22.10


“Everless” (Everless #1)
Sara Holland
Morro Branco – 2019 – 368 páginas

No reino de Sempera, tempo é a moeda – extraído do sangue, vinculado ao ferro e consumido para aumentar a vida útil de alguém. A rica aristocracia cobra impostos dos pobres até os ossos, estendendo as próprias vidas em séculos. Ninguém guarda mais mágoas dos Gerlings do que Jules Ember. Uma década atrás, ela e seu pai eram serviçais em Everless, a propriedade feudal dos Gerling, até que um acidente decisivo os obriga a fugir na calada da noite. Quando Jules descobre que seu pai está morrendo, sabe que precisa voltar a Everless para ganhar mais tempo para ele antes que o perca para sempre. Mas voltar a Everless traz mais perigo – e tentações – do que Jules poderia imaginar. Logo ela se vê no meio de uma rede de segredos profundos e descobre que seu coração dividido entre duas pessoas que pensou que nunca mais veria de novo. Suas decisões têm o poder de mudar seu destino – e o curso do próprio tempo. Fãs de Victoria Aveyard, Kendare Blake e Stephanie Garber irão devorar a ação de tirar o fôlego, o romance incrível e os segredos perigosos dessa deslumbrante narrativa.

Desde que descobri essa duologia (sim, são somente 2 livros, o que parece ser uma tendência atual), eu quis lê-la pelo simples fato da sinopse ser bastante original (tá, a sinopse lembra aquele filme com o Alex Pettyfer e Amanda Seyfried chamado “O Preço do Amanhã”). Sou bastante cria de filmes de ficção cientifica e o tempo como enredo é algo que sempre, absolutamente sempre, me chama atenção. Achei absurdamente linda a capa também, o reino dentro de uma ampulheta – e então descobri que muitas pessoas afirmavam que era um livro completamente novo, que prendia sua atenção e que tinha bastante reviravoltas no enredo. Sou bastante desconfiada, mas fiquei curiosa sobre o livro e comprei todos argumentos para ficar ansiosa e lê-lo. Então, quando a Editora Morro Branco anunciou a chegada do livro ao Brasil, eu soube que tinha de colocar minhas mãos logo no livro. Dito e feito (ganhei o livro na pré-venda da Ju: melhores amigas que dão livros <3), e assim que chegou aqui em casa, eu fui ler. E é aqui que começa a minha viagem pelo reino de Sempera.

Jules Ember é uma garota de 17 anos que quer ajudar o pai como pode, já como ele vendeu bastante seu tempo, a grande moeda de troca do reino. Funciona do jeito mais simples possível: a pessoa vende seu sangue, que é forjado em uma moeda, chamada ferro-sanguínea, que vale tempo – literalmente. Toda economia do lugar se baseia fortemente nisso: os pobres vendem seu tempo e vivem menos, os ricos compram as moedas ou recebem pagamento com elas e vivem mais. No meio disso, Jules se ressente profundamente da poderosa família local, já como o pai e ela moravam em Everless, o castelo da tal família, e tiveram de fugir de lá por algo que os filhos Gerlings, Liam e Roan, tiveram forte envolvimento. Jules é a condutora da história, por isso vemos os irmãos por sua visão romanceada de como os via quando eram crianças, e a decisão de sair de Crofton, seu vilarejo, e voltar para Everless para tentar ajudar o pai moribundo parecia a mais irresponsável possível, mas sabíamos que ela teria de voltar para a trama do livro começar. E assim é feito: indo trabalhar como criada em Everless, Jules tem certeza de que só ficará tempo suficiente para ajudar o pai, Pehr Ember. Mas claro que ela está errada – e aqui afirmo que você também está se você acredita que sabe aonde que a história vai dar, porque eu quebrei a cara com nesse livro.

– Essa é a multa por atrasar o pagamento. – Seus olhos me percorrem mais uma vez, então ele se volta para as ferramentas. – O tempo existe para ser queimado, garota.
É uma expressão comum no vilarejo – por que acumular tempo quando todo dia é o monótono e brutal, igual ao anterior e ao que virá em seguida? Ouvi-la de um homem que nunca sentiu fome ou frio faz meus dedos coçarem para formar um punho. Em vez disso, tiro a moeda horário do bolso e a estendo para ele.

Antes que eu continue, eu preciso apontar o quão refrescante foi toda mitologia do livro, que mistura magia e alquimia, um equilíbrio inovador e que prende o leitor ao ser explicado. Há a magia de uma bruxa e um alquimista para a construção das moedas de tempo, que atualmente são a principal moeda de troca. Claro que com isso, como falei acima, os ricos e realeza vivem muito mais, e os pobres trocam o próprio sangue e o próprio tempo vida por comida ou suprimentos para sobrevivência. Não há novidade no relacionamento entre a plebe e a realeza, mas a forma como se dá é inovador: em um determinador ponto, já trabalhando em Everless, Jules vê uma Lady já idosa dissolver uma moeda e tomar com seu chá enquanto fala algo que a personagem principal mantêm em mente por todo livro. A cena é exatamente o que o livro quer passa: a facilidade com que os ricos são capazes de se manterem por muitos anos com o sangue e tempo dos pobres, uma metáfora para o que acontece desde os primórdios dos tempos, mas aqui também com a alegoria da magia, se transformando em algo real. E acho que por isso que “Everless” se torna um livro tão sedutor assim: a busca pela imortalidade, o relacionamento pobres x ricos, a forma como nossas memórias são capazes de nos enganar e uma revelação que nos pega de surpresa faz com que a trama se torne a mais surpreendente do ano. Mas vamos com calma que estou me adiantando.

Voltando a Everless, o castelo da família Gerlings, para onde foi para servir, Jules tenta se manter longe dos irmãos Liam e Roan, acreditando que o primeiro e mais velho é vil e responsável por ela e seu pai terem perdido a vida estável que tinham, enquanto mantêm somente as boas lembranças de Roan, o mais novo e agora noivo de Ian Gold, a filha adotiva de Rainha de Sempera. Os Gerlings são uma das 5 famílias reais do reino, e protegem o seu povo contra os sangradores (basicamente ladrões de sangue) e são considerados por muitos como nobres justos e bons, mas não por Jules (que se ressente profundamente da família) e são definitivamente a mais poderosa família de todas. Jules acredita que pode passar completamente despercebida no castelo, e claro que está redondamente errada: ela logo se torna a criada pessoal de Ina, se aproximando bastante da princesa e da criada pessoal da Rainha, Caro. Liam está bem ciente da volta de Jules ao castelo e parece não a perder de vista, mesmo com Jules tendo pavor do nobre, enquanto Roan parece um personagem ambíguo – assim como irmão mais velho. O romance, para mim, nesse ponto, começou a me irritar porque temos tido seguidamente uma dupla de irmãos – e sabemos bem aonde isso tem dado em diversos e diversos livros. Mas, para minha total perplexidade, “Everless” deu um verdadeiro nó no romance e não foi absolutamente nada do que eu esperava, nem mesmo remotamente parecido com o que eu esperava que iria acontecer. Preciso também deixar claro que o romance não é foco da história e isso também é um grande ponto positivo.

Havia um homem em Crofton que chamávamos de Fantasmas, sempre trêmulo e com os olhos abaixados. Era um apostador e sangrou quase todo o próprio tempo, e também o de seu filho pequeno. Então derrotou Edwon Duade em um jogo de veneno e ganhou duzentos anos, o suficiente para restaurar o tempo de ambos. Mas, quando chegou em casa com a bolsa pesada de ferros-sanguíneos no cinto, o menino estava morto no chão. Seu coração tinha parado de bater. Apesar de toda sua sorte com cartas e moedas, Fantasmas errou os cálculos e, em sua busca por fortuna, sangrou tempo demais do filho.
Agora ele mora nas ruas, vivendo cada hora de seus dois seculos ganhados como um topo de penitência – e alerta – à vista de todos.

Também temos Ina Gold, a jovem princesa prometida a Roan, que parecia ser somente uma garota linda e fútil, mas que, novamente, não é nada disso. A personagem pode errar, mas são erros honestos e completamente compreensíveis. Ina não é filha biológica da Rainha e aqui temos outra trama muito boa que se enlaça a jornada de Jules: Não tendo filhos de seu próprio ventre, a Rainha, ao longo de seus três seculos de vida, adota crianças aleatoriamente pelos orfanatos de toda Sempera, transformando alguns em criados e deixando outros mais próximos dela. Ina foi uma das escolhidas e se tornou a herdeira da mulher, mas, apesar disso, sabe que foi abandonada por sua família biológica e está disposta a encontrar os pais, seja como for. Toda passagem de como as pessoas, sem qualquer esperança na vida, vão entregando seus filhos em orfanatos é real e bastante crivil, coisa que foi me prendendo mais e mais a trama. Enquanto tenta descobrir pistas sobre seu próprio passado, Ina termina provocando Jules a descobrir sobre ela mesma, levando o leitor em uma jornada bastante consistente e até Briarsmoor, um povoado que sofreu com um grande evento temporal e está “atrasado” no tempo.

A Rainha, em contrapartida, se torna uma figura envolta em mistérios que o leitor acredita ser justamente por representar tudo que Jules está tentando descobrir, mas, acredite, ela é misteriosa por um motivo e não é o que você pensa. Acho que esse é o principal ponto de “Everless”: ele é tão novo em tantos plots que você fica chocado quando a trama dá uma reviravolta bem na sua frente, te fazendo se questionar aonde você perdeu as pistas – e olha que eu sou realmente boa em pistas, podem acreditar. Nem mesmo Liam e Roan, que parecem estar no velho e conhecido jogo de “irmão bom x irmão ruim” não caem no clichê supremo da reviravolta do interesse amoroso e fiquei surpresa aonde o livro os levou em suas páginas derradeiras. Tudo absurdamente delicioso de se ler.

– O que é Briarsmoor?
– Não ensinam nada para as crianças hoje em dia. – Ele fala com um leve tom de censura, mas não é dirigida a mim. – Briarsmoor é uma cidade que está a alguns quilômetros ao norte, doze horas atrás do resto de nós. Se você e eu estivéssemos lá agora, seria o meio da noite. O tempo congelou por metade de um lá naquele verão, e as pessoas começaram a dizer que todas as crianças vindas de lá eram amaldiçoadas.
Ele apoia o queixo na mão e inclina a cabeça para mim, esperando uma reação, mas minha mente está girando com o que ele contou. Não é incomum que o tempo tropece de vez em quando, reduzindo-se, acelerando ou pausando por um momento, de modo que o vento e o sol fiquem imóveis enquanto seguimos com nossas vidas, sem perceber que estávamos fora da corrente temporal. Mas tudo sempre se resolve. Não consigo acreditar que o tempo poderia parar durante meio dia – e ainda menos que o atraso poderia persistir por tanto tempo.

Claro que temos certeza de que Jules não é uma garota comum desde o começo do livro, mas eu realmente não esperava a revelação que acontece sobre a personagem. Eu acreditei que seria a já conhecida história sobre a garota destinada a um grande futuro e eu tento aqui demais não dar qualquer indicio do que te espera pela frente porque você merece ler esse livro e tomar todos os choques possíveis com as revelações. E acredite, elas vêm.

Por mais que até o meio do livro a leitura seja muito fácil e prospere com facilidade, somente quando as reviravoltas da trama começam a acontecer é que você se dá conta de que “Everless” é realmente uma pequena joia rara, fugindo de todos caminhos que você acreditava que iria, aumentando e muito o nível da trama em seu quarto final. Eu já estava completamente presa na história por ter achado simplesmente incrível toda mistura de alquimia e magia, mas foi descobrir outros pontos e meu gostar pelos personagens que me fizeram realmente devorar as páginas finais do livro. Jules não é a típica mocinha que vai cair nas graças de todos leitores: ela é teimosa, insegura e bastante falha, não é carismática, não é linda e não quer salvar o mundo de nada, tendo aprendido que seu lugar é pequeno em um mundo aonde existem peças muito mais importantes do que ela, e justamente por ser assim que me apeguei a ela, alguém que a vida quebrou tanto que não quer mais do que acredita que pode. Sinceramente, esse livro me pegou com força e eu nem tenho vergonha de dizer que errei em quase todas minhas suposições sobre a trama.

Vasculho a memória em busca dos contos lidos às crianças naquelas manhãs na biblioteca de Everless, tantos anos atrás.
– Dizem que o Alquimista roubou a imortalidade da Feiticeira, vinculando-a ao metal, para que eles pudessem se libertar de um lorde maligno. Mais tarde, ele alegou que sabia como devolvê-la, mas era um truque. Uma trama para roubar o coração da Feiticeira.

Por todos os paralelos que falei e o final que subverteu a trama, eu digo com toda facilidade que “Everless” entrou no meu top 5 de livros do ano, e, junto com “Nocturna” (leia a minha resenha desse livro AQUI), são meus dois livros de fantasia favorito do ano, de longe. Acompanhando o mundo dos young adult há tanto tempo, e é muito bom ver o gênero começar a se reinventar, trazendo elementos e modelos novos de prender o leitor. A dica está mais do que dada: se você está precisando de algo inovador e que te prenda com facilidade, pode ler “Everless” sem medo de ser feliz, tendo a certeza de que o tempo vai parar durante as páginas finais.

Everless” é o primeiro livro de uma duologia. O segundo livro, “Evermore” já foi lançado em língua inglesa em dezembro de 2018. Não leia a sinopse da continuação porque ela é REPLETA de spoilers do final do livro e de toda mitologia, então se contente em acreditar em mim e saber que a capa é tão linda quanto a do livro inicial e que as reviews também são boas.

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