06.10


“Mestre dos Djinns”
P. Djèlí Clark
Tradução: Solaine Chioro
Suma – 2023 – 352 páginas

Cairo, 1912. Fatma el-Sha’arawi é a mais jovem mulher a trabalhar para o Ministério de Alquimia, Encantamentos e Entidades Sobrenaturais. Mas ela certamente não é nenhuma novata, ainda mais depois de ter impedido a destruição do universo no último verão.

Após um assassinato envolvendo os membros da Sociedade Hermética de Al-Jahiz, irmandade secreta dedicada ao homem mais famoso da história, a agente é convocada para investigar o caso. Quarenta anos antes, al-Jahiz abriu o véu que isolava o mundo mágico ― trazendo os djinns, ou gênios, para a realidade humana ― e desapareceu sem deixar vestígios. Agora, o assassino alega ser o próprio al-Jahiz, que voltou para punir a sociedade moderna por suas injustiças sociais.

Na companhia de Hadia, sua nova assistente, e de Siti, sua namorada e devota dos antigos deuses egípcios, Fatma precisará desvendar a identidade do impostor ― se é que ele é mesmo um impostor ― para reestabelecer a paz.

Livro vencedor do prestigiado prêmio Nebula em 2021 de melhor livro, indicado ao Hugo Awards e ainda vencedor de Primeiro Livro no Locus em 2022, afirmar que “Mestre dos Djinns” me deixou confusa seria simplificar demais. Precisei parar para analisar tudo que li porque temos um livro com uma mitologia tão, tão, tão rica e diferente, em uma história com representatividade, mulheres no centro e muitas reviravoltas, mas, de alguma forma, há algo que falha nessa trama e eu simplesmente não consegui identificar com facilidade. Sei que falando assim parece que eu não gostei do livro, só que não foi isso, embora sim, a trama me perca em raros momentos.

E se, depois de 4 dias após ter lido este livro você me perguntar onde a trama me perdia, vou poder enfim te responder, mas se prepare para o choque: é MUITA informação pra pouca página. Sim, isto mesmo. Eu, que vivo reclamando por aqui e nas redes sociais sobre a saudade que sinto de livros únicos, estou reclamando fortemente que essa história não deveria ter sido contada nesse formato – mas calma que ela não foi realmente. Explicando: “Mestre dos Djinns” é um livro único, mas há um conto com a personagem principal, Fatma el-Sha’arawi, que se passa antes dos eventos desta trama e é até mesmo mencionado na sinopse. Na verdade, há outros 3 contos de personagens que aparecem neste livro: “A Dead Djinn in Cairo”, de 2016; “The Angel of Khan el-Khalili”, de 2017 e ainda “The Haunting of Tram Car 015” de 2019, com a trama inédita de “Mestre dos Djinns” tendo sido publicado em 2021.

Fatma havia aprendido que “é você” podia significar muitas coisas. É você, a Sa’idi escurecida pelo sol de alguma aldeia de fim de mundo. É você, a mulher que não passava de uma menina aos olhos dos outros que foi admitida como investigadora especial pelo Ministério — e designada para o Cairo, ainda por cima. É você, a agente estranha que usa termos ocidentais. Alguns outros poucos tendiam a ser menos educados. O Egito se vangloriava por sua modernidade. Mulheres iam para a escola e enchiam as prósperas fábricas. Eram professoras e advogadas. Alguns meses antes, às mulheres tinham até garantido o direito ao sufrágio. Falava-se sobre elas entrarem em cargos políticos. Mas a presença de mulheres na vida pública ainda irritava muitos. Alguém como ela aturdia completamente o juízo dos homens.

Preciso também explicar que o universo criado pelo autor P. Djèlí Clark é cultuado em todos graus lá fora – e já chego na parte de falar sobre a construção do mundo aqui. Seus contos são tidos como maravilhosos e depois da publicação do livro, ficou mais claro ainda que o universo iria se expandir. Aqui estamos no Cairo, em 1912, em um Egito que nunca foi colonizado e que sabe da existência de magia. Os Djinns caminham entre as pessoas há 40 anos e o governo inclusive tem o Ministério de Alquimia, Encantamentos e Entidades Sobrenaturais. O Egito pode não ter sido colonizado, mas, ainda assim, o machismo existe e Fatma é a agente a mais nova contratada pelo Ministério. Quando a conhecemos, vemos que Fatma não segue as regras: não usa a farda que faz parte do Ministério e nem vestidos, preferindo usar calça, ternos, chapéu e uma bengala, tudo bastante charmoso. Ela é pega de surpresa com a chegada de Hadia, que também lutou muito, muito mesmo, para conseguir seu lugar e ser efetivada no Ministério. Some ainda Siti, a misteriosa namorada de Fatma e temos o trio principal de personagens.

Voltando a trilha dos acontecimentos, o livro começa com o que parece ser uma reunião de um grupo, a qual logo se revela ser parte do que parece ser um culto a Al-Jahiz, o homem que foi capaz de abrir o véu entre os mundos e revelar a magia aos humanos comuns. Nesta reunião, uma tragédia acontece e todos são mortos por uma figura que afirma ser justamente Al-Jahiz, já como o homem somente desapareceu sem deixar vestígios, deixando seu possível retorno como uma possibilidade real. Entre os mortos, temos Alistair Worthington, lorde inglês que deixa dois filhos como herdeiros, Alexander e Abgail. O que começa como uma investigação aparentemente do tipo “mais uma” vai logo revelando-se uma grande conspiração capaz de destruir o mundo que Fatma vive, já como há alguém querendo ser o Mestre dos Djinns e, obviamente, controlá-los.

A Irmandade Hermética de Al-Jahiz. — Bateu com a ponta do dedo na carta mostrando o estandarte. — O hexagrama, um símbolo da alquimia que representa os grandes elementos. — Foi tocando cada um dos quatro signos do zodíaco e o olho que tudo vê enquanto falava: — Ar, fogo, terra, água e espírito. O sol e a lua para representar os muitos mundos desconhecidos que podem existir. Embaixo, a espada: honra na defesa do que é correto, do que é puro, o equilíbrio entre a vida e a morte. Embaixo ainda, a crescente virada para baixo: a luz da sabedoria diante da escuridão. — Deslizou o indicador pela serpente flamejante. — A busca sem fim e eterna. Quærite veritatem. Busquem a verdade.

O Cairo que conhecemos é steampunk, ou seja, se passa no passado com tecnologia que historicamente não existia ainda naquela determinada época, sendo mais avançada do que deveria ser. Enquanto temos aqui máquinas imensas (calma que também já falo mais!) também temos as personagens andando em carruagens e atirando com maestria. Começando a caçada para tentar descobrir quem matou todos presentes na reunião do culto, Fatma vai encontrando com mais e mais seres da mitologia do universo que vão realmente encantando o leitor, com uma narrativa querendo causar uma reviravolta a cada 50 páginas, o que pode se tornar um tanto quanto cansativa.

Fatma é uma protagonista forte e que é capaz de fazer o que precisa, mas tem seus instintos toldados por seus sentimentos em diversas ocasiões na trama. Também senti falta de entender melhor o modo de pensar da protagonista que a leva a fazer determinadas escolhas, mas entendo que ela estava no mundo de 1912 – se já é difícil para as mulheres no ambiente de trabalho hoje em dia, imagina nessa época. A resistência de trabalhar com Hadia, que queria justamente trabalhar com a “lenda” que Fatma se tornou me incomodou bastante, mas a forma como a nova agente batalhou para ser aceita, confronta a protagonista e como falou tudo que precisava me ganhou, levando as personagens a terem a melhor conversa de todo livro porque aqui temos uma trama com ação – e quando digo “com ação”, quero dizer de verdade: temos páginas e páginas de lutas descritas com fidelidade e muita porradaria por parte de todas personagens femininas, que não temem entrar em qualquer luta corporal com suas armas.

Os ghouls se viraram de uma vez para olhá-la com rostos sem visão. Uma dúzia de lábios se afastou para deixar à mostra gengivas pretas e dentes que abocanhavam o ar, enrugando a pele cinza que ficava onde não havia olhos. Aquele que vinha batendo na porta estava no centro; esticou um longo pescoço, escancarando a mandíbula para emitir um grito agudo. O som parou abruptamente quando uma bala se alojou bem na testa da criatura. Um gemido escapou da garganta do ghoul antes de ele se estatelar no chão, imóvel.
E, com isso, faltavam onze.

É justamente por essa forma de ação misturada com motivações ao mesmo tempo egoístas e desesperadas em um universo com uma magia única que “Mestre dos Djinns” me remeteu muito a cultuada série “Mistborn”, de Brandon Sanderson – e acreditem, detesto essas comparações, mas a forma como a narrativa caminha, com personagens moralmente cinzas e uma mitologia complexa e nova me remeteu muito a “Mistborn”, e digo isto da melhor forma possível. Como também falei acima, há uma gama de seres mitológicos que adorei, variações dos Djinns, como os Nasnas, híbridos com humanos, e ainda Anjos mecânicos (há!) que fazem parte de uma trama ainda muito maior, o que me impede de falar mais e entregar qualquer detalhe a mais.

Em vários momentos queria entender melhor a complexidade daqueles seres que não seguem regras e apresentam algo demoníaco em suas aparências: chifres, olhos com pupilas de gatos, e por aí vai. Já os Ghouls, fiquei tão frustrada que não foram melhores explicados que vou me abster de comentar mais sobre eles. Enquanto isso, Os anjos são seres que foram capazes de me fazerem repetir a leitura do mesmo parágrafo várias vezes para imaginá-los da forma como mereciam. Um dos contos que não foram lançados no Brasil é justamente com um anjo no centro, e fiquei curiosa para lê-lo porque acredito que são personagens capazes de navegarem entre os papéis de heróis e Vilões com facilidade.

Uma antiga canção de ninar de djinns. Meu pai cantava para mim. Fala sobre noves ifrites antigos. Existe uma versão maior: “Os Nove Lordes estão dormindo. Em suas mansões de fogo. Queremos mesmo acordá-los? Não, não ousamos! São capazes de queimar sua alma só de olhar em seus olhos! Vá dormir, minha criança, ou eles vão queimar sua alma!”.
O impostor tem um ifrite — disse Fatma. — Ele pode ser um desses Nove Lordes?
Zagros negou com a cabeça.
Os Nove Lordes são djinns grandiosos. Estão entre os primeiros formados por fogo sem fumaça. Alguns alegam de modo ousado e blasfemo que criaram a si próprios, puxando suas formas flamejantes do vazio. Qualquer ifrite que vocês tenham encontrado seria como uma criança em comparação a eles. Esses Nove Lordes um dia foram mestres de djinns.

No saldo final, “Mestre dos Djinns” é um livro espetacular: um universo capaz de prender qualquer fã de fantasia, com representatividade necessária, ambientação impecável, capaz de levar o leitor a pesquisar sobre o Egito, com cenas de ação bastante visuais e capaz de ocupar os pensamentos dos Bookstans, mas deixa muitas (muitas mesmo) lacunas em aberto sobre até onde os Djinns e a magia deste universo pode ir, por isso acredito que mais livros seriam bem-vindos – e talvez aconteçam, certo? De toda forma, o saldo foi incrivelmente positivo, e se você procura uma Fantasia que saia da fórmula que conhecemos, “Mestre dos Djinns” é o livro que você procura. Pode apostar sem medo.

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