31.03


“A última missão de Gwendy” (A pequena caixa de Gwendy #3)
Stephen King e Richard Chizmar
Tradução: Regiane Winarski
Ilustrações: Ben Baldwin e Keith Minnion
Suma – 2023 – 424 páginas

No terceiro volume da série iniciada por A pequena caixa de Gwendy, os mestres Stephen King e Richard Chizmar conduzem o leitor por uma jornada que vai de Castle Rock até uma estação espacial, onde Gwendy deve cumprir sua missão secreta para salvar o mundo ― e, quem sabe, todos os mundos.

Quando Gwendy Peterson tinha doze anos, um estranho homem chamado Richard Farris a encarregou dos cuidados de uma caixa misteriosa, que retribuía com pequenos presentes, mas também trazia perigos; apertar qualquer um de seus oito botões coloridos poderia levar à morte e à destruição. Anos mais tarde, o objeto voltou à vida de Gwendy. Romancista de sucesso e figura política em ascensão, ela se viu novamente obrigada a lidar com as tentações que a caixa representava.

Agora, forças malignas querem se apossar da caixa, e cabe à senadora Gwendy Peterson mantê-la a salvo das ameaças a qualquer custo. Mas onde seria possível esconder um objeto desses de entidades tão poderosas?

Enfim temos a conclusão da história de Gwendy, personagem que vimoss aos 12 anos no primeiro livro, “A pequena caixa de Gwendy, depois aos 37 anos em “A pena mágica de Gwendy” e agora aos 64 no último livro da sua trilogia, “A última missão de Gwendy”. Sinceramente, é um privilégio acompanhar uma personagem nas 3 fases de sua vida, em um ciclo completo e repleto de felicidade e perdas, dúvidas morais e desenvolvimento, do jeito que leitores ávidos gostam e que trouxe a tona a pandemia como parte da trama do último livro. Mas, sinceramente, o que podemos esperar de dois autores do quilate de King e Chizmar?

Publicados nos anos de 2017, 2019 e em 2022, o 1º livro foi escrito pela dupla, mas, o 2º livro, foi escrito somente por Chizmar, com King escrevendo o prefácio da história – e então temos a dupla novamente junta para escrever o desfecho da trilogia, com direito a menções a Derry, diversos personagens que já conhecemos e muito mais, bem no estilo Kingverse com o toque mais realista de Chizmar. E ah, antes de começar a falar da trama de “A última missão de Gwendy”, lembro que vocês podem ler minhas resenhas sem spoilers de “A pena mágica de Gwendy” e “A última missão de Gwendy” clicando AQUI. Agora vamos falar sobre a última missão de Gwendy e o que aconteceu para a levar até esta, e já aviso que o que aconteceu foi (também) a pandemia.

É um lindo dia de abril em Playalinda, Flórida, não muito longe de Cabo Canaveral. O ano é 2026, e só algumas pessoas na multidão parada no lado leste do riacho Max Hoeck Back estão de máscara. A maioria dessas pessoas é idosa, que pegou o hábito e agora tem dificuldade de parar. O coronavírus ainda está por aí, como um convidado de festa que não vai para casa, e, por enquanto, embora muitos tenham medo de que possa mutar e tornar a vacina inútil, a luta contra ele chegou num empate.

Depois de se aposentar da politica, a vida de Gwendy se tornou caseira, passando seu tempo com seu marido Ryan. Ela também aproveitou para voltar a escrever, coisa que sempre amou fazer, retornando sua carreira de romancista de sucesso. Tudo em sua vida pareceu, de certa forma, perfeito, exceto o fato de que nunca conseguiu engravidar e ter filhos biológicos com seu marido, apesar de tentarem por bastante tempo e de diversas formas. Gwendy sofreu por isso, mas também não podia fingir que não sabia o motivo pelo qual o seu corpo pareceu nunca conseguir conceber uma criança: aqueles pequenos e deliciosos chocolatinhos que tanto comeu quando ficou com a caixa de botões do Sr. Farris quando era ainda uma pré-adolescente.

Mas a narrativa não começa por Gwendy e sim por um casal bastante conhecido do universo de King: Sheila e seu marido Douglas Brigham estão observando o lançamento de um foguete espacial, desejando que tudo corra bem, levando o leitor a se questionar o que está acontecendo, apesar de na sinopse do livro já indicar que algo assim viria na trama do livro. O que logo nos faz tomar um choque é entender que Gwendy está dentro daquele foguete, mesmo com a atual idade e com um problema de memória que parece se acentuar cada vez mais – será que aqueles chocolates que ela ingeriu quando criança estão cobrando seu preço também dessa forma? Muito provavelmente sim.

Quando estiver lá em cima (onde o ar não é simplesmente rarefeito, mas inexistente), não podem mandá-la para casa se descobrirem o que tem de errado com ela, podem? Mas podem estragar sua missão caso descubram. E tem outra coisa, uma coisa que seria ainda pior. Gwendy nem quer pensar nisso, mas não consegue evitar.
E se ela esquecer o real motivo para estar lá em cima? O real motivo é a caixa dentro da maleta. Parece drama, mas Gwendy Peterson sabe que é verdade: o destino do mundo depende do que está dentro daquela maleta.

Entre capítulos que mostram a tripulação e o plano de Gwendy dentro da estação espacial e que alternam com os últimos anos, mostrando o caminho que a levou até ali, que não foi nada linear e com bastante obstáculos: mesmo em sua aposentadoria, Gwendy foi basicamente “convocada” a disputar uma vaga agora no Senado norte-americano para tentar derrubar o já Senador Paul Magowan, um Trumpista de carteira – e quem conhece King sabe a ojeriza que o autor demonstra ao ex-presidente norte americano. Sempre politizado, King nunca fugiu de demonstrar seu posicionamento politico e, por diversas vezes, mostrar o que as pessoas são capazes até mesmo por suas posições politicas também – e que tem importância grande em toda parte politica da narrativa, que faz parte da vida de Gwendy.

Mas, além de toda essa parte da vida da personagem, não podemos esquecer Richard Farris, que há muitos anos apareceu para ela ainda garotinha com seu peculiar chapéu, lhe oferecendo uma caixa com oito botões que representavam continentes e mais. Então, só pra relembrar: o botão verde-claro correspondia à Ásia; o botão verde-escuro à África; o botão laranja à Europa; o botão amarelo correspondia à Austrália; o botão azul a América do Norte; o botão violeta à América do Sul; já o botão vermelho poderia ser apertado mais de uma vez e daria a garota o que desejasse, enquanto o botão preto significava o fim de tudo – provavelmente. Na caixa ainda havia duas alavancas: a esquerda da caixa, Gwendy recebia o famoso chocolatinho, enquanto a da direita entregava uma moeda rara. Gwendy aceitou ficar com a caixa e apesar de ter causado um desastre grande (sem spoilers!) ainda foi capaz de ser melhor do que muitos outros que tiveram a posse da caixa nos decorrer dos anos – e é isto que Farris conta quando a procura, doente e decepcionado com a última pessoa a quem confiou aquela misteriosa caixa. Agora o homem (seria mesmo um homem?) está sendo perseguido e precisa da ajuda de Gwendy mais uma vez. Mas perseguido por quem?

Eu sou louca de estar aqui, ela pensa. Louca de estar escondendo o que há de errado comigo. Mas ele não me deu escolha. Tem que ser você, Gwendy, ele disse. Não tenho mais ninguém. E eu concordei. Na verdade, fiquei meio empolgada com a perspectiva. Só que…
Só que na época eu estava bem — sussurra Gwendy. — Ou pelo menos, achava que estava. Ah, Deus, me ajude a chegar ao fim disso.
Lá em cima, depois do que ela viu abaixo (a Terra tão frágil e linda contra o preto), é fácil pensar que Ele ou Ela possa realmente existir.

Claro que uma caixa com tamanho poder atrai entidades sombrias que desejam ter o poder que ela é capaz de lhe proporcionar, e aqui temos o elemento fantástico muito bem conduzido, capaz de assustar quem quer que seja quando essas “figuras” começam a aparecer. Doente e já no fim de sua existência, Farris precisa que Gwendy guarde a caixa por um tempo – mas é só isso mesmo? Claro que não, e claro que ele tem um plano que parece, sem sombras de dúvidas, mirabolante demais e que só é revelado bem mais a frente no livro, apesar do leitor conseguir presumir.

Aceitando o desafio de mais uma vez manter a caixa em sua tutela, Gwendy é eleita Senadora do seu país enquanto tenta segurar sua vida, passando por um dos seus piores momentos com uma dor que não imaginava ser capaz de superar. Mas a mulher, já madura e naquela fase de sua idade, continua tendo sua régua moral bastante alta e não se deixa seduzir pela caixa, mesmo quando consegue entender que além da tragédia que passou, ainda está enfrentando problemas de memória. Parece obvio que tudo está relacionado a caixa de botões, mais uma vez.

É remédio de coração?
Não.
Remédio de câncer? — Sua mãe tinha tomado Oncovin e Abraxane, embora nenhum dos dois se parecesse com o comprimidinho branco que Farris havia engolido.
Se precisa tanto saber, Gwendy, e você sempre foi curiosa, tem muitas coisas erradas comigo e todas estão surgindo de uma vez. Os anos em que fui perdoado, e foram muitos, estão voltando como pessoas famintas entrando em um restaurante. — Ele ofereceu seu sorrisinho encantador. — E, acredite, elas estão muito famintas. Eu sou o bufê.

Nunca canso de me espantar com a forma como King é capaz de trazer a tona o real terror que há em nosso mundo: o que há dentro das pessoas. Em mais uma trama que envolve o sobrenatural, o medo e o momento atual do mundo que enfrenta uma pandemia, King e Chizmar apresentam uma personagem que se tornou conhecida de seus leitores em uma edição com diversas artes (que mostrarei abaixo uma dessas artes) e que é capaz de prender o leitor do começo ao fim. Sendo o maior dos três livros, pode esperar uma conclusão digna da personagem central e também dos dois autores, que, definitivamente, deram todo um momento especial para uma mulher que foi forte, do jeitinho que qualquer bookstan adora ler sobre.

Em uma trilogia que realmente tem como fio condutor fazer o leitor pensar sobre o que está disposto a sacrificar e até que ponto ir para conseguir tudo que deseja, a história de Gwendy é capaz de te fazer questionar moralmente suas supostas escolhas em um mundo que não lhe dará respostas em preto e branco e sim em uma palheta infinita de cinza, e nem mesmo Gwendy, com toda sua serenidade e força de vontade, é capaz de controlar todas as coisas que saem de controle. Tudo que ela pode fazer é tentar. Assim como nós.

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