11.06


“Malibu Renasce”
Taylor Jenkins Reid
Paralela – 2021 – 360 páginas
Tradutor: Alexandre Boide

Malibu, agosto de 1983. É o dia da festa anual de Nina Riva, e todos anseiam pelo cair da noite e por toda a emoção que ela promete trazer.

A pessoa menos interessada no evento é Nina, que nunca gostou de ser o centro das atenções e acabou de ter o fim do relacionamento com um tenista profissional totalmente explorado pela mídia. Talvez Hud também esteja tenso, pois precisa admitir para o irmão algo que tem mantido em segredo por tempo demais, e parece que esse é o momento. Jay está contando os minutos, pois não vê a hora de encontrar uma menina que não sai de sua cabeça. E Kit também tem seus segredos ― e convidado ― especiais.

Até a meia-noite, a festa estará completamente fora de controle. O álcool vai fluir, a música vai tocar e segredos acumulados ao longo de gerações vão voltar para assombrar todos ― até as primeiras horas do dia, quando a primeira faísca surgir e a mansão Riva for totalmente consumida pelas chamas.

Já comecei a escrever essa resenha três vezes e ainda estou indecisa sobre por onde começar a falar, então vou optar pelo óbvio nesta tentativa: Sabe aquele livro que você precisa ler e ainda nem sabe que precisa? Este livro está aqui, podendo chegar até você e é “Malibu Renasce”, que tem uma sinopse que te promete uma festa que irá mudar a vida de 4 personagens: Nina, Jay, Hud e Kit. Os 4 são irmãos e criaram a reputação de darem a melhor festa anual de Malibu, California, festa que se tornou basicamente uma personagem do imaginário da população local – há tanto que acontece nestas festas que nem mesmo os 4 irmãos sabem mais o que é real e o que se tornou lenda. Mas, muito mais do que uma festa que mudará tudo, temos um livro sobre uma família. Quatro irmãos que se escolheram e que cresceram juntos, se apoiaram, sofreram e se tornaram pessoas que nunca esperavam, lutando contra dificuldades que não estavam preparados. Sim, a festa é o catalisador de algo grande, mas é mais do que isso: é uma explosão de sentimentos que estão em ebulição há muitos, muitos anos, e que um dia iria explodir. Só quis o destino que fosse tudo na mesma noite. E que noite!

Sinto que também preciso situar a história para quem não tem contato nenhum com o universo da autora: Mick Riva, o pai dos 4 personagens principais de “Malibu Renasce”, é um personagem de Taylor Jenkins Reid, sendo o 3º marido de Evelyn Hugo no livro “Os sete maridos de Evelyn Hugo” e que também aparece em “Daisy Jones and The Six”. Fica bem claro que estes 3 livros se passam no mesmo universo, mas, até aqui, ele é somente um personagem coadjuvante com uma breve passagem na vida de Evelyn e com uma aparição rápida em uma festa que Daisy Jones esteve. Saber que a autora está unificando seus livros e criando o “Taylorverse” já me faria querer ler este livro porque eu sou eternamente fã desses outros dois livros. Aqui, mais uma vez, Taylor mistura personagens criados por ela com grandes personagens da vida real e míticos de Hollywood, assim como lugares, fazendo também menções a personagens que já conhecemos dos seus outros livros (surtem comigo ao lerem a menção a uma certa atriz). A edição nacional de “Malibu Renasce” chega dia 14 de junho próximo, apenas 13 dias após a publicação em língua inglesa e só posso agradecer a Editora Paralela pela rapidez em entregar um livro tão aguardado em uma edição tão linda como esta (acreditem em mim: a capa rosa com a lateral cinza do livro está linda sim!), sem contar a chance de ter recebido uma cópia antecipada para leitura. Muito obrigada, Paralela.

Agora vamos voltar a falar do que realmente precisamos: o renascimento de Malibu.

Mas, naquele momento, Nina só pensava na festa daquela noite, quando precisaria encarar toda aquela gente que sabia que seu marido tinha ido embora. Ela não se moveu. Não estava pronta.
Em vez disso, se colocou bem na beirada do penhasco que nunca quis, olhou para a água que desejava que estivesse mais perto e, pela primeira vez em sua vida tranquila, berrou aos quatro ventos.

E apesar do que você pode imaginar depois de ler a sinopse divulgada, “Malibu Renasce” não é uma história de amor romântico: nenhum dos 4 irmãos Riva está tentando encontrar o amor de sua vida durante aquela festa (talvez um, mas bem…). Eles são quebrados, cada um por motivo, com uma vida muito mais complexa do que você pode imaginar, já como eles são filhos de um grande e famoso cantor (o já mencionado Mick Riva), e estão cada um em um lugar de sua vida: Nina, a mais velha e modelo, que se tornou uma figura materna para os mais novos, acabou de ser abandonada pelo marido tenista; Jay, o irmão surfista que vive uma vida que sempre sonhou no esporte que ama desde criança e que agora guarda um segredo que não consegue admitir para si mesmo; Hudson, o irmão fotografo que vive com o irmão em viagens para fotografar a vida em cima da prancha que ele vive e que sabe que fez algo que pode ferir seu relacionamento com Jay de uma forma irreparável; e, para completar, temos Kit, a irmã mais nova que precisa se descobrir e encontrar seu lugar.

Sei também que caso você tenha lido algum livro da Taylor no qual Mick Riva aparece, você está esperando que estes personagens tenham tido uma vida tranquila e boa, afinal, o pai deles era podre de rico, mas estamos falando sobre um livro da Taylor Jenkins Reid: não espere nada vindo fácil ou simples. Já li quase tudo da autora e vi o seu potencial crescendo a cada livro que ela entregava, indo de comédias românticas fofinhas a livros sobre escolhas difíceis, finais questionáveis, personagens falhas e que procuram coisas em outras pessoas que deveriam encontrar dentro de si. Não a acompanhei através dos anos, mas pude ler seus livros e entender a mudança em sua escrita, uma evolução que atualmente entrega livros carregados de sentimentos, e aqui temos mais uma história sobre pessoas: porque sim, o grande trunfo de Taylor é escrever personagens que fazem com que nos identifiquemos em algum ponto: em nossas qualidades, em nossos defeitos, em nossas dores, em nossas vidas. Evelyn Hugo, Daisy Joanes e agora os irmãos Riva, todos são personagens que pulam das páginas para se tornarem nossos amigos e companheiros de jornada. E, sinceramente, Taylor chegou em lugar que poucas autoras realmente conseguem: a capacidade de escrever uma história triste, sofrida e dolorosa sem cair no dramalhão excessivo e com a necessária delicadeza que o tema requer. E aposto que você está se questionando como um livro que tem uma festa como tema central pode requerer tanta delicadeza, e eu te respondo que você vai ter vontade de chorar em algum ponto deste livro porque a festa está lá e vai queimar Malibu, mas o que acende aquele fogo são sentimentos, e Taylor Jenkins Reid tem o dom de fazer as palavras chegarem ao leitor como uma flecha. E vai doer.

Jay sabia que era bom. Mas também sabia que chamava atenção por ser filho de quem era. E às vezes era dificil separar as duas coisas. A sombra de Mick Riva pairava sobre cada um de seus filhos.

O livro é divido em duas partes. Na primeira temos o passado e o presente se alternando, toda a história do casamento dos pais dos personagens e o começo da trajetória deles: vemos June e Mick se conhecendo. Um Mick ainda jovem, com o grande desejo de se tornar um grande cantor e uma June que tem o seu destino já determinado por seus pais: ela deveria herdar o restaurante de frutos do mar deles na cidade de Malibu. Mas June quer mais, muito mais, morando tão perto de Hollywood, para aonde seus pensamentos sempre vão. Quando June conhece Mick, ela sente que encontrou tudo que queria: um amor que fez seu coração flutuar e um potencial bem-sucedido cantor que lhe promete dar tudo que deseja. Pareceu uma escolha fácil para a garota, mesmo com sua mãe lhe avisando que Mick era bonito demais e lhe daria trabalho (uma história que já vimos). Entretanto, o que estava à vista dos olhos de June a cegou para o que não estava: como Mick era machucado e quebrado. Por mais que eu despreze o personagem, não posso deixar de reconhecer que ele lida com cicatrizes tão profundas e tão feias que o deixam à deriva mesmo quando ele quer escolher fazer o certo – e é tudo que você vai ver vindo de mim “defendendo” o personagem.

Parece um conto de fadas para June que logo está casada, com a casa dos seus sonhos e com uma filha recém-nascida nos seus braços. A pequena Nina logo ganha um irmão, Jay, e então a vida de June começa a explodir: talvez o marido não seja tão bom marido. Talvez ele não seja um bom pai. Talvez ele não seja nem mesmo uma boa pessoa. E talvez, e muito provavelmente, todas as escolhas que ele faça sejam as erradas e tudo recairá sobre June e seus filhos. E aqui eu te afirmo, com toda força do meu coração: eu já vi o enredo deste livro na vida real através dos olhos de algumas amigas. Você já viu ou presenciou através dos olhos de alguns amigos. Todos nós já vimos ou já ouvimos falar de um caso nesses moldes. E nunca deixa de ser dolorido de ler sobre algo assim.

Hud Riva era baixo enquanto seus irmãos eram altos, atarracado enquanto eles eram graciosos e passava o verão ficado vermelho em vez de bronzeado – mas era o mais inteligente de todos. Inteligente demais para não entender as implicações do que estava fazendo.

Já na segunda parte do livro, enfim chegamos à hora da festa na noite do dia 27 de agosto de 1983, e aqui temos mais pontos de vistas contando sobre a festa: enquanto na primeira parte temos somente os pontos de vista dos irmãos e alguns de sua mãe e do seu pai no passado, nesta parte temos personagens que contribuem de alguma forma para os acontecimentos daquela noite. Como um grande quebra-cabeças, a princípio não entendemos o motivo pelo qual estamos lendo aqueles personagens parecendo estarem jogados tão aleatoriamente, mas, no final da narrativa, prometo que tudo irá se encaixar, nem que seja somente um ponto de vista mostrando ao leitor a grande possibilidade do “e se eu tivesse saído lá fora nesta festa” – as infinitas possibilidades do “E se”, enredo que a autora já brincou em outro livro seu.

Confesso que nessa segunda parte do livro um encontro muito, muito aguardado e que foi sendo construído por mais de dois terços da narrativa estava para acontecer e era isto que me motivava a ler cada página ferozmente, porque sim, eu estava movida pelo ódio em algumas partes da trama. Não do livro, mas de um determinado personagem. Lendo este livro, tudo que eu pensava era que nenhum livro de fantasia poderia ter um vilão tão terrível quanto este, porque aqui temos o pior dos vilões: o vilão humano, que sabe ser egoísta como ninguém, que não sabe quebrar o círculo do trauma e perpetuando o ciclo do: “fui machucado e agora vou perpetuar o machucado em quem me cerca”. Não dá pra explicar os sentimentos que essa narrativa leva ao leitor, simplesmente não há como explicar: você já está tão investido nas vidas dos irmãos Riva que você já está do lado deles, torcendo por eles mesmo quando parecer que não há desculpas para o que um deles faça, e isso tudo antes da festa chegar ao seu ápice.

As histórias de nossas famílias são apenas narrativas. São mitos que criamos sobre as pessoas que vieram antes de nós, para que nossa existência faça sentido.
A história de June e Mick Riva parecia uma tragédia para sua filha mais velha, Nina. Uma comédia de erros para seu primeiro filho homem, Jay. Uma história de origem para o filho de veio a seguir, Hud E um mistério para a caçula da família, Kit. Para o próprio Mick, era só um capítulo em suas memórias.
Mas, para June, sempre foi e sempre seria um romance.

As personalidades dos irmãos são tão distintas e diversas que quando há mudança de capítulo ou do ponto de vista, você consegue identificar imediatamente. São personagens que saíram das páginas, com uma força e presença que há tempos eu não via e provavelmente muito se deve ao fato do leitor acompanhar a infância, adolescência e chegada à vida adulta de todos, já como Nina, a mais velha, está com 25 anos na noite da festa. Todos os caminhos tomados os levam a se tornarem as pessoas que eles são naquela noite, com todo o resto de suas vidas pela frente, tendo de lidar com o peso de suas decisões. Há ainda June Riva, que foi uma figura materna tão forte que me apeguei a ela, entendendo suas escolhas e suas motivações que me deixou um sentimento de tristeza e melancolia ao compreender o caminho que a personagem estava percorrendo. Como todos personagens deste livro, June foi real, e assim foi falha, egoísta, sonhadora e, acima de tudo, coração: os sentimentos a dominavam, e isto também teve um efeito sob seus filhos. “Malibu renasce” é um livro sobre 4 irmãos e sua família, e June, obviamente, estava no centro desta.

Nina, como a mais velha e ascendendo ao lugar de matriarca, aprendeu desde cedo que precisa se sacrificar por seus irmãos, coisa que faz de boa vontade e sem pestanejar. A vida dela muda ao conhecer um cara que acreditou que poderia ser o certo e lhe dar toda estabilidade que queria. Entretanto, Nina parece fadada a cometer os mesmos erros de sua mãe – ou não. Enquanto isso, determinada a entender mais sobre si mesma e sua falta de vontade de se relacionar, Kit, a irmã mais nova, está mais do que disposta a aproveitar aquela festa de todas as formas, sem pensar em um convite que manda todo ano para um endereço de uma determinada pessoa que há muito saiu da vida dos irmãos e que agora pode aparecer – ou não. Já Jay e Hud são tão próximos de idade e foram criados tão juntos que são basicamente gêmeos e assim são tratados: como uma única entidade, Hud trabalha fotografando Jay enquanto o irmão mais velho surfa. Os dois têm problemas de autoestima, cada um a sua maneira, mas se tem como melhores amigos, em todos sentidos, algo que pode mudar – ou não.

Kit assentiu com um sorriso malicioso. A arrogância dele era ao mesmo tempo irritante e divertida. Para algumas pessoas, Jay poderia ser considero o surfista mais promissor da porção continental dos Estados Unidos para Kit, porém, era só seu irmão mais velho, cujas manobras já estavam ficando batidas.

Acho que já está bem claro que eu amei este livro e seria capaz de passar horas falando sobre porque ele teve um impacto grande em mim. É meu livro favorito do ano, de longe, e confesso que estou torcendo para Taylor escrever mais neste universo – talvez sobre Kit, a jornada que ela merece e eu sei que você também vai sentir isto ao ler sua história de descoberta. Esse livro entrou em minha pele e em meu coração, muito por causa de como o livro se inicia: Taylor fala sobre todas as vezes que Malibu queimou e foi reconstruída sobre uma terra que pega fogo até as cinzas, e então renasce. A força que isso requer. A força destes personagens.

E durante toda narrativa, Taylor foi fazendo paralelos em “Malibu renasce”: o nascimento, a paixão de crianças pelo mar, a perda, a dor, o descobrimento, a luta, tudo isso pode simplesmente começar como um pequeno fogo que vai se alastrar até consumir você inteira por dentro até explodir em chamas que sejam capazes de destruir uma casa e quem você é. O poder do fogo é tão grande e crescente quanto o poder dos sentimentos, sejam eles de amor quanto de mágoa, tudo destinado a um dia queimar em sua potência máxima – e então ser apagado. Sumir. Se extinguir. Mas, então, mais uma vez, renascer. Renascer com a possibilidade de construir algo diferente, ainda que no mesmo lugar. Construir uma nova casa, uma nova pessoa. Ser uma nova pessoa. Porque, sinceramente, muitas vezes precisamos ser consumidos pelo fogo dos nossos sentimentos até as cinzas – para, só ai, renascermos, assim como Nina, Hud, Jay e Kit. Assim como a vida renasce. Assim como Malibu renasce.

E ah, uma última coisa: depois que eu havia lido o livro e já feito esta resenha, foi divulgada a notícia de que o livro teve seus direitos comprados para se tornar uma série no canal de streaming Hulu. Fiz uma postagem aqui no site sobre todas as adaptações dos livros da Taylor que podem acontecer, e você pode ler o post completo clicando AQUI.

Para comprar “Malibu renasce” basta clicar no nome da livraria:

Amazon.
Submarino.
Travessa.
Magazine Luiza.

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