29.06


“Não existe amanhã”(Killing Eve #2)
Luke Jennings
Tradutor: Leonardo Alves
Suma – 2021 – 240 páginas

Em um quarto de hotel em Veneza, onde acabou de concluir um assassinato de rotina, Villanelle recebe um telefonema tarde da noite.

Eve Polastri, a funcionária do governo inglês que está em seu encalço há meses, conseguiu rastrear um oficial do MI5 a serviço dos Doze e está prestes a levá-lo a interrogatório. Enquanto Eve se prepara para procurar respostas, tentando desesperadamente encaixar as peças de um terrível quebra-cabeça, Villanelle avança para o abate.

O duelo entre as duas mulheres se intensifica, assim como sua obsessão mútua, com a ação passando dos altos picos do Tirol até o coração da Rússia. Eve enfim começa a desvendar o enigma da identidade de sua adversária, e Villanelle se pega correndo riscos cada vez maiores para se aproximar da mulher que pode ser sua ruína.

Um thriller cheio de descrições chocantes e também sensuais, Não existe amanhã é brilhante ao narrar a mente psicótica de uma assassina e a caçada apaixonada de sua nêmesis, aproximando duas rivais a ponto de não saberem mais se estão uma contra a outra… ou mais unidas do que nunca.

Esse é o segundo livro da trilogia “Killing Eve” – sim, os livros que inspiraram a série homônima de bastante sucesso e que aqui no Brasil você encontra no GloboPlay. Já resenhei o livro 1, que se chama “Codinome Villanelle” e você pode ler minha resenha clicando AQUI. O 3º livro se chama “Endgame” em inglês e ainda não foi publicado em português. Os livros foram publicados originalmente em inglês e respectivamente nos anos 2017, 2018 e 2020.

Este é o 2º livro da série e é tido por muitos como o melhor da trilogia, com maior nota no Goodreads e melhores reviews, mas confesso que tive um problema com o meio do enredo – mas calma, já chego lá, vamos do começo: pegamos com Eve lidando com as consequências de tudo que aconteceu no 1º livro e a morte de Simon, seu colega de trabalho e amigo. Seu casamento está cada vez com mais problemas e ela está cada vez mais envolvida com seu “novo” emprego, mas, acima de tudo, ela está cada vez mais obcecada por sua nêmesis: Villanelle.

E se você atirasse na mão, no pé ou em algum lugar bem doloroso, mas não letal, e dissesse que ia atirar de novo se ele não falasse?
É uma opção mais inteligente, mas, se você quer a verdade, é melhor não submeter o indivíduo ao choque de um ferimento à bala. As pessoas falam coisas muito estranhas quando estão em choque. O negócio da história com veneno e antídoto é que ele assume a responsabilidade. Ele é que precisa tomar uma decisão difícil, não você. Ele pode acreditar ou não, e, aliás, não existe nenhum antídoto conhecido para uma dose letal de aconitina, mas ele sabe que a única chance de sobreviver é falando. Se ficar quieto, vai morrer com certeza.


A trama não é nada mirabolante: Villanelle está fazendo mais um dos seus trabalhos (leia-se: “matar alguém”) e você vê a personagem em seu pleno esplendor, enganando seu alvo de um jeito delicioso e torcendo pela morte dele (porque é isto mesmo que você faz quando está no ponto de vista da personagem: torcendo por seu sucesso, e isto significa matar pessoas. Eu sei, eu sei, inversão de valores, mas é a verdade!), que agora está acompanhada de Lara, a personagem que sabe seu nome verdadeiro e quem ela realmente era.

Tudo parece estar correndo exatamente como a trama do 1º livro: há mentiras por cima de mentiras, agentes duplos, traições, mortes encomendas, mas temos o grande trunfo destes livros: os personagens. Como já falei em diversas outras resenhas, não adianta nada a construção de um mundo incrível e consistente e não haver personagens que te façam vibrar por eles naquela trama, que te faça torcer e sofrer por eles, que você os tenha em seu coração. Aqui, para ser bem sincera, você sabe que há toda uma trama de agências de inteligência e que há um lado dos “mocinhos”, mas você está mesmo é torcendo por Eve e Villanelle: você torce para elas se encontrarem outras vezes, você torce para o jogo de gato-e-rato deles pegar mais fogo ainda, você torce pra tudo pegar fogo com elas no centro.

Então você vai morrer. Mais cedo ou mais tarde, a inglesa vai te encontrar.
Eve Polastri? Quero que ela me encontre. Quero me divertir com ela. Quero prendê-la debaixo da minha pata que nem uma gata brincando com um rato. Quero espetá-la com minhas garras.
Você é doida.
Não sou doida. Eu gosto do jogo. E gosto de vencer. Polastri também é uma jogadora, e é por isso que gosto dela.


Entretanto as duas personagens estão cada dia mais e mais próximas uma da outra, tanto fisicamente quanto psicologicamente. O jogo entre elas está escalando rapidamente até o ponto que começamos a entender que os sentimentos delas extrapolaram aquela caçada continua de uma pela outra – Villanelle parece ter mais consciência do que quer de Eve antes desta, mas está ficando cada vez mais claro que as duas estão começando a atravessar aquela velha linha da tensão que está se transformando em outra coisa (e que sabemos muito bem o que é). E, mais uma vez, somos jogados simplesmente no fato de que gostamos e nos importamos tanto com estas personagens que o livro simplesmente funciona. Tanto Eve quanto Villanelle são extremamente inteligentes e aceitam seus destinos com certa facilidade, abraçando quem são e o que querem para si, então se torna natural e fácil para o leitor desejar mais as duas juntas, em todos sentidos.

Do lado de fora, o ar está denso e o céu, escuro e feio. Enquanto cruzam a piazza, Eve sente um desconforto crescente, e acha que está ligado às duas mulheres comprando a pulseira juntas. Quem era aquela outra mulher, a que a chamou de puta, e qual era a função dela na história? Será que era mesmo uma namorada de V?
Eve é tomada por um sentimento súbito de culpa. Não é possível que esteja com ciúme, é? Ela tem vergonha até de se perguntar isso. Ela ama Niko e está com saudade. Ele a ama.
Mas, por outro lado, ser observada enquanto dorme…
E a pulseira.
E a total e absurda petulância.

Mas… eu falei que tive problemas com o “meio” do livro, não foi? Todo o meio do livro, a “reviravolta”, a traição, o que aconteceu, parece uma repetição sim, de “Codinome Villanelle”. E, pior ainda, existiu certa parte do livro que me incomodou fisicamente mesmo: o autor escreveu uma certa parte para chocar – pelo menos foi a sensação que me passou –, e olha que eu não estou falando da morte espetacular que Villanelle faz quase no final do livro. Essa morte é gráfica, muito gráfica, e se você tem problemas com cenas de corpos em pedaços e afins, você ficará incomodado. Só que eu falo mesmo de uma cena com Villanelle que me pareceu simplesmente dispensável e criada só para mostrar que ela quebra as regras, coisa que já sabemos desde sempre. Não havia motivos para mostrar a excitação da personagem desta forma, e me peguei pensando se não havia um certo problema com isto. Gostaria muito que alguém que leu o livro viesse conversa comigo sobre ele para ver se minha visão está toda errada ou não.

Villanelle sabe que Lara a amava mesmo. E ainda ama, caso esteja viva. E, por um instante, ela inveja essa capacidade. Essa habilidade de compartilhar da felicidade de outra pessoa, sofrer com as dores, voar nas asas de emoções verdadeiras em vez de passar a vida fingindo. Mas que perigo, que falta de controle e, em última análise, que trivial. É muito melhor ocupar a cidadela pura e glacial da individualidade.


E dai você pode ficar surpreso: “Como assim o meio do livro teve problemas tão marcantes e este é considerado o melhor livro da trilogia?” e eu te respondo bem simples: por causa do quarto final do livro. Meus amigos, que final. Eu estou escrevendo isso e ainda vibrando com as páginas finais deste livro porque estou imaginando o que vai acontecer no próximo (e último) livro. E eu sei, parece um argumento tão bobo falar que um livro vale a pena pela reviravolta do final do livro, mas foi algo bastante genial do autor, e, sinceramente, quanto mais eu penso, mais genial eu acho que foi porque… eu não posso falar o que eu gostaria de falar porque daria pistas do que acontece, mas eu afirmo que está nas nossas caras, desde começo. Quando isto aconteceu, eu gargalhei, porque eu estava tão “morna” com o meio do livro, então chegou este final e… BUM. Na minha cara.

E, de novo, no meio disto tudo, você se pega torcendo por Villanelle e Eve com todo seu coração. Eu ainda não vi a série, mas, sinceramente, depois deste livro e desse enredo, eu quero muito ver como foi feita a transição para a tela pequena (e confesso que tenho medo porque já me decepcionei tanto com seriados, mas essa reviravolta seria deliciosa demais de se assistir). Definitivamente há um amanhã sim, e eu quero muito estar nele para saber como a história desta duas mulheres fortes irá se encerrar – e eu torço, do fundo do meu coração, que sejam juntas, explodindo o mundo, ricas e tomando champanhe em qualquer lugar do mundo.

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