Resenha: A anatomia de um crime – Jo Murray

“A anatomia de um crime”
Jo Murray
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Faro Editorial – 2026 – 448 páginas
UM JUIZ ASSASSINADO. UM RÉU QUE SE RECUSA A FALAR. E UM TRIBUNAL CHEIO DE MENTIRAS.
Leila Reynolds acaba de receber o caso que pode consagrar sua carreira… ou destruí-la para sempre. O brutal assassinato de um juiz renomado chocou toda a comunidade jurídica.
O principal suspeito é o enigmático Jack Millman. Ele impõe uma condição absurda: só aceita ser defendido por Leila, uma advogada iniciante sem qualquer experiência em homicídios.
Enquanto Jack se tranca em um silêncio perturbador, Leila mergulha numa investigação perigosa para provar a inocência de um homem que parece não querer ser salvo. Mas o maior adversário não está no banco dos réus: do outro lado do tribunal está o promotor mais implacável da cidade _ o seu próprio marido.
O que parecia um processo impossível logo se torna algo muito mais pessoal. Surpreendida por uma _ gura misteriosa do seu passado, Leila descobre que não luta apenas para vencer o julgamento ou salvar seu casamento.
Para manter seus segredos enterrados e sua liberdade intacta, ela terá que decidir até onde está disposta a ir.
Poucas coisas são tão recompensadoras quanto ler um livro com uma trama muito bem amarrada que não faz o leitor de idiota com dando pistas aleatórias que não se comprovam, porque se você é um leitor assíduo do gênero, você vai pegar as pistas e vai descobrir algumas coisas sim, querendo o autor ou não. Mas, mais recompensante ainda é quando o livro te entrega pistas, você descobre coisas e, ainda assim, ele traz uma reviravolta que ainda te surpreende, e eis que temos um caso feito com excelências em nossas mãos aqui: “A anatomia de um crime” merece todo hyper que está ganhando lá fora a ponto de ser escolhido como o material fonte para a segunda temporada do seriado “Acima de qualquer suspeita”, da AppleTV, com Rachel Brosnahan, Jack Reynor, Matthew Rhys e mais. Confesso que foi por esse motivo que vim ler o livro, mas também confesso que ainda bem que vim ler porque esse livro valeu cada segundo da minha leitura, e se você ama um bom suspense, você vai amar também. Agora chega de preambulo e vamos ao que interessa: a trama!
– Com certeza tem a ver com alguma garota bonita – diz Phoebe (Shieldsy, porque os homens dizem que ela lembra Brooke Shields), para grande desânimo dos que a ouvem. – Ora, todos sabem que ele era um galinha.
Ninguém diz nada. Todo mundo olha para o chão, recusando-se a dar trela, mas pensando a mesma coisa.
Sua excelência o juiz Anton Smythe devia estar perto dos sessenta anos. Tinha um ar confiante, era um homem atraente e carismático, como a maioria dos homens do judiciário. Os anos foram generosos com ele, continuava com sua boa aparência: olhos escuros intensos e uma farta cabeleira prateada. Bem à moda antiga, garboso.
Leila Reynolds tem tudo que pode imaginar. Aos 36 anos, vinda de uma família pobre, se formou em direito e agora é uma barrister, uma advogada mais especializada, digamos assim. Na “escala” jurídica da Inglaterra (sim, a trama se passa na Inglaterra) há dois “tipos” de advogados: o solicitor, que é basicamente o advogado que lida com o cliente, que vai quando é solicitado e que junta provas. Já o barrister é parece mais especializado em casos complexos e é que o advogado que se apresenta para um tribunal – e Leila é uma. Casada com Julian, um barrister mais especialista do que ela e onze anos mais velho do que a advogada, a vida de Leili se prepara para uma grande fase quando Jack Millman, um homem que ela defendeu anos atrás, exige ser defendido por ela da acusação de assassinato. Mas calma que não é qualquer assassinato e sim o do Juiz Anton Smythe, ou seja, a sociedade juridica está olhando para o caso, esperando uma punição exemplar no acusado, é claro.
Tudo começa a complicar quando Leila descobre que enfrentará Julian, seu marido, no tribunal. Ao contrário de Leila, Julian foi escolhido pelo sistema para enfiar Jack na cadeia e jogar a chave fora, enquanto Leila foi uma exigência do homem, que confiava nela por já o ter defendido anos atrás. Apesar de já ser uma barrister, Leila é considerada ainda bastante imatura na profissão e todos acreditam que Julian, que foi o mentor dela no professor de se tornar uma barrister, irá basicamente a atropelar no tribunal. Eu sei, estou resumindo muito todo sistema juridico da Inglaterra porque não é o foco, mas essa distinção entre solicitor e barrister porque Jack tem Davina Jessop por solicitor. E é assim que a trama realmente começa, com Leila sabendo que iria enfrentar o marido no tribunal para defender o cliente enquanto todos esperam que ela perca, inclusive seu chefe direto, Chester Vernon.
Dolly Parton disse certa vez: “Custa muito dinheiro parecer tão pouca coisa”, e isso sempre me faz lembrar meu pai. As pessoas também o subestimavam, e isso era um de seus recursos mais estratégicos.
Quase todos querem ser vistos como seres humanos inteligentes e culturalmente elevados, o mais perto possível do topo da hierarquia social. Mas meu pai, não; ele cultivava sua imagem pública para ser visto como o brincalhão, o mulherengo, a alma da festa, aquele que ninguém leva a sério.
Ninguém jamais suspeita de uma pessoa boa e boba.
A narrativa segue Leila, mas não somente ela, já como alguns capitulos contados a partir do ponto de vista da Testemunha X. Inominada, essa pessoa testemunou o assassinato do Juiz Anton, mas, mais do que isso, sabemos que foi criada em um ambiente que não dá pra descrever além de extremamente virulento e tóxico, e que está desesperada para Jack ser inocentada. Esta personagem está contando as regras que aprendeu para lidar com a vida e vai nos apresentando a todas elas enquanto conta mais sobre sua vida e como aprendeu a manipular as pessoas para conseguir sobreviver, até que conhece outra pessoa que também tem esse mesmo “dom”, se é que podemos chamar assim. As duas personagens passam a serem basicamente um espelho uma da outra, completando ações bastante complexas, mas sinto que se eu falar mais, entregarei a trama e não é a intenção.
Voltando para Leila, ela tenta tanto ser uma boa vida que visita Audrey, sua sogra com demência, todas sextas-feiras à noite enquanto o próprio Julian sai com os amigos para beber. O ranço por Julian é instaurado no começo da trama a ponto de que tive dificuldade em certa altura porque não conseguia sequer ler a menção a ele, já como era mais do que claro que ele era uma pessoa tão cheia de si que era capaz de morrer sem ar dentro de um quarto com o tamanho do ego dele. Faltando 121 dias para o julgamento, Leila começa uma investigação que vai envolvendo pessoas que ela não imaginava e ela própria começa a ser ameaçada online por alguém que ela não tem a menor ideia de quem seja, mas a pessoa afirmar saber exatamente quem Leila é e Jack, o acusado, se recusa a contar o que aconteceu na noite, somente afirma que é inocente e que falará somente perante juízo. O cerco começa a se fechar em torno de Leila a medida que o julgamento vai se aproximando, mas confesso que as últimas 100 páginas confirmaram uma teoria que criei no começo do livro, outra que também imaginei mais perto do fim, mas me pegou completamente desprevenida com um final que é, no mínimo, apoteótico.
É isso que acontece quando a pessoa finge ser algo que não é: tem que estar preparada para quando alguém perceber a farsa. Não se pode enganar a todos. E quando alguém aparece com um espelho grande e brilhante apontando para seu comportamento, você tem de estar pronto para encarar o monstro grotesco e distorcido ali refletido.
Então, você tem duas opções: ou decide ser alguém melhor e provar que estão errados a seu respeito, ou faz exatamente o que previram e continua sendo a vadia manipuladora que todo mundo já pensa que você é.
Eu nunca, jamais esqueci o que ele me disse aquela noite, nem como me senti quando ouvi aquilo.
A vergonha, a culpa, o desprezo por mim mesma… a esmagadora humilhação e a exposição.
A minha surpresa é que “A anatomia de um crime” é o primeiro livro de Jo Murray, o que me faz querer acompanhar a carreira da autora inglesa e a edição brasileira é lindissima, com pintura lateral preta das páginas. Em um mundo repleto de advogados cheios de si, uma corte repleta de mentirosos (mantenha isso em mente) e a sobrevivência, Jo conseguiu que nos importássemos com Leila e ficássemos temendo pela vida dela, e ainda no final nos dar uma bela paulada na cabeça, mérito todo dela. Seja como for, vou assistir a nova temporada da antologia baseada neste livro porque queria ver se farão jus à este livro, porque ele definitivamente merece, entregando exatamente a anatomia de um bom thriller.
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