26.12


“O Aprendiz de Assassino” (A Saga do Assassino #1)
Robin Hobb
Suma – 2019 – 376 páginas

Fitz tem seis anos de idade quando seu avô o joga aos pés de um guarda real e anuncia que a partir de então o pai deve cuidar do bastardo que produziu ― e o pai de Fitz é ninguém menos que Chilvary Farseer, o príncipe herdeiro dos Seis Ducados.

Excluído pela realeza, mas importante demais para ser abandonado, Fitz é criado à sombra da corte, protegido pelo mestre dos estábulos e crescendo em meio aos criados e plebeus da Cidade de Torre do Cervo.

No entanto, um bastardo real é uma peça perigosa, e o rei Shrewd não demora a convocá-lo. Carregando no sangue a magia ancestral do Talento e uma habilidade ainda mais instintiva de se comunicar com os animais, Fitz passa a ser treinado para se tornar um assassino a serviço do rei.

Quando saqueadores selvagens começam a atacar as regiões costeiras dos Seis Ducados, Fitz recebe sua primeira missão. Embora alguns o vejam como uma ameaça, o jovem bastardo vai provar que pode ser a chave para a sobrevivência do reino.

A trilogia “A Saga do Assassino” é uma série de fantasia medieval muito, muito conhecida e elogiada, já encerrada. Os livros foram publicados em língua inglesa nos anos de 1995, 1996 e 1997 e que já haviam sido publicados aqui no Brasil pela Editora Leya, mas que agora ganham uma nova casa: a Editora Suma, em uma nova tradução com bastante diferença no texto final (falarei sobre isso no decorrer da resenha). Os livros são tidos como primorosos e indicados para todos aqueles que estão sentindo falta de “As Crônicas de Gelo e Fogo” (que agora também estão sendo publicados pela Editora Suma). A série é tão famosa entre os apaixonados por high fantasy que possuem sim, uma legião de fãs até os tempos atuais, fazendo da autora (sim, Robin Hobb é o pseudônimo da autora Margaret Astrid Lindholm Ogden) quase uma verdadeira unanimidade porque claro que há aqueles que não ficaram felizes com o rumo da história do protagonista – mas calma que nessa resenha NÃO há spoilers, já como eu mesma não sei nenhum e nem procurei por eles.

Do primeiro verdadeiro rei restam pouco mais do que seu nome e algumas lendas extravagantes. Chamava-se Taker, e talvez assim tenha começado a tradição de nomear as filhas e filhos de sua linhagem de forma a moldar suas vidas e personalidades. As crenças populares alegam que os nomes eram selados aos recém-nascidos através de magia e que devido a isso a linhagem real não podia trair as virtudes que lhe eram assim atribuídas. Passados por fogo, mergulhados em água;salgada e oferecidos aos ventos: assim eram batizadas essas crianças escolhidas.
Assim nos foi contado. É uma lenda bonita e talvez há muito tempo tenha existido um ritual como esse, mas a história nos mostra que isso nem sempre foi suficiente para vincular uma criança à virtude que lhe serviu de nome…

Uma última informação antes de irmos para o que realmente interessa como a série toda já foi publicada aqui entre os anos 2013 e 2014 em sua antiga Editora, acredito que os nomes dos livros não venham a sofrer alterações, em sua ordem: “O Aprendiz de Assassino”, “O Assassino do Rei” e “A Fúria do Assassino”, informação não oficial e nem confirmada pela atual Editora, a Suma, mas serve de informação também para vocês já.

Agora sim, vamos falar sobre Fitz e sua jornada.

Há duas tradições sobre o costume de dar aos filhos da realeza nomes que sugerem virtudes ou habilidades. A mais comum é aquela que diz que, de alguma maneira, são mandatórios; que quando um certo nome é atribuído a uma criança que será treinada no uso do Talento, de alguma forma o Talento marca a criança com o nome, e ela não consegue evitar crescer praticando a virtude indicada pelo seu nome. Essa primeira tradição é aquela em que acreditam as pessoas com mais propensão para tirar o chapéu na presença de qualquer um da mais baixa nobreza.
Uma tradição mais antiga atribui tais nomes a um acaso, pelo menos no começo.

A trama é toda contada em flashback. Em algum tempo no futuro, Fitz começa a narrar sua história (em primeira pessoa, que fique claro), contando sua primeira lembrança: ele tinha por volta de 6 anos quando seu avô (pessoa horrível, diga-se de passagem) o entregou aos guardas do Rei Shrewd Farseer, pai do Príncipe Chivalry, o pai biológico do Garoto – sim, nessa fase de sua vida ele nem ao menos nome tinha, ou, se tinha, não se lembra, sendo somente chamando por “Garoto”. O Principe Chivalry é como uma especie de santo entre o povo, herdeiro do trono de seu pai Shrewd, tido por todos como honrado e justo, então um bastardo surgir é algo que todos encaram com grande choque, principalmente sua esposa, a Princesa Patience, que nunca conseguiu gerar um herdeiro. O garoto logo recebe o nome de FitzChivalry Farseer, sendo que Fitz é nome dado a bastardos em um geral e Burrich, o fiel servo colcheiro de seu pai, tem a tarefa de “cuidar” do garoto (e por “cuidar” entenda só não o deixar ser morto mesmo, porque de resto, Fitz fica bastante largado).

A chegada de Fitz é um choque tão grande que Chivalry abre mão do trono e vai para a terra natal de sua esposa, basicamente se exilando lá para poderem ter uma vida tranquila. Fitz, em contrapartida, não tem uma vida nada fácil e muito menos tranquila, sempre as voltas com pequenas aventuras até descobrir seu poder de Manha, um poder capaz de o fazer se comunicar mentalmente com animais desde essa tenra idade. Naquele mundo, essa habilidade era bastante odiosa em contraposto ao Talento, a capacidade que muitos de família nobre e da própria família real possuíam, que era de falar mentalmente com outros seres humanos. Já deu pra entender que a fantasia aqui também terá esses outros elementos, certo? Mas calma que tudo fica bastante calmo na narrativa, sem deixar dúvidas ao leitor sobre o destino de Fitz e seu destino.

— Mas estou tentando. O que é a antiga Manha?
Burrich pareceu incrédulo e depois desconfiado.
— Garoto! — ameaçou-me, mas eu apenas olhei para ele. Um momento depois ele aceitou a minha ignorância.
— A antiga Manha — começou lentamente. Seu rosto tornou-se sombrio e ele olhou para baixo, para as mãos, como se se lembrasse de um velho pecado. — …
é o poder do sangue animal, da mesma forma que o Talento vem da linhagem dos reis. Começa como uma bênção, dando a você as línguas dos animais. Mas depois se apodera de você e te puxa para baixo, faz de você um animal como os outros.
Até que finalmente não há sequer um resquício de humanidade em você, e você corre e late e prova sangue, como se a matilha fosse a única coisa que conheceu na vida. Até que ninguém possa te olhar e pensar que você um dia foi um homem.
O tom da voz dele baixava à medida que falava, e ele não olhava para mim, mas tinha se virado para o fogo e olhava fixamente as chamas que começavam a se extinguir.
— Há quem diga que um homem então toma a forma de um animal, mas que mata com a paixão de um homem e não com a simples fome de um animal.
Mata por matar… É isso o que você quer, Fitz? Pegar o sangue de reis que há em você e afogá-lo no sangue selvagem de animais caçadores? Ser uma fera no meio de feras, simplesmente em nome do conhecimento que isso traz para você? Pior ainda, pense no que vem antes: o cheiro de sangue fresco afetando o seu humor, a vista da presa anuviando seus pensamentos.

Claro que sendo uma fantasia medieval, as tramas na corte e por poder imperam em cada pequeno trecho do livro. Fitz tem dois tios, o Principe Verity, irmão por parte de mãe e pai de Chivalry, e também o Principe Reagal, irmão de seu pai somente pela parte do Rei Shrewd. Enquanto Verity trata Fitz até mesmo com algum carinho característicos dos homens medievais, Reagel deixa claro que não deseja ver o garoto em lugar nenhum, e por mais que Verity tenha se tornado o herdeiro depois de Chivalry ter abdicado, ficou obvio para mim que Reagel iria tentar conseguir a coroa do velho Rei para colocar em sua própria cabeça.

Havia mais do que apenas inveja no seu tom de voz. Descobri mais tarde que muitos homens veem sempre a boa sorte dos outros como uma desfeita contra si próprio. Eu senti sua hostilidade crescendo, como a de um cão que tivesse me visto entrar no seu território sem avisar; mas no caso de um cão, eu podia ter tocado sua mente e deixado claras as minhas intenções. Em Brant havia apenas a hostilidade, como o início de uma tempestade. Comecei a pensar se ele iria me bater e se esperava que eu revidasse ou fugisse. Já tinha quase decidido fugir quando uma figura de grande porte, vestida de cinza da cabeça aos pés, apareceu atrás de Brant e segurou com firmeza a nuca dele.

Enquanto cresce tentando somente não tomar surra de ninguém se tornando um pouco selvagem, o destino leva a um dia o Rei Shrewd determina que o pequeno Fitz irá treinar para um cargo extramente importante: um assassino. Foi ai que entrou um dos melhores personagens do livro para mim: no papel de professor de Fitz já como é o assassino “oficial” e principal do Rei, Chade Fallstar se mostrou um personagem bastante multifacetado e complexo, tendo diversos sentimentos tanto pelo Rei quanto por seus filhos, além de, por Fitz também, a quem começa a treinar e chega a testar a lealdade. Toda dinâmica entre os personagens se torna bastante importante, fazendo com que se construa o caminho pelo qual o pequeno Fitz irá traçar, já como este primeiro volume somente cobre a parte de sua infância até adolescência, deixando, muito provavelmente, “o melhor” do personagem e suas habilidades para os próximos livros.

O Talento é, na sua forma mais simples, o estabelecimento de uma ponte entre os pensamentos de duas pessoas. Ele pode ser usado de muitas maneiras. Durante uma batalha, por exemplo, um comandante pode enviar uma simples informação e comandar diretamente os seus oficiais, se estes tiverem sido treinados para recebê-la.
Um indivíduo muito Talentoso pode usar sua habilidade para influenciar até mesmo mentes que não tenham sido treinadas ou as mentes dos seus inimigos, inspirando neles medo, confusão ou dúvida. Homens tão dotados são raros. Mas, se incrivelmente agraciado com o Talento, um homem pode aspirar a falar diretamente com os Antigos, estes que são inferiores apenas aos próprios deuses. Poucos ousaram fazer isso alguma vez, e, entre os que o fizeram, menos ainda foram os que obtiveram o que pediram. Pois dizem que é possível fazer perguntas aos Antigos, mas a resposta que darão não é necessariamente à pergunta que foi feita, mas talvez à pergunta que deveria ter sido feita. E essa resposta pode ser de tal ordem que um homem não seja capaz de ouvi-la e viver.
Porque quando se fala com os Antigos, a doçura do Talento é mais forte e mais perigosa. E é disso que qualquer praticante do Talento, fraco ou forte, deve sempre se proteger. Pois, no Talento, o seu utilizador experimenta uma clareza de vida, uma elevação do ser que pode fazer um homem se esquecer de inspirar o próximo fôlego. Esse sentimento é atrativo, mesmo nas utilizações mais normais do Talento, e viciante para qualquer um a quem falte uma força de vontade treinada, mas a intensidade da exultação experimentada em uma conversa com os Antigos é uma coisa para a qual não existe termo de comparação. Tanto os sentidos como o juízo podem ser para sempre erradicados de um homem que use o Talento para falar com um Antigo. Esse homem morre delirante, mas também é verdade que morre delirante de alegria.

Há muito o que se explorar no universo dos Seis Ducados, reinado do palco principal de nossa jornada. Uma coisa bastante notável em toda narrativa é que os personagens possuem carateristas de sua personalidade em seu nome, sendo que até mesmo aqueles que se casam adotam o nome que acreditem ser compatível com sua personalidade – e por isso o nome de Fitz é tão emblemático, assim como de seus tios. Fitz ainda é o típico personagem que temos certeza absoluta que em algum ponto irá explodir de tanto que vem passando em sua vida, porque acreditem, ele sofre durante esse livro, e sofre com requintes de George R. R. Martin (que, alias, gosta bastante desses livros, para a surpresa de ninguém), além de ter diversos relacionamentos bastante complexos, como, por exemplo, com a esposa do seu pai biológico, que rende também bons momentos em uma trama lenta, mas que nunca para, mostrando exatamente que a autora sabe bem aonde quer chegar.

Como toda high fantasy (ou alta fantasia, e você pode aprender mais sobre esse sub-gênero da fantasia clicando AQUI), o universo é complexo e amplo, se tornando bastante complexo de entender sem atenção. “O Aprendiz de Assassino” não é o tipo de livro que você irá entender se não fixar sua atenção e concentração, trazendo um mundo novo e repleto de disputas, além de, claro, muita traição e aventura. Mas, sinceramente, a atenção e o tempo entregue a narrativa valeu a pena: o livro entrega mesmo tudo que promete, sendo um primeiro livro brilhante. Você se apega ao pequeno Fitz e sua jornada, vendo o quanto ele sofreu em sua tenra infância e como ele aprendeu com os poucos amigos que tem, a justamente não confiar em ninguém, mostrando bastante do que acredito que virá a ser sua personalidade. Não é um livro fácil de se ler, como falei, mas também é um livro que faz comparativo ao que seu próprio principal personagem enfrenta em suas páginas: há se ter paciência para conseguir aprimorar suas qualidades. Leia e não se arrependa. Prometo.

— É assassinato, mais ou menos. A fina arte do assassinato diplomático. Matar pessoas. Ou cegá-las, ensurdecê-las, debilitá-las, paralisá-las, provocar nelas tosses debilitantes ou impotência; ou senilidade precoce, ou loucura ou… mas não interessa.
Tudo isso é o meu ofício. E será o seu se concordar, agora mesmo, desde o início, que eu vou te ensinar a matar pessoas. A serviço do seu rei. E não da forma vistosa que Hod está te ensinando, não no campo de batalha, onde os outros te veem e te incentivam. Não. Vou te ensinar maneiras sórdidas, discretas e delicadas de matar pessoas. E pode ser que venha a desenvolver um gosto por tais artes, mas também pode ser que não. Isso vai depender de você, e não é algo sobre o qual eu tenha algum controle. Mas te garanto que saberá como fazê-lo. E te garanto também outra coisa, uma coisa que estipulei como condição ao rei Shrewd antes de aceitar te ensinar: que saberá o que é isso que eu estou te ensinando, como eu nunca soube quando tinha a sua idade. Portanto, devo te ensinar a ser um assassino. Tudo bem para você, garoto?

Sobre a edição da Suma: é uma nova edição, com correções e a mais notável é a falta de tradução dos nomes dos personagens. Como falei acima, os personagens possuem nomes como traços de suas personalidades: exemplo é Burrich, que na tradução antiga do livro se tornou “Bronco”, ou Jason, que era Jasão. Há bastante mudança na cadência da leitura com a tradução ou não de nomes próprios. No final desta edição, há um glossário com nomes relevante para a história, coisa que achei muito interessante para entender mais ainda como as personalidades dos personagens combinavam com seus nomes.

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Travessa, por R$ 56,62.

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1 comentário em “Resenha: O Aprendiz de Assassino (A Saga do Assassino #1) – Robin Hobb”



  1. Erick disse:

    Gostei bastante da resenha e ela me levou a ler os três livros. Antes não conhecia essa trilogia e gostei bastante, foi uma experiência bem única. Obrigado pela resenha.





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