08.12


“O labirinto da morte”
Philip K. Dick
Tradução: Braulio Tavares
Suma – 2023 – 273 páginas

Publicado originalmente em 1970, O labirinto da morte é considerado um dos romances mais sombrios de Philip K. Dick, um dos maiores escritores da ficção científica mundial.

Como parte de um projeto de colonização, catorze desconhecidos chegam ao planeta Delmak-O em uma viagem só de ida.

Vasto e amplamente inexplorado, Delmak-O é um território perigoso, ocupado por seres gelatinosos em formato de cubo que dão conselhos enigmáticos por meio de anagramas. É possível contatar divindades por uma série de amplificadores e transmissores de oração — mas é provável que elas não fiquem felizes com o contato. À distância, os colonos são atraídos por um misterioso edifício, mas, ao se aproximar dele, cada pessoa enxerga na fachada um lema diferente.

Confinados em um planeta cuja própria atmosfera parece induzir a paranoia, os recém-chegados descobrirão que, em Delmak-O, Deus é um ser que está ausente ou disposto a destruir suas próprias criações.

Falar sobre Philip K. Dick é falar um tanto quanto sobre quem sou e sobre a minha personalidade e gosto em filmes e livros. Quando ainda criança, era apaixonada por ficção científica e vi quase todos filmes disponíveis e imagináveis, e claro que “Alien, o 8° passageiro”, foi um deles. Resumo: fiquei tão apaixonada naquela história que comecei a assistir tudo feito pelo diretor do filme, um certo Ridley Scott, e foi assim que cheguei até um filme chamado “Blade Runner”. Digo com toda certeza do mundo que aquela história sobre replicantes – androides que se parecem tão humanos que são capazes de se passarem por estes – e que só querem terem uma chance de liberdade e escolha me conquistou tanto que pesquisei sobre. E foi aí que descobri que o filme era baseado em um livro de um autor chamado Philip K. Dick. Como boa garota nerd, fui na biblioteca e, infelizmente, não tive acesso aos livros dele a época.

Anos se passaram mas nunca esqueci o nome do autor, e quando entrei na faculdade, comecei a ler tudo que pude e foi escrito por ele. Minha cabeça explodia a cada livro lido porque a ficção científica das tramas me apresentava uma humanidade que talvez não merecesse nada do que tinha alcançado. Por isso que acredito que muito de quem sou foi influenciado por filmes de ficção científica e terror, além de escritores como Dick: a humanidade é sua maior inimiga e seu destino está fadado ao colapso moral, se não há beira da extinção. Sei que posso parece sombria e pessimista demais, mas aqueles que assistiram “Blade Runner” ou leram “Androides sonham com Ovelhas elétricas?”, livro que inspira o filme, entenderão meu ponto. E se você não entendeu, fica comigo nessa resenha que você irá.

O trabalho, como sempre, o deixava entediado. Então na semana anterior ele tinha ido até o transmissor da espaçonave e ligado uma série de condutos aos eletrodos permanentes afixados à sua glândula pineal. Esses condutos levaram sua prece até o transmissor, e dali a prece se espalhou pela rede de retransmissão mais próxima. Durante aqueles dias, a prece havia ecoado por toda a galáxia, até encerrar seu trajeto — esperava ele — em um dos mundos-de-deus.

Não havia lido “O Labirinto da morte”, mas claro que saiba que agora iria lê-lo porque estava ganhando uma edição capa dura por minha Editora favorita da vida – a Suma. Como a própria sinopse deixa claro, este romance é sombrio, mas não sombrio do tipo slasher e sim do tipo te fazer pensar (e muito): temos um livro quase induzindo o leitor a filosofar sobre poderes celestiais e quem (ou o que) temos acima de nós, a humanidade. Espalhados pelo universo, a raça humana está acostumada a colonizar planetas, e é assim que um grupo bastante diversos de pessoas é enviado para uma pequena colônia em um planeta chamado Delmak-O, justamente um planeta tão distante que parece impossível ter algum tipo de vida inteligente, apesar de ninguém saber o que esperava quando chegaram ao planeta. Já deixo claro que não indico este livro para os que não gostam de relacionar filosofia à ficção científica.

Ao que parece indicar, temos dois protagonistas, os quais seguimos logo no começo da trama: Ben Tallchief e Seth Morley. Sinceramente, não há muita empatia por nenhum dos dois protagonistas a princípio. Os dois parecem ter por propósito subiram dentro da sociedade em que estão, e um deles enviou uma prece no intrincado modo de se pedir aos poderes superiores por algo – basicamente como se pudéssemos enviar nossos pensamentos, preces e pedidos diretamente à uma divindade cósmica através de uma conexão. O que parece ser o começo de um presente dado, vai se tornando em algo cada vez mais tenebroso.

Olhou para o planeta lá embaixo, admirado com as cores. Nuvens, ele concluiu. Uma atmosfera natural. Bem, isso responde a uma das minhas muitas perguntas. Ele se sentia relaxado e confiante. E então pensou na pergunta seguinte: será que este é um mundo-de-deus? E essa questão refreou seu entusiasmo.

Pausa para mencionar algo de extrema importância: todas aquelas pessoas que foram para Delmak-O, foram em um tipo de nave chamada Nasal: pequena, barata e tão de baixo custo que mal comportava combustível suficiente, sendo naves de apenas uma única viagem – sim, isso mesmo que você leu. A pessoa escolhia e confiava ir para aquele planeta em uma nave que não podia tirá-los de lá. Claro que essa não era nem mesmo remotamente uma boa ideia, o que fica claro com a sensação claustrofóbica e paranoica que o grupo já apresenta ter antes mesmo da chegada de Ben e Seth, que são os últimos a chegarem, completando o grupo. E sim, não estou falando especificamente sobre os personagens porque é claro e óbvio que o enredo traz surpresas e reviravoltas sobre eles.

Obviamente que falando assim, fica claro para você que me lê que não podemos (e muito menos devemos) confiar nos personagens da trama. Se há uma dificuldade na narrativa, é justamente torcer por alguns deles, já como a morte parece inevitável e está no caminho do grupo que começa a tentar, de todas as formas, entrar em contato com a estação supervisora porque claro que perdem contato. Então, colocando em pontos: estão presos em um planeta sem possuírem naves que os tirem de lá, sem instruções sobre o que fazer no lugar, confinados com entre grupo de desconhecidos. A morte começa a se tornar mais e mais presente e nem mesmo na própria estação o grupo está a salvo. Fica claro que tudo começa a deteriorar com mais intensidade a medida que todos se unem para descobrir o que é um prédio estranho que viam naquele lugar isolado e que acreditam não saber por quem o tal prédio foi construído.

O ar cheirava mal, levemente mal, como se houvesse uma indústria processadora de dejetos a todo vapor nas proximidades. Mas dentro de um ou dois dias já estaria se acostumando, disse ele a si mesmo.
Há alguma coisa estranha nessas pessoas, pensou. O que será? Parecem tão… Ele buscou a palavra certa. Tão desmedidamente inteligentes. Sim, era isso. Uma espécie de prodígios, todos sempre prontos a emitir uma opinião. E então pensou: acho que estão nervosos. Deve ser isto: estão na mesma que eu: não sabem por que estão aqui. Mas isso também não explicava tudo. Ele então desistiu e voltou sua atenção para o ambiente ao redor, as pomposas árvores com folhas de couro verde, o céu nublado, aquelas espécies de urtigas crescendo em torno dos seus pés.

Preciso também mencionar outra coisa que foi a principal fonte dos meus pensamentos nesta obra: a presença de uma divindade – ou Deus ou qualquer outro nome que você queira e saiba chamar por. Já estava familiarizada com o conceito de que há um poder superior neste universo, fato que vai se tornando mais e mais presente e duvidoso a medida que o enredo vai se desenrolando, fazendo os personagens pensarem e se questionarem. A presença divina aqui é de conhecimento de todos, é um ato científico, e, como já mencionei acima, suas preces (ou como você deseja chamar também) são enviados basicamente por um programa, como uma mensagem de texto – ou um bom e velho e-mail. Não importa a sua crença, isso não altera o fato de que dentro deste livro, a fé está interligada a ciência, e isso, pra mim, beira o assustador. Só que em uma trama de ficção científica se torna claro que é uma possibilidade, já como o homem tem a necessidade de racionalizar e explicar tudo ao seu redor, inclusive as coisas as quais não requerem uma explicação.

Como já mencionei acima, não indico este livro para todas as pessoas. Se você ama ficção científica e um livro que te fará pensar sobre a fragilidade da vida envolto em um clima de paranoia, escancarando como o ser humano é pueril e destinado a não confiar em seus próprios instintos ou nos outros, digo para ler este livro sem o menor receio. Seja como for, espero que alguém aí fora que já conhece (ou está conhecendo agora) o nome de Philip K. Dick se sinta intrigado a ponto de ler suas obras – morto em1982, PKD já deixou gravado seu nome na história com suas tramas filosóficas, políticas e repletas de momentos que ficam gravados na memória do leitor, com um labirinto de morte ou não.

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