02.12


“Ao paraíso”
Hanya Yanagihara
Tradução: Ana Guadalupe
Companhia das Letras – 2022 – 720 páginas

Em uma versão alternativa dos Estados Unidos de 1893, Nova York integra os Estados Livres, onde as pessoas podem amar quem quiserem (pelo menos é o que parece). Um jovem herdeiro de uma família renomada resiste ao noivado com o pretendente escolhido por seu avô, após cair nas graças de um charmoso professor de música com parcos recursos. Em uma Manhattan de 1993, assolada pela epidemia de aids, um jovem havaiano vive com seu companheiro muito mais velho e endinheirado, escondendo sua infância conturbada e a história de seu pai. E, em 2093, num mundo devastado por pandemias e sob um governo autoritário, a neta traumatizada de um cientista poderoso tenta viver sem ele ― e solucionar o mistério dos sumiços do marido.

Essas três seções se combinam em uma sinfonia fascinante e engenhosa à medida que temas recorrentes se aprofundam e se relacionam: uma casa em Washington Square Park em Greenwich Village; doenças e tratamentos com custos enormes; riqueza e miséria; a oposição entre fracos e fortes; raça; a definição de família e de nação; os perigos da justiça dos poderosos e dos revolucionários; o desejo de encontrar um paraíso terreno e a percepção gradual de que algo do tipo é impossível. O que une tanto os personagens como esses diferentes Estados Unidos é o ajuste de contas com aquilo que nos torna humanos: o medo, o amor, a vergonha, a falta e a solidão.

Ao paraíso é um exemplo formidável de técnica literária, mas acima de tudo é um romance genial na forma como aborda as emoções. Sua grande força resulta da percepção de Yanagihara sobre o desejo angustiante de proteger aqueles que amamos ― companheiros, amantes, filhos, amigos e até nossos concidadãos ― e sobre a dor que sentimos quando isso não é possível.

Se você não reconheceu o nome da autora Hanya Yanagihara, me permita falar um pouco sobre ela: autora de “Uma vida pequena”, seu último livro que foi publicado em 2015 e que fez muito, muito sucesso, é um dos nomes mais observados no cenário literário mundial, e, por isto, a expectativa para este livro estava altíssima. “Ao paraíso” foi publicado em inglês ainda em 2022 e a Companhia das Letras não demorou para trazer a versão traduzida mantendo a capa original, mas já deixo claro que não esperem aqui uma continuação do outro livro, nem mesmo “espiritual”: aqui temos um livro sobre relacionamentos e uma tentativa de responder o que significa o paraíso para cada pessoa, entre suas vivências, relacionamentos, traumas e escolhas.

Sobre o livro em si, “Ao paraíso” foi, definitivamente, a leitura mais desafiadora para mim neste ano. É um livro longo com mais de 700 páginas, dividido em 3 partes – ou, como o próprio índice deixa claro, em 3 livros. O Livro I, como a sinopse indica, se passa em um Estados Unidos alternativo no ano de 1893. O Livro II se passa 100 anos depois, tendo os Estados Unidos e o Hawai como grande parte da trama. Já o livro final, o III, salta outros 100 anos no futuro, levando a trama para o ano de 2093. E, por mais que pareça que estamos falando de passagens de tempo sobre uma mesma família em um possível mesmo cenário, não é – ou é. Depende de você, leitor, decidir a forma como você compreende essa história que são 3, mas, ao mesmo tempo, são repetições de situações. E se você está confuso, calmo que vou tentar te explicar sem dar qualquer spoiler sobre a trama.

Mas ele também sentia, independentemente do que seu avô dissesse, que não podia se dar ao luxo de recusar de pronto aquela oferta: ele era o único culpado por sua situação atual, e, como a presença dos Griffith evidenciava, suas opções não seriam infinitas, apesar de seu sobrenome e do dinheiro do avô. Então ele disse que concordava em se encontrar com o homem, e seu avô — com o que parecia ser uma expressão de alívio mal contida, talvez? — respondeu que avisaria Frances na mesma hora.

O Livro I se chama Washington Square, que é um parque na cidade de New York, e aqui em todos os livros deste Livro se refere a uma casa de frente ao parque. Focando ainda neste livro, somos apresentados aos personagens principais em uma trama familiar: David Bingham é um herdeiro mais velho de sua família e já tem seus dois irmãos (um irmão do meio e uma irmã mais nova) já casados e com filhos. Aqui, neste mundo, New York faz parte dos Estados Livres, um país que aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mesmo sendo ainda no distante ano de 1893. David é sensível e gentil, e quando seu avó tenta arranjar seu casamento com o mais velho Charles Griffith, o homem se sente um tanto quanto pressionado, ainda mais quando, em uma jogada do destino, conhece o professor Edward Bishop. O romance entre David e Edward floresce de forma aparentemente bastante natural, tudo enquanto ele está também conhecendo e seguindo com o que acredita que precisa fazer para não decepcionar seu avô.

Os relacionamentos aqui são marcados por uma impressão de liberdade que na verdade não existe: David pode sim, ser quem ele é e ter sua sexualidade aceita, mas vive sobe o constante escrutínio de seu avô que teme pela natureza gentil do neto e que faz o leitor a principio desconfiar se o avô não estava tentando simplesmente controlar o rapaz. Mas Edward guarda seus segredos, que são muitos e capazes de destruir seu relacionamento com David, que precisa escolher entre ele e o noivo que sua família tão bem aceita. Temos aqui claramente um livro de aproximadamente de 200 paginas falando sobre relacionamentos familiares e um triangulo romântico com um grande contexto politico sobre o que aconteceu com o que conhecemos como Estados Unidos – e que falarei sobre mais adiante. É um conto agridoce e profundo, despertando no leitor todas as emoções que relacionamentos familiares e românticos são capazes de nos causar.

Ele nunca tinha pensado muito no tipo de homem com quem talvez um dia vivesse, mas havia se encaixado com tanta facilidade no papel de namorado de Charles, de algo que pertencia a Charles, que só em raros momentos percebia, sentindo um peso no peito, que ficara parecido com seu pai de uma forma que nunca teria sido capaz de prever ou imaginar: uma pessoa que só queria ser amada e cuidada, que queria receber ordens. E era nesses momentos — momentos nos quais ele se postava sob a escuridão da janela da frente, a mão na persiana, procurando Charles pela praça obscurecida, esperando como um gato espera o dono voltar para casa — que conseguia admitir quem ele mesmo lembrava: não só a herdeira, com seu vestido cor-de-rosa lindo até demais, mas seu pai. Seu pai, em pé junto à janela da casa da família, perto do pôr do sol, exausto de ansiedade e de expectativa depois de passar o dia todo esperando, ainda esquadrinhando a rua para ver Edward chegar em seu carro velho, esperando para descer correndo os degraus da varanda e ir embora com o amigo, esperando que ele o levasse para longe da mãe e do filho, e de todas as decepções de sua vida pequena e inescapável.

Já o Livro II se chama Lipo-wao-nahele e traz David Bingham, um jovem com ascendência havaiana que vive com seu namorado, Charles Griffith, um homem muito mais velho e rico, em um casarão no Washington Square. Charles parece, de alguma forma, ter um certo receio com o relacionamento, o que deixa David inseguro. E sim, se você está se perguntando se são os mesmos personagens em novas roupagens ou até mesmo descendentes, isto vai ficar por sua conta e interpretação, exatamente como falei no começo da resenha. Todos outros personagens que já conhecemos estão aqui também, em outros papéis, em uma trama bem mais politica do que a presente no Livro I.

O Havaí e sua anexação aos Estados Unidos tem um grande papel na trama, já como o pai de David seria o herdeiro de um reino que obviamente não mais existe e aqui preciso deixar claro que muito de “Ao paraíso” envolve a politica e estrutura, tanto física quanto regional, dos Estados Unidos, e isso foi uma dificuldade para mim, que não conheço o país a fundo assim a ponto de saber os pontos da cidade que são mencionados – e sei menos ainda do Havaí. O livro apresenta um mapa logo em seu inicio para situar o leitor em cada livro dentro do Livro, porém ainda é algo bastante presente e que me causou certo falha de conexão com a trama por não conseguir colocar em imaginar tudo que era necessário porque é tudo muito latente, muito mesmo. Apesar disto, ainda temos aqui um conto impactante e poderoso sobre politica, colonização e sim, figuras familiares em nossas vidas.

Quem é?”, ele perguntou atrás da porta fechada, e eu fiquei impressionada, como sempre ficava nessas ocasiões, com a coragem do meu marido, com o fato de ele parecer tão destemido.
Unidade Investigativa 546 da Municipalidade Três, policiais 5528, 7879 e 4578”, respondeu uma voz do outro lado da porta. Ouvi um cachorro latindo. “Procurando o suspeito acusado de violar os Códigos 122, 135, 229, 247 e 333.” Códigos que começavam com o número um eram crimes contra o governo. Códigos que começavam com o número dois eram crimes de tráfico. Códigos que começavam com o número três eram crimes de informação, e isso geralmente queria dizer que o acusado tinha conseguido acesso à internet ou estava em posse de um livro ilegal. “Permissão para revistar a casa.

E então chegamos ao Livro III, que se chama Zona Oito. Os eventos aqui se passam em 2093 em um mundo distópico e foi meu favorito – pode ser lido até separadamente dos dois primeiros livro e é a metade do Livro inteiro. Se passando entre os eventos que seguem Charlie, a primeira protagonista feminina de toda trama e contando com a visão e voz não confiável da personagem, vamos misturando os acontecimentos presentes da mulher ao mesmo tempo que vamos lendo cartas enviadas de um certo C para um certo P – e aqui você pode tentar imaginar quais personagens são esses e por quais motivos Charlie se chama assim. New York está basicamente devastada por pandemias e ainda há mais acontecendo no mundo, com um governo que agora controla a vida de seus cidadãos com bastante rigor, fazendo o leitor tentar entender o que aconteceu para chegar até aquele ponto. Já Charlie parece ser um tanto quanto peculiar e sua única lembrança de amor é sobre seu avô, já morto, e enquanto o leitor vai se familiarizando com a trama e com a personagem, vai somando as pistas nestas cartas que estão entrelaçadas na trama. Tudo está sim, ligado, e mais uma vez vemos aqui a politica e um mundo regido por relacionamentos que podem ou não ditar o futuro das personagens.

Charlie trabalha em no laboratório da Rockefeller University (muitas vezes chamada simplesmente de RU) e seu marido, que some uma noite por semana ao ter suas “noites livres”, trabalha em um cargo alto em um lugar chamado “Fazenda”. O casal mora em um apartamento que é uma parte de uma grande casa no Washington Square. A medida que a trama vai se desenrolando e vamos descobrindo mais sobre o motivo de Charlie ser como é, quem seu avô era, o passado da jovem mulher e principalmente como tudo se encaixa, vamos querendo saber mais a ponto de quando o livro terminar, desejar saber o que vem depois dali. É um mundo incrivelmente rico e bem construído que temos aqui, e em épocas de pandemia e guerras, nos faz querer ler mais distopias.

Está me ouvindo, gatinha?”, ele gritou, e continuava me procurando, mas não estava olhando na direção certa, ele estava gritando para a multidão, e as pessoas estavam caçoando dele, e o homem no palco estava dando um passo à frente com o pano preto nas mãos. “Eu te amo, gatinha, nunca esqueça disso. Aconteça o que acontecer.
Fiquei deitada, me balancei e falei com meu avô. “Não vou esquecer”, eu disse em voz alta. “Não vou esquecer.” Mas embora não tivesse esquecido, eu tinha, sim, esquecido como era ser amada: um dia eu soube, mas já não sabia mais.

Como já falei acima, faço minhas ressalvas sobre o quesito espaço físico e localização da trama, mas também devo dizer que desde que a terminei, não parei de ler sobre diversos assuntos que são tratados no livro e não tinha muito conhecimento – como a anexação do Havaí. É justamente o tipo de coisa que um bom livro provoca em qualquer leitor: a vontade de saber mais e entender diversos contextos históricos porque por mais que aqui seja um romance e existam liberdades, ainda assim, é algo que se faz necessário conhecer melhor.

O leitor também sempre fica com essa sensação de que já conhece estes personagens, que conhece esses lugares e essas passagens – porque conhece: em outra formatação, em outra equação, em outra inspiração. Mas, acima das personagens e dos locais, há algo sempre presente em todos livros dentro de “Ao paraíso: como podemos chegar até o paraíso? O que ele é? Como o encontramos? E acho que ao final de todas as narrativas, o leitor não terá esta resposta. Não é responsabilidade do livro te responder isso. A responsabilidade está no leitor, que deve ler a vida das personagens e encontrar ali a resposta, mesmo que o paraíso para você, esteja em outro lugar. Em outro tempo. Em outra história. Em outra pessoa. Seja como for, o que todos nós queremos é chegar lá.

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