19.05


“Apenas um monstro”
Vanessa Len
Tradução: Giovanna Chinellato
Alta Novel – 2023 – 416 páginas

Deveria ter sido o verão perfeito. Enviada para ficar com a família excêntrica da falecida mãe em Londres, Joan, de dezesseis anos, está determinada a se divertir. Ela adora o trabalho voluntário na histórica Holland House, e quando seu colega de trabalho Nick a convida para um encontro, parece que tudo está se encaixando.

Então, por azar, Joan volta no tempo, e sua vida rapidamente começa a se desfazer. Sua família não é apenas excêntrica, eles são monstros com poderes ocultos e aterrorizantes. E Nick não é apenas um garoto fofo, ele é um lendário matador de monstros que fará qualquer coisa para derrubá-los.

Enquanto luta contra Nick, Joan é forçada a trabalhar com o belo e implacável Aaron Oliver, herdeiro de uma família de monstros que odeia a sua. Essa é a única maneira de salvar a si mesma e sua família. 

Vou começar esta resenha com um simples aviso: PARE O QUE VOCÊ ESTIVER FAZENDO E VÁ LER ESTE LIVRO. Desculpa o caps, mas, é muito, muito sério: “Apenas um monstro” é o tipo de fantasia que a gente ADORA (ops, caps novamente) e fica obcecado por. Eu andava tão necessitada de uma Fantasia urbana com todos os elementos que tanto amamos: pessoas com poderes, “sociedades” escondidas dentro da nossa, personagens atormentados e moralmente duvidosos, mocinha badass e teimosa, melhor amiga maravilhosa – sério, sou cria da fase YA clássica: “Os Instrumentos Mortais”, “Crepúsculo”, “Academia de Vampiros”, todas essas séries têm em comum a boa e velha Fantasia urbana que parece andar meio sumidinha nos últimos tempos.

Mas então caiu no meu colo este livro e confesso que desde o começo entendi o ritmo e a ambientação, mas jamais esperei que fosse acontecer TANTA coisa em um único livro, me lembrando o quanto amo o gênero e como foi bom sentir que tinha em mãos um livro com uma trama sólida, com uma autora claramente planejando onde quer chegar, dando pistas aqui e ali e sem entregar tudo na nossa cara. Fantasia Urbana sempre foi, pra mim, um dos melhores exemplos de literatura fantástica (não me entenda errado: eu gosto do gênero Fantasia no geral, mas tenho forte queda pela Urbana) e como podemos fazer paralelos entre o que acontece na sociedade como um todo com uma pitada de fantasioso. E sério, sério mesmo, sem brincadeira: se você gosta disso tanto quanto esta que vos escreve, por favor, leia este livro porque não parei de surtar desde que terminei a leitura. Agora vamos falar do universo e da trama do livro – e prometo que vou tentar não escrever demais.

Aos 6 anos de idade, Joan decidiu que seria o Superman quando crescesse. (…)
Superman? – Sua avó torceu o nariz quando Joan foi ficar com ela em Londres naquele verão. – Você não é um herói, Joan. – Ela abaixou a cabeça grisalha como se fosse contar um segredo. – Você é um monstro.
Ela disse monstro como se ser um monstro fosse algo tão especial quanto ser um elfo.

Joan Chang-Hunt é uma adolescente de 16 anos que mora no interior da Inglaterra com o pai, Pei-Wen Chang. Sua mãe, Maureen Hunt, já faleceu, e, por isso, ela passa todos os verões com a família materna na capital da Inglaterra, aproveitando a excêntrica família. Logo no epilogo do livro, vemos que desde muito cedo, sua avó, Dorothy Hunt, lhe explicou que sua família era composta por monstros, coisa que a garotinha não entendeu: monstros eram maus e sua avó não era nada disso. O leitor também fica curioso sobre que tipo de monstros a avó falara para sua neta, mas a resposta só vem no presente cronológico do livro: em um dia comum daquele verão, depois de conversar com seus primos Bertie e Ruth, Joan sai de casa para encontrar e tomar café da manhã com o garoto dos seus sonhos: Nick. Ela o conheceu enquanto trabalhava voluntariamente em uma casa histórica, mas Joan nunca chega encontro com Nick porque, no meio do caminho, encontra um vizinho que estava passando mal e, ao tentar ajudá-lo, toca sua nuca – e o mundo ao redor dela se apaga. Quando parece voltar a si, já é noite e ela havia perdido não só o encontro, mas 13 horas de sua vida.

Atordoada, Joan corre para sua casa simplesmente sem entender o que pode ter acontecido e é recepcionada por sua avó, que enfim lhe explica que tipo de monstros são: ao tocar a nuca de uma pessoa, os Hunt podem roubar tempo de vida daquela pessoa e viajar no tempo. Um exemplo claro: o senhor que Joan havia tentando ajudar e tocara a nuca sem imaginar o que aconteceria, havia sido roubado por ela em 13 horas de sua vida e morreria 13 horas antes do tempo real de vida que teria. Desesperada, Joan se revolta contra os poderes de sua família e o tipo de “monstros” que são: afinal, eles roubam tempo de vida e isso se traduz como antecipar a morte dos humanos comuns. Nada pareceu fazer sentido para a garota, que tenta dormir e ao encontro de Nick na Holland House para tentar explicar a ele o que aconteceu. Só que ai sim, a trama se complica de vez – e acredite, não estamos nem na página 100 do livro ainda!

À luz amarela da cozinha, os olhos da avó brilhavam tanto quanto os de um gato.
Esse é o poder da família Hunt. Cada família de monstros tem seu próprio poder. Mas todos os monstros têm um poder em comum. Nós podemos viajar. Foi isso que você fez.
Viajar?
Os humanos são presos no tempo. Monstros, não. Você roubou tempo daquele homem e o usou para ir desta manhã para esta noite. Você viajou no tempo.

Eis que estando na Holland House, diversas pessoas começam a simplesmente aparecer – a família Oliver. Aqui faço outro parêntese: além do Hunt, há outras onze famílias em Londres que também são monstros e conseguem roubar o tempo dos humanos comuns, mas cada família tem um outro poder especifico: Olivers, Hunts, Nowaks, Patels, Portellis, Hathaways, Nightingales, Mtawalis, Argents, Alis, Griffiths e Lius, mas não vou falar os poderes de cada uma, até porque é divertido ler como tudo isso se desenvolve, só mantenha em mente os nomes das famílias e entenda que os Olivers e Hunts são inimigos mortais.

Enquanto é rendida por um cruel Edmund Oliver, líder do clã, e ameaçada por Lucien, irmão de Edmund, Joan se desespera ao entender que Nick, como o humano que é, será morto porque é a regra: todo humano que vê um monstro em ação, será morto, e é assim que os Monstros conseguem viver entre nós sem nunca terem sido descobertos, também obedecendo regras e um Rei, coisa que falarei mais adiante. Desesperada, Joan tenta salvar Nick e avisar sua prima, Ruth, de que estão sendo atacados. Chegando a apelar para Aaron, o filho mais novo de Edmund, por ajuda, a garota acredita que não há mais o que fazer. Mas tudo muda quando Nick se revela ser um espadachim poderoso e que não precisava de ajuda nenhuma para ser salvo. Chocada, Joan se depara com Ruth e entende que não só os Oliver estão sendo mortos, mas sua própria família. Em um massacre terrível, somente Joan e Aaron conseguem fugir, acreditando, por hora, terem sido os únicos a sobreviverem.

Aaron estava balançando a cabeça.
Esta noite está toda errada – disse. – Toda errada.
Para mim também não está fácil – Sussurou Joan.
Sua família provavelmente havia morrido com dor. Devem ter sentido tanto medo.
Você não está entendendo. Estou dizendo que esta noite está errada. Os registros da família Oliver não dizem nada sobre um ataque. As pessoas que eu vi mortas… Aquelas mortes estão todas erradas. Está tudo errado. Não era para elas morrerem hoje.

Desesperada com tantas mortes, em luto e ferida fisicamente, Joan consegue pular no tempo com Aaron para tentar fugir de tudo aquilo, mas eles estão sendo perseguidos por Nick que é, na verdade, a personificação de uma lenda entre os monstros: um dia, um herói humano seria capaz de matar todos os monstros. Mas por que Nick? Claro que Joan tem mais poderes e um específico que ninguém sabe, nem ela mesma – e que, com aviso dado por sua avó, ela não deverá confiar em ninguém, aviso este dado na noite do primeiro pulo de Joan.

No passado, a única coisa que Joan quer descobrir é como poderia mudar o tempo, coisa que é uma regra clara entre os monstros: não se pode mudar a linha do tempo, que tenta se reestabelecer, ou seja, se você voltar no tempo e mudar uma coisa, a linha do tempo luta para aquele mesmo fato acontecer, ainda que não seja na mesma ordem anterior. Aaron toma o lugar de professor para uma confusa Joan, que nunca teve seus poderes desenvolvidos e nem sequer aprendeu a saltar no tempo com sua família, já como eles acreditavam que ela poderia não saltar, já como era só parte monstro pela família da mãe. E se você está se perguntando se começa a surgir um triangulo amoroso, permita-me te surpreender e falar um sono: NÃO. O foco deste livro é realmente a mitologia, a construção de um universo, e acredito que todo romance vá ficar para os próximos, já como será uma trilogia (e o 2º livro, “Never a Hero”, será publicado em agosto deste ano) mas, aqui, não temos foco no romance. Não espere Joan suspirar de amor, não espere ela cair na lábia de qualquer pessoa, apesar de claramente estar tendo um efeito sobre Aaron.

Um sentimento de culpa surgiu dentro dela. Não podia fazer aquilo. Era errado. Muito errado. Algo que apenas um monstro faria.
Joan afastou aquela sensação até restar apenas um terror permanente. Se apenas um monstro faria aquilo, então ela conseguiria. Afinal, ela era um monstro, não era?
Ela ergue a cabeça e encontrou os olhos de Aaron.
Sim – Disse ela. – Precisamos impedir que isso aconteça. Precisamos voltar no tempo.

No meio dessa fuga desesperada 30 anos no passado, Joan e Aaron começam a desconfiar de que talvez a linha do tempo na qual eles vivem tenha sido alterada, coisa que já deixei claro que era praticamente impossível de acontecer. Mas, se aconteceu, quem o fez? Quem teria tanto poder? A solução para eles parece ser quase mirabolante demais: eles terão de invadir a Corte Monstro, onde o Rei fica, e é um lugar isolado do tempo – pode ser qualquer lugar, a qualquer tempo. Em toda uma cena de aventura incrivelmente descrita, vamos conhecendo mais sobre a Corte Monstro e seus participantes, entre eles, Conrad e Eleanor, dois personagens que aparecem pouco (principalmente ela) mas prometem muito para as continuações. Tudo neste livro é bem bolado, bem construído e bem encaixado, e quando o final chega, você só pensa em ler logo a continuação – não porque termine em aberto: você tem um final até satisfatório em determinados pontos, mas você QUER mais deste universo. Você quer mais de Joan. Você quer saber como ela ficou depois daquele final. E eu não poderia estar mais empolgada para ler a continuação do que eu estou.

É um alívio ver que a Fantasia Urbana vive, e vive muito bem, obrigada. É ótimo ver um livro construído de tal forma que o leitor não quer mesmo largá-lo, que você se importa com os personagens e que você até mesmo torce pela vilã – porque é uma afirmação clara no livro: Joan, Aaron, sua família, seus amigos, roubam tempo das pessoas e as fazem morrer mais cedo. Claro que eles não roubam anos seguidos de uma mesma pessoa, apesar de poderem fazer e matarem a pessoa, mas, ainda assim, é tempo roubado de outras pessoas e é errado. E você torce por eles. E você gosta do Aaron, mesmo ele sendo convencido e claramente escondendo muito de si. E você torce e tem pena do Nick, que está fazendo algo que sequer entende o tamanho. E você se apaixona por Joan, que quer salvar a família e está em conflito com seus poderes porque entende que eles são errados.

Joan prendeu a respiração.
Eu já disse. Não vou te matar.
Mas devia. – Sussurou ela.
Nick entortou a cabeça.
Eu vou atrás de você – prometeu ela. – E eu vou te impedir de matar de novo. Eu vou te matar.
Ela nunca imaginara aquelas palavras para alguém, muito menos a Nick. Nunca imaginara que poderiam ser verdade. Sentia como se estivesse esmagando o próprio coração com as mãos.
Nick a segurou com mais força por um momento. Então a soltou lentamente. Ele se levantou com a faca pronta para o caso de ela atacar. Ao ver que ela não reagiu, ele se afastou.
Joan apertou a lateral da mesa para que não fosse seduzida a tentar algo naquele momento.
Estou falando sério – disse ela. – Você está morto.
Ele sorriu para ela com aquela tranquilidade familiar, da mesma forma que sempre fazia na casa.
E não estamos todos mortos em algum ponto da linha do tempo?

Prometi que tentaria não escrever tanto sobre este livro e falhei, mas, quer saber a verdade? Não sinto muito não. Livros bons são pra serem divulgados, amados e compartilhados, e é isto que estou fazendo com vocês agora. Me encontro em um estado tão grande de amor por este livro e fazia muito, muito tempo que não ficava assim. Vanessa Len colocou a barra muito alta para si mesma, já como “Apenas um monstro” é seu primeiro livro – e aqui uma curiosidade: a autora Australiana agradece a Sarah Rees Brennan, amiga de Cassandra Clare e coautora de diversos livros de contos do Mundo das Sombras, e assim você entende como este universo lembra o universo de “The Lynburn Legacy”, trilogia da Sarah que nunca foi (infelizmente) publicada no Brasil e também sou bastante fã.

Ainda não estamos nem no meio do ano e já tenho um forte candidato a melhor livro do ano na minha listinha. Dê esse mimo para você, bookstan, e leia este livro. Entenda que algumas coisas, somente monstros podem fazer – mas, talvez, Joan e sua família não sejam os típicos monstros que somos condicionados a pensar, mas também estão longe de serem heróis. E que bom que a história é assim. Que bom.

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