19.04

“O Corvo”
Edgar Allan Poe
Companhia das Letras – 2019 – 200 páginas

“A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.” Assim Edgar Allan Poe justificaria a gênese de “O corvo”, poema publicado sob pseudônimo originalmente em 1845. Mas o que faz com que esses versos hipnotizantes sobre perda e desejo, escritos de modo tão calculado pelo mestre do terror há quase dois séculos, tenham merecido tantos elogios e tamanha controvérsia?

Nesta edição, o leitor vai conhecer as traduções mais notáveis de “O Corvo” para a nossa língua ― as de Fernando Pessoa e Machado de Assis ―, analisadas pelo poeta, tradutor e professor Paulo Henriques Britto, que também traduz três textos fundamentais de Poe sobre poesia (“A filosofia da composição”, “A razão do verso” e “O princípio poético”) e examina a faceta ensaística do escritor.

A vida do autor e poeta Edgar Allan Poe não foi das mais fáceis e, muito provavelmente, essa foi a fonte de inspiração que se transcreveu em suas obras, já como era bastante familiar com o abandono e a morte desde sua mais tenra idade. Consagrado como um dos maiores expoentes do movimento Romântico Norte-americano, entre todas suas obras, seu poema “O Corvo”, original de janeiro de 1845, é o mais conhecido – certamente um dos poemas mais conhecidos da história, e agora a Editora Companhia das Letras publica uma edição capa dura, com diversos detalhes, gravuras, o poema em inglês e duas traduções: a mais conhecida, do autor Fernando Pessoa, e também uma tradução do incrível Machado de Assis, além dos três textos traduzidos que já vem assinalados em sua sinopse: “A filosofia da composição“, “A razão do verso” e “O princípio poético“, todos do professor Paulo Henriques Britto, contendo uma analise da tradução da obra.

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,

Antes de analisar a edição em si, preciso falar do poema da Era Romântica, que conta com o Eu Lirico sofrendo pela morte de sua amada, Leonora, o que faz o corvo aparecer para ouvir as queixas do personagem, sempre atestando que “Nunca mais” (“Evermore”, em sua língua original, uma das frases mais icônicas do poema) em uma noite chuvosa, empoleirado em um busto da Deusa Atena, que é justamente a Deusa da Sabedoria. O contexto do poema faz com que ele se torne maior ainda, já como o que, no final das contas, aquele corvo, ave tão perspicaz, dizia, era que o narrador e homem que tanto amava sua amada nunca mais a veria, por mais lamentos derramados.

Não há pessoa afeita a literatura que não tenha, em algum ponto de sua vida, se deparado com algum treco dessa poesia, já como ela trata do tema mais doloroso a qualquer ser humano: a morte do ser amado, o que acarreta descobertas de verdades sombrias sobre si mesmo até uma morte não libertadora, prendendo o Eu Lirico ao mundo de dor no qual ele se encontrava com sua morte. Não posso minuciar o poema como uma obra literária, já como é justamente um poema: deve-se sentir e se deixar compreender da forma como se é tocado, mas há que se reconhecer a sua intensidade e capacidade de mostrar que uma dor é levada até mesmo além-túmulo.

“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

O que se faz bastante necessário assinalar é justamente que essa edição traz uma análise esclarecedora sobre como é complexa a tradução, principalmente de um poema. A cadência das palavras no poema original requereu uma complexidade que jamais iriamos imaginar. A tradução do poema por Pessoa é mais próxima do poema e, por sua grande maioria, a favorita da maior parte dos estudiosos e professores. Contudo, não há como se deixar de lado a tradução feita por Machado de Assis, que apesar de não se focar tanto no ritmo e cadência de palavras, dá um ar mais próximo de uma narração sobre os acontecimentos na vida do Eu Lirico durante sem sofrimento e a conversa com o Corvo. Confesso que não conhecia a versão de Machado e ela se tornou especial para mim, mas também ler os textos e entender o tamanho e a dimensão dessa obra foi algo que não esquecerei tão cedo.

A Edição, como comecei a falar acima, é simplesmente impecável: linda no acabamento e perfeita no conteúdo, específica para fazer o leitor entender um pouquinho mais do universo do famoso autor, além de lhe dar duas versões do mesmo poema. Os detalhes e as gravuras somente deixam o livro mais primoroso e essa mesma edição segue no mesmo formato que “Histórias Extraordinárias”, também de Poe, lançada pela mesma Companhia das Letras em 2017 – os mesmos detalhes na capa fazem com que se tornem um dupla essencial na coleção de todas as pessoas que tem apreço pelo autor, tão conhecido por seus contos e poemas góticos.

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.

Sei que já falei acima que poemas devem ser sentidos por quem o lê, por isso acredito ser redundante afirmar novamente que não há o que se analisar no mesmo, somente atestar que se você não conhece o trabalho de Poe, seja como escritor, seja como poeta, esse livro é um grande caminho para se começar. Não perca de conhecer um dos maiores nomes da literatura mundial, e por que não com um poema que nos lembra da nossa mortalidade?

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