01.04


“Marrom e Amarelo”
Paulo Scott
Alfaguara – 2019 – 160 páginas

Os irmãos Federico e Lourenço são muito diferentes. Federico, um ano mais velho, é grande, calado e carrega uma raiva latente. Lourenço é bonito, joga basquete e é “muito gente boa”. Federico é claro, “de cabelo lambido”. Lourenço é preto. Filhos de pai preto, célebre diretor-geral do instituto de perícia do Rio Grande do Sul, eles crescem sob a pressão da discriminação racial. Lourenço tenta enfrentá-la com naturalidade, e Federico se torna um incansável ativista das questões raciais.

Federico, o narrador desta história, foi moldado na violência dos subúrbios de Porto Alegre. Carrega uma dor que vem da incompletude nas relações amorosas e, sobretudo, dos enfrentamentos raciais em que não conseguiu se posicionar como achava que deveria.

Agora, com 49 anos, é chamado para uma comissão em Brasília, instituída pelo novo governo, para discutir o preenchimento das cotas raciais nas universidades. Em meio a debates tensos e burocracias absurdas, ele se recorda de eventos traumáticos da infância e da juventude. E as lembranças, agora, voltam para acossá-lo.

Marrom e amarelo é um livro que retrata diferentes aspectos de um Brasil distópico, conflagrado, da inércia do comando político à crônica tensão racial de toda a sociedade. É um romance preciso, que nos faz mergulhar nos abismos expostos do país.

Estamos participando do Desafio Literário da Companhia das Letras: 5 livros nacionais em 5 dias. Durante toda essa semana, postaremos nossas impressões dos livros aqui no site em nosso Instagram, Convidamos todos a participarem conosco – para todas as dúvidas, basta ler nosso post completo sobre o desafio clicando AQUI.

Acredito que a primeira coisa que preciso assinalar é que a narrativa não se dá de forma linear: o passado e presente de Federico (chamado carinhosamente de Derico) e Lourenço vão se misturando em um intrinsecado conto de uma família formada por dois irmãos que são bastante diferentes de personalidade: Federico, o introspectivo, e Lourenço, que joga basquete e é expansivo. Federico é pardo, enquanto Lourenço é negro. E é através de dois irmãos, criados por uma mesma família, que vamos vendo uma história de racismo sendo contada com maestria.

O ponto inicial da narrativa, com um Federico mais velho e indo participar de uma comissão em Brasília (cidade que agora mora depois de deixar Porto Alegre, sua cidade natal) sobre cotas universitárias, te prende imediatamente. As pessoas contra e a favor das cotas vão falando durante o livro, e lemos de argumentos absurdamente bem fundamentos até os maiores absurdos conta as cotas. Federico se envolveu, na maior parte de sua vida, em questões raciais e acredita nelas.

E então o presente bate novamente a porta de Federico, o levando novamente de volta a uma Porto Alegre que é a casa de sua família e de um Lourenço mais velho e com uma filha, Roberta, que agora estão enfrentando outras situações delicadas – e que, talvez, estejam ligadas a juventude dos irmãos, que carregam segredos que não costumam pensar sobre, não mais. Já Roberta é uma personagem pivotal na história dos irmãos, já como é sobrinha e afilhada de Derico, e compartilha com ele toda sua visão sobre ativismo racial, ao contrário do próprio pai Lourenço, que nunca se envolveu na questão.

O título do livro é claramente uma referência a cor dos irmãos, que escutam perguntas sobre serem irmãos do mesmo pai e da mesma mãe por quase toda sua vida, além de enxergarem as questões raciais também pela forma como a sofrem, e o racismo é o tema central desta história. Racismo em todas as suas formas, em todas as suas frentes, o racismo que está impregnado em nossas vidas e também falando sobre o colorismo e as diferentes cores que todos nós estamos entre.

É um livro forte e poderoso e que não deixa de mostrar defeitos nos personagens também (e confesso que Derico fez algo que eu, como mulher, não posso deixar de apontar como muito, muito errado), mostrando o poder dos relacionamentos familiares, dos segredos que guardamos daqueles que amamos e até aonde estamos dispostos a irmos para salvá-los.

Num tom emocionado perguntou como podia ser aquilo, como podiam as pessoas serem antipatizadas, temidas, execradas por causa da cor das suas peles, como podia aquela cultura maligna, que entrava na cabeça das crianças e estragava tudo lá no começo da existência, continuar, como podiam os brancos, os brancos como ele, controlar tudo, inventar que racismo não existia e ainda por cima conseguirem a adesão de boa parte dos negros.

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