20.06


“ Bolo preto”
Charmaine Wilkerson
Tradução: Karine Ribeiro
Paralela – 2022 – 304 páginas

Byron e sua irmã Benny não são próximos. Após a morte de sua mãe, eles precisam superar as diferenças no processo do luto e lidar com os segredos deixados por ela. Uma história que se passa no Caribe, em Londres e na Califórnia ― e começa com um delicioso bolo que é tra-dição da família.

Não escolhemos o que herdamos, mas podemos escolher quem nos tornamos?

A morte de Eleanor Bennett deixa um mistério para seus dois filhos, Byron e Benny: uma gravação, que revela o tumultuado relato de uma nadadora que escapa de sua ilha natal sob circunstâncias de vida ou morte, e um bolo preto, receita tradicional caribenha e iguaria familiar de longa data. Reunidos depois de anos sem contato, os irmãos tentam juntar os pedaços de um quebra-cabeça que parece colocar em dúvida tudo que achavam saber sobre si mesmos e sua família.

Resta a Benny, ressentida com seu irmão e com segredos próprios, e a Byron, magoado e sofrendo com as perdas recentes, descobrirem se as revelações de Eleanor serão capazes de uni-los e fazer com que eles entendam melhor seus pais.

Desenvolvido com maestria e delicadeza, o romance de estreia de Charmaine Wilkerson é cheio de traições, segredos e memórias afetivas que podem provocar consequências por gerações. Esta é a história de uma família marcada pelas escolhas de uma matriarca que tentou sobreviver a todo custo aos desafios da vida.

Sei que muitos podem estranhar o titulo do livro e pensar por qual motivo um bolo preto daria o tom de uma narrativa, mas, depois de completar a leitura, você entende claramente o motivo: contando a história de Eleanor Bennett desde sua fuga da sua ilha Caribenha natal até ela realmente se tornar a mulher que os filhos, Byron e Benny conheceram, vamos acompanhando uma vida de luta pela sobrevivência, com muitas escolhas difíceis que permanecem com a mulher ao longo de toda sua vida. Ao morrer, Eleanor deixa um pen drive com uma gravação de 8 horas contando toda sua vida para os filhos, que os levam à uma jornada de descoberta porque os pais agiam como agiam até entenderem suas próprias ações espelhadas em uma família repleta de segredos que foi separada ao longo de muitos anos, fazendo a narrativa ir e vir cronologicamente.

Confesso que escrever essa resenha é difícil porque o livro tem 300 páginas, mas conta a vida de 3 gerações de uma família que sofreu por motivos dos mais variados e que termina fazendo com que o leitor acompanhe uma saga de uma vida inteira de múltiplos personagens. Com vários pontos de vistas e um mistério que engana o leitor, “Bolo preto” é o tipo de livro que causa um real impacto em quem lê, seja pela personagem feminina tão forte, seja pela filha que se sentia oprimida por ser quem é e não encontrou o apoio que esperava, seja pelo filho que se adequou completamente as regras dos pais, mas tem uma vivência de luta contra o racismo que a irmã não tem (na loteria da genética, Benny, apelido de Bennedetta, tem a pele mais clara do que a de Bryon, e, por isso, ele lida com o medo de dirigir a noite e ser parado pela policia). Mas estou me adiantando na trama, então vamos voltar para onde tudo começa.

Ela está aqui.
Byron ouve o elevador abrir. Seu primeiro instinto é correr até a irmã e abraçá-la. Mas quando Benny se inclina para abraçá-lo, Byron a afasta e se vira para bater na porta do escritório do advogado. Ele sente Benny tocar seu ombro e se livra com um chacoalhão. Benny fica lá, de boca aberta, mas não diz nada. E que direito ela tem de dizer qualquer coisa? Faz oito anos que eles não se veem. E, agora, a mãe deles se foi de vez.


A morte de Eleanor mostra a ferida gigantesca que há entre os irmãos Byron e Benny porque a irmã foi embora de casa há 8 anos e nunca mais voltou para ver os pais ou o irmão na Califórnia. Morando agora em New York, Benny parece o tipo de pessoa que está ainda tentando se encontrar, se cobrando por não ter o que apresentar os pais aos quase 37 anos. Tendo largado a faculdade, indo morar na Itália e depois se mudando para seguir uma ex-namorada para a cidade que agora mora, Benny ainda está lidando com os traumas de um relacionamento muito tóxico e violento que teve com um homem. Ela se questiona muito, o tempo inteiro, duvidando quem é e por ser quem é, sua sexualidade, suas escolhas, tudo sobre si – e o pontos de vista da personagem pensando sobre si e falando os motivos pelos quais a levaram a deixar a faculdade é, sem sombras de dúvidas, de tirar uma lasca do coração do leitor.

Em contrapartida, temos Byron, o filho mais velho do casal Eleanor e Bert Bennett, que alcançou todos os objetivos que o casal tinha para seus filhos. Mas, apesar de todo seu sucesso profissional, Byron não vai tão bem assim em sua vida pessoal, tendo brigado e não mais falado com sua ex-namorada, Lynette. Mas, além da ex-namorada, Byron se ressente mais ainda de sua irmã 9 anos mais nova: no dia de ação de graças de 2010, Benny e os pais tiveram uma briga gigantesca, e, desde então, a irmã não mais voltou, nem mesmo no funeral do pai, 2 anos depois. Após 6 anos da morte do pai, com a morte da mãe, Byron enfim liga para a irmã para contar o que aconteceu, mas quando ela chega, ele não a recebe bem – como poderia, se a irmãzinha, que ele tanto cuidou e amou, simplesmente foi embora sem olhar para trás?

Quando saíram juntos para as ruas lamacentas, Benny pensou que talvez ainda fosse feita de todas aquelas coisas que Joanie um dia viu nela, e que talvez outra pes-soa também pudesse vê-las. Demoraria um tempo até que Benny percebesse que Steve, seu novo namorado que amava música e andava de iate, podia fazê-la se sentir tão ameaçada quanto dese-jada.

Acredito que você já entendeu que há muito o que se resolver entre os irmãos porque Bryon não sabe tudo sobre Benny, e Benny se sente deixada de lado porque o irmão nunca a procurou, entendendo que ele tomou o lado dos pais. E confesso que essa trama toda é muito densa porque são pessoas que se amavam, cada uma de sua forma, mas que não conseguiram sentar e conversarem, falarem o que passavam, o que sentiam, cada uma se fechando em seus segredos, dores e decisões.

E, ainda acima dos filhos e de seus pequenos segredos, há todo o passado de Eleanor na ilha caribenha não nomeada. A história sobre uma mulher que lutou contra o que o destino estava lhe impondo e que se entrelaça com a vida de Coventina “Coven” Lyncook. Com ascendência chinesa por parte paterna e Caribenha por parte da mãe, Mathilda Brown, Covey amava o mar com todo seu coração e junto com sua melhor amiga, Bunny, a garota cresceu mergulhando e sonhando em talvez ir para a Inglaterra estudar. Mas os tempos eram outros – por volta de 1960 – e tudo na vida de Covey parecia direcioná-la para um casamento obrigado sem amor e que a afastava de quem ela era realmente. Decidida, Covey fará bastante para mudar seu destino, exatamente como Eleanor. E qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa a mais, será spoiler – e preciso assinalar um pouco sobre o tamanho da trama deste livro porque, como falei no começo, é a história que engloba 3 gerações de uma família, com personagens que são parte integrante da vida de Eleanor e que precisamos conhecer.

Mas Benny era filha de Bert e Eleanor Bennett, e esse não era o jeito Bennett de fazer as coisas. Se você fosse um Bennett, era esperado que terminasse a faculdade, que se formasse, que encontrasse uma profissão de verdade, e fizesse todo o resto no tempo livre. Se nascesse de Bert e Eleanor, você apostava em seus diplomas universitários, construía sua in-fluência, acumulava riqueza e reprimia toda a vulnerabilidade.
Para resumir, se tornava Byron Bennett.

Como vocês também podem imaginar, o livro é sobre Eleanor, por mais que seus filhos e outros personagens que aparecem durante a trama tenham seu peso e precisem de espaço. A força que está mulher teve em toda sua vida, ainda mais sendo uma mulher preta, é magnifica. Não há duvidas morais em seu compasso, não há incertezas sobre quem ela é e o que deseja, agarrando as oportunidades que o destino joga à sua frente, Eleanor foi sobrevivendo com a força de quem quer estar viva. Por diversos momentos, enquanto lia, pensei que eu não teria a força que a personagem estava tendo naquelas páginas, me dando conta que dezenas de mulheres passaram por tudo aquilo no passado e ainda passam hoje em dia – e aqui deixo um pequeno alerta que há gatilhos bastante sensíveis no livro. Apesar de não haver nenhuma cena gráfica, o que agradeço a delicadeza da autora, é bastante destruidor entender o peso de ser mulher há 50 anos atrás e que, infelizmente, ainda continua tendo nos tempos atuais.

Mas se você pensa que “Bolo preto” é um livro só sobre uma família que se partiu, saiba que não é: Como falei, Benny tem a pele clara devido a herança genética da mãe, enquanto Byron não, então espere cenas fortes dele falando sobre racismo, sobre sua experiência como homem preto e, principalmente sobre o impacto disto tudo em quem ele é e suas escolhas, até mesmo qual modelo de carro compraria. E, além disso, há ainda a violência contra a mulher, e não digo a somente a sexual e sim todo o tipo de violência: relacionamento tóxicos, abusivos, violentos, as chances que são tiradas das mulheres e as entidades que se aproveitam de mulheres em estado de necessidade. É um livro que percorre o mundo como ele é, imperfeito, cruel e faz com que precisemos de ajuda, de confiar uns outros e sermos acolhidos – e aqui entra um dos tópicos do livro: o que acontece quando quem você espera que te acolha não o faz? Acho que você já conseguiu entender que esse livro é muito mais do que o bolo que ele carrega em seu titulo, que também é um momento impar de ligação entre mãe e filha na cozinha, produzindo uma iguaria que tem ingredientes que demoram meses para ficarem prontos. E são momentos assim, esses raros momentos que você está com as pessoas que são acompanham, que fazem muito vale a pena.

Byron quer acreditar que essa epidemia de maus-tratos, esse bullying contra negros desarmados é apenas isso, um surto, embora prolongado, que pode ser controlado. Ele quer continuar acreditando nos policiais, respeitar o trabalho arriscado que fazem, sabendo que todos os dias eles entram em território desconhecido. Ele quer ter certeza de que ainda pode pegar o telefone e ligar para a polícia se precisar. Há muita raiva por aí. Muita dor. Onde todos vão acabar — preto, branco, seja lá quem for — se as coisas não melhorarem? O que seu pai diria se soubesse que tudo ainda está assim nos Estados Unidos em 2018? Ele tem um pensamento rápi-do, um pensamento blasfemo, de que talvez seja melhor que o pai não esteja mais por perto para ver como as coisas estão.

Fiquei maravilhada com a escrita de Charmaine Wilkerson em seu livro de estreia, tão poderosa e intensa, um livro tão incrível que chamou atenção imediatamente de Oprah Winfrey, cuja produtora comprou os direitos e já está sendo adaptado para uma minissérie do streaming Hulu (aqui no Brasil, as produções da Hulu chegam pelo Star+) com Mia Isaac como Covey e Adrienne Warren como Benny (únicas escalações até aqui – você pode ler mais clicando AQUI). Acredito que esta minissérie fará um sucesso grande nas próximas premiações da TV porque o material de origem entrega tudo que eles precisam: personagens fortes, uma história de poder e sofrimento, um assassinato não solucionado e um amor que foi capaz de abrir mão de muito para se concretizar.

Quando você lê um livro como “Bolo preto”, você sente que parte dele fica com você. Agora que o terminei, sinto como se tivesse recebido e comido um pedaço desse bolo que descobri ser uma iguaria com toques caribenhos, e ele se tornou parte de quem sou, porque assim como um almoço de família no qual escuto alguém que eu amo contar uma história importante do seu passado e que passo a conhecer mais, esse livro ficou em mim. Eu espero que seja assim com você também.

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