24.01

Democracia em Vertigem (2019)

Direção: Petra Costa

Gênero: Documentário

Sinopse: Documentário sobre o processo de impeachment da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que foi considerado como um dos reflexos da polarização política e da ascensão da extrema-direita para o poder. O filme conta com imagens internas e exclusivas dos bastidores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e do Palácio da Alvorada, enquanto ocorria a votação para a queda de Dilma.
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A primeira coisa que se deve falar não é sobre o filme, mas sobre o que (e o que não é) um documentário. Documentário não é relato jornalístico, não tem nenhuma necessidade de ser imparcial, é o diretor ou diretora que decide qual ou quais lados do assunto escolhido vai abordar. Documentário também não é relato histórico, portanto os fatos apresentados por ele podem ser totalmente influenciados pela visão de quem o produziu. Documentário é, essencialmente, Cinema. Assim mesmo, com letra maiúscula. Não é obra de ficção mas não é tratado científico. Documentário é um texto argumentativo com imagens, onde um tema é delimitado, uma tese proposta e seu autor ou autora deve provar essa tese com argumentos plausíveis. Argumentos esses que sim, podem e devem ser contestados, mas apenas por outros argumentos igualmente plausíveis, mesmo que contrários.

 

E quanto a esse fator argumentativo, ‘Democracia em Vertigem’ é quase impecável. O longa dirigido, roteirizado e protagonizado por Petra Costa consegue transitar entre vários momentos da História do Brasil (da Ditadura Militar à Eleição de Jair Bolsonaro), construindo uma narrativa coesa e envolvente que entrelaça sua vida pessoal com os momentos políticos do país. E essa escolha é crucial para o entendimento do filme: não é um relato sobre a ascensão e queda(?) da Esquerda, não é sobre o processo de impeachment de Dilma Rousseff, nem sobre a polarização do pensamento político brasileira. ‘Democracia em Vertigem’ é a visão de uma única pessoa sobre cada um desses fatos: Petra Costa.

 

Pode parecer que isso desmerece a narrativa mas é justamente seu ponto forte. Concordando ou não com a visão da documentarista, é inegável a força de sua trajetória que, de fato, se repete em muitas mentes e corações da busca em defesa da Democracia. Ela, assim como a maioria dos jovens adultos brasileiros, fazem parte da primeira geração que nunca passou por nenhum tipo de governo anti-democrático, seja autoritário ou ditador, e a percepção desse mundo, desse país, dos seus direitos e deveres é completamente distinto das demais. Basta perceber a diferença entre o tom da Petra com o da sua mãe ao vir a tona alguns escândalos do governo.

 

Claro que o discurso de Petra é inegavelmente político e com lado determinado. Ela não está sozinha, pelo contrário: a maior parte dos analistas e especialistas políticos chegaram a conclusões muito parecidos com as delas. A diferença é que Petra joga a emoção sobre dados frios e análises quase ininteligíveis. Ela demonstra como as ações de governantes e empresas afetam a vida da população. Escancara a visão do cidadão comum que se sente impotente contra todo esse sistema e por isso se apega a figuras quase messiânicas e como, de fato, o jogo político – parece – imutável.

 

Não deixando dúvidas das suas posições, ela também encontra espaço para contestar decisões de líderes que ela mesma escolheu. Entretanto, sua visão de mundo ainda encontra esperança nessas mesmas figuras e nos seus ideais compartilhados. E é por isso que o tom do documentário é de urgência, desesperança, quase alarmista. Seus medos são os mesmos de toda uma geração e uma coisa é impossível discordar: a nossa Democracia, ainda jovem e um tanto frágil, precisa ser protegida. E ela não tem lado, nem partido.

 

 

 

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