22.02

Depois do Universo
Direção: Diego Freitas
Elenco: Giulia Be, Henry Zaga, João Miguel, Othon Bastos, Viviane Araújo, Denise Del Vecchio.

A talentosa pianista Nina (Giulia Be) precisa superar os desafios de lidar com o lúpus, uma doença autoimune que pode atacar qualquer parte do corpo – o rim, no caso dela. A jovem é surpreendida por uma forte conexão com Gabriel (Henry Zaga), um dos médicos da equipe que a atende, que irá ajudá-la a superar suas inseguranças na luta para tocar nos palcos junto a uma grande orquestra de São Paulo.

Nina Soares, a personagem principal de “Depois do Universo”, tem Lúpus, uma doença autoimune. E eu também – assim como pessoas que tenho certeza absoluta que vocês conhecem, como Selena Gomez e Lady Gaga. Sim, este foi o motivo que me levou a assistir o filme, muito porque estamos no Fevereiro Roxo e Laranja, o mês da conscientização sobre a doença (e também fibromialgia e Alzheimer – e a cor Laranja remete a Leucemia) já como ainda é muito pouco falada, divulgada e principalmente estudada.

E já deixo claro, de cara, que o filme perdeu uma excelente oportunidade de mostrar mais do que os pacientes com Lúpus passam, todas as complicações, todos remédios, toda ansiedade e nervoso – e das famílias também que precisam apoiar seus entes queridos. Durante a trajetória de Nina, entendemos que ela precisa de um rim, o que termina sendo “comum” para quem tem a doença (como o que aconteceu com Selena Gomez, o rim da personagem começa a perder sua função – ou seja, para de funcionar), já como um dos principais órgãos atacado pela doença é justamente este, mas, durante a narrativa, parece que caso consiga o transplante ela ficará bem, o que não é verdade. Mesmo caso a personagem receba um rim transplantado, isto não faz o Lúpus parar de atacar o corpo dela. Sinto que foi uma oportunidade perdida por isso e por mais que falarei no decorrer desta indicação.

Mas sei que vocês querem saber mais sobre a história de Nina e Gabriel, então me permita dizer logo que Giulia Be e Henry Zaga possuem química na tela e são esteticamente um casal muito, muito bonito. Logo no incio do filme, temos um resumo da vida de Nina e como ela chegou até onde se encontra atualmente, dando aulas de piano em um conservatório e na fila de transplantes de rim. Com função renal muito baixa, Nina recebe a noticia da sua médica ao lado do seu avó, com que mora. A jovem descobriu o Lúpus aos 13 anos e desde então seu sonho de tocar piano na Orquestra Sinfônica está paralisado porque precisa fazer todo seu tratamento e as dores que a doença causam beiram ao insuportável em alguns dias.

Fazendo diálise 3 vezes durante a semana, que é basicamente ter seu sangue filtrado fora de seu corpo em uma máquina, Nina encontra novamente Gabriel, um rapaz que encontrou na Estação da Luz (em São Paulo, claro). Em uma conversa cheia de significado, Nina deixa claro que é uma pessoa que não vê a vida através da lente do “copo meio cheio” – cansada, confusa, com medo e desesperançosa, acredita que a vida é mais um copo sujo em cima da pia. Mas, como estamos em um romance, Gabriel, que é um jovem fazendo residência, demonstra ser uma pessoa de “copo meio cheio” mesmo já tendo sua própria cota de dor, completamente encantado pela beleza e dom de tocar de Nina.

O relacionamento dos dois começa de uma forma bastante natural, mas muito rápida, e, neste começo, acho que o roteiro conduziu o relacionamento organicamente. A medida que a diálise vai tomando tempo de Nina, há uma cena que mostra bastante o que pacientes lúpicos passam: a perda de seus empregos por precisarem se ausentarem para fazerem seus tratamentos, além de poderem assustar as outras pessoas – no caso específico de Nina, por ela ter uma fistula no braço para fazer o procedimento, um acesso rápido para sua veia.

Há ainda outra cena no filme no qual Yuri, o amigo com quem Gabriel divide o apartamento, tem um encontro e o cara faz comentários sobre a condição de Nina, que responde com uma piadinha que fez meu coração apertar porque é assim que na maior parte das vezes os pacientes de doenças crônicas reagem – você, que convive com a pessoa ou a encontra na rua, pode não ver a doença, mas ela está lá e requer cuidados, requer que quem a tem mude sua vida, mude suas expectativas, mude seus anseios para tentar conviver da melhor forma possível e ainda ter foco em seu tratamento.

Claro que o romance de Nina e Gabriel vai passar por muitos desafios, entre eles o pai de Gabriel, o Dr. Alberto, diretor do hospital no qual o filho está fazendo sua residência. Mas o rapaz parece disposto a fazer com que Nina veja a vida de uma forma mais vivida, que ela dê vazão ao amor que sente pela música e que acredite que tudo pode melhorar, mesmo quando a saúde dela começa deteriorar mais ainda.

E aqui há outro ponto para quem é médico e me lê ou estuda em médica: é preciso deixar de lado o que sabemos de ética médica para embarcar no amor dos protagonistas. Não há outra forma de deixar isso claro – e para quem vive em muitos hospitais, seja por trabalho, seja por tratamento, sabemos que muito do filme também é baseado na licença que precisamos abraçar para continuar a testemunhar o amor que está se desenvolvendo em nossa frente.

Entretanto, há algo mais que não posso me privar de falar sobre: além de ter deixado de falar mais sobre a doença em si, o filme teve a oportunidade e deixou passar de falar sobre as dificuldade sobre o tratamento de quem enfrenta o Lúpus. Claro que a doença não é o foco do filme e entendo isso perfeitamente, mas os pacientes com Lúpus precisam de uma equipe multidisciplinar para acompanhá-los e não somente um reumatologista, que é médico especialista responsável pelo tratamento, coisa que no filme sequer é mencionado. Por duas vezes Nina diz não poder pegar sol, mas não deixa claro que é por causa da doença e, para quem não a conhece, isto fica vago. Houve muito que poderia ser falado em poucos segundos e que poderiam ter mostrado mais da realidade de quem tem a doença e como é difícil, seja pelo tratamento complexo, seja pelas pequenas mudanças.

Além desta oportunidade perdida, também preciso acrescentar que o filme faz um mirabolante contorno para acontecer um fato que, sinceramente, comecei a esperar lá pela metade do filme e acredito que todas as pessoas que também assistirem vão esperar o mesmo. Não há choque no que acontece – e que obviamente não falarei porque não vou dar spoilers aqui – mas há uma mudança em como esta “coisa” se encerra. Foi algo bom. Me surpreendi quando o roteiro desviou do mais obvio possível e isso é algo que sempre dou mérito.

As comparações com filmes como “Um amor para recordar” são realmente inevitáveis, mas não devemos fazer isso por se tratarem de doenças e, obviamente, personagens diferentes que enfrentam desafios diferentes, dores diferentes e tem suportes diferentes. Há ainda o gênero literário “sick-lit”, que trata justamente de personagens com doenças graves e que muitas vezes levam a morte – entre eles “A Culpa é das Estrelas”, que ainda continua sendo meu livro favorito entre os que já li do gênero.

Depois do Universo” é um filme para se aproveitar uma tarde e se emocionar, mas também peca em não dar mais profundidade as personagens (não sabemos o que aconteceu com os pais da Nina, por exemplo) e falha em não falar mais sobre a doença que traz em sua própria sinopse – mas vence com a beleza do casal principal em tela. Giulia realmente canta bem, toca e emociona em alguns momentos como uma jovem que está vendo sua vida ruir ao mesmo tempo que encontra o amor que sonhava, mas que talvez não tenha tempo para vivê-lo. Já conhecia o Henry de outros trabalhos e confesso que aqui foi sua melhor atuação na minha opinião, então sim, o casal o principal rouba as cenas quando estão juntos, seja na tristeza, seja simplesmente interagindo ou se apaixonado.

O filme não vai mudar sua vida e nem seu universo, mas pode salvar uma tarde chuvosa que você esteja disposto a se emocionar e ver como a vida pode ser difícil até mesmo depois de encontrar alguém que pode ser seu universo.

Ju: Eu assisti o filme junto com a Virna, e como eu falei com ela enquanto assistíamos, meu comentário não foge muito do que ela mesma falou na resenha: eu acho bom que falaram sobre lúpus porque realmente é uma doença que precisa que as pessoas saibam mais sobre ela (eu mesma não conhecia nada de lúpus fora o que é dito em House e antes de conhecer a Virna). Só que, ao mesmo tempo em que é proposto pela historia falar sobre uma doença que não tem a divulgação necessária, foi algo que só ficou meio que jogado ao acaso ali. Não foi aprofundado em si o que é o lúpus realmente e que eu sei que é por conviver com alguém que tem (ainda que a gente more alguns muitos quilômetros de distancia) e eu veja as dificuldades que vem junto com a doença ficou algo muito… simples no roteiro. Parece que é de uma facilidade que quem conhece sabe que não é bem assim que funciona. Como eu disse pra Vi, não é meu local de fala e sim o dela, porque eu não tenho, eu só vejo e acompanho, mas ainda assim eu fiquei levemente incomodada com isso e não vou negar. Os atores tem uma ótima química, como a Vi tão bem colocou nos seus comentários, mas eu achei meio que um pecado pegarem uma doença tão pouco explorada e que podia ser mais explicada e não darem a ela seu devido destaque. Foi uma ideia ótima, mas que não foi tão bem executada assim no meu ponto de vista. Porém, fora isso, é realmente um romance e com várias coisas clichês que romances podem oferecer, inclusive no final – mas isso eu deixo para quem quiser ver o filme descobrir por si só.

Você pode saber mais sobre o Fevereiro Roxo e Laranja clicando AQUI.

Você pode assistir “Depois do Universo” na Netflix.

Confiram o trailer:

Arquivado nas categorias: Blog , Filmes com as tags:
Postado por:
Você pode gostar de ler também
23.02
  Oi pessoal, tudo bem com vocês? Hoje vim falar para vocês sobre uma série que eu de...
20.02
“A serpente e as asas feitas de noite”(Nascidos da Noite #1) Carissa Broadbent Tradução: J...
16.02
Sinopse:No último dia das bruxas, a ex-melhor amiga de Alice Ogilvie foi morta. Se não fosse ...
13.02
Depois de um janeiro que pareceu durar uns 3 meses, finalmente chegamos em fevereiro e no novo post ...
09.02
“Mata Doce” Luciany Aparecida Arte de Capa: Ale Kalko Alfaguara – 2023 – 304 páginas ...
06.02
Sem delongas, comecemos essa resenha com a sinopse: “Pietra Jimenez é uma famosa arqueóloga e pe...

Deixe seu comentário





Siga @idrisbr no Instagram e não perca as novidades
Facebook