07.11


“Uma tristeza infinita”
Antônio Xerxenesky
Arte de capa: Bloco Gráfico
Companhia das Letras – 2021 – 256 páginas

Nicolas, um jovem psiquiatra francês, é convidado para trabalhar na Suíça logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Junto da esposa Anna, ele se muda para um pequeno vilarejo, próximo ao hospital psiquiátrico onde vai trabalhar. O lugar, conhecido por seus métodos humanizados de tratamento, recebe internos de toda a Europa.

Resistindo a prescrever tratamentos como o eletrochoque, Nicolas conversa com seus pacientes até que algo seja descoberto ― tanto no inconsciente do doente quanto no do próprio médico. Assim, diversas feridas de guerra vêm à tona, em um jogo delicado que mistura confiança e loucura.

Tendo como pano de fundo o contexto de desenvolvimento das primeiras drogas contra a depressão e outras doenças psíquicas, Antônio Xerxenesky constrói um romance tocante sobre os traumas, o passado e a possibilidade de ser feliz apesar do sofrimento.

Existem livros capazes de te fazer prender a respiração de tanto que você sente quando são lidos, e “Uma tristeza infinita” foi um desses para mim. Neste romance repleto de sentimentos no qual a saúde mental está no centro, temos Nicolas, um psiquiatra em contato com sua humanidade – e a ponto de tentar ressignificar o termo “clínica” para “centro”. Indo trabalhar na Suíça logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a jornada do personagem começa a se tornar tão intensa que ele irá revisitar suas próprias crenças sobre tratamentos e quem ele é.

Sem gostar ou querer aplicar qualquer tipo de tratamento de eletrochoque, Nicolas acreditava no poder da fala como cura, já como fora depois de falar por mais de uma hora (em uma fala entrecortada de gritos e prantos sobre suas próprias dores) ao Dr. Sternstein, que conseguiu fazer sua vida voltar ao caminho natural. Ainda estudante de medicina nesta época, foi aí que se decidiu especializar e se entregar a psiquiatria. Durante o exercício da sua profissão, mantinha contato com outros colegas de outros país, que seguiam as teorias de Sigmund Freud.

No sétimo dia, Nicola organizou sua agenda: colocou L. como parte da ronda da tarde. Na opinião do diretor, Nicolas já deveria ter recorrido ao eletrochoque neste caso, mas de todas as terapias oferecidas na clinica, a de choque era a que menos lhe agradava, por causa do pavor expresso no rosto dos pacientes durante o tratamento, que se afigurava em caretas horripilantes, disformes, e pelos danos conhecidos à memória. Nicolas pediu mais uns dias ao diretor.

Nicolas tinha o coração no lugar certo e realmente estava tentando fazer o melhor que podia em uma época que ainda não se falava sobre saúde mental como conhecemos hoje em dia. Casado com Anna, uma jornalista, não pensou que a esposa podia não gostar de se mudar para um pequeno vilarejo para onde iriam. Ao contrário do marido, Anna, que sentia-se presa neste vilarejo longe de tudo, decide se inscrever para um emprego em Genebra e logo recebe a notícia de que havia sido aprovada para um estagio probatório. Ao passo que o marido ia trabalhando com emoções e tentando ajudar seus pacientes, Anna decide abraçar seu trabalho para abafar aquela sensação conflitante de estar morando longe de tudo. Nicolas amava a Suíça por sua quietude, por suas montanhas, pelo sol que as entrecortavam e banhava a grama, e principalmente pela sensação de paz, que, para quem viveu no período de guerra, com tantas incertezas e medo, era reconfortante, o que o levou a começar a associar a sensação de ansiedade com melancolia.

O psiquiatra mantinha a convivência diária com seus pacientes de uma forma que começou a se afetar por eles, como L, Mary, o inglês Raf, Emil, personagens que carregavam cada um seu próprio sofrimento, culpa e tragédia. Mas a chegada de um médico de Harisau, transferido, fez com que se sinta vulnerável e exposto por começar a se enxergar no outro, desencadeando uma busca dentro de si mesmo sobre seus sentimentos e pensamentos. Fazendo uma retrospectiva de sua vida, se acha passivo diante dos eventos que a humanidade enfrentava a época: não tinha ido para uma guerra; não tinha doença crônica e acreditava ter a estabilidade necessária para sua situação profissional.

E, no entanto, pensou Nicolas, quando estávamos despedidos de qualquer ansiedade, a melancolia se revela. Havia uma ligação: entre a ansiedade e a melancolia? A psquiatria costuma associar as atitudes nervosas com a neurose, a histéria e a esquizofrenia, mas não com a melancolia, tão letargica e sombria. No entanto, pensou Nicolas, é como se a ansiedade fosse uma especie de camada de nuvens que ocultasse um vale profundo.

Mas a vida de Nicolas é entrecortada de acontecimentos nem tão pacíficos assim: como a família ter que fugir e mudar o sobrenome, ainda precisando queimar os documentos antigos para fugirem dos nazistas e perderem assim parte de sua própria história, e ainda todo seu relacionamento com seu pai, o qual acreditava ter se matado. Apesar de não ter certeza da causa, se foi pela segunda ou primeira guerra ou ainda por ser alcoólico, a morte o leva acreditar que sim, fora um suicídio, infelizmente uma causa de morte frequente justamente pelo contexto mundial: Desde 1897, no livro “O suicídio”, o sociólogo Francês Émile Durkheim, já constatara que o suicídio era recorrente na sociedade. Para Nicolas, a tristeza seria uma causa, o que o leva a fazer uma suposição sobre a tristeza, justamente o levando a acreditar que estamos envoltos nesta tristeza infinita, cósmica, da dimensão do universo ou do vácuo dentro do átomo.

Essas tristezas, essa melancolia, também fazia parte da vida do médico, não importando se estava no trabalho ou não. Tentava orientar seus pacientes quando o estado de depressão fosse se acumulando, indicando que os seus pacientes lembrassem de acontecimentos alegres, felizes e os mesmos iam buscar dentro de si e não encontravam justamente porque estavam perdido na sensação de tristeza infinita.

Será que sua situação era visível até a um estranho recém-chegado? Nicolas pensou que deveria responder rápido com uma frase cheia de jargões – é isso o que o que estavam tendo ali, não? Um debate técnico, intelectual, o médico de Herisau não estava psicanalisando Nicolas… Mas porque se sentia tão vulnerável e exposto? Nicolas não lutou na guerra e nunca foi diagnosticado com uma enfermidade terminal, uma doença cronica que o desgastasse de forma inexorável e, ainda assim, colapsou, viu sua sanidade se desmanchar apesar de ter se resguardado das grandes tragedias históricas e pessoais. Sobrevivera a França, ocupada, com silêncio e descrição. Estava bem, agora, funcional, mas depois da experiencia que tivera na faculdade, parecia que a sua saúde mental era frágil como uma casa de madeira carcomida construída no terreno em declive à beira das montanhas suíças.

A melancolia era como um vírus, danosa, se instalava e deixava tudo sem cor. Com o tempo, o próprio Nicolas passou a não ter essas referências alegres, ficando preso dentro do seu mundo interior vivendo uma profunda solidão, sem força e sem ânimo diante dos acontecimentos, culminando com a morte de um paciente que termina de lhe tirar quase toda força – a partir deste ponto, tudo piora e passa a se entregar aquela sensação de impotência, apatia e desolação. A carga emocional vivenciada por Nicolas é intensa e os remédios ajudavam o corpo físico a desacelerar e conviver com a realidade sem desvanecer.

Ler sobre saúde mental é um exercício que tento me comprometer com frequência, por mais doloroso que possa ser para alguém que lida com a ansiedade e se reconhece em diversas passagens, e foi isso que aconteceu aqui comigo. Este livro está pronto para quem deseja viajar dentro do mundo íntimo do ser humano, diante dos vários caminhos que a vida apresenta, na particularidade de cada individuo, seja através da tristeza, melancolia ou um suposto sentido da vida que muitos ainda procuram.

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