03.11


“Parem os relógios”
Kristan Higgins
Tradução: Alexandre Boide
Paralela – 2023 – 416 páginas

Joshua e Lauren são um casal perfeito. Jovens, recém-casados e loucamente apaixonados, eles acreditam que não poderiam ser mais felizes. Mas então Lauren é diagnosticada com fibrose pulmonar idiopática, uma doença incurável e terminal.

Conforme o quadro dela progride, Joshua tenta aproveitar ao máximo o tempo que lhes resta e aceitar seu futuro. Com um trabalho solitário, poucos amigos, quase nenhum familiar e uma boa dose de ansiedade social, ele não tem ideia de como encarar essa nova e indesejada fase de sua vida. Mas Lauren bolou um plano para ajudá-lo a seguir em frente e atravessar o luto, a raiva e a negação no primeiro ano sem ela: doze cartas que vão guiá-lo em uma intensa e comovente jornada para reencontrar a alegria de viver.

Nessa trajetória, Joshua vai passar por situações banais, como ir ao mercado pela primeira vez desde o velório; e não tão banais assim, como fazer um novo melhor amigo enquanto tem um colapso no provador de uma loja. Conforme sua dor cede espaço para as risadas e as novas relações, Joshua aprende a mais valiosa lição de Lauren: o caminho para a felicidade não é uma linha reta.

Já terminei a leitura de “Parem os relógios”, de Kristan Higgins, há alguns dias e confesso que não tenho o costume de demorar para escrever minhas resenhas porque gosto de estar com os sentimentos frescos e vividos da memória para tentar passar para vocês. Entretanto, sinto que fiz o certo aqui poque há muito que digerir sobre esta leitura. Sim, a trama é feita pra você chorar. Feita e escrita daquele jeitinho pra esmagar seu coração. Construída de uma forma excepcional para entregar o pior momento de todos nas páginas finais e fazer o leitor se sentir destruído, mesmo que seja em flashback. Sim, você vai chorar. Mas, de uma forma bastante bem elaborada, você também sairá deste livro com a sensação de há continuidade e de que há risadas, amor e felicidade depois de uma perda tão grande, ainda que você não esqueça aquela perda. E isto se chama vida.

Outra coisa que já quero deixar claro de começo: por mais que a premissa inicial do livro lembre (e muito) “P.S. Eu te amo”, há uma diferença central no livro (apesar de existir uma cena que parece que veio diretamente desta trama): não são somente cartas que Lauren deixa para seu marido, Joshua, quando morre. Cada carta há uma espécie de tarefa para que ele faça e comece a lutar conta o luto que está enfrentando. Por 12 meses depois de sua morte, Joshua vai honrar aquelas ações que sua esposa deixou para ele, por mais impossível que pareçam a princípio, tudo em uma jornada bastante intensa com a finalidade de tentar juntar os cacos do seu coração.

Papai,
Eu estou morrendo, meu marido vai ficar viúvo, e este foi o ano mais maravilhoso da minha vida.
Quanta surpresa, né?

Preciso explicar algo sobre Lauren, que era jovem, bonita, inteligente, engraçada e bastante gentil: o pai dela faleceu quando estava com 18 anos e, por isso, ela começou a escrever cartas endereçadas à e para lidar com seu próprio luto e saudade, então é daí que vem sua ideia de deixar estas cartas para seu marido depois de sua morte, nessa tentativa de aliviar o sofrimento de Josh. Essas cartas ajudam a construção narrativa do livro, que não segue uma cronológica linear, havendo idas e vindas temporais através das cartas com o ponto de vista da personagem, nos dado sua visão dos acontecimentos sobre sua doença e sua vida. Diagnosticada com fibrose pulmonar idiomática anos antes, uma doença incurável, Lauren sabe que não há como fugir de seu destino. Ela pode lutar (e luta) contra, pode se preparar, pode sentir raiva e pode sentir que o mundo é injusto, mas a jovem mulher também sabe que não há como fugir do diagnóstico.

Nesta parte da trama, ler sobre como o diagnóstico foi feito, vendo uma jovem mulher que tinha acabado de se casar e acreditava ter toda a vida pela frente, foi muito, muito difícil por um motivo bastante pessoal. Foi doloroso demais e, ainda ao escrever esta resenha, já preciso respirar fundo porque não consegui não me relacionar ao que estava lendo. É um luto pela vida que você sabe que perdeu e não tem a menor ideia de como ou se irá recuperar enquanto você tem que lidar com a preocupação com as pessoas que você ama e também estão sendo impactadas com o diagnóstico, que, para Lauren, é o marido Joshua, a irmã Jen, o cunhado Darius, os sobrinhos Sebastian e Octavia, a mãe Donna e ainda sua melhor amiga Sarah. Todos ficam entre o choque e o pavor de entender que eventualmente perderão alguém que amam profundamente.

Era estranho procurar pela esposa no funeral dela?
Mas era o que ele estava fazendo. Ficava olhando ao redor à procura de Lauren, esperando que ela aparecesse e dissesse o que falar para toda aquela gente, o que fazer durante a cerimônia. Onde pôr as mãos. Como retribuir os abraços.
Ela saberia. Era esse o problema. Ela sabia tudo sobre esse tipo de coisa — pessoas, por exemplo. Como lidar com o mundo. No velório da noite anterior, Lauren saberia dizer o que ele deveria falar quando os amigos dela apertassem sua mão ou o abraçassem, deixando-o desconfortável, tenso e suado. Um problema clássico de quem pertencia ao espectro. Ele não gostava de aglomerações. Não queria abraçar ninguém além de sua mulher. Que estava morta.

Como já mencionei, a trama não segue a ordem cronológica dos fatos, indo e vindo no passado com um determinado dia sendo o dia chave – acho que todos entendem o que acontece neste dia. Alternando o ponto de vista de Lauren nestas cartas e o ponto de vista de Josh recebendo as cartas pelas mãos de Sarah, vemos e entendemos que a dor dele é grande demais e que o amor que sentia por Lauren era realmente imenso. Jovem brilhante, com um emprego que lhe permite trabalhar em casa e se focar em tentar descobrir uma cura para a doença da esposa, Josh puxa para si uma responsabilidade insana, mas que faz todo sentido porque ele não aceita perder Lauren. Vemos a raiva, a frustração, a dor, a falta de vontade de lidar com outras pessoas, tudo misturado em um processo que vai sendo construído lentamente. Mas Josh também traz representatividade nele, já como ele pertence ao espectro autista e tem síndro­me de Asperger.

A primeira tarefa deixada para Josh parece muito simples: ir ao mercado fazer as compras naquele primeiro mês sozinho. Claro que algo tão trivial vai se transformar em um momento de dar de cara com a dura realidade de uma vida sem Lauren. Parece algo tão banal para quem acabou de perder uma parte de seu coração, mas também faz com que Josh entenda que o mundo continua lá fora e só está parado para ele – inclusive a melhor passagem do livro é algo bem direto e doloroso, que é quando ninguém liga para saber como ele está. Não, não é pela falta de atenção, é simplesmente a constatação de que a vida de todos está seguindo e a dele vai precisar seguir também, por mais que ele não queira. De partir o coração, mas quem já perdeu alguém sabe que este momento chega de diversas formas e é uma mistura de dor, raiva e impotência.

Tinha sido. Lauren tinha sido.
Minha nossa. Ele precisava mudar os tempos verbais dali para a frente. Josh destrancou o apartamento e entrou. Não tinha ido mais lá desde que Lauren foi internada… quando foi isso? Seis dias antes? Oito? Uma vida toda.

Os outros relacionamentos também são focos de momentos e passagens que mostram quem a jovem que acabou de morrer, como a proximidade de Lauren com sua mãe e irmã, mas o segundo melhor relacionamento desenvolvido na trama é entre Lauren e Sarah, a melhor amiga. A princípio fiquei bastante incomodada como Josh via a amizade entre as duas, mas dei o benefício da dúvida porque para ele, sua esposa era perfeita e todas as pessoas queriam ser e estar no lugar dela. Com o passar da trama, Josh decide ser literalmente um filho da mãe com Sarah, dizendo com todas letras que acreditava que ela sentia inveja de Lauren. Sarah fica ressentida, mas, mesmo assim, não deixa de entregar a carta do mês seguinte para Josh, os levando eventualmente a uma cena repleta de dor e mágoa sobre o relacionamento das duas. Em mais um momento muito real, o livro mostra como podemos amar alguém e, ainda assim, nos ressentirmos por coisas que estão fora do controle de qualquer pessoa, mas, acima de tudo, como somos capazes de estar lá para as pessoas que amamos quando precisam de nós. Mais uma lembrança de como os relacionamentos são complexos, delicados e frágeis, tudo como na vida.

Mas “Parem os relógios” falha em trazer uma construção que envolve justamente Sarah. Como já falei, fiquei incomodada com a forma como Josh a trata na passagem mencionada, mas também em como tudo aponta para um caminho que termina em uma cena igual ao filme que adapta “P.S. Eu te amo”. Para uma trama que tem tantos pontos tão bem construídos e refletidos, não posso deixar de apontar que toda essa parte foi uma decepção e só por essa parte este livro não ganhou 5 estrelas. Não é algo que afetará a construção geral, mas não deixo de me decepcionar quando mulheres recebem menos do que deveriam, até mesmo na ficção.

Por um curto período, a morte dela põe você no centro de várias outras vidas.
E então… aos poucos tudo muda. Existem as crianças para cuidar, as casas para limpar, as refeições para preparar. Os colegas de escritório têm trabalhos a fazer. Os amigos começam a seguir em frente.
O relógio parado começa a fazer seu tique-taque novamente.

Além de Lauren, o foco do livro é Joshua – acho que até mais do que Lauren, na verdade. Descobrimos como ele não sabia quem era seu pai biológico e como sua mãe decidiu tê-lo solo, passando a contar com a ajuda dos seus vizinhos, o casal Ben e Sumi Kim. Ben passou a ser sua figura paterna no passado, agora era um forte apoio para o jovem viúvo, e o relacionamento deles é muito bem construído. Mas o leitor também entende onde a trama de Josh vai chegar em uma das tarefas deixadas por Lauren e por mais que queria falar sobre (porque merece de tão bem escrito que é), não o farei porque seria spoiler. Só quero deixar aqui registrado que o livro mais uma vez acerta em mostrar como os relacionamentos humanos são complexos porque as pessoas são falhas e como você pode conceder o perdão quando nem ao menos se acha capaz disto.

Sinceramente, “Parem os relógios” é um livro incrível. É um livro sobre ter o coração partido pela morte. É um livro sobre querer parar os relógios e não deixar quem você ama partir. É um livro sobre luto, sobre perdas, sobre dor. Mas, além disso, é um livro que te mostra que o amor sobrevive, que a morte não tira suas lembranças e você ainda pode amar e ser feliz carregando aquela saudade que você aprende a viver com. É um livro sobre esperança também, e, quando termina, você chora de tristeza por alguém não deveria ter morrido, mas hey, esta é a vida, por mais difícil que seja. Você termina fechando o livro acredita na continuação, no amanhã, no amor. É um livro sobre os relógios voltarem a funcionar. E é assim que a vida é.

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