Resenha: A vontade de muitos (Hierarquia #1) – James Islington

“A vontade de muitos”(Hierarquia 1)
James Islington
Tradução: Edmundo Barreiros
Plataforma 21 – 2025 – 784 páginas
AUDI.
Conto a eles que meu nome é Vis Telimus. Conto que fiquei órfão após um trágico acidente há três anos… e que ter sido aceito na Academia, o centro de estudos mais prestigiado da República, foi apenas uma questão de sorte.
Conto que, quando me formar, me juntarei de bom grado ao resto da sociedade, permitindo que minha força, minha motivação e meu foco – o que eles chamam de Vontade – sejam drenados e somados ao poder dos que estão acima de mim, como milhões de pessoas já fazem. Como todos terão de fazer, inevitavelmente.
Digo que sou um deles, e eles acreditam.
VIDE.
Mas a verdade é que fui enviado à Academia para encontrar respostas. Para solucionar um assassinato. Para buscar uma arma ancestral. Para desvendar segredos que podem provocar a queda da República. E eu nunca, jamais, cederei minha Vontade ao império que executou minha família.
TACE.
Para sobreviver, porém, ainda terei de conquistar meu lugar na Academia. Terei de sorrir, fazer amigos, fingir pertencer a esse sistema – e vencer. Se eu não conseguir, aqueles que querem me controlar, os que sabem meu verdadeiro nome, serão inúteis para mim.
E, se a Hierarquia descobrir quem eu realmente sou, eles vão me matar.
Se alguém falar que a fantasia está morta e que todas as histórias estão se repetindo, pegue um exemplar de “A Vontade de muitos” e jogue na cabeça da pessoa. Tá, não faça isso realmente já como este livro é um camalhaço imenso e pode causar ferimentos reais, mas dê risada na cara de quem fala isso porque a pessoa realmente não sabe do que está falando. Esse livro é um dos mais inovadores que li nos últimos anos, tão complexo, tão intenso, com tantas informações e com um final de explodir cabeças que ainda estou tentando digerir o final da trama do primeiro livro. Não me sinto nem pronta para começar esta resenha ou sequer falar sobre essa trama, mas vou tentar organizar meus pensamentos da melhor forma por aqui.
Começo dando a informação de que esse é o 1° livro de uma, até aqui, série de 4. Confesso que isso me chocou pela quantidade de informações e tamanho de toda narrativa do primeiro livro e aqui explico logo que este livro é uma alta fantasia com todos seus elementos bem claros: complexo sistema de magia, temas maduros e desenvolvimento lento, então se você está querendo algo focado no romance e com um desenrolar breve, esse livro não é pra você, mas ai a perda é sua, sendo bem honesta e direta. É uma alta fantasia complexa, forte, com um órfão repleto de raiva e, ao mesmo tempo, muito idealista, no centro de uma trama repleta de personagens e com passagens de pura construção do universo, enquanto em outros momentos deixa para o leitor compreender o que está lendo porque se você é um leito, é sua obrigação se concentrar e procurar entender o que está na sua frente. E olha, minhas expectativas estavam altas, mas o que me foi entregue aqui me deixou sem palavras – e no bom sentido.
Acorrente sua raiva no escuro, costumava dizer minha mãe, e ela só vai crescer.
Quando era mais jovem, nunca entendi o que ela queria dizer. Como eu entenderia? Eu era um príncipe de Suus. Eu tinha conforto, segurança, tutores, criados e família. Eu era amado. Minha ira era por ser forçado a ter aulas chatas, por negligências imaginadas e pela injustiça de restrições parentais totalmente justas. Uma raiva pequena, que desaparecia quase tão rápido quanto era expressa.
Quando a Hierarquia chegou, porém. Quando eles tomaram tudo isso. Quando precisei aprender a me esconder em meio a eles todos os dias. Quando tive de sorrir e assentir e me envolver em conversas com pessoas cujas fraquezas tinham permitido que os catenanos se tornassem poderosos. Quando tive de engolir a fúria em todas as respostas e fingi concordar com suas desculpas por sua escravidão, minha escravidão, apenas para sobreviver.
Então eu entendi.
Assim que abrimos o exemplar, vemos uma tabela que deixa claro quanto cada categoria recebe da tal Vontade de outras pessoas. A trama começa mostrando Vis Solum, um órfão que trabalha em uma prisão na qual tira-se Vontade dessas pessoas que cumprem pena. A noite calma de Vis e seu a companheiro idoso de guarda é interrompida pela chegada de um superior que deseja ver um preso. Como o livro é em primeira pessoa, vemos a visão de Vis sobre o que ele acha daquela prisão e de tudo que está acontecendo com o sistema de Hierarquia sob o qual ele vive. Também aprendemos que Vis mente sobre seu nome e de onde ele vem: um principe fugitivo que esconde o nome e sua origem para continuar vivo, esperando um dia que as coisas possam melhorar, mas que sempre lutou contra participar daquele sistema que tira a Vontade das pessoas ou aceita que elas deem, para melhor colocar.
E é o grande problema da trama: a falta de explicações sobre o que estamos lendo. Claro, é uma alta fantasia e como todos livros deste subgênero que já li, requer uma concentração, compreensão e envolvimento maior do que os outros livros (dou exemplos claros: “A saga do Assassino”, da Robin Hoob e até mesmo “O Portador da Espada”, de Cassandra Clare) mas que aqui, como estamos vendo algo bastante novo, me deixou perdida até entender que a Vontade é nada mais nada menos do que nossa força vital – e que os embaixo da piramide, doam (ou são obrigados) a doarem para os que estão acima dele. Lembram da tabela que vemos assim que começamos a narrativa? Pois então, um Princips, no topo da piramide, recebe a Vontade de 40.320 pessoas, ou seja, ganha-se poderes sobre-humanos a ponto de moverem meios de locomoção.
O básico do uso de Vontade – pelifagia, como chamam os catenanos, embora o termo raramente entre na fala comum – é relativamente bem conhecido. Qualquer criança no orfanato poderia explicar que um Septimus tem oito Octavii cedendo metade de sua Vontade para ele, um Sextus tem sete Septimii cedendo metade da Vontade coletada, e assim por diante até o alto da pirâmide, passando por Quintus, Quartus, Tertius, Dimidius e, finalmente, Princeps. Cada nível mais alto se torna cada vez mais poderoso. Crianças mais velhas também conseguiriam fazer as contas equivalentes. Um Septimus tem o equivalente à Vontade de cinco pessoas: quatro de seus Octavii combinadas, além da sua própria. Isso se reduz à metade quando eles estão cedendo para um Sextus. Um Sextus, portanto, começa com a Vontade de mais de dezoito pessoas. E assim por diante.
Mas a simpática simplicidade teórica desses cálculos termina aqui: eles são úteis para entender a força física de uma pessoa, mas esse é apenas o uso mais básico da Vontade. Imbuir objetos – controlá-los através de esforço mental – é onde está o verdadeiro poder da Hierarquia, e aumenta exponencialmente a eficácia dessa força para qualquer um que consegue fazer isso. Eu, porém, só posso adivinhar quanto. Meus estudos em Suus só faziam referência a estimativas com base em rumores e observações. E a Hierarquia não alardeia exatamente para as massas os seus segredos do uso da Vontade de alto nível. Ao longo dos anos eu desenvolvi uma compreensão de alguns dos métodos que eles usam, mas os custos e eficiências exatos em torno disso parecem turvos, na melhor das hipóteses.
Outra coisa que deveria já ter falado, mas você provavelmente já sabe: a sociedade aqui é inspirada na sociedade Romana que surgiu depois do chamado Cataclismo, então termos em latim e diversos outros pontos que aprendemos estudando na escola estão aqui. É uma sociedade sedimentada em uma estrutura social bastante ferranha, com os no topo sugando os que estão embaixo, e obviamente que há uma rebelião acontecendo – calma que já vamos chegar ai. Voltando a linha do tempo, depois do homem, que se apresenta como Sextus Hospius pede para ver o prisioneiros chamado Nateo, Vis sente que está entregando um pouco demais de sua educação e da forma como vê o mundo, já como, lembrem-se, ele foi criado e teve educação de um principe até os 14 anos, quando seus pais morreram e ele teve de fugir. Atualmente com 17 anos, Vis vive uma vida bastante miserável em um orfanato com uma mulher horrorosa, mas ele realmente havia chamado atenção do homem que resolve o adotar.
O homem na verdade é um Quintus, ou seja, um cargo acima do qual havia se apresentado na prisão. Quintus Ulciscor Telimus é um homem que parece saber muito bem o que quer: adotar um adolescente que seja diferente dos outros para infiltrar na Academia Caetana porque ele deseja descobrir o que o Principalis da Academia, Quintus Veridius Julii, está tramando, já omo diversos alunos que estudaram com o homem foram mortos, inclusive o irmão de Ulciscor, Caeror Telimus. Parece loucura o que está tentando fazer, mas o fato é que Vis é alguém descartável demais e ele pode usar como bem entender. Depois de adotar o jovem, ée hora de levá-lo para sua vila para treinar por 3 semanas antes das aulas retornarem, mas (claro que tem um mas!) eles tem a condução (que é movida a Vontade) é atacada por um grupo dos Anguis (literalmente “serpente” em latim). E o que esse grupo quer: Claro que é derrubar todo sistema de castas da Republica Caetana. O que Vis não conta é que há alguém entre os Anguis que ele não espera (repita essa frase nessa altura da trama e depois bem mais adiante novamente). A medida que o treinamento de Vis com Lanistia Scipio e Kadmos na vila Telumus, fica claro para os professores que Vis tem um passado de estudos maior do que afirma ter, assim como Vis parece se tornar mais e mais claro que ele precisa de muito para conseguir se sobressair na Academia. E ah, Lanistia é uma personagem maravilhosa.
– É uma porcaria de uma escola – eu rosno. – Olha o estado das minhas costas. Não tem nada mais grave que eles possam fazer comigo.
Lanistia leva uma das mãos ao rosto. Ela tira os óculos.
Eu titubeio.
Onde deveriam estar seus olhos há duas órbitas vazias e com cicatrizes brancas. Eu afasto os olhos por um instinto educado, então forço meu olhar a voltar. Ela não tem nenhum problema para encontrar seu caminho, não parece aleijada por sua deficiência. Como?
– Esta é uma pequena parte do que a Academia tirou de mim. – Ela recoloca os óculos, e eu percebo sua mão tremer de forma quase imperceptível. – Sempre há mais alguma coisa a perder, Vis.
A partir dai o que temos é Vis mostrando a que veio. Sempre dado a lutas corporais, há alguma lealdade que ele sente dever a Ulciscor, mas também há raiva contra aquela Republica que lhe tomou tudo e que parece massacrar cada vez mais as pessoas que estão abaixo umas das outras. Em um lugar onde não se pode confiar em ninguém, Vis é alçado ao posto de herói acreditam que ele matou Melior, o lider dos Anguis, e passa a ser chamado de Catenicus. Somente na segunda parte da trama, por volta da página 300, que Vis chega a Academia para ficar e é ai que vamos ver mais e mais de uma trama que envolve muita politicagem, muita gente se traindo, mas também com cenas longas de ação, amostrar reais do que a Vontade é capaz de fazer é como transforma um homem comum em mais do que um somente um humano. A pressão em cima de Vis se intensifica, e por mais que em alguns momentos, o leitor possa pensar que a história não está se movendo, ela está sim, talvez só não velocidade que as fantasias (principalmente romantasias) se movem, então tenha paciência porque o que se está sendo cozinhado aqui vale a pena no final.
E olha, não vou nem mencionar o final desse livro porque entre todas as coisas mais loucas que sonhei, definitivamente não foi o que aconteceu. Não vou falar nada além disso porque não quero correr o risco de dar dicas, mas ficou claro porque houve um hiatus de 2 anos e meio entre este livro e o segundo da série, “The Strength of the few” (“A Força de poucos”, em tradução livre), lançado somente agora em novembro de 2025, porque toda pesquisa e construção desse mundo é, sem sombras de dúvidas, gigantesca. Com “A vontade de muitos”, a fantasia mostra a sua capacidade de fazer paralelos de nossa sociedade e o que pode vir acontecer, e que, talvez, não seja tão fantasia assim porque podemos não voltar a uma estrutura de sociedade Romana, mas podemos roubar a Vontade uns dos outros, mesmo sem magia. Talvez ainda haja tempo para pararmos isso e nos tornamos melhores, então comece você lendo esta obra – você não vai se arrepender. Prometo.
Agradecimentos a LC Agência que nos enviou o eBook para uma resenha honesta, não sendo publicidade.
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