tradicionalmente homens usam maquiagem e saia em partes do mundo então por que não aqui sem serem acusados de ser “efeminados”? o que efeminado realmente significa quando você para pra pensar?

Como vocês podem observar, eu apresentei as personagens, porque as personagens são as tramas deste livro tão bem escrito e capaz de mostrar as mesmas situações vivenciadas de formas diferentes através de gerações de mulheres fortes e intensas, feridas pela vida e ainda guerreiras. A forma como tudo vai se unindo para a quinta parte e o grande encontro destas vivências é capaz de prender qualquer leitor que teve problemas com a forma como o livro foi escrito, coisa que comecei falando sobre nessa resenha. Nesta altura da narrativa, você já está apaixonado por essas mulheres que foram capazes de escrever seu nome de forma tão intensa e brilhante em suas vidas, nas vidas das pessoas que as cercam e também na vida do leitor.

Não resta dúvidas de que é uma leitura sobre mulheres feita por uma mulher que tenta mesclar vivências e respostas para situações que muitas mulheres em todo mundo passam diariamente. Relacionamentos entre mães e filhas e como o tempo é capaz de agir em cada uma de nós, trazendo a tona reações diferentes em situações que se semelham. Um livro imperdível que eu não poderia perder a chance de indicar para vocês porque dentro de cada uma de nós há sim, uma garota, uma mulher e outras também.

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