15.08


“Operação Paddock”
Arquelana
Paralela – 2023 – 416 páginas

Petra Magnólia Brown está ferrada. Depois de se envolver em um escândalo, seu contrato como piloto de Fórmula 2 não foi renovado, e ela precisa encarar a possibilidade de seu sonho do automobilismo ter chegado ao fim. Já seu irmão está vivendo o pesadelo contrário: contratado como piloto reserva, João se vê obrigado a correr quando o titular se machuca. Porém ele detesta as pistas e só permanece no esporte por pressão do pai.

João está desesperado para não competir, enquanto Petra faria de tudo por mais uma chance. Mas… os dois são gêmeos e se parecem muito. É com isso em mente que eles bolam um plano ousado: Petra vai se disfarçar de João e disputar o campeonato no lugar dele.

O plano parece perfeito, mas há um obstáculo: Oliver Knight, o charmoso colega de equipe de João que faz balançar o coração de Petra e pode desmascarar os irmãos antes de todo mundo. O risco é alto, e, se forem descobertos, as consequências podem ser devastadoras. Será que vale arriscar tudo pela chance de realizar um sonho?

Tive a oportunidade de ler “Operação Padoock” antes de ser lançado (será 1º de setembro próximo) em parceria com a Editora Paralela, então fica aqui meu muito obrigada pela confiança e oportunidade. Acho que o melhor jeito de começar a falar sobre este livro é repetir os avisos que a própria autora, Arquelana, coloca no início do seu livro: “… contém episódios de violência, transtorno alimentar (compulsão), menção a episódios depressivos e sexo explícito.”. Dito isso, também reforço de que os temas são realmente sensíveis, como a compulsão da personagem principal, Petra, e também o conteúdo adulto das cenas Hot, que foram, sem sombras de dúvidas, Hot – então, você, pessoa que me lê, tenha em mente que esse livro requer determinada maturidade para leitura pelos dois motivos citados. O conteúdo é realmente adulto.

Por fim, se você não entende nada de Fórmula 1, que é o cenário de fundo deste livro, te afirmo que não precisa ser nenhum expert no assunto para acompanhar o mundo das corridas automobilísticas apresentados na narrativa. Confesso que hoje em dia não dou a mínima para corridas porque passei pelo trauma de ser criança e acompanhar a morte de Ayrton Senna, mas me peguei recordando de algumas coisas que ficaram guardadas na memória, como, por exemplo, os nomes das pistas (Imola!) e ainda as diversas menções a FIA, a Federação Internacional do Automóvel, responsável pela organização das corridas, e ainda me ensinou coisas que não sabia, como, por exemplo, o termo ‘Paddock’, que dá o título do livro, que é uma referência aos: “bastidores das corridas, onde ficam os pilotos e as equipes fora da pista — e onde o verdadeiro drama acontece.”, como bem diz a autora. Enfim, meu ponto é: se você está interessado em ler o livro e não entende nada sobre corridas, você pode ler sem prejuízo algum; e se você gosta de corridas e sabe tudo sobre, a narrativa lhe dará mais prazer ainda.

Passar uma temporada inteira sem ser contratada como piloto seria suficiente para dar munição aos outros chefes de equipe que, sem esconder, já me esnobavam.
Como ouvi dizerem claramente ao meu assessor: “Ela não tem o mesmo preparo que os outros, e se já é difícil lidar com o gênio dos pilotos… Imagina ela na tpm, né? Rá-rá-rá”.

O que mais me chamou a atenção no livro, desde que sua pré-venda se iniciou e até postei em nossas redes sociais, foi a referência a “Mulan”, que é a minha história favorita da Disney. Tenho uma leve queda por histórias de mulheres fortes que não precisam serem salvas, tipo Mulan e a Princesa Leia de “Star Wars” e vocês, que acompanham o site, sabem disso. A outra comparação a história é ao filme “Ela é o cara”, aquele com Amanda Bynes Channing Tatum (que é baseado em “Noite dos Reis”, de Shakespeare), e, a certa altura da trama, ainda mencionam “Operação Cupido”, filme com Lindsey Logan, e que é baseado em um filme homônimo mais antigo ainda, de 1961, que é baseado em um livro alemão. O que todos isso tem em comum? Todos tem alguém se passando por outra pessoa, e, claro, é mesmo o mote central do livro.

Mas “Operação Paddock” não se trata exatamente só sobre uma irmã que está tomando o lugar do irmão gêmeo: é um romance que envolve diversas outras questões muito, muito importantes, como, por exemplo, a representatividade preta dentro da Fórmula 1, trazendo diversos personagens LGBTQIAPN+ no centro da narrativa, sem esquecer os conflitos de uma família de pais separados, que ficou cada um com a guarda de um filho, e o impacto que isso gerou em Petra e João, os dois irmãos centrais da trama. Mas, como já falei, o livro é um romance e é o relacionamento de Petra com Oliver que dita o ritmo da narrativa.

João respirou fundo e estendeu a mão para mim, um sorriso trêmulo em sua pele negra.
Vamos começar a Operação Paddock.
Encarei sua mão estendida e a segurei para firmar nosso acordo.
Operação Paddock, então.
Então seja bem-vinda à Assuero Racing Team, Petra Magnólia Brown, conhecida agora como John Magnólia Brown.

A história começa com Petra lidando com as consequências de simplesmente ser mulher e piloto em um meio altamente tóxico e machista. Piloto da Fórmula 2, não teve seu contrato renovado ao tirarem fotos dela com outro piloto em ângulos que sugeriam algo mais e ignorarem o fato de que havia outra pessoa com eles na mesa e que só tinha ido ao banheiro. Ao mesmo tempo, seu irmão, João – ou John, como o chamam internacionalmente, está em desespero ao entender que terá de se tornar um dos pilotos principais da Assuero Racing Team, já como, até ali, era reserva, mas Andreas Kuhn, o segundo piloto da equipe, quebrou a perna. João sofre com sua saúde mental e definitivamente não queria ser mais um piloto de fórmula 1, mesmo que temporariamente até a volta de Andreas. Nunca tendo amado correr como a irmã, João abraçou a profissão na vã tentativa de manter próximo e receber a aprovação do seu pai, Howard Brown, um poderoso empresário do ramo.

Chorando no colo de Petra, João está tendo uma crise de ansiedade enquanto a irmã olha a TV, que está reprisando o filme “Operação Cupido” e em outro canal justamente uma reprise de “Ela é o cara” – e a ideia nasce para John: trocar de lugar com a irmã. Com feições parecidas e vozes também, já tendo trocado de identidade quando eram mais novos, os gêmeos chegam a conclusão de que conseguirão fazer aquilo se ficassem com o mesmo corte de cabelo e Petra usasse peruca quando fosse aparecer como ela mesma. Tudo parece simples e fácil: João ficaria bem e longe das pistas e Petra iria correr, sua grande paixão. Mas tudo só tem a aparência de fácil, porque Oliver Knight, o companheiro e primeiro piloto da equipe de João, não está nem remotamente com vontade de ficar longe de Petra.

Acho que nunca consegui esconder o quanto aquilo ainda me irritava. Se eu usava moletom, achavam que eu era relaxada e que não merecia atenção. Com um vestido florido, parecia oferecida.
O que eu podia usar, então?
Faz pouco tempo percebi que nunca seria o suficiente, não importava o que fizesse. Roupa, maquiagem, penteado; eu não conseguia me desprender do que as pessoas viam assim que batiam os olhos em mim: minha pele, meu gênero e minha raiz.
Então, se eu nunca seria o suficiente para eles, por que me dar o trabalho de tentar?

Claro que o leitor já entendeu que Petra e Oliver irão se envolver, mas fiquei surpresa com o rumo da narrativa sobre como o relacionamento de ambos se desenvolveu – e, claro, não falarei nesta resenha para não estragar a experiência de leitura de vocês, mas me permitam somente dizer o quão saudável e bom foi ler o romance entre essas duas personagens.

Mas, como também já mencionei, há outros pontos importantes acontecendo na trama e um deles é o machismo com o qual Petra lida diariamente. Preta e bissexual, a jovem no começo dos seus 20 anos já passou por vários momentos absurdamente difíceis e tinha seu estilo de direção considerado ‘agressivo’, mas que, como John, subitamente passou a ser considerado ‘destemido’. A forma como a autora leva situações que todas as mulheres passam em praticamente todas as profissões foi algo que realmente me conquistou e que desejei ter mais espaço ainda dentro da trama, junto com todo racismo que os 3 personagens passam. Em uma determinada passagem, Oliver tem uma mensagem racista grafada em seu carro e o leitor sente a frustração de não poder dar ao racista o que ele merece, podendo sentir a também frustração das personagens ao lidarem com as autoridades e situação dentro da narrativa. Há ainda a homofobia, que também está presente em diversos pontos na trama, lembrando ao leitor que muito há ainda o que se fazer para avançarmos em inclusão em determinados esportes.

Veja bem, conscientemente eu não culpava minha mãe por isso, mas sabia que não era meu dever negociar questões de dinheiro com meu próprio pai. E, conforme eu crescia, passei a sentir que havia me tornado um problema monetário. A cada vez que meu pai atendia a uma ligação minha e seu sorriso parecia um pouco menor do que a vez anterior, eu me retraía e decidia atacá-lo antes que ele pudesse me dar uma resposta atravessada ou perguntar: “Quanto essa palhaçada vai me custar?”.
Não deixava de sentir que, ao longo dos anos, “palhaçada” se tornara outro nome para mim. Quanto eu custava para meu pai.

Outro ponto que realmente desejei mais foi o núcleo da família Brown. Com uma mãe brasileira e forte, os irmãos lidam com o pai como podem, já como John tenta ganhar o amor do pai à todo custo e Petra, criada pela mãe no Brasil, se sente distante do homem. Um capítulo que a personagem fala sobre seu relacionamento (ou a falta dele) com seu pai até chegar à uma dolorosa conclusão é meu trecho favorito da trama. Entender como os relacionamentos (ou, mais uma vez, a falta deles) afetam qualquer pessoa na forma como se veem ou se relacionam com outras pessoas é algo que gosto bastante e a escrita foi muito, muito exemplar.

Acima de todos esses outros enredo que acontecem simultaneamente a trama de troca de identidades, “Operação Paddock” é realmente um livro de romance que tem uma personagem quebrada e falha no centro se apaixonando por um cara que sabe quem é e está disposto a ficar do lado da mulher que escolheu sem medo das consequências, fossem quais fossem, sem amarras e sem qualquer tabu. Foi um prazer ler um casal que se apoia e aprendeu a confiar um no outro em meio a tantos obstáculos, mas, mais do que isso, foi maravilhoso ler e acompanhar Petra chegar lá e se tornar a mulher que ela queria e merece ser, e, como fica claro, só há uma, mesmo envolvida em uma operação de troca de identidades – e que aprendeu que é justamente por ser única que é tão especial.

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