20.10


“Billy Summers”
Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
Suma – 2021 – 472 páginas

Billy Summers é o homem com a arma; um assassino de aluguel e um dos melhores atiradores do mundo. Mas ele tem um critério: só aceita o serviço se o alvo for realmente uma pessoa ruim.

Agora, Billy quer se aposentar, mas antes precisa realizar um último trabalho. Veterano da guerra no Iraque e um mágico quando se trata de desaparecer depois do crime, o hábil assassino tinha tudo planejado. Então, o que poderia dar errado?

Basicamente tudo.

Quando Billy se acomoda em uma cidadezinha do interior, disfarçado como um escritor tentando superar um bloqueio criativo enquanto espera seu alvo ser transferido para julgamento, ele não imagina a trama de traições, perseguições e vingança que o aguarda.

Ok, vou começar essa resenha dando um spoiler do bem: se você sempre quis ler algo do Stepphen King e não lê por causa do sobrenatural em seus livros (sejam palhaços assassinos ou pessoas que voltam a vida depois de enterradas em um cemiterio estranho ou ainda pessoas ou crianças que escutam espíritos), “Billy Summers” é seu livro. Não há sobrenatural no livro porque o grande mal a se combater na narração é somente o mal que há dentro das pessoas, o que, pra mim, é bem mais assustador do que qualquer poder/ser que não podemos ver ou que não existem. Sobre a edição e tradução: é a Suma, em mais um livro do Stephen King, com tradução da Regiane Winarski – não tem como dar errado, é um combo de coisas boas. Não encontrei erro nenhum e é mais uma edição com sacadas do nosso idioma usados diariamente. Se você deseja um livro do King, pode ficar tranquilo que a satisfação e a qualidade é mais do que garantida.

Isso quer dizer que a narrativa é leve e sem gatilhos? Não mesmo, nem de longe. Estamos falando de Stephen King, o Reizinho da literatura que foi capaz de escrever e passar por todo processo de edição de publicação deste livro do começo da pandemia para cá, então pode esperar cenas sangrentas e, claro, violência – se bem que deixo claro que a violência desse livro está bem abaixo do que eu considero mediano (mas leva-se em conta que eu sou acostumada com este tipo de leitura/filme gráfico), mais focada em violências que infelizmente são diárias. E há um gatilho grande para quem não consegue lidar com narrativas que envolvem violências sexuais: a cena não é gráfica e nem mostrada acontecendo na trama, mas há menções e, como mulher, me sinto na obrigação de assinalar para você que me lê. Se você consegue lidar com tramas assim, pode vir comigo porque “Billy Summers” é mesmo o que todo mundo está falando e afirmo, sem medo algum, de que é um dos melhores livros de King por mostrar a redenção e miséria humana presente em cada um de nós.

Seu eu burro pode ser um otário, mas aí está uma verdade: ele só faz se for gente ruim. É assim que consegue dormir à noite. É evidente que ganhou a vida trabalhando para gente ruim, sim, mas Billy não enxerga isso como um dilema moral. Não tem nenhum problema com pessoas ruins que pagam para fazer com que outras pessoas ruins sejam mortas. Ele basicamente se vê como um gari armado.

Como diz na sinopse (e que entrega muito, muito pouco da trama, pode acreditar em mim), Billy Summers é um veterano de guerra que se tornou um matador de aluguel, mas só aceita serviços no qual o alvo é “uma pessoa ruim”, e aqui temos o primeiro grande questionamento da trama: como alguém que já matou outras pessoas e atualmente vive de matar mais algumas pode ter moral para decidir quem vive e quem morre? Parece muito os níveis morais que algumas pessoas usam em suas vidas, sempre apontando para os outros coisas que fazem e que deveriam ter a consciência moral de jamais apontar os outros. Mas, voltando a trama, Billy faz isso e não esconde de ninguém, deixando claro que antes de aceitar qualquer trabalho, ele irá ter total poder de decidir se quer ou não executá-lo.

Logo no começo da trama, vemos Billy chegando a pequena cidade de Red Bluff, aonde deverá morar por um tempo fingindo ser um escritor. Lá ele deverá se integrar a sociedade local, criar laços e até mesmo relacionamentos, mas sem nunca se envolver demais, já como todos dizem que ele é ótimo nisso: se envolver, mas não demais. Há vários personagens que aparecem para Billy nesse ponto da trama que, mais para frente, voltarão a ser importantes (Nick Majarian, Frank Macintosh e Giorgio Piglielli). A ideia é, ao mesmo tempo, simples e complexa, já como enquanto Billy for David “Dave” Lockridge, o personagem que deverá representar ao se integrar na cidade, ele fingirá que é um escritor recém-descoberto no qual seu agente (o também bandido que faz parte do esquema Giorgio Piglielli) que o acompanha na cidade, tendo alugado uma sala em um prédio comercial, aonde deveria ir todos os dias escrever, parecendo um trabalho real. A história é bastante crivel, já como Dave tem um passado com bebidas e drogas, por isso foi levado para a cidade por seu agente para se focar na sua escrita. Claro que o prédio fica de frente ao tribunal da cidade, aonde o alvo de Billy (chamado Joel Allen), é esperado para uma audiência, que até acontecer, impede que o plano se movimente. Mirabolante, mas que provavelmente daria certo. Mas Billy sente que tem algo estranho nesse plano.

Billy não tem interesse em Trump e nem na economia de Trump, mas observa o prédio com interesse profissional. Tem certeza de que é de lá que vai dar o tiro. Chama-se Torre Gerard. Billy acha meio exagerado chamar um prédio de vinte e dois andares de torre, mas também acha que, naquela cidade de pequenas construções de tijolos, a maioria velha, ele até que parece mesmo uma torre. No gramado bem-cuidado e bem-irrigado em frente, uma placa diz apartamentos de luxo e escritórios disponíveis. Com um número para ligar. A placa parece estar lá há um tempo.

Sempre tido como um mestre na hora de desaparecer depois de completar suas “missões”, Billy sente que realmente há algo naquele plano e muito provavelmente ele detestar Ken Hoff desde o primeiro momento que o conhece – todos outros são velhos conhecidos dele e ele “confia” de sua forma: sempre desconfiando. Levando em conta seus próprios sentimentos de alerta, ele recorre a sua identidade de Dalton Smith, que nada mais é a identidade que ele guardava para seu último trabalho e depois sumir se tornando definitivamente aquela pessoa. Enquanto leva sua vida como Dave, Billy também começa a movimentar sua vida como Dalton, alugando um apartamento afastado com outro disfarce.

Ainda há algo que preciso apontar sobre Billy: sua inteligência. Ele é tão inteligente que ele se faz de burro, e quando precisa, ele deixa o “eu burro” assumir: ele acredita que é muito mais fácil lidar com as pessoas com as quais lida as enganando assim, deixando com que acreditem que ele é só bom de mira e tem muita sorte em simplesmente sumir depois. Mas Billy é um leitor voraz, com uma inteligência aguçada e bastante perspicaz, além de realmente parece ter um código de ética forte ao qual se guia, e isso para mim é difícil de entender, já como ele trabalha com o que trabalha e não quero romantizar o personagem – mas King fez seu trabalho e fez até mesmo umas mais céticas das pessoas se encantar com o personagem e suas escolhas: eu mesma.

Ele se vira e fica deitado no escuro, as mãos debaixo do travesseiro, olhando para o teto. Tem trânsito na rua, mas não muito. Ele se pergunta quando dois milhões de dólares começam a parecer insuficientes, quando começam a não valer a pena. A resposta parece óbvia: só quando já é tarde demais para pular fora.

Billy não sabe o mandante real do seu último trabalho que lhe renderá sua aposentaria. Por esse trabalho, ele irá ganhar 2 milhões de dólares, já tendo recebido 500 mil adiantados. Todas as pessoas que entraram em contato com Billy, até ali (como os já citados Nick, Frank e Giorgio) são somente intermediários, e somente Ken Hoff, o dono da sala, sabe quem é o tal mandante. Billy não se incomoda e, sinceramente, ele só quer fazer seu trabalho em paz e se aposentar. O disfarce começa muito bem e logo Billy está fazendo amizade com o casal vizinho e jogando jogos de tabuleiro com os filhos do casal, fazendo churrascos em seu quintal e chamando os vizinhos para comerem com ele. No prédio, a história dele ser um escritor trabalhando cola muito bem, e ele também faz amizade com uma contadora, além do porteiro do prédio, sempre comendo e andando despreocupado por todos caminhos comuns do prédio. Tudo parece dentro dos conformes, mas a sensação de que algo não está certo ainda o incomoda profundamente, e ele continua com seu disfarce do disfarce.

Como último fato essencial que o leitor precisa saber neste início de trama é que Billy realmente gosta do disfarce de ser um escritor e começa a escrever suas próprias memórias. E é através da sua escrita que vemos o garotinho com 11 anos de idade, morando em um trailer com sua irmã, sua mãe e um padrasto abusivo. É fácil entender o que aconteceu com a vida do garoto e o que o levou a se defender do homem, mas é difícil demais ler. Como falei antes, este livro a violência é menor do que em diversos outros livros do King, mas a trama é repleta da maldade humana, e a infância de Billy foi marcada por ela, além da negligência de sua mãe. Claro que um desastre em cima do outro acontecem e Billy termina em uma casa de adoção – se lembrem que lá nos Estados Unidos algumas famílias recebem crianças para cuidarem delas, recebendo ajuda do governo. O tempo de Billy la é repleto de descobertas, criando laços com algumas das outras crianças que moram no lugar, até que com 17 anos, ele pede para ser emancipado e entra para os fuzileiros. Sem grande perspectivas de vida e já com bastante bagagem, parece a solução mais certa para Billy, mas claro que entrar no exercito é outra provação, e, nesse caso, provavelmente para qualquer pessoa. O horror visto lá parece entrar na pele do personagem, e o leitor entende exatamente o que ele está passando.

E tem outro motivo para escrever no Pro, apesar de possivelmente estar grampeado. É um desafio. Será que ele conseguiria mesmo escrever uma versão ficcional da própria vida narrada pelo eu burro? É arriscado, mas Billy acha que talvez consiga. Faulkner escreveu de um jeito burro em O som e a fúria. Flores para Algernon, do Daniel Keyes, é outro exemplo. Deve haver mais.

Então o dia do trabalho chega. Tudo parece estar certo e claro que Billy faz sua parte do trabalho, mas, exatamente como seu sexto sentido lhe alertava, há uma armação para ele. Por sua inteligência e com o disfarce de Dalton, Billy consegue escapar, indo para o apartamento que tinha alugado como aquele disfarce. Escondido ali por dias, observando as notícias pela TV – porque claro que já chegaram em sua identidade real e até mesmo já houve outra morte além do homem que ele executou –, ele começa a pensar e criar um plano porque obviamente não iria aceitar se passado para trás assim. As coisas parecem se complicar mais e mais, mas Billy não está nem um pouco disposto a simplesmente sumir e sair daquela história daquela forma.

E em mais uma virada do destino, ele vê uma van com 3 homens, praticamente jogar uma moça na rua. Ela está parcialmente vestida e claramente drogada. Não demora para Billy entender o que aconteceu, e em uma decisão tomada motivada por seus sentimentos do passado (quando você lê as lembranças do Billy criança, você entende muito bem a motivação do personagem), ele resolve levar a garota para o apartamento aonde está se escondendo. A garota acorda e entende o que aconteceu com ela, com grande parte de suas lembranças apagadas, mas entende que quem lhe salvou foi Billy, o mesmo homem do atentado contra o preso que passava na televisão. Assustada, Alice decide que pode confiar naquele homem porque tem flashes da noite passada e sabe que foi um cara que ela estava saindo que a drogou, com seus colegas de apartamento de juntando a ele no crime que cometeram contra ela. A medida que Billy vai ajudando Alice a se curar fisicamente, ele também oferece para cuidar de quem fez aquilo com ela, e amigos, aqui preciso falar e apontar a violência que Billy comete contra os 3 homens e que eu adorei cada segundo dessa leitura. Não há como não se sentir vingada pela personagem – e chega, não vou falar mais sobre porque sei que posso terminar dando mais dicas do que já dei.

Ele pensa brevemente em deletar tudo que escreveu, é tão horrível, mas acaba salvando. Não sabe o que os outros vão pensar, mas acha que é bom. E é bom que seja horrível, porque o horrível às vezes é a verdade.

Billy então retoma seu plano para se vingar e conseguir seu dinheiro de volta, agora com a ajuda de Alice, que decide que realmente quer ajudar Billy. O relacionamento deles vai crescendo de uma forma que fica fácil para o leitor entender a proximidade deles apesar da diferença de idade entre eles, já como Alice era uma universitária ainda tentando descobrir o que fazer com o resto de sua vida, e Billy, já deve ter mais ou menos o dobro da idade da garota. De alguma forma, Alice traz a tona o que há de melhor em Billy, que vai deixando um rastro de sangue por onde passa, refazendo os caminhos para encontrar todos seus contatos até chegar ao nome do mandante real do que seria seu último trabalho.

Eu sinto que preciso terminar essa resenha, mas eu poderia ficar mais páginas e páginas falando o quão bem Stephen King conduziu essa trama: a forma como Billy cresce como personagem, mostrando todos seus lados, sua vulnerabilidade e a forma como ele vê o mundo é maravilhosa, mas preciso apontar a maturidade com que o autor levou toda trama de Aline: a vítima não foi culpada, os estupradores não foram atenuados e saindo de uma pessoa traumatizada de um crime horrível, a garota foi se tornando uma mulher forte e segura de suas decisões. Eu acho que o relacionamento dos dois é o centro do livro, mas também a forma como um impacta o outro é natural, orgânico e faz o leitor comprar o que está acontecendo. E não, não estou falando romanticamente – por favor, é um livro do King, então por mais que haja alguma coisa romântica, não espere que ela salve Billy em nome do amor porque as coisas não são assim.

Eu não acredito nisso. Me recuso a acreditar nisso.
Tudo bem. Desculpa. — Ela parece estar com um pouco de medo. — Eu não quis…
Acreditar nisso seria acreditar que alguém ou alguma coisa no caminho era mais importante do que a minha irmã. A mesma coisa com Albie Stark. Taco. Johnny Capps, que nunca mais vai andar. Não tem nada de justo em nada disso.
Ela não responde. Quando ele olha na direção dela, ela está olhando para as mãos unidas e apertadas, com lágrimas escorrendo nas bochechas.
Meu Deus, Alice, eu não queria te fazer chorar.
Não fez — diz ela, limpando a evidência do rosto.
Só quis dizer que, se Deus existe, ele está fazendo um trabalho muito porco.
Alice aponta para a frente, para os picos azuis das Rochosas.
Se Deus existe, Ele fez aquilo.
Bom, Billy pensa, quanto a isso a garota tem razão.

A conclusão sobre o mandante do crime foi algo que me pegou de surpresa porque pareceu surpreendente, e, ao mesmo tempo, genial, se levarmos em conta os tempos atuais nos quais vivemos, mesmo que parte do enredo ali tenha embrulhado meu estômago (mas, novamente, não é nada descrito no livro). Confesso que eu já tinha minhas teorias de como o seria o final do livro e não me surpreendi com o desfecho dos personagens. Não esperava outra conclusão para a trama de Billy e achei extremamente satisfatório tudo como aconteceu, apesar de King ter conseguido me surpreender em certa altura. Quando a narrativa termina, você sente um certo aperto no peito, como se despedindo de velhos amigos dos quais você se afeiçoou e gostaria de manter com você, mas o livro, assim como a jornada de Billy e Alice, chegam ao fim – e se você se aventurar nela com eles, você não irá se arrepender. Prometo.

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