18.06

Carta À Rainha Louca
Maria Valéria Rezende
Alfaguara – 2019 – 144 páginas

Olinda, 1789. Isabel das Santas Virgens, presa no convento do Recolhimento da Conceição, escreve à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca. Em suas cartas, ela, tida por muitos como também lunática, conta os destemperos cometidos pelos homens da Coroa – e por aqueles que galgaram tal posto – contra mulheres, escravizados e todos os que se encontravam mais vulneráveis. Por meio dos tormentos passados por ela e por sua senhora Blandina, nossa narradora expõe o pano de fundo da colonização brasileira e da situação da mulher que ousava desafiar.
Com uma pesquisa histórica ímpar e usando o vocabulário próprio do setecentos mesclado a uma linguagem moderna, Maria Valéria Rezende recria com maestria a história de duas mulheres em um período conturbado do passado brasileiro. Como promete à rainha, Isabel conta “toda a verdade sobre o que em Vosso nome se faz nestas terras e a mim me fizeram.

Num texto escrito todo em formato de carta, Isabel das Santas Virgens, que vive em um convento, escreve à rainha Maria I, conhecida como a Rainha Louca,narrando sua trajetória e as dificuldades sofridas por mulheres, escravos emarginalizados no final do século XVIII no Brasil.

O livro começa não como uma carta destinada a uma autoridade mas como um último ato de desespero de alguém que tem muito a falar e ninguém para escutar. Com frases corridas, ritmo acelerado e ideias fora de ordem, a autora magistralmente prende o leitor com uma narrativa que, chegando muito perto de ser – intencionalmente – confusa, desperta a empatia para a situação da personagem principal e ‘autora’ das cartas e interesse de descobrir mais sobre ela e o que realmente está acontecendo.

Na metade do livro, o relato se torna mais coerente e a linha cronológica dos acontecimentos começa a tomar forma. Daí, o leitor consegue entender mais profundamente os traumas, sacrifícios e sofrimentos que levaram Isabel a se tornar quem é e porque ela se agarra tão fortemente às suas convicções mesmo sendo considerada tão lunática quanto a Rainha à qual escreve.

Livros históricos, especialmente os tão primorosamente embasados como o de Rezende carregam em si a necessidade de usar de linguagem próxima ao do período retratado. Geralmente, isso pode se tornar um problema para leitores menos experientes ou com pouco interesse histórico. Uma solução, muitas vezes utilizadas, é mesclar linguagem da época com vocabulário mais atual, o que nas mãos erradas pode ser desastroso. Maria Valéria usa desse recurso mas o faz de forma impecável. Mesmo substituindo palavras menos usuais para o público do século XXI, em nenhum momento tais incorrências geram qualquer tipo de dissociação com a narrativa ou o tempo em que se passa.

Rezende também consegue fazer um livro atual no que se refere aos temas abordados. A forma como a sociedade trata as mulheres, os negros e todos aqueles que não se encaixam no padrão estabelecido são ricamente trabalhados pela autora e não poderiam ter sido escritos de maneira mais atual. Questões que permeiam hoje as redes sociais surgem no Brasil colonial dessa mulher tão desesperada para ser apenas ela mesma.

Com uma riqueza de detalhes históricos e uma narrativa emocionante e cativante, Maria Valéria entrega nesse livro – curto, se comparado muitos livros do gênero – um relato preciso, uma história que ficará na mente e uma protagonista que será guardada no coração de muitos que se renderam às suas cartas.

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