05.04


“Uma família feliz”
Raphael Montes
Arte de Capa: Rafael Nobre
Companhia das Letras – 2024 – 352 páginas

Eva tem a vida perfeita. Seu marido é um jovem advogado em ascensão. Suas filhas gêmeas são lindas, inteligentes e saudáveis. Seu trabalho, a arte reborn, é um sucesso na internet. À sua volta, tudo está à mão: o Blue Paradise, condomínio fechado de classe média-alta na Barra da Tijuca, oferece todo tipo de serviço para que ela não precise sair do conforto de seu lar. Eva tem a vida perfeita ― até descobrir que está grávida e seu mundo virar de cabeça para baixo.

Conhecido por seus suspenses de tirar o fôlego, com mais de 500 mil exemplares vendidos, Raphael Montes inova ao começar este thriller psicológico pelo último capítulo. Assim, como uma bomba-relógio prestes a detonar, acompanhamos os caminhos surpreendentes e as tensões que levam essa família feliz a um final avassalador.

Algumas histórias são intensas demais para não serem contadas e precisam sair para o mundo, se tornarem tinta no papel, tudo para serem lidas. E algumas são tão intensas, mas tão intensas, que alguns podem entender que são só isso, ficção – ou preferem acreditar. Mas sou viciada em crimes reais (há anos) e posso dizer que por mais chocante que a conclusão final de “Uma família feliz” seja, existem casos como o que acontece no livro. Claro que não falarei o que, mas quero deixar isso registrado logo de começo justamente pela escolha narrativa que temos aqui.

Este livro te dá um choque e te mantém com expectativas de entender o que aconteceu na vida de Eva para levá-la ao ato extremo narrado nas primeiras páginas, já como a trama abre com o trigésimo capítulo, o final. Sim, aqui começamos pelo final, e todos 29 capítulos anteriores vem em ordem crescente normal na sequência, construindo a trama da personagem com sua família, que era feliz – ou parecia ser. Começar pelo capítulo final foi uma jogada bastante ousada, que prende o leitor para tentar juntar as peças e entender o que aconteceu, mas também lança uma pergunta: o livro vai mesmo terminar assim?

Nunca pensei que chegaria a este momento. E aqui estou. Destruída, acabada, morta por dentro. Enxugo os olhos e volto ao que estava fazendo como uma funcionária diligente que não pensa, não hesita; só executa. Finco a pá na terra e vou abrindo a cova. Apesar de demandar grande esforço, tudo ainda parece um sonho. Na verdade, um pesadelo. Irreal, intangível, como se acontecesse em outro tempo ou com outra pessoa. A história absurda e violenta que se escuta da amiga de uma amiga. É cruel que uma coisa dessas aconteça de verdade. Mais cruel ainda que aconteça comigo. Enquanto revolvo a terra, repasso cada instante, cada escolha, cada migalha de culpa e omissão que me trouxe até aqui. É um caminho repleto de buracos e zonas cinzentas. Não posso ficar sofrendo. Não tem mais volta. Aconteceu.

A partir do segundo capítulo, que, na verdade, é o primeiro, somos realmente apresentados a Eva, sem o desespero e a desilusão que aparece tomar conta da personagem no final – ou começo, depende de como você vê. Feliz, casada com Vicente, a vida da mulher beira a perfeição: filhas gêmeas prestes a completarem 10 anos, Angela e Sara, um marido esperando receber uma promoção no escritório que trabalha como advogado, querida e bem relacionada no condomínio de prédios de alto padrão Blue Paradise, a vida de Eva parece metodicamente no lugar, cada pedacinho encaixado à perfeição, exatamente como os bebês reborn que produz. Eva é uma chamada “cegonha”, nome dado a quem se dedica a produzir estes bebês ultra realísticos. Antes na faculdade de educação física, Eva agora poderia se dar ao privilégio de trabalhar em casa, no apartamento no qual mora com sua família.

Mas talvez por trás toda essa perfeição, as coisas não sejam exatamente assim. Talvez Vicente seja exigente demais. Talvez suas filhas precisem de mais atenção do que ela esteja conseguindo dar – até porque Sara tem uma doença autoimune. Talvez ela não esteja pronta pra ser mãe. Talvez as amigas que pensa que tem não sejam tão amigas assim. Talvez ela não tenha superado a infância traumatizante. Talvez essas hipóteses não sejam tão hipóteses assim e desencadeia um processo de quebra da mulher quando se descobrir grávida de um menino, exatamente como o marido tanto quer. Talvez a perfeição esteja sendo cara demais. Mas talvez… não.

E agora aconteceu. Qual é o problema? Chafurdo meu vocabulário mental, e a palavra mais próxima que consigo para definir o que estou sentindo é medo. Parece ridículo, absurdo. Como posso sentir medo de um futuro maravilhoso, cheio de possibilidades? Recuso a definição e encontro outra: paralisia emocional. É isso. Diante de uma coisa tão deslumbrante e esperada, não sei como reagir. E essa falta de reação me apavora.
Para variar, estou problematizando quando deveria apenas me deixar inundar por sentimentos bons. Nós temos uma rotina tranquila, uma vida financeira estável, moramos em um condomínio com toda a infraestrutura, com uma vizinhança amiga e atenciosa. Nossa vida é perfeita. Somos uma família feliz. E é assim que eu devo me sentir: feliz.9

Eu sei, parece tudo confuso, mas é justamente o que o autor faz aqui: quando a vida perfeita de Eva começa a ruir, o leitor fica na dúvida se algo está realmente acontecendo ou se ela está sucumbindo aos traumas de infância. Filha de uma psicóloga que ainda criança e adolescente enfrentou o temperamento da mãe que não soube lidar com a separação e despejou frustrações, dor e ressentimento na filha, causando traumas que a acompanham. Com a mãe já morta durante a narrativa, Eva tem que vender o único bem que a mãe lhe deixou: a casa no bairro Cachambi, Rio de Janeiro, palco da trama. Sendo pressionada por Vicente para fazer logo a venda, já que com a chegada do bebê e o gasto excessivo que a família tem para manter o padrão de vida, o dinheiro a mais seria de extrema ajuda, Eva vai até a casa, despertando lembranças que não gostaria.

A medida que a gravidez de Eva avança, mais ela parece estar no limite. Não sou mãe, mas tudo que a personagem passa – enjoos, dúvidas, mudanças no corpo, medo da responsabilidade – parecem reais demais e compreensíveis. Eva tenta manter tudo no lugar e até mesmo o parto é permeada pelo senso de perfeição que Vicente quer impor, feita por ele. É absurdo ler essa parte e o que é pior é imaginar que existem relacionamentos por aí assim. Superando o parto, de volta ao apartamento, sozinha com o bebê recém-nascido, Lucas, Eva começa a ter uma espécie de apagões de tão exausta, já como Vicente não tem condições de arcar com uma funcionária para ir todos os dias e a família conta somente a ajuda de uma diarista. Em um desses apagões, Lucas aparece machucado. A partir daí, Eva e o leitor são jogados em uma teia de confusão e teorias que só se explica no final e depois de ler os outros 29 capítulos.

Apesar de idênticas, as gêmeas não poderiam ser mais diferentes. Talvez por causa da doença, Sara parece mais madura — guarda os pensamentos para si, tem uma tristeza insondável, um mistério. É racional, séria, mas ao mesmo tempo frágil e carinhosa. Exige cuidados, gosta de carinho, mas é avessa ao contato físico. Já Angela é intensa, selvagem, física; uma criança em todos os sentidos: fala o que pensa, faz o que tem vontade, sem medir as consequências (costuma chegar em casa com os joelhos ralados, as mãos sujas), e tem seu mundinho imaginário, onde os objetos ganham vida e possuem nome próprio. Angela se vira como pode, se acostumou desde cedo a não ter toda a atenção. É falante, barulhenta, gosta de aparecer, como que para lembrar: ei, ela é a doente, mas eu também estou aqui!

Há algo em Eva que é tão vulnerável, tão carente, tão ansiosa para agradar o marido que faz com que o leitor deseje cuidar daquela mulher, mesmo quando o espiral de loucura continua a acontecer e ela é acusada de algo hediondo demais – quero dizer, não tanto quanto o que está fazendo no último capítulo, e, por isso, indico cautela na leitura dessa trama que pode conter gatilhos para violência psicológica e física, mas acredito que uma altura dessas, todos já entenderam que a trama é realmente adulta. Se você gosta de um bom suspense psicológico, pode se jogar sem a menor preocupação.

Por falar em livros, “Uma família feliz” foi publicado dia 13/03 e o filme com Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini como o casal principal chegou ao cinema ontem, 04/04. E foi procurando sobre que li que a história foi originalmente escrita como um roteiro, se desenvolvendo para também um livro. Dirigido por José Eduardo Belmonte e com roteiro do próprio Raphael Montes, é definitivamente um filme que está na minha lista para assistir, até porque quero ver as reviravoltas que a trama apresenta na telona.

Sei que a chave está guardada na primeira gaveta da cozinha, mas não tenho a menor vontade de dizer isso a ela. Não quero ver meu quarto depois de tantos anos. Tenho medo do que posso encontrar lá dentro, tenho medo das lembranças que meu passado pode trazer. Estou tão inebriada que até me esqueço de Lucas, que dorme no carrinho. Espero que meu filho guarde boas memórias de mim. Que pense com amor em tudo de bom que eu fizer para ele. Espero que nossa relação evolua, que não seja como é hoje, baseada em choro, apreensão e no medo de que ele acorde a qualquer momento. Para mim, cada canto dessa casa traz uma memória que eu preferia esquecer. É um lugar de dor e violência.

Quem já leu algo de Raphael sabe que as tramas dele são como socos na cara de Regina George: é ótimo tomar, então enquanto fui lendo, já estava esperando a reviravolta que viria. O problema é que enquanto a narrativa vai se desenvolvendo, primeiro Eva se questiona se ela está louca e se sabotando, deixando o leitor com essa dúvida (como já mencionei acima), mas depois Eva começa a duvidar disso e começa a questionar se há alguém a sabotando. E foi aí que entendi que a personagem estava tendo a mesma ideia que eu, o que me fez ter certeza que não era o que estava suspeitando e me fez tentar achar diversas outras pistas na trama para mais teorias. Se eu estava certa ou errada, deixo só pra quem ler o livro e entender o que quis falar.

Raphael Montes é capaz de personagens tão complexos e com todos tipos de traumas que posso imaginar. Já tomei todo tipo de susto e soco enquanto li seus livros, e não foi diferente aqui. Em uma narrativa com todos os tipos de temas sensíveis possíveis, desde racismo à relacionamento tóxicos, mães com problemas psicológicos e a futilidade de determinadas camadas sociais, “Uma família feliz” é mais uma pequena obra prima do autor, mostrando que a grama do próximo sempre parece mais verde do que realmente é, e nem sempre uma família feliz é realmente feliz. Ou sequer uma família.

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