03.08


“Rainha das Chamas”(Princesa das Cinzas #3)
Laura Sebastian
Tradutora: Raquel Zampil
Aarqueiro – 2021 – 384 páginas

SOBERANA
AUDACIOSA
GUERREIRA
INDOMÁVEL

A princesa Theodosia foi prisioneira em seu próprio país por mais de uma década, humilhada pelo kaiser e por sua corte. Porém, mesmo usando uma coroa de cinzas, o fogo nunca deixou seu sangue. Como herdeira legítima do trono de Astrea, Theo sabe que uma rainha não se acovarda jamais.

Agora livre e com um exército rebelde sob seu comando, Theodosia tem que libertar o povo escravizado por uma inimiga ainda mais assustadora: Cress, a nova kaiserin. Munida de um tipo de magia nunca visto antes, a adversária está disposta a queimar todos que ficarem no caminho do seu império.

Theo precisa abraçar seu novo poder como Rainha das Chamas se quiser derrotar Cress, a mulher a quem um dia chamou de irmã do coração.

Essa é a resenha do livro final da trilogia “Princesa das Cinzas” e ela não terá spoilers da trama, mas obviamente mencionarei fatos ocorridos nos dois primeiros livros, que são, em ordem: “Princesa das Cinzas” (você pode ler minha resenha clicando AQUI) e “Dama da Névoa” (leia minha resenha clicando AQUI).

Para quem não leu o 1º livro e caiu aqui nessa resenha de paraquedas, vou fazer um pequeno resumo sem qualquer spoiler do começo da trama: A pequena Theodosia viu sua mãe, a Rainha de Astrea e do Fogo, ser morta em sua frente quando tinha 6 anos. Ela foi capturada pelo assassino de sua mãe, o Kaiser do reino de Kalovaxia, e foi mantida basicamente uma refém na corte dentro do castelo que outrora fora sua casa amorosa. Sofrendo humilhações constantes, de surras até usar uma coroa de cinzas, que caia em sua roupa durante os bailes da corte, Theo teve seu nome tirado dela também: ela se tornou Lady Thora, uma sombra do que estava destinada a ser, até que um antigo amigo volta a sua vida e uma revolução começa. Thora deixa de existir e Theo volta a entrar em cena, e através de grandes manipulações e tramas politicas, ela vai reconstruindo seu caminho para reconquistar o trono e libertar seu povo que fora aprisionado trabalhando nas minas que são fontes de poderes. Junto de Blair, seu antigo amigo, Artemisia, uma garota muito, muito determinada e Heron, Theo vai se tornando mais e mais forte, tanto com seus poderes de fogo quanto em sua personalidade, ainda encontrando aliados aonde menos esperava – como Søren, o filho do Kaiser – e também inimigas mortais que antes eram pessoas caras a seu coração – como Crescentia.

Quando terminei de ler “Rainha das Chames”, eu sentia que estava deixando uma amiga bastante querida para trás, e isso doeu. Doeu porque Theo é uma das melhores protagonistas dos últimos anos. Já falei tanto sobre ela nas minhas duas primeiras resenhas e, se pudesse, falaria muito, muito mais, porque ela é aquilo que se propõe a se tornar: de uma garota traumatizada que chegou a esquecer seu próprio nome no 1º livro, passando por uma jovem mulher que estava procurando confiar em si mesma e descobrir seus poderes no 2º livro, chegando a se tornar a Rainha das Chamas e Fúria que encerra a trilogia. Afirmo aqui, com todas as letras, que Theo teve, sem sombras de dúvidas, um dos melhores desenvolvimentos que já vi em um livro de fantasia YA, com toda certeza do mundo. Parece até redundante afirmar isso para quem leu, mas quero deixar isso claro para quem ainda não leu que está sim, perdendo a chance de ler um livrão daqueles (ou melhor, uma trilogia daquelas).

Eu morri como a Rainha da Paz e a paz morreu comigo”, disse-me minha mãe. “Mas você é a Rainha das Chamas e da Fúria, Theodosia, e vai atear fogo no mundo deles.

Como vocês podem imaginar, Theo sobrevive ao entrar na mina, que é como “Dama da névoa” termina. Eu não tinha a menor dúvida de que isso iria acontecer já como ainda tínhamos este livro para terminamos a jornada da personagem, mas eu preciso falar que me surpreendi com as escolhas da autora (mais uma vez): Theo sobreviveu sim, mas não se lembra do que aconteceu durante seu tempo na mina, deixando o leitor confuso porque isso não fazia o menor sentido para a narrativa, já como ela havia descido até lá para conseguir a totalidade de seus poderes, então parecia se tornar perda de tempo ela ter ido até lá e não ter conseguido nada, certo? Errado, porque Theo vai se lembrando através de sonhos ao longo da trama o que aconteceu lá embaixo, enquanto o leitor vai entendendo a dimensão das informações e do que aconteceu com Theo lá embaixo, começamos a esperar uma batalha épica para encerrar a trama. Mas calma que estou adiantando a trama, voltemos ao começo.

Tendo sobrevivido a mina e voltado para encontrar seus amigos em um estado de confusão completa, Theo logo retorna seu lugar de Rainha e comandante – ela já ficou afastada deste lugar por muito tempo em sua vida e sabe que não há tempo hábil para tentar lidar com suas emoções porque uma tempestade se aproxima: Cress, agora Kaiserin e mais do que disposta a ser a mais nova tirana para o povo da Kalovaxia, mesmo que o prinz Søren ainda esteja vivo. Alias, vou deixar para falar sobre Søren adiante porque o foco aqui é realmente Cress e a destruição que ela pode fazer. Ainda enganada e acreditando que Theo está morta, Cress está focada em se tornar tudo que ela acredita ser necessário, mas, através dos sonhos que também a lembram do que aconteceu nas Minas e quem encontrou lá, Theo consegue ver e saber o que a sua antiga irmã do coração agora está tramando (spoiler: obviamente não é nada bom).

Culpa não é a palavra certa para o que sinto enquanto voltamos ao acampamento sob um pesado manto de silêncio. A culpa não é um sentimento estranho para mim, a forma como ela corrói as suas entranhas até você se sentir enjoado, como ela atormenta os seus pesadelos até você achar que vai enlouquecer. Não é isso que sinto agora. Milhares de pessoas estão mortas pela minha mão, em consequência de ordens que dei, sim, mas não tenho arrependimentos em relação a isso. Se eu tivesse que repetir, não hesitaria em fazer exatamente o mesmo.

Claro que Theo continua seus treinos, desenvolvendo seus poderes e criando toda estratégia que precisa porque sabe que está em desvantagem numérica contra o poderoso exército de Cress, mas também sabe que pode contar com Art, Blaise e Heron, e aqui preciso de outro minuto para falar como há um equilíbrio aqui entre os personagens “coadjuvantes” que me espantam: todos estão lidando com seus problemas periféricos, todos estão tentando se encontrar no meio daquela guerra e a lealdade de todos está com Theo até o fim. Quem leu minhas resenhas anteriores sabe o quanto eu AMO a Art e aqui ela tem um desenvolvimento maior ainda com uma representatividade bastante complexa – mas deixo claro e assinalado de que muito sobre a personagem ficou em aberto e não explorado.

A trama do livro é bastante clara a que se propõe e não engana o leitor: uma grande batalha está realmente vindo e que somente uma das duas, Theo ou Cress, sobreviverá. Mas, mesmo sendo bastante direta ao que se propõe, a narrativa ainda me enganou em um certo ponto sobre quem iria ou não morrer (porque sério, é o último livro, é obvio que alguém iria morrer), o que inclusive me causou uma dor acima do que esperava, mérito total da escrita de Laura Sebastian que se manteve constante em seus livros e se ajustou de uma forma incrível a cada trama, sendo que aqui entregou um livro que leva o leitor do nervoso com as tramas politicas (que, claro, continuam) até o momento de shippar no romance que estava acontecendo e que parece, por uma parte do livro, ter sido completamente deixado de lado – e eu defendo isso completamente porque os personagens estavam indo na direção de uma batalha na qual estavam em desvantagem e que poderiam realmente morrer. Mas não é bem assim, e o romance está lá, assim como a tensão presente em uma trama tão bem construída desde o primeiro livro.

Você ainda acredita nos deuses? – indago.
Parece uma pergunta perigosa para se fazer, na mina do Fogo entre todos os lugares, mas não sei quando terei outra chance de perguntar isso a ela. Continuo:
Depois de tudo que eles permitiram que acontecesse conosco?
Ela reflete por um momento.
Não acredito que os deuses existam para resolver nossos problemas – responde ela. – Mas acho, de verdade, que eles nos dão as ferramentas de que precisamos para triunfar. Acredito que eles nos deram você, forjada no fogo.

Como falei acima, a dor chega em algum ponto do livro, chega pelas escolhas que Theo está fazendo, seja pelos amigos que está perdendo, seja pela falta de esperança que perpetua grande parte do livro, mas, confesso, que aqui temos, mais uma vez, o embate de duas personagens MUITO bem construídas e que se tornaram antagônicas pelas escolhas que fizeram e pelo mundo ao redor delas: Cress e Theo são as donas do show todinho. Falei que deixaria para falar de Søren mais adiante, então acredito que agora seja a hora porque sei que muitas pessoas gostam de romance e até mesmo eu acabei me tornando fã do casal durante “Dama da Névoa”, e dou a ele todo crédito por continuar sendo tão honrado e bom como sempre foi em todos livros mesmo tendo sofrido o tanto que sofreu (tanto fisicamente quanto psicologicamente), mas, sem a menor sombras de dúvidas, o relacionamento primordial deste livro é mesmo entre Cress e Theo. Outrora amigas, Theo via Cress como uma garota mimada e infantil que queria um bom casamento, e sua escolha durante “Princesa das Cinzas” impactou a vida da outra que sim, era tudo que Theo pensava. Sei que muitos podem questionar as escolhas de Theo, mas a defendo aqui novamente: ela se tornou o que aprendeu a ser. Em uma corte sem nenhuma pessoa que realmente a conhecesse, humilhada, traumatizada e sozinha, é natural que ela endurecesse e se tornasse a pessoa que se tornou. Cress, em contrapartida, era realmente muito ingênua, uma verdadeira princesa em um mundo privilegiado, protegida pelo pai e adorada por todos ao seu redor, mas que, como toda pessoa privilegiada, não pensava no sofrimento de quem estava próximo a ela e que afirmava ser a melhor amiga. Era um relacionamento de subserviência entre as duas, e, para Cress, estava tudo bem porque era ela na posição superior, e por isso é tão impactante ver aonde as duas terminam.

Todas as cenas de Cress e Theo são, de longe, as minhas favoritas do livro, mas devo assinalar que a última se tornou a favorita por todos motivos ali presentes – os quais não serão mencionados aqui, claro, porque são spoilers. Eu não esperava outra coisa da Theo, e também não esperava nenhuma outra atitude de Cress. A forma como o destino as juntou novamente para terminarem ali é, sem sombras de dúvidas, uma aula de como as personagens femininas podem estar no centro de uma trama tão intensa e se mostrarem impiedosas e magnificas, porque é isso que as duas são. Definitivamente o relacionamento delas está entre meus favoritos de todos tempos entre todos livros de fantasia que já li pelo poder que emanam juntas e separadas. Há muito poder em uma mulher procurando por sua vingança, e esta máxima serve para as duas personagens.

Como chegamos aqui?, pergunto a mim mesma. Mas eu sei a resposta. Nós sempre estivemos aqui, em lados opostos de uma guerra que nem sabíamos que estávamos travando. Talvez, em outro mundo, esta história pudesse ter tomado um rumo diferente. Talvez, em outro mundo, eu teria contado a ela sobre a rebelião que estava planejando e ela teria ficado ao meu lado. (…)
Mas não é esse o mundo em que vivemos.

O final da trilogia não me decepcionou em absolutamente nada, ao contrário, e se não ganhou uma nota 5 redonda, é simplesmente por um motivo que já falei acima: algumas tramas foram deixadas de lado – e acredito que podem vir mais livros sobre o que ficou fora, como a trama envolvendo Art, e eu leria muito feliz da vida, apesar da história de Theo estar claramente encerrada. De resto, temos aqui uma conclusão perfeita que fez muito jus à jornada de suas personagens: não há mortes que acontecem simplesmente para chocar o leitor, os personagens que traem os outros em algum ponto são obrigados a fazerem escolhas, shippamos os casais já estabelecidos e ninguém mudou de personalidade para aceitar um final bonito simplesmente pelo fato de que é o livro final. Não tenho como explicar como essa trilogia foi bem construída e sempre panfleto ela, mas aproveito o momento para indicar, mais uma vez, uma história que joga as mulheres no centro delas, que não precisam de ninguém para as salvarem e nem para serem seus vilões: todas as mulheres desta trama tem sua própria personalidade, seus objetivos, seus desejos. É uma verdadeira ode ao nosso poder, sem deixar de lado nenhum dos nossos traços de personalidade, então, por favor, se renda a essa princesa e venha ler essa trilogia. Aprenda que o fogo queima pessoas e relacionamentos, mas, acima de tudo, é capaz de fazer alguém ressurgir das cinzas e tornar uma versão melhor de si mesma, maior e mais forte. Obrigada por essa jornada, Theo. Eu definitivamente vou sentir sua falta.

Aproveito o espaço para mostrar o box maravilhoso que a Editora Arqueiro lançou com os 3 livros e marcador exclusivo, e também confesso que estou chorando porque queria. Para garantir o seu, vir na Amazon ou Submarino.

Para comprar “Rainha das Chamas” basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Submarino.
Travessa.
Magazine Luiza.

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