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Resenha: Mapas estranhos – Uketsu

“Mapas estranhos”
Uketsu
Tradução: Jefferson José Teixeira
Suma – 2026 – 264 páginas

Quando o universitário Fuminobu Kurihara visita a antiga casa da família materna para decidir se ela será vendida, algo não parece certo. O pai evita certos cômodos, há sinais estranhos de descuido ― especialmente no banheiro ― e algo suspeito paira sobre o lugar. A partir desses detalhes, Kurihara chega a uma conclusão inquietante: sua avó morreu ali, em circunstâncias que nunca foram plenamente explicadas, segurando um antigo mapa cuja origem ninguém consegue determinar.

O desenho retrata um vilarejo, um lago, uma montanha e figuras enigmáticas que lembram criaturas sobrenaturais. O que seria aquilo? E por que sua avó manteve esse mapa consigo até o último instante de vida?

Alternando registros do passado e a investigação no presente, Mapas estranhos conduz o leitor por uma trama que se constrói peça a peça: mapas, anotações, vestígios e relatos se conectam aos poucos, revelando como eventos do passado podem reverberar por muitos anos.

Assim como nos best-sellers mundiais Imagens estranhas e Casas estranhas, o fenômeno do terror japonês Uketsu reafirma seu talento singular para construir suspenses únicos e conduzir o leitor pelos caminhos de descoberta trilhados por seus personagens, amarrando pistas, formulando hipóteses e participando ativamente do mistério.

Acho que afirmar que a melhor coisa sobre “Mapas Estranhos” seja justamente o fato de Uketsu ter conseguido fazer algo que eu não esperava: pegar uma fórmula conhecida de “Imagens Estranhas” e transformar em algo completamente novo. Não esperava uma mudança tão grande justamente por toda essa série de livros com coisas “estranhas” (este é o sexto livro desta série, mas aqui no Brasil os livros estão sendo publicados por Editoras diferentes, então não espere um box ou algo neste estilo). Voltando ao que falar, aqui temos, mais uma vez, uma “coisa” que deveria ser totalmente normal, mas que quando olhamos com atenção, vemos que tem algo bem errado, e, dessa vez, é um mapa.

O protagonista da vez já apareceu em duas outras tramas desta série de livros: Kurihara é um amigo do protagonista de “Imagens Estranhas” (você pode ler nossa resenha sem spoilers clicando AQUI) que também participa de “Casas Estranhas” (o qual infelizmente não li) e volta agora com sua própria trama como protagonista. Prestes a se formar, Fuminobu Kurihara não consegue um emprego por causa de sua personalidade tão lógica que o faz ser grosseiro muitas vezes. Não é falta de gostar ou se importar com sua família, mas ele é tão focado em lógica e em se tornar alguém que não pode ter sentimentos e nem dar vazão a eles que termina sendo alguém que nem mesmo o pai tem uma boa comunicação, mas, da forma mais brilhante possível, durante a narrativa, vamos descobrir o motivo pelo qual ele é assim. E confesso que até chegamos a ter empatia por ele.

A julgar pela atitude dos médicos e da minha família, suspeito que meus dias estejam contados. Deitada no leito do hospital, refleti muito sobre como passar o pouco tempo de vida que me resta, e conclui que deveria revelar certas lembranças guardadas há anos em meu coração.
Em meus tempos de juventude, matei muita gente. Tirei várias vidas.
Mas nunca fui levada à justiça.

Temos de inicio a entrada de um diário de uma mulher confessando crimes inimagináveis, escrito sem ter nem ao menos a data quando foi escrito. Então estamos em 2015, com a narrativa de Kurihara começando sem o rapaz entender os motivos pelos quais não consegue um bom emprego depois de entrevistas e recebe um recado do seu pai através da sua irmã, Saya, que pede para ele ir até lá. Morando na capital Tóquio, ele vai até a casa na qual cresceu e o pai lhe conta que a mãe dele herdou uma casa da avó, que estava bem estranha antes de morrer, e agora o pai deseja vender essa casa, apesar de ter mantido a existência dela escondida desde a morte da mãe de Kurihara.

Os dois vão até a casa e lá já fica muito claro a personalidade do jovem, que basicamente analisa tudo e chega a conclusão que a avó, Chikako, se matou. Analisando o escritório da casa, chega a conclusão de que há um movel que era movido e lá encontra um mapa com criaturas bastante estranhas desenhas, mas, mais do que isso, descobre que sua mãe, que já morreu há muitos anos, tentava descobrir qual o lugar aquele mapa a mãe dela desenhou – e ela conseguiu descobrir, mas morreu antes de ir até o lugar.

Uma montanha habitada por monstros. Uma mulher indo em sua direção… desenho que desperta imagens sombrias.
Monstros.. Criaturas sobrenaturais… Por falar nisso…
Kurihara lembra-se de algo. Levanta-se da cama e abre o armário, que faz as vezes de estante, abrigando vários de seus livros favoritos: romances policiais, ensaios, coletâneas de poesia etc. Procura um título em particular. Ele está ali, bem no fundo.
A floresta infernal: Enciclopédia de estranhos fenômenos da era Heisei. Um livro ilustrado infantil, mas repleto de ilustrações sangrentas do inferno e de monstros apavorantes. Não sendo um aficionado por terror, qualquer adulto desviaria o olhar daquelas imagens. Talvez por isso o livro esteja fora de catálogo atualmente.
Foi a mãe que comprou para ele. Muitos anos atrás, ao visitar uma livraria, ele encontrou o livro no canto de uma prateleira e ficou fascinado com aquela capa assustadora. Ao pedir à mãe para comprá-lo, ela concordou na mesma hora.

Kurihara descobre que o mapa é de uma região costeira onde só há um vilarejo agora abandonado, próximo a um túnel ferroviário que passa por um Monte – e aqui pausa para falar que no começo da trama, vemos um assassinato neste lugar, o tempo retroagindo para voltar para a história de Kurihara. Quando se torna óbvio que as duas tramas vão se encontrar, a trama mostra bem que tudo que estamos vendo até ali sáo pequenas peças de um grande quebra-cabeças que vão eventualmente se encaixarem e formarem uma figura maior.

A narrativa também é entrecortada com um diário da personagem Kimiko, que também descobrimos ter uma ligação grande com Chikako, mas não contarei para não entregar demais da trama, que é bastante simples e direta. Uma coisa que é bastante interessante aqui, principalmente com Uketso, é como a parte dos diálogos entre personagens é direta, quase sem mostrar as reações das pessoas, diferente de algo do ocidente. Claro que também é muito bom ter contato com outras culturas e ver como as pessoas reagem de outra formas a situações que aqui no ocidente seriam completamente diferentes.

○ templo de telhado triangular, as casas ao longo da costa… Tudo permanece fiel ao desenho no velho mapa.
Mas parece que faz muito tempo desde que as pessoas deixaram de viver ali. Está tudo muito deteriorado, e os telhados das construções se desfizeram. A palavra “ca-dáver” vem à mente de Kurihara.
O cadáver do vilarejo, isolado por montanhas, floresta e mar, está há décadas abandonado… É essa a impressão.

Seguindo a trama, Kurihara decide seguir o mapa mesmo tendo uma grande entrevista de emprego prevista para dali alguns dias dentro da trama e conhece uma policial chamada Akira no trem indo investigar o mapa. Parece meio aleatórias alguns encontros e personagens que simplesmente se esbarram na narrativa, mas termina fazendo todo sentido porque ele está indo para uma cidade pequena, procurar os restos de um vilarejo abandono há muitos anos para tentar descobrir o que são aquelas figuras do mapa e honrar a busca da mãe, mas que termina entregando uma história bem mais triste do que imaginamos quando começamos a trama.

Mas o ponto alto da trama é mesmo como Uketsu apresenta as pistas desta trama trágica que atravessou gerações para ganhar a luz, causando no leitor a sensação de que o leitor está dentro da investigação, algo simples e muito, muito efetivo, de tão forte de uma forma que se torna quase impossível largar o livro porque a vontade de descobrir o que está acontecendo é maior do que tudo. É uma construção inteligente porque Uketsu não precisa esconder completamente as informações, mas também não pode entregar na cara do leitor a trama que ele está tentando contar, e no final, o que a gente entende é que o mapa e tudo que havia para descobrir é que o mapa conta uma história – só não a que você esperava.

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