28.10


“A conspiração de Forty Acres”
Dwayne Alexander Smith
Tradução: Gabriela Araujo
Alta Novel – 2022 – 384 páginas

Ele poderia TER TUDO… Mas a que PREÇO?

Um suspense arrebatador e instigante que vai mudar para sempre a forma como você vê a escravidão e o seu legado nos Estados Unidos de hoje.

O advogado Martin Grey, um homem negro, inteligente e talentoso, que comanda um pequeno escritório de advocacia no Queens, faz amizade com alguns dos homens negros mais poderosos, ricos e respeitados nos Estados Unidos, os quais parecem pensar que Martin tem potencial para ser tão bem-sucedido quanto eles.

Maravilhado com tudo o que os homens conquistaram, Martin aceita um convite para um fim de semana longe de tudo – nada de esposas, celulares e negócios. Mas distante de casa e sem contato com as pessoas que ama, ele descobre um segredo perturbador que desafia algumas de suas convicções mais irrefutáveis…

Martin descobre que seus novos amigos ilustres são membros de uma sociedade secreta destinada à preservação da instituição da escravatura – mas, desta vez, os homens negros são os “Senhores”. Juntar-se a eles parece a garantia de um futuro sem limites, repreendê-los certamente garantiria a sua morte. Preso em um mundo imaginário perfeito que abriga uma realidade sinistra, Martin precisa encontrar uma forma de fugir que não resulte na própria morte e não o force a se tornar algo que odeia.

Fúria e compaixão, bem e mal, confiança e traição…

A tentativa desesperada de um homem de escapar das garras de uma nova ordem moral tenebrosa.

Não tenho como começar a falar sobre este livro e não deixar claro o quanto me afetou e o quanto é absolutamente incrível. INCRÍVEL. E não só pela trama rápida, tensa e sufocante: tudo neste livro é incrível pelo impacto que causa no leitor, pelas questões que levanta e pela forte emoção que se perpetua quando termina. Por mais que você acredite que esteja preparado pela sinopse, fica aqui meu aviso sincero: não, você não está.

O livro foi o primeiro do autor Dwayne Alexander Smith, tendo sido publicado em 2014 e confesso que aqui fiquei bastante surpresa com a informação, já como o livro não tinha chegado no Brasil até agora, tendo o mérito da publicação ser toda da Alta Novel. Em 2020, Jay-Z comprou os direitos de adaptação do livro e foi divulgado que um filme seria feito para a Netflix, mas, desde então, não tivemos mais noticias sobre (leia em inglês clicando AQUI). Já deixo aqui a ideia de que um filme inspirado nesse livro seria algo que faria muito, muito barulho, como vocês podem imaginar.

Martin percebeu que as atividades daquela noite pareciam rotineiras para os outros homens: a conversa antes do jantar, a separação instantânea de homens e mulheres depois da refeição e o fato de Damon preparar os drinques sem trocarem uma única palavra. Martin tinha pensado que o jantar fora orquestrado para uma ocasião especial, mas, nitidamente, era algo que acontecia com frequência.

“A conspiração de Forty Acres” tem como trama central exatamente o que traz a sinopse e apresenta Martin Grey, advogado em ascensão depois de ganhar uma causa contra o famoso advogado Damon Darrell. O caso em questão era uma ação trabalhista envolvendo racismo e por mais que Martin confiasse em si mesmo e no estudo do caso, estava preocupado porque Damon era um advogado que só entrava na corte para ganhar – claro que até este caso. O impressionante é que Damon não fica com raiva por ter perdido o caso no qual representava uma grande corporação e sim parece ficar encantado com o sucesso de Martin, indo até o escritório do outro, onde está tendo uma festa de comemoração pela vitória jurídica. E é assim que Damon convida Martin para um jantar em sua casa. Parece algo bastante inofensivo, mas não é.

Martin vai com sua esposa, Anna, para a casa de Damon, e lá conhece um grupo de amigos que o faz ficar embasbacado: Solomon Aarons, um CEO de um grande grupo financeiro; Kwame Jones, um dos donos de uma das maiores empresas de publicidade do país; Tobias Stewart, que comanda canais de televisão, estações de rádio e jornais nos Estados Unidos e da Europa; e ainda Carver Lewis, um famoso especulador imobiliário, além do próprio Damon. Cada um estava acompanhando de suas esposas que eram, basicamente, perfeitas. Era um jantar de homens bem-sucedidos com suas esposas, uma noite agradável, conversas e boa comida, tudo entre um grupo de pessoas negras – mas havia algo que Martin não sabia explicar, algo que parecia um pouco fora do lugar e que ficou mais claro quando o jantar terminou e o grupo se dividiu entre homens e mulheres, um costume há muito deixado para trás em nossa sociedade. Ainda nessa conversa só entre os homens, é mencionado pela primeira vez o nome do Dr. Kasim, que, segundo os outros, é um verdadeiro filosofo incompreendido que alimenta as almas dos homens negros. Martin fica curioso, mas, ao mesmo tempo que falam do misterioso Dr., eles também evitam dar muitos detalhes sobre o homem.

E aqui estão reunidas as minhas posses mais valiosas — Damon apresentou, guiando Martin até um armário com porta de vidro. Ocupando uma parede inteira, parecia o tipo de coisa que se encontraria em um museu. E certamente o grupo de objetos dentro do armário teria casado perfeitamente com o acervo de uma coleção renomada.
A amostra continha instrumentos enferrujados e corroídos pelo tempo. Correntes, algemas e contenções de pulsos e tornozelos, colares de aço e cangues. Artefatos medievais cruéis utilizados com um único propósito.
Martin sabia o que os itens eram antes mesmo de Damon dizer.
Todos esses objetos foram usados pra capturar e prender africanos escravizados — Damon confirmou em um tom sombrio. — Talvez esses mesmos instrumentos possam ter sido usados em meus ancestrais. Ou nos seus.

Anna parece gostar bastante do grupo de mulheres, principalmente de Juanita, a esposa de Damon, mas, ainda assim, ela parece não se encaixar entre elas e isso fica claro para o leitor. Já Martin está tendo conversas que o tiram de sua zona de conforto: ativista desde a faculdade, quando ajudou um amigo pretro que sofreu uma grande injustiça, em seu trabalho Martin faz questão de advogar também em causas raciais, apesar de ainda ser de um escritório pequeno. Quando ele entende o que aqueles homens fazem por sua comunidade e o poder que eles tem e, mais ainda, como parecem interessados nele e sabem muito sobre sua vida, Martin se sente ao mesmo tempo lisonjeado e apreensivo em agradar porque entende que se for aceito naquele grupo e se tornar realmente amigo daquelas pessoas, seu escritório definitivamente irá progredir mais ainda do que já estava desde que ganhou o caso inicial do livro.

Martin divide seu escritório com seu melhor amigo Glen Grossman, um homem branco casado com Lisa. A amizade entre eles era real e próxima, e a amizade entre Anna e Lisa também, por isso, quando Martin começa a deixar um chateado Glen de lado para poder embarcar nos encontros com seu novo grupo de amizades, Anna aponta que o marido pode estar sendo displicente com seu amigo. Mas a cabeça de Martin está realmente entre seus novos amigos e a vida que começa a se apresentar diante dele, até que um dia é convidado para o esporte que o grupo tanto gosta: rafting, que é basicamente descer por uma corredeira em um bote, em grupo. Anna já sabia que o grupo gostava disso e já tinha pedido para o marido negar esse convite, caso fosse feito, mas Martin consegue dobrar a esposa e embarcar com o grupo em um jatinho particular para aproveitar esses poucos dias de aventura. Ou, pelo menos, é o que ele acredita que irá fazer.

Martin precisava admitir que no começo estivera consideravelmente intimidado por estar na presença de alguns dos homens mais importantes do país. Quem era ele afinal? Um advogado desconhecido que alcançara um sucesso moderado recentemente; porém, nada em comparação com aqueles gigantes. Mas, naquele momento, sentindo a presença do fantasma que assombrava o passado de todos eles, Martin se sentiu em casa.

Ainda durante o voo, Martin entende que não estão indo para onde disseram que iriam e termina apagando depois de brindar com um dose de bebida. Quando acorda, ele claramente se dá conta que está em outro lugar e que nada de rafting iria acontecer. O destino era uma espécie de forte, com paredes com 5 metros de altura e imenso. Lá, Martin entende que estão em Forty Acres, e aqui preciso de um momento de sua atenção sobre um pouco da história estadunidense: Durante os anos de 1861 à 1865, o país teve a sua guerra civil que quase o destruiu. Chamada de Guerra da Secessão, foi uma guerra entre os estados do Norte (abolicionistas) contra os estados do Sul (escravistas), que deixou marcas por todo país de uma forma que seus efeitos são evidentes até hoje. A segregação social pareceu atingir seu ápice com o que veio ao final da guerra, que foi ganha pelos Estados do Norte, com o Presidente Lincoln assinando a Décima Terceira Emenda que concedia a cada negro que havia sido escravizado 40 acres (que é a medida usada para medir terra nos Estados Unidos – aqui no Brasil, usamos quilômetros) de terra para que pudesse recomeçar sua vida. Claro que isso não foi bem aceito pelos antigos donos das Terras, e, com isso, o presidente sucessor, Andrew Johnson, revogou a Emenda. Essas pessoas, famílias inteiras, perderam tudo, absolutamente tudo, sendo deixadas a sua própria sorte depois de trabalharem por um ano inteiro nessas terras que lhe foram tomadas. Quando Martin descobre que o lugar se chama justamente Forty Acres, ele acha somente irônico, sem ter ideia da imensidão do que esta prestes a presenciar.

Em Forty Acres, Martin também conhece, enfim, o Dr. Kasim, que realmente tem opiniões bastante… fortes, digamos assim, sobre tudo que a comunidade preta passou e ainda passa, assim como seu assistente pessoal, Oscar Lennox. E é em Forty Acres que o homem criou a sua sociedade perfeita, exatamente como a sinopse entrega: uma sociedade onde os brancos são escravizados e não os pretos. E sim, vamos ter um vislumbre bem claro de como o lugar funciona e dos escravizados também, tudo em cenas que levando ao leitor ao extremo do desconforto e nervoso – e sim, essa é a intenção da leitura, te tirar da sua zona de conforto, te fazer pensar se fosse o inverso e se algo assim acontecesse hoje em dia como a sociedade iria reagir e, principalmente, como você iria reagir. São muitas perguntas, muitas cenas que fazem com que o leitor se sinta esgotado lendo, que faz pensar sobre tudo que nós, como sociedade, já passamos, e para onde estamos indo. Enquanto isso, Martin, que está vivenciando tudo isso, decide de que lado está e quais medidas tomará, levando o homem a uma jornada que talvez não sobreviva.

Era a primeira vez desde o início da viagem que Martin se sentia como um real membro do grupo.
Tobias continuou dirigindo, guiando o veículo cada vez mais para dentro da floresta até onde Martin pensava que seria o acampamento. Ele relaxou um pouco. Reclinou-se no banco e sentiu como se a floresta estivesse um tanto mais hospitaleira. Esse negócio de acampar não é tão mal, pensou. Eles gostam de mim e tudo vai ficar bem. Nada disso, vai ser tudo ótimo.

Há tanto que falar sobre a trama do livro que não caberia em uma única resenha e não estou brincando sobre: você pode questionar a personalidade de Martin, que a principio aceitou se aproximar do grupo de homens por interesse; você pode questionar se os ancestrais daqueles homens iriam concordar com o que eles estavam fazendo; você pode imaginar se esses mesmos ancestrais não iriam preferir que o mundo de hoje fosse um lugar melhor para os brancos do que foi para eles; você pode se questionar como aqueles homens pretos ainda assim separariam suas esposas de suas atividades, relegando a todas elas somente o papel de “troféu”, exatamente como era – todas as personagens femininas do livro são menos do que coadjuvante, salvo por Anna, a esposa de Martin, e Alice, uma escravizada; você pode questionar o que aconteceu a partir do final do livro e quais consequências acontecerão; mas, você não irá fugir de como de como todas essas perguntas pipoquem em sua mente, exatamente como um livro com esse poder deve fazer.

Não há o que se hesitar sobre ler este livro ou não: “A conspiração de Forty Acres” é, definitivamente, um dos grandes títulos do gênero suspense, de uma forma rápida, com capítulos curtos e intensos, sempre terminando em um gancho que te leva a querer a ler o próximo capitulo, narrativa fluída e muito, mas muito mesmo, pra fazer todos leitores pensarem sobre esses quarenta acres e nossa sociedade em geral. Pode acreditar.

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