22.09


“Terror a bordo: 17 histórias turbulentas”
Stephen King
Suma – 2020 – 288 páginas

Do mestre do terror, uma nova coleção de contos que levará os leitores a momentos aterrorizantes da vida… e da morte.

Brilhante em narrativas curtas, King já escreveu alguns contos que viraram sucesso em todo o mundo, como as histórias que inspiraram os filmes Conta comigo e Um sonho de liberdade. Neste livro, assim como em Quatro estações e Escuridão total sem estrelas, ele cria uma coleção única e emocionante, demonstrando mais uma vez por que é considerado um dos maiores contadores de histórias de todos os tempos.

Este é um livro sobre amor, amizade, talento e justiça… em suas formas mais deturpadas. Em Com sangue, Stephen King reúne quatro contos com protagonistas inteligentes e complexos, que têm sua vida comum transformada por algum elemento inexplicável.

Com Sangue” é um livro de contos, mas não nos moldes como estamos realmente acostumados já como são somente 4 contos distribuídos por mais de 400 páginas, o que daria uma média de 100 páginas para cada conto – mas não realmente, já como o 3º conto, o que dá o título do livro, é o maior conto. Somente ainda para assinalar, os nomes dos contos são, em ordem: “O telefone do Sr. Harrigan”, “A vida de Chuck”, “Com sangue” e “Rato”. Agora sobre o que tratam esses contos é a questão, apesar de obviamente já ficar nas entrelinhas que são de terror, afinal, são contos do mestre do terror. Todos tem seus acertos e falhas, e vou falar sobre cada um deles, especifico, na sequência.

Claro que o livro já foi adquirido para adaptações cinematográficas – mas aqui está a grande pegadinha: cada conto foi vendido separadamente e será adaptado em diferentes filmes ou séries (leia mais em inglês clicando AQUI)

A seguir, cada frase inicial vem do conto que falo no paragrafo seguindo, tudo sem grandes spoilers.

— As pessoas estão entendendo.

— O quê?

Ele mostrou o celular.

— Isto. O que realmente significa. O que pode fazer. Arquimedes disse: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”. Isto é a alavanca.

— Legal — falei.

— Acabei de apagar três propagandas de produtos e quase uma dezena de solicitações políticas. Não tenho dúvida de que meu endereço de e-mail está sendo divulgado, da mesma forma que as revistas vendem os endereços dos assinantes.

— Que bom que não sabem quem o senhor é — falei. O apelido dele no e-mail (ele adorava ter um apelido) era reipirata1.


— Se alguém estiver observando minhas buscas, não precisa saber. É possível descobrir meus interesses e me importunar com coisas relativas a eles. Meu nome não significa nada. Meus interesses, sim.

O telefone do Sr. Harrigan” se passa em 2004 e parte de uma premissa bastante simples: Craig, ainda criança, começa a trabalhar para o Sr. Harrigan, um senhor idoso que se mudou para sua cidade. O homem é claramente rico e paga o garotinho para ler para ele, além de fazer pequenos serviços de jardinagem. E algo tão simples assim começa a evoluir a medida que o relacionamento dos dois se torna o mais próximo possível que os dois conseguem, já como o mais velho é alguém que tem suas reservas e não está tão disposto a demonstrar qualquer tipo de afeto. Apesar disso tudo, Craig está disposto a continuar tentando, e um dia, depois de ganhar na loteria com um bilhete que sempre ganhava como presente do seu “patrão”, deu a ele um iPhone de presente e aqui está a grande sacada do livro: é o começo da tecnologia dos smartphones, e essa é uma versão 1 do que viria a ser o mais conhecido modelo do mundo.

Claro que o homem, bastante esperto e com grande tino para negócios, entende o poder do aparelho e logo a coisa realmente começa a andar para o terror real quando acontecimentos começam a se desenrolar, e, enquanto eu lia, eu pensava que era um plot tão original e ao mesmo tempo tão simples, que eu pensei que só King realmente conseguiria escrever algo tão bem assim. Estou sendo vaga de propósito justamente para não tirar a surpresa de onde o terror vem, mas só digo que o Sr. Harrigan é um personagem que provoca bastante sentimentos contraditórios nos leitor.

— O cérebro humano é finito, não passa de tecido esponjoso dentro de uma caixa de osso, mas a mente dele é infinita. A capacidade de armazenamento é colossal, o alcance imaginativo além da nossa capacidade de compreensão. Eu não acho que uma biblioteca pega fogo quando um homem ou uma mulher morre, acho que um mundo inteiro cai em ruína, o mundo que a pessoa conheceu e em que acreditava. Pense nisso, moleque: tem bilhões de pessoas no mundo e cada uma delas tem um mundo dentro de si. A Terra que suas mentes conceberam.

Logo na sequência temos “A vida de Chuck”, um dos contos mais originais que já tive o prazer de ler: ele é contado em ordem inversamente cronológica, dividido em 3 partes. Começando com as pessoas se perguntando quem diabos é Charles “Chuck” Kant, que tem outdoors espalhados para cidade e parece estar se aposentado depois de 39 anos de trabalho em um banco. Pelo menos é isso que você é levado a acreditar, já como a 1º parte é sob o ponto de vista de Marty, um cara separado que está vendo o mundo ruir ao seu redor enquanto ele só tenta chegar até a ex-esposa e checar como ela está.

Como em todos seus últimos trabalhos, não poderia faltar uma dose de realidade neste conto, que ainda menciona os desastres ambientais que acontecem e a nossa falha como sociedade, marca cada vez mais presente nos trabalhos de King. Sinceramente, é um conto brilhante, brilhante mesmo, de uma forma tão pura que me peguei pensando sobre esse conto bastante tempo depois de o ler. A forma genuína e simples que ele se completa e você entende toda dele no final é algo que fica com o leitor mesmo depois de lê-lo – e não há nenhum terror aqui, somente a vida acontecendo.

— Bom… o consenso foi que havia mal externo se acreditássemos que existe um bem externo…
— Meu Deus — diz Holly.
— Sim. Assim, podemos acreditar que existem mesmo demônios e que o exorcismo é uma reação válida a eles, que existem mesmo espíritos malignos…
— Fantasmas — diz Holly.
— Isso. Sem mencionar maldições que realmente funcionam, bruxas, dybbuks e sei lá mais o quê. Mas, na faculdade, todo mundo ri disso e descarta. Mesmo Deus é motivo de risadas e descarte.
— Ou Deusa — diz Holly com afetação.
— É, tanto faz, porque se Deus não existe, o gênero pouco importa. Só sobra o mal interno. Coisa de babaca. Homens que espancam os filhos até a morte, assassinos em série como o escroto do Brady Hartsfield, limpeza étnica, genocídio. O Onze de Setembro, disparos contra multidões, ataques terroristas como o de hoje.
— É isso que estão dizendo? — pergunta Holly. — Que foi ataque terrorista, talvez do ISIS ?
— É o que estão supondo , mas ninguém assumiu a autoria ainda.
Agora a outra mão na outra bochecha fazendo barulho, e aquilo são lágrimas nos olhos de Jerome? Ela acha que sim, e se ele chorar, ela também vai, não vai conseguir se segurar. Tristeza é contagiosa, e o quanto isso é uma merda?
— Mas a questão sobre o mal interno e o externo é a seguinte, Holly: eu acho que não tem a menor diferença. Você acha que tem?

Holly Gibney. Sim, a mesma personagem de “Mr. Mercedes” e “ Outsider”, é a personagem principal do conto que dá nome ao livro. Adorei que ao ler as notas de King no final, ele confesso que ela roubou a cena em “Mr. Mercedes” e ele ainda a sente em sua mente porque a personagem também roubou a cena para mim nos dois livros, por motivos diferentes, já como ela é, supostamente, uma personagem secundária nos dois livros, mas termina ajudando os personagens principais. Aqui ela está no palco central, com seu próprio mistério para resolver, e apesar de ser um conto independente e você não precisar ter lido nada sobre a personagem antes daqui, confesso que há um grande link com “Outsider”, então se você não leu o livro ou sequer viu a série de TV, acredito que você possa não aproveitar o conto completamente.

Aqui a detetive particular se pega assistindo um atentado terrorista em uma escola, mas há algo no repórter, Lester Holt, na entrada ao vivo que incomoda a observadora mulher, que logo se vê em um mistério do tipo que sabemos que King sabe escrever com maestria. É um conto grande, repleto de detalhes e traz Holly em sua mais potente glória, mostrando mais do seu passado com sua mãe e a forma como a cabeça da personagem já está lidando com o sobrenatural e o reconhecer – sim, há sobrenatural neste conto, ao contrário do anterior. A única certeza que tenho é quero mais de Holly, Jerome e seus amigos.

Drew achou que sua força estava voltando, mas não se mexeu. Ainda não. Quando fizesse, seria repentino, e não seria para bater no rato nem para dar um tapa no rato . Ele pretendia pegar o rato e espremer o rato. Ele se contorceria, gritaria e quase certamente morderia, mas Drew o espremeria até a barriga do rato estourar e as entranhas saírem pela boca e pelo cu.

E então chegamos a “Rato”, o conto que menos me agradou desse livro e olha que ele parece uma especie de… “tenha seu desejo realizado e se ferre na vida”, ou seja, um conto de fadas todo fora do lugar porque é bem isso que o personagem principal lida: Drew é um escritor que tem uma ideia (aparentemente) muito boa para um livro. Ele logicamente se recolhe para escrever e colocar no papel toda sua ideia, mas o famoso e velho bloqueio de escritor o atinge como um raio. E então… e se ele pudesse resolver todos seus problemas através de um desejo de uma especie de gênio sedento pela vida de alguém que ele ama e que tem a forma de um… rato.

Acho que você já pegou a ideia do conto, e por vezes eu me perguntei se Drew não estava simplesmente “só” surtando com não conseguir escrever, ponto que também entra na trama. Mas, vindo de King, podemos esperar o sobrenatural de alguma forma, mesmo quando o conto pode ser inspirado em um fato que aconteceu com ele próprio em sua vida – se bem que é difícil imaginar King com qualquer tipo de bloqueio literário com a facilidade que ele publica livros.

No final das contas, “Com Sangue” é um livro ótimo de contos, no qual não há transição entre eles já como eles não tem conexão alguma entre suas narrativas e nem são curtos o suficiente para lhe deixar pensando sobre como aquele universo poderia ser explorado. Mais um acerto do Rei do Terror, pronto para levar os seus leitores a mais uma divertida (e assustadora) aventura que pode te fazer ter mais medo dos elementos reais do que dos sobrenaturais.

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