15.01


“A sociedade da neve”
Pablo Vierci
Tradução: Bernardo Ajzenberg
Arte de capa: Flavia Castanheira
Companhia das Letras – 2023 – 416 páginas

Edição especial de cinquenta anos, A sociedade da neve conta a história dos sobreviventes da tragédia dos Andes, revelando como dezesseis jovens enfrentaram 72 dias num dos ambientes mais inóspitos do planeta depois da queda do avião em que viajavam. A história foi adaptada para filme, disponível na Netflix.

Em outubro de 1972, um avião fretado da Força Aérea do Uruguai que rumava para o Chile se choca contra uma montanha nos Andes. Das 45 pessoas a bordo – a maioria fazia parte de um time de rúgbi amador – 29 sobrevivem ao impacto, mas apenas dezesseis serão resgatadas, depois de improváveis 72 dias.

Durante esse longuíssimo período, os sobreviventes ficam cercados por rocha e gelo, sem roupas apropriadas, sob temperaturas de até trinta graus negativos, abrigados no que restara da fuselagem depois da colisão. Famintos, lançam mão de um recurso extremo: alimentar-se dos corpos dos amigos mortos.

Dez dias depois do acidente, a primeira notícia que ouvem do mundo exterior por um radinho recém-consertado é que as buscas pelo avião foram abandonadas. Como se não bastasse, uma avalanche soterra a fuselagem partida. Os que conseguem sobreviver ficam enterrados vivos durante três dias. Sem outra alternativa, decidem sair de lá por si mesmos. Mas para isso será preciso escalar o paredão de gelo que os separa de um horizonte desconhecido – que pode ser a salvação ou a desesperança final.

Nos últimos dias, fomos todos invadidos por notícias ou menções ao filme “A Sociedade da Neve“. Havia decidido não ver o filme porque conhecia a história – vi o filme “Vivos“, quando criança e, sinceramente, havia ficado com aquela história por dias na minha cabeça de tal forma que era o motivo pelo qual não queria ver o novo filme.

A história era baseada em um caso real: em 1972, um time Uruguaiano de Rúgbi fretou um avião para levar a equipe até o Chile, mas, no meio do caminho, o avião com 45 passageiros caiu no meio das Cordilheiras dos Andes, deixando um grupo de sobreviventes no meio do frio excruciante por 72 dias, mas, o “pior”, era que haviam desistido das expedições de busca pelos passageiros e 2 sobreviventes tiveram de fazer uma caminhada de dias, literalmente escalando montanhas congeladas, para tentar conseguirem ajuda. E eles conseguiram. Chegaram até uma fazenda, pediram ajuda e um ainda voltou para resgatar todos outros. Era um milagre, muitos afirmaram por um tempo, afinal, como aquelas pessoas sobreviveram nas montanhas tantos dias? A resposta era brutal: usando os corpos dos que morreram ao longo daqueles dias. Dos 45 que saíram no voo, apenas 16 voltaram. Eu não queria rever essa história, nem ler o livro que inspirou o novo filme. Mas ainda bem que quebrei minha própria resolução e li e assisti – porque é, definitivamente, uma história bem maior do que o fato de os que sobreviveram se alimentaria dos corpos dos mortos: é uma história de sobrevivência, de fé, de resiliência e, principalmente, de força. Muita força.

Gustavo Zerbino teve uma premonição que azedou o entusiasmo jovial com que sua viagem vinha transcorrendo até então. Desde as sete da manhã do dia anterior, 12 de outubro, até a escala imprevista em Mendoza, nos contrafortes da cordilheira argentina, ele conviveu com o pressentimento de uma calamidade que o afetava intimamente. Minutos antes de embarcar no aeroporto de El Plumerillo, nos arredores de Mendoza, disse a Esther, mulher do dr. Francisco Nicola, o médico da equipe de rúgbi, que não queria embarcar porque tinha um pressentimento de que o avião iria cair. A intenção de Gustavo era que Esther o acalmasse, razão pela qual ficou surpreso com a resposta: ao pé da escada do aparelho ela disse que estava pensando exatamente a mesma coisa.

Comecei lendo o livro porque bem, vocês sabem, bookstan, e fiquei surpresa com a estrutura narrativa. Escrito por Pablo Vierci, jornalista e escritor Uruguaio, o livro contra com uma narração começando com os fatos acontecidos antes do fatídico voo pela equipe de rúgbi Old Christians em seus capítulos ímpares, enquanto nos capítulos pares temos o testemunho dos 16 sobreviventes, uma conversa com o autor transformada em uma espécie de narração de todos fatos com a visão de quem realmente a viveu.

Não há necessidade de tensão na parte do testemunho dos sobreviventes sobre os desfechos e muito menos sobre as privações que o grupo passa porque mesmo sem saber os detalhes (ou lembrar deles, no meu caso) todos entendemos onde aquela jornada os levará. Mas é claro que ler o ponto de vista dos sobreviventes sobre tudo que enfrentaram, desde o acidente e seus relacionamentos com os que faleceram logo na queda (foram 29 sobreviventes e 16 mortos) ao entender a forma como se organizaram na neve para tentarem vislumbrar uma chance de sobrevivência, é algo que muda a forma como vemos tudo que aconteceu. Era quase uma sociedade a parte, com funções específicas, e que foi destroçada por uma grande avalanche quando já estavam lá, ilhados no lugar chamado Vale de Las Lagrimas, que os enterrou por quase 4 dias inteiro na casca do avião, embaixo da neve, levando mais 8 vidas de uma vez, no dia 29 de outubro de 1972. Parece que as provações daquele grupo nunca iria acabar.

Nando escreveu uma mensagem no verso da mesma folha, com o mesmo lápis: “Venho de um avião que caiu nas montanhas. Sou uruguaio. Estamos andando há dez dias. Tenho um amigo ferido lá em cima. No avião existem mais catorze pessoas feridas. Temos que sair rápido daqui e não sabemos como. Não temos comida. Estamos fracos. Quando vão nos pegar lá em cima? Por favor, não conseguimos nem andar. Onde estamos?”. Aproximou-se da margem e atirou a pedra com toda a força que tinha. O homem pegou o bilhete, leu e fez alguns sinais com as mãos para acalmá-lo, como que dizendo “já entendi”. Antes de partir, foi até o cavalo, pegou alguns pães e um queijo, envolveu-os com um lenço junto com uma pedra e jogou tudo mais uma vez por cima do rio San José, um afluente do rio Azufre.

A parte narrativa vai de acordo com os fatos justamente porque o escritor teve acesso irrestrito aos sobreviventes, que lhe deram uma total figura do que enfrentaram e como sobreviveram. Alternando os pontos com um narrador onipresente nesta parte, vamos sempre pulando de momentos e até mesmo reações daquelas pessoas que encaram a morte e aprendem mais uns sobre os outros – fica claro que alguns estão no voo fretado porque seria mais barato viajar assim do que em voo de carreira normal, sendo alguns são amigos e até mesmo mãe e irmã de um jogador do time estavam no avião. O momento que o avião cai é desesperador ao ponto do leitor ficar tenso, mesmo sabendo que alguns iriam sobreviver – e outros não. A parte final, o capítulo 33, se encerra com a volta dos apenas 16 sobreviventes a sua vida e transforma o final em uma orquestra agridoce, com a felicidade de estarem de volta e a tristeza de verem as famílias de seus amigos sofrendo pela morte deles, encerrando a parte narrativa de um jeito tão tocante que leva qualquer leitor às lágrimas.

Já a parte que vemos o ponto de vista dos sobreviventes, começa no capítulo 2 com o testemunho de Roberto Canessa e termina no capítulo 32 com Nando Parrado, os dois que fizeram todo o percurso por 10 dias para encontrar ajuda e pedir por resgate. E confesso que me surpreendi em como essas partes são de uma fé arrebatadora: a forma como alguns encontraram de lidar com o que fizeram e o motivo pelo qual aconteceu tudo que aconteceu é impressionante, além de obviamente ser tocante ler a visão deles ao encontrarem novamente suas famílias, namoradas ou ainda como passaram a viver suas vidas. Não há como falar ou escrever o peso emocional que essas pessoas enfrentaram e como o autor conseguiu transcrever as dores que ouviu e viu nelas. É definitivamente um dos livros mais densos e emocionantes que já li na vida. Esta edição é especial de 50 anos – sim, em 2022 completaram 50 anos desse acidente – e conta com fotos tiradas no dia do embarque, fotos no local de resgate e até mesmo uma carta que iniciou as conversas entre o autor e o diretor J.A. Bayona, que se tornou o diretor do filme que falarei a seguir.

Eles estão do outro lado — afirmou.
Impossível, aí é a Argentina, perto do Sosneado, é do outro lado da cordilheira — respondeu o sargento, com um gesto nervoso.
Eles estão do outro lado — reafirmou Roberto.
Vocês não podem ter atravessado os Andes, vocês não sabem ler mapas, eles devem estar mais perto — voltou a insistir o chefe do pelotão.
Eles estão lá — repetiu Nando.

A carta mostra o diretor impressionado com o que leu na edição original do livro, e tão impressionado que procurou o autor do livro em 2011. O resto, como vocês podem imaginar, é história: Bayona se envolveu tanto na produção do filme que também assina o roteiro, baseado no livro. Como já falei, já tinha assistido uma adaptação desta história quando criança, mas agora, talvez tomada pelas emoções que o livro me causou, talvez por ser uma adaptação bastante fiel dos acontecimentos como o livro mostra, me emocionei em diversos momentos. A cena da queda do avião é, sem sombras de dúvidas, uma das melhores cenas do tipo que já assisti, sem contar que o elenco consegue passar para quem assiste todo peso e dor que aqueles jovens estão passando – mas há adultos no avião também. Com algumas ressalvas na história em pontos específicos (o piloto do avião, a quantidade de viagens para resgatar os sobreviventes e outros pontos aqui e ali), o filme é realmente uma adaptação potente e consciente da história real que traz, que é tão real que parece irreal.

Temos o elenco comandado por Enzo Vogrincic interpretando Numa Tucatti, um dos principais jovens dentro do avião que foi capaz de lutar pela sobrevivência com uma chama feroz, incentivando e ajudando todos como podia. Destaco ainda Agustín Pardella como Nando e Matias Recalt como Robert, todos se entregando muito aos seus personagens. O filme falha em explicar aquelas outras pessoas no avião logo no começo, mas se você procura um filme com coração e potencial para te fazer sentir, sofrer e torcer por pessoas que fizeram o imaginável para sobreviverem e saíram de uma situação surreal, a dica está dada: o filme está na Netflix e você pode ver o trailer abaixo:

Se você se questionar sobre o motivo do título tanto só livro quanto de sua adaptação, respondo que isso fica claro quando você pensa sobre: 29 pessoas sobreviveram, no meio de uma geleira, a um acidente de avião, que se partiu ao bater no topo de uma montanha nos Andes. Essas pessoas estavam quebradas, assustadas, feridas, e começaram a se fechar em uma sociedade com suas regras e papéis. Você pode até questionar as decisões que todos tomaram para conseguirem sobreviverem, você não pode questionar a força que tiveram. E isso é algo que somente os participantes da sociedade da neve foram capazes ter.

Para comprar “A sociedade da neve”, basta clicar no nome da livraria:

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