21.07


“Dama da névoa” (Princesa das Cinzas #2)
Laura Sebastian
Arqueiro – 2020 – 304 páginas

Quando Theodosia tinha apenas seis anos, sua mãe, a Rainha do Fogo, foi morta pelo kaiser. Ele tomou seu país e a manteve prisioneira, coroando-a como a Princesa das Cinzas e manipulando-a por dez anos.

Porém, essa época terminou. O kaiser subestimou Theo, considerando-a fraca e indefesa. Ele não percebeu que uma mente arguta é a arma mais mortal.

Agora, Theo não usa mais uma coroa de cinzas. Ela recuperou o título que lhe pertencia e fez um refém: o prinz Søren, filho do kaiser. Mas seu povo continua escravizado e ela está a milhares de quilômetros de distância.

Para recuperar o trono, ela precisa de um exército. Segundo sua tia, a temível pirata Dragonsbane, a única maneira de obter um é se casando.

Theo sabe que a liberdade tem um preço, mas ela está determinada a encontrar um jeito de salvar seu país sem precisar se perder no caminho.

Eu já panfletei TANTO “Princesa das Cinzas” que quem nós segue no twitter com certeza já me viu falar dessa trilogia. O 1º livro foi publicado pela Editora Arqueiro em 2018 e eu o li basicamente assim que saiu, e, como vocês podem imaginar, AMEI. Amei demais. Você pode ler minha resenha clicando AQUI. Obviamente eu estava esperando essa continuação com ansiedade e, depois de uma demora (tanto que a trilogia se encerrou lá fora), “Dama da Névoa” enfim chegou ao Brasil. Eu obviamente corri para ler depois de ganhar o exemplar de presente da Ju, e aqui estamos agora, então se prepare para ler uma resenha honestona pra valer sobre uma série que deveria ser mais conhecida.

Dama da névoa” é a continuação que “Princesa das Cinzas” merecia e eu falo isso com toda felicidade do mundo. É sempre maravilhoso quando vamos ler um livro sem expectativas altas (como foi o caso do 1º livro), mas é mais maravilhoso ainda quando lemos o livro inicial e nossas expectativas sobrem aos céus, então lemos a continuação e ela as supera. A construção dos personagens continua, sem sombras de dúvidas, uma das melhores que já vi, e, aqui na continuação, temos de vez as figuras femininas tomando todo o controle da história e indo pro palco central como heroína, anti-heroína e vilã. Imagina minha loucura quando terminei de ler esse livro.

Minha mãe uma vez me disse que a paz era o único caminho para a sobrevivência de Astrea. Não precisávamos de vastos exércitos, observou ela, nem forçar nossas crianças a se tornarem guerreiras. Não cortejávamos a guerra como outros países, em um esforço de conquistar mais do que precisávamos. Astrea nos bastava, afirmou.
No entanto, ela nunca imaginou que a guerra viria até nós, cortejada ou não. Ela viveria apenas o suficiente para ver quanto a paz se sai mal diante das lâminas de ferro forjado e da ganância selvagem dos kalovaxianos.
Minha mãe era a Rainha da Paz, mas eu sei muito bem que a paz não basta.

O livro começa basicamente onde o 1º livro terminou (e por isso se torna impossível não dar pequenos spoilers do livro anterior, então fica aqui o aviso!), com Theo se juntando a famosa pirata Dragonsbane, que, além de tudo, tem uma grande ligação com a personagem, um dos maiores plot twists que tivemos no volume anterior. A bordo do navio Fumaça, Theo está se descobrindo a rainha que ela precisa ser e a força dentro dela para ir contra figuras que tenham mais autoridades do que ela. Søren está sendo mantido refém no navio, sendo espancado e torturado porque é uma fuga no meio de um começo de guerra que temos aqui, então não esperem momentos leves. A tensão entre todos personagens está lá, embutida em cada parágrafo da estória e só aumenta mais e mais, enquanto a narrativa continua somente pelo ponto de vista da Theo, escondendo do leitor tudo que ela não sabe – e é muito, já como quase todos personagens escondem suas motivações e reais sentimentos uns dos outros.

Sem nunca esquecer que aprendeu a ser quem é diretamente com o Kaiser, Theo logo começa a criar suas artimanhas e tramas politicas, disposta até mesmo a se casar com qualquer um que possa ajudar o povo de Astrea contra a eminente guerra que se aproxima mais e mais. Søren também se mostra um habilidoso estrategista e aqui eu preciso falar que apesar de não ter me tornado fã do possível casal durante a leitura de “Princesa das Cinzas” por achar que cai (e muito) no clichê do “mocinha que se apaixona pelo filho do vilão”, eu preciso dizer que me peguei shippando os dois com uma força imensa porque Søren teve mais espaço para mostrar que ninguém o deve subestimar – se ele se juntar a Theo, sua lealdade estará com ela e ele definitivamente vai fazer o que for preciso por isso, sendo que a questão do livro é para que lado ele irá pender. Eu apostei para que lado ele iria, e acertei. E amei.

– Ela é tudo que você pensou que seria? A liberdade?
Essa era para ser uma simples pergunta, mas ela se insinua em meu corpo, como uma adaga penetrando entre minhas costelas. Eu costumava sonhar com o dia em que finalmente deixaria o palácio, pararia sob um céu aberto, sem inimigos por todos os lados, respiraria sem aquele peso no peito.
– Eu te aviso quando a encontrar – digo a ele.

Quando eu falo que as personagens principais dessa trilogia são femininas, eu não estou te engando: Dragonsbane é uma personagem que realmente te prende pelos motivos mais variados, já como você despreza a personagem na maior parte do tempo, mas também admira a força e sagacidade. Disposta a entregar Theo a quem oferecer mais apoio, fugindo quando acredita que não tem mais chance de ganhar e sem nenhuma ternura com sua filha, a pirata tem seus motivos para ser assim, por mais que você não concorde com eles. A presença da personagem é realmente intensa e forte, e ela se sobresai sempre que aparece com suas armações, principalmente quando Theo, Søren, Blaise e Artemisia chegam ao reino de Sta’Crivero para se reunirem com o Rei Etristo, que parece bastante inclinado a ajudar a princesa que tem uma recompensa sobre sua cabeça pesando por todos lugares. Como vocês podem imaginar, Etristo não deseja ajudar Theo somente por bondade.

Todo cenário de Sta’Crivero é nada menos do que magnífico: é um lugar que não tem magia, então usa a tecnologia para suprir as suas necessidades e do seu povo, além de ser ambientado em uma espécie de deserto. Quando li as passagens no lugar, eu realmente conseguia imaginar cada cenário, cada pequena trama, cada momento que ia sendo construído ali com Theo aceitando coisas que não quer, mas, novamente, se descobrindo a rainha que precisa ser e pensando em fazer o melhor para seu povo, até o momento que ela e seus amigos de confiança entendem que não podem confiar em absolutamente ninguém e que precisam começar a tomar suas próprias decisões. Quando isso acontece, você simplesmente enlouquece novamente porque a trama é muito, muito intensa e cheia de momentos que te fazem querer proteger aqueles personagens porque o medo de alguém ser traído e morrer a qualquer segundo é real, muito real.

– A Astrea – anuncia Artemisia, erguendo a garrafa. – Ao que já foi. Ao que voltará a ser. E a tudo o que sacrificamos por ela.
E, nesse momento, a ponta afiada das palavras de Artemisia se crava em minha pele. Já sacrifiquei o suficiente por Astrea, quero dizer. Não posso dar mais nada. Mas não é verdade, e ambas sabemos disso. Se for preciso, não há nada que eu não dê para salvar meu país.
Nem minha vontade.
Nem meu corpo.
Nem minha vida.
Não será preciso, digo a mim mesma, mas lá no fundo sei que é bem possível. Um mundo justo não me pediria mais nada, mas este mundo não é justo.

Toda trama vai sendo construída para mostrar que tudo vai dar errado e que Theo vai cair nas mãos do Kaiser enquanto somos apresentados a novos personagens em Sta’Crivero, além de reencontrar rostos já conhecidos. Preciso, mais uma vez, deixado claro o quanto o desenvolvimento dos personagens vai se acentuando, mostrando bem as escolhas de cada um e o caminho aonde a trama irá parar, já como esse é o livro do meio. E então chegamos a conclusão, que é justamente o único ponto negativo que tenho sobre o livro – a forma como se concluiu algo que era grande me pegou de surpresa. Mas, a medida que fui lendo (e concluindo a leitura) e a surpresa foi passando, eu pesei dois pontos: o 1º é que ainda temos outro livro inteiro para saber as consequências de um determinado ato de Cress e 2º que Cress merece mais espaço. Cress uma personagem que eu fico realmente dolorida de odiar. Não quero odiar a Cress porque sei que a “maldade” que havia nela era somente fruto de sua imaturidade e de ser uma garota mimada. Não a via como alguém maldosa, mas, ainda assim, eu defendo todas as escolhas de Theo em “Princesas das Cinzas”, o que faz o relacionamento das duas ser muito complexo e muito bom de se acompanhar.

Toda estrutura do livro me pegou de surpresa com o final e olha que eu sou difícil de surpreender. Não esperava pararmos aonde ficamos, com aquelas perguntas em mente (porque claro que ficariam perguntas, já como ainda há outro livro, mas não esperava ser o que aconteceu) e muito menos incertos sobre quem irá estar vivo ao final dos livros. Eu sinto tanto que essa trilogia não seja mais conhecida e reconhecida, e eu a indico para você, que ama fantasias, que gosta de tramas politicas, personagens complexos e relacionamentos construídos de forma dúbia, que não quer ver o relacionamento amoroso no centro de tudo – porque como já falei na resenha de “Princesa das Cinzas”, repito aqui de novo: o romance não é o centro de nada aqui e sim o amadurecimento de uma jovem mulher em uma rainha, fazendo as escolhas mais difíceis possíveis, até mesmo trair aqueles que ela aprendeu a amar.

– É uma história que contamos às crianças para mantê-las ocupadas. “Procure a Phiren enquanto os adultos falam coisas de gente grande. Se a vir, um desejo seu se realiza!” Ou um modo de explicar o mau tempo, ou a colheita ruim. Dizíamos que a Phiren tinha se transformado em uma espécie de névoa, mas logo voltaria às chamas, e a sorte de Goraki voltaria com ela. Às vezes, as pessoas afirmavam que a tinham visto, mas acho que a maioria acredita que não passa de um mito.
Ela para e me olha, pensativa.
– Ainda assim, você me lembrava essa lenda. Com seus olhos brilhantes, a coroa de cinzas e sendo filha da Rainha do Fogo. Lady Thora, era como a chamavam, mas eu pensava em você como Dama da Névoa. Sabia que era apenas uma questão de tempo até que seu vigor reacendesse, até que você voltasse a arder o suficiente para fugir dele.

No final, o que realmente fica é uma pequena lição de como se escrever um livro do meio com muita, muita ação, novos cenários e desenvolvimento de personagens e relacionamentos, os quais vão se tornando mais e mais intrínsecos e repletos de nuances. Não há o que se reclamar da narrativa, do livro, da edição, de tudo, o que me deixa muito, muito preocupada de ler o 3º e último livro porque não quero me decepcionar e sei que as chances estão altas já como “Princesa das Cinzas” e “Dama da Névoa” atenderam completamente (e superaram) minhas expectativas.

Termino aqui essa resenha levemente desesperada porque não vou aguentar esperar mais um ano para ler o 3º livro que já está publicado em inglês e pensando seriamente em ler logo. Mas, tenho também certeza absoluta, de que comprarei a versão nacional porque a edição está muito bem acabada, não encontrei erros e ainda há os mapas que muito provavelmente estão presentes na versão original. E, deixo aqui, mais uma vez, minha indicação e apelo à você que me lê e gosta de uma boa mocinha que luta pelo que quer: Leia essa série e venha conversar comigo porque Theo, Søren, Artemisa e todo grupo merecem sair das névoas das fandons e terem um lugar ao sol entre os melhores personagens de fantasia YA atuais.

Para comprar “Dama da névoa” basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Submarino.
Travessa.
Cultura.

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